Inspiração e criação
Às vezes quero dizer algo e me pego mudo, compondo melodias vazias. Quando a criatividade se esvai, percebo o quão pequeno sou. Acontece, porém, que às vezes sinto-me a criar, mas nada produzo. Tento entender se o vazio é apenas um momentâneo silêncio.
Uma sala com um piano possui música em potência, espera apenas o movimento das teclas, das cordas. Há, no entanto, salas sem pianos, sem livros e sem quadros, vazias. Mas não esta em que me encontro!
Lá estão o piano, a pena, as tintas. Parece-me que esqueci como usar tais ferramentas, que tudo é apenas potência e jamais virá a ser ato.
Li em Fernando Pessoa:
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante…
Eras o Universo…
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Penso, então, que o criar em potência seja a admiração que nos toma: tudo parece vazio quando na verdade o Universo é imenso demais para ser visto de perto. Quando se vai, lá adiante, e pode ser escondido sob o polegar, fechando-se um olho, torna-se do meu tamanho e posso então reproduzí-lo.
Sim, talvez seja esse o segredo da criação: criamos coisas de nosso tamanho ou ficamos em silêncio admirando o universo, sem tentar pintá-lo, escrevê-lo, quando se dá a nós. Os gênios são os que criam obras maiores que si mesmos.
Percebo então que a sabedoria está em apreciar a inspiração antes de pensar na música. Quando criamos, descrevemos o que se foi. Já passado, relatamos a paisagem.
Pois então fique! Continuo mudo, não me importa o relato.
Não sou uma sala vazia.
Inspiração e criação
- Publicado em:
- 10.04.08 / 10pm
- Categoria:
- Pensamentos
- Tags:
- criação, inspiração, Poesias
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