“Tudo que é, é bom”
cada uma das criaturas em particular era boa, mas, tomadas em conjunto, eram muito boas
- Santo Agostinho, Confissões, XIII, XXVIII, 43
Em suas Confissões, Agostinho nos diz que pensar o mundo dividido, como um embate entre bem e mal, é também pensar um Deus imperfeito, menor, e não o verdadeiro Deus. Vemos, então, que Deus não poderia, de forma alguma, ter criado um mundo imperfeito e que por isso, embora não tenhamos distanciamento suficiente para ver, o mundo é bom. Pensar que o mal possa existir como tal, ou na matéria usada na criação, ou em qualquer outro lugar, seria também pensar que o Criador foi impotente para eliminá-lo ou ainda numa visão maniqueísta, que coexistia com ele, e agir dessa forma é diminuir a Deus.
Para Agostinho não existe o mal absoluto, que, como afirmam os maniqueus, contrasta com o bem absoluto, resultando no “mundo como um embate entre duas forças” do qual o homem seria “expressão desse combate” (NOVAES, 2000, p.59): fora da criação nada existe que possa corromper a ordem estabelecida por Deus, ou seja, não pode haver o mal lutando contra o bem da criação. Existem coisas consideradas ruins por não estarem em conformidade com as demais, mas que isoladamente podem ser consideradas boas. Como não podemos ter uma visão do todo, temos uma visão das partes, com suas imperfeições. Se pudéssemos ver com distanciamento, teríamos então um panorama da perfeição da obra, de seu todo. “Eu já não podia desejar nada melhor, pois, refletindo de modo mais sensato a respeito disso tudo, compreendia que se as criaturas superiores são melhores que as inferiores, o conjunto de todas é ainda melhor” (AGOSTINHO, 1997, p. 193).
Para ele, a própria definição de bom é “ser” enquanto que a definição de mal é “não-ser”. Assim sendo, tudo o que tem ser, tudo que é, é bom, pois do contrário não teria ser e nada mais seria. Com isso Agostinho elimina a possibilidade dualista do maniqueísmo, pois o mal, expresso dessa forma, não mais existe na criação. As criaturas, mesmo diferindo de seu Criador, são semelhantes a Ele, “vestígios dele” (NOVAES, 2000, p.64) e, dessa forma, tudo que existe é bom.
Existe, embora em outro sentido, a possibilidade de dizer que o mal existe e em suas Confissões, livro I, capítulo XII, Agostinho nos indica o caminho ao afirmar que “estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu próprio castigo”, mais à frente, já no livro III, capítulo VII, “eu não sabia que o mal é apenas privação do bem, privação esta que chega ao nada absoluto”, e no capítulo VIII: “é de fato uma violação do vínculo que deve existir entre Deus e nós, o profanar, pelas paixões depravadas, a própria natureza de que ele é autor”.
Agostinho toca nesse ponto, mais uma vez, no livro V, capítulo X, ao confessar que “conservava ainda a idéia de que não éramos nós que pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem culpa e de não dever confessar o mal após tê-lo cometido satisfazia meu orgulho; desse modo eu não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti preferindo desculpá-la e acusar não sei qual outra força, que estava em mim, mas que não era eu. (…) Pecado ainda mais grave era o de não me considerar pecador, e execrável iniqüidade era preferir que tu, Deus onipotente, fosses vencido em mim para minha ruína”. Já no livro VII, capítulo IV, Agostinho confessa ter descoberto que o que é incorruptível é melhor que o corruptível e, assim, Deus só poderia ser da primeira forma e que, a partir daí, tendo descoberto isso, deveria ter procurado a origem da corrupção, onde está o mal, tendo em vista que estar sujeito à corrupção não é um bem.
Crer, como faziam os maniqueus, no mal absoluto, desloca para fora de nós o problema, atribuindo a algo diverso a origem do mal. Desfeita a confusão e eliminada essa idéia, o mal passa a ser então a “negação de movimento, que ofende e contraria a natureza dela mesma, vontade” (NOVAES, 2000, p.72). Conhecemos o mal na exata medida de nossa maldade, conhecemos o mal quando nossos órgãos de percepção estão alterados. Se apontarmos, como faziam, para um mal absoluto, pensaremos também em seu oposto, num Deus que combate o mal fazendo o bem, mas este Deus seria um ídolo, não o verdadeiro Deus, que é. Se eliminarmos o ídolo e o mal absoluto, restará apenas uma causa do mal: nós, o uso perverso de nossa vontade, afastada de sua vocação natural de procura em direção a Deus.
Ao contrário dos maniqueus, Agostinho não culpa o corpo pelo mal, pela perversão da vontade. Para Agostinho, o corpo é instrumento: quem vê, tateia, cheira, sente as coisas e se alimenta é a alma. Temos, no entanto, disposição à aquisição de hábitos carnais, nossa “segunda natureza”, mas o fato de serem hábitos e, como tal, adquiridos, permite que sejam mudados. Com isso vemos também que a vontade só é má quando não aceitamos que somos nós a causa do mal: a escolha em meio à neutralidade é o que garante a existência de liberdade. A natureza continua garantida, a condição, não. Só os homens podem se colocar numa condição diversa de sua natureza: “Ao eleger-se como seu próprio fim, e esquecer o bem supremo como fim último de sua natureza, a vontade pervertida suprime o dinamismo natural de tal forma que se vê impossibilitada por si mesma de restaurar sua natureza livre. (…) Nesse sentido, podemos falar em perversão da vontade: uma paradoxal decisão voluntária de deixar de ser vontade” (id. ibid., p.72).
Cabe ressaltar, entretanto, que algo degradável/degradado tem ainda algo de bom, pois se nada tivesse de bom, também não teria ser e, assim sendo, não mais existiria. Logo, se algo é passível de corrupção é porque ainda tem algo de bom, pois o mal é ausência de ser, não podendo existir nem para Deus nem para a criação, pois privação de ser é privação da existência. Para Agostinho, nossa razão não é degradável, mas pode ser obscurecida e, se esclarecida, será eterna e imutável. Essa razão eterna e imutável não mais seria nossa razão, mas a própria razão operando em nós.
Ao criticar o dualismo maniqueísta, Agostinho deixa claro que essa diminuição de Deus pode ser pensada até ingenuamente, ao afirmar quem, quando maniqueu, se recusava a considerar como obra de Deus as coisas que o desagradavam. Procedendo dessa forma, Agostinho deixava aberta a possibilidade de pensar um mal absoluto e, com ele, um Deus menor e mostra que resta, dependendo da forma como se nega essa idéia, o perigo de transformar Deus em um ídolo: “E procurando o que era a iniqüidade compreendi que ela não é uma substância existente em si, mas a perversão da vontade que, ao afastar-se do Ser supremo, que és tu, ó Deus, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente” (AGOSTINHO, 1997, p.195)
Quando diz que “não tinha uma vontade plena, nem decidida falta de vontade. (…) Essa divisão se produzia contra minha vontade, embora isso não demonstrasse a existência em mim de outra alma, e sim o castigo de minha própria alma” (id. ibid., p.225), Agostinho dá exemplo de que o mal, nesse caso, é causado pelo conflito de sua vontade consigo mesma, tendo em vista que o conflito o impede de seguir seu curso natural, sua ordenação, em direção ao Criador. Sobre isso cabe lembrar o que diz Moacyr Novaes em seu artigo “Vontade e contravontade”: “O livre-arbítrio da vontade não é apenas um entre outros movimentos; é justamente através dele, na verdade, que o homem é mais que vestígio, através dele o homem é imagem de Deus”. O mal, aqui, decorre do fato de que a vontade se move em direção oposta à do Criador, quando em conflito na razão. Essa negação de caminhar em direção ao seu lugar natural, essa aversão, é a perversão da vontade, o mal. Ao aspirar não ter mais vontade, a se satisfazer consigo mesmo, o homem cria o conflito, negando sua natureza livre.
Referências bibliográficas:
Agostinho, S., Confissões, Paulus, 1997
Novaes, M., “Vontade e contravontade”, O avesso da liberdade, Cia. das Letras, 2000
“Tudo que é, é bom”
- Publicado em:
- 04.05.04 / 10pm
- Categoria:
- Filosofia
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