Comodismo versus razão no Esclarecimento
Neste trabalho pretendo estudar o Esclarecimento, baseado nas visões de Adorno/Horkheimer e Kant, tendo como princípio a proposta aberta no primeiro parágrafo da “Dialética do esclarecimento”, de Adorno e Horkheimer, a saber, “no sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-los na posição de senhores. Mas a terra, totalmente esclarecida, resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal” (ADORNO / HORKHEIMER, 1985, p. 19).
Adorno/Horkheimer parecem ter uma visão mais clara do processo do esclarecimento, embora falem em uma terra totalmente esclarecida, ponto no qual Kant me parece mais correto, quando diz que não somos esclarecidos, mas “vivemos em uma época de esclarecimento” (KANT, 1974, p. 112). A argumentação usada por Kant para chegar à conclusão de que o estamos em processo de esclarecimento é muito clara, enquanto a argumentação de Adorno/Horkheimer, nesse sentido, deixa a desejar, pois após a leitura do texto é possível chegar apenas à idéia de processo, não de esclarecimento total. O próprio filósofo dá margem a isto ao afirmar que “o esclarecimento é a radicalização da angústia mítica. Os deuses não tiram o medo dos homens, pois são cria deste. O homem presume estar livre quando não há nada mais de desconhecido. É o caminho da desmitologização” (ADORNO / HORKHEIMER, 1985, p. 29) e nos diz, no prefácio “ao tachar de complicação obscura e, de preferência, de alienígena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como às formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o domínio da mais profunda cegueira” (id., ibid., p. 14). Parece, assim, e o texto de Kant não discorda, posto que analisa a questão de outra forma, que a humanidade não tem obtido um esclarecimento verdadeiro, mas apenas uma substituição de mitologias, substituindo um medo por outro, um mito por outro, tendo deixado de lado apenas o aspecto religioso.
Adorno/Horkheimer, ainda no prefácio, dizem que “o aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população” (id., ibid., p. 14). Este é o medo que substituiu o medo dos deuses. O problema, porém, não é perceber tal fato, mas buscar uma saída: “o mito converte-se em esclarecimento e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder” (id., ibid., p. 24).
Kant tem uma visão bastante plausível, a princípio, sobre o que é o maior impedimento do esclarecimento humano ao afirmar que “a preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida” e “é tão cômodo ser menor” (KANT, 1974, p. 100), mas parece se perder, ao longo do texto, quando passa a creditar quase totalmente aos líderes que conduzem os covardes/acomodados, a manutenção desta situação. Kant se equivoca ao dizer que o homem é “por ora, realmente incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim o proceder” e logo abaixo “só seria capaz de dar um salto inseguro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este movimento livre” (id., ibid., p. 102). Kant parece superestimar a ação dos líderes humanos e subestimar a capacidade humana de aprender. O problema não é quanto tempo o homem levaria para se esclarecer, mas se está realmente disposto a isso. “A menoridade revela-se como a incapacidade de se conservar a si mesmo” (ADORNO / HORKHEIMER, 1985, p. 82)
Devemos ainda levar em conta a afirmação de Kant que “revolução não produz a verdadeira reforma no modo de pensar” (KANT, 1974, p. 104). O autor afirma, a seguir, que “para o esclarecimento nada mais se exige senão liberdade” (id., ibid., p. 104). Temos, com isso, um retorno ao princípio, pois se a liberdade inicial do homem continha o germe da preguiça e da covardia que se instaurou, porque deixaria, agora, de tê-la? Parece uma questão superficial, mas dentro desta lógica kantiana, ainda é válida. É necessário perguntar qual o objetivo dos senhores que comandam os covardes. Um senhor é esclarecido ao escravizar? Se sim, podemos chamar de escravização? Ou é um altruísta, que afasta do abismo os acomodados? A resposta não é exata, pois dá espaço para que se encaixem tanto verdadeiros déspotas quanto grandes estadistas.
Kant afirma que leis podem ser usadas temporariamente, nunca fixas, de forma que venham a “aniquilar um período de tempo na marcha da humanidade no caminho do aperfeiçoamento” (KANT, 1974, p. 110), mas de quem depende saber qual período de tempo deve perdurar até que a lei seja substituída? O bem comum? E como então evitar que o homem venha a tornar-se um obediente esclarecido, e saber se é possível delimitar sua individualidade e seus deveres ligados ao grupo? Adorno/Horkheimer lembram-se deste problema ao darem como exemplo o retorno de Ulisses, ao tapar o ouvido de seus soldados para que não ouçam o canto da sereia. Temos nós, nesse sentido, condições morais de questionar se Ulisses estava salvando seus soldados ou mantendo vivo neles o mito, que também o amedrontava? (ADORNO / HORKHEIMER, 1985, p. 45). Temos de lembrar que Ulisses não tapou seus próprios ouvidos e, embora estivesse atado ao mastro, era o líder desperto que dependia de seus soldados surdos.
Embora Kant diga que o “uso público da razão realiza o esclarecimento” (KANT, 1974, p. 104), corre-se o risco de que a massa aprisione o esclarecido, independentemente deste ser parte dela ou um líder. Podemos questionar isso usando até mesmo argumentos do autor, que diz que os sábios têm “o direito de fazer publicamente, isto é, por meio de obras escritas, seus possíveis reparos a possíveis defeitos das instituições vigentes” (id., ibid., 110). Kant parece, novamente, se contradizer, esquecendo que é no indivíduo acomodado e preguiçoso que reside o problema. Quantas obras, belas, úteis, outras nem tanto, são esquecidas nas prateleiras de livreiros e de bibliotecas, por séculos, sem que uso algum se faça delas. A massa parece querer continuar acomodada, satisfeita pelo ópio. Poderia-se questionar que motivação os líderes e sábios dariam para que os indivíduos lessem tais obras, mas o ponto é que o esclarecimento, em potência, está em cada ser humano e depende apenas da covardia de cada um, da relação de proporção inversa que se estabelece, buscá-las para deixar sua menoridade. Adorno/Horkheimer dizem que “liberdade na sociedade é inseparável do espírito esclarecedor” (ADORNO / HORKHEIMER, 1985, p. 13): não me parece haver qualquer impedimento para que a humanidade tenha acesso obras grandiosas e esclarecedoras, nem mesmo para que se organizem em torno de idéias, não visando revolução, mas estudar, aprender, para que a mudança de suas idéias possa alcançar mais pessoas e, conseqüentemente, a extensão do esclarecimento.
Citando Schelling, Adorno/Horkheimer dizem que “a arte entra em ação quando o saber desampara os homens” (id., ibid., 32). Talvez, nesse sentido, a arte seja uma prova de que há um certo saber, intuitivo, independente do racional. Se esta idéia estiver certa, no entanto, apenas alguns poucos homens questionaram o que obtinham, ou o que o grupo obtinha, pelo esclarecimento. Muito poucos se questionaram e dentre estes poucos, vários usaram a arte apenas como forma de obter status, não de colaborar no processo do desenvolvimento humano, perpetuando o jogo que coloca falsos esclarecidos no poder. Nesse sentido, o uso do esclarecimento pela sadeana Juliette, longamente analisado por Adorno/Horkheimer, poderia não somente levar à desordem civil, como provavelmente acreditaria Kant, mas também a uma condenação cega ao próprio esclarecimento, tendo em vista seu “gosto intelectual pela regressão” e “o prazer de derrotar a civilização com suas próprias armas”. (id., ibid., 92). Parece mesmo que o personagem chegou a um extremo do esclarecimento e se ofende com a covardia dos demais, valorizando, por isso, ainda mais, sua liberdade obtida por seu esclarecimento, superior em relação aos demais, fazendo dele, então, prova de sua superioridade.
Embora Adorno/Horkheimer lembrem que “o credo de Juliette é a ciência” e que “ela abomina toda veneração cuja racionalidade não se possa demonstrar” (id., ibid., 94), dentro de sua lógica é uma opção válida, contra qualquer superstição, enaltecedora da exploração do conhecimento humano que, não pode atingir o ápice pois pode ainda ser ultrapassado, e, como nos lembram ainda, citando Nietzsche, “eles buscam nas regiões selvagens uma compensação para a tensão provocada por um longo encerramento e clausura na paz da comunidade, eles retornam à inocência moral do animal de rapina, como monstros a se rejubilar” (id., ibid., 95).
O problema recai, portanto, sobre os humanos como indivíduos, não mais como componentes de uma sociedade, e Kant parece concordar ao afirmar que “encontrar-se-ão sempre alguns indivíduos capazes de pensamento próprio, até entre os tutores estabelecidos da grande massa” (KANT, 1974, p. 102). Se, como diz, “a natureza humana consiste apenas nesse avanço” (id., ibid., 108), não cabe perguntar, sem compaixão, se estes poucos esclarecidos não tem mesmo o direito sobre os covardes, que atrasam o desenvolvimento de sua espécie. A resposta, independente de que rumo tome, é perigosa e ainda válida. “O homem pode, individualmente, adiar o esclarecimento, não renunciar a ele” (id., ibid., 110), mas não deveria, então, ter o direito de atrapalhar o desenvolvimento dos demais, se sua covardia servir como mau exemplo a outros, “pois o esclarecimento é totalitário como qualquer outro sistema” (ADORNO / HORKHEIMER, 1985, p. 37).
Referências Bibliográficas
Adorno, T.W.., Dialética do Esclarecimento, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985
Kant, I., Textos Seletos, Petrópolis, Vozes, 1974
Comodismo versus razão no Esclarecimento
- Publicado em:
- 06.02.03 / 10pm
- Categoria:
- Filosofia
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- Adorno, civilização, Esclarecimento, Horkheimer, Kant, progresso