E assim nos tornamos cínicos

Pensei em escrever algo a respeito do fragmento de Schopenhauer que selecionei abaixo, mas a situação foi colocada de uma forma tão clara que seria muita arrogância querer acrescentar algo neste momento, principalmente por estar com o restante do capítulo ainda na memória. Tudo o que eu tinha a dizer está dito no título que dei a esta página.

“Na primeira mocidade, somos colocados em face do destino que vai abrir diante de nós, como as crianças em frente do pano de um teatro, na espectativa alegre e impaciente das coisas que vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes culpados condenados não à morte mas à vida, e que todavida não conhecem ainda o conteúdo de sua sentença. – Nem por isso deixam de ter o desejo de chegar a uma idade avançada, esto é, a um estado que se poderia exprimir deste modo: “Hoje é mau, e cada dia o será mais – até que chegue o pior de todos”.

Alguém que tenha sobrevivido a duas ou três gerações encontra-se na mesma disposição de espírito que um espectador que, sentado numa barraca de saltimbancos na feira, vê as mesmas farsas repetidas duas ou três vezes sem interrupção: é que as coisas estavam calculadas para uma única representação e já não fazem nenhum efeito, uma vez dissipadas a ilusão e a novidade.”

fragmento do capítulo I de “As dores do mundo”, de Arthur Schopenhauer


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