“Confesso francamente: foi a advertência de David Hume que, há muitos anos, interrompeu meu sono dogmático e deu às minhas investigações no campo da filosofia especulativa uma orientação inteiramente diversa.”
- Kant, Prolegômenos a toda metafísica futura, Introdução, A13
Este trabalho tem por objetivo acompanhar, ainda que superficialmente, o desenvolvimento do pensamento kantiano, de sua filosofia após o “despertar”, tendo como ponto de partida o ataque de David Hume, “o mais engenhoso de todos os céticos”, à metafisica. Kant referiu-se ao filósofo escocês como aquele que “fez brotar uma centelha com a qual se poderia ter acendido uma luz, se ela tivesse alcançado uma mecha inflamável” (KANT, 2003, p. 14). O desenvolvimento do pensamento de Kant me parece mostrar que a mecha inflamável foi, de fato, atingida, pois este buscava solucionar o questionamento humeano, não simplesmente combatê-lo.
Antes de prosseguir e entrar no pensamento kantiano, sinto necessidade de passar, brevemente, pelo pensamento de Hume, a meu ver necessário para se compreender o ponto de partida do filósofo de Konigsberg, dado o tema do trabalho.
. A causalidade como impossibilidade de conhecimento metafísico em Hume
David Hume afirmava que não é possível encontrar nos objetos as relações de causalidade. Demonstrava, então, como ultrapassamos os limites da experiência, inferindo de objetos uma causalidade que não pode ser encontrada em nada além de nosso hábito. Para Hume, o fato de que podemos repetir experiências, como deslocar uma bola de bilhar ao chocar-se com outra, não quer dizer, entretanto, que possam ser inferidos causa e efeito dos objetos dados. O filósofo nos desafia, então, a encontrar essa conexão e acrescenta, conforme citado por Gerárd Lebrun: “você só poderá, vencido pelo cansaço, invocar sua experiência passada e a de todos os homens. Mas a repetição de alguma experiência já garantiu alguma vez a necessidade absoluta de alguma relação?” (LEBRUN, 2001, p. 9). Hume mostra, dessa forma, que não podemos concluir a necessidade de uma coisa B a partir de uma coisa A.
O erro que Hume pretende mostrar é como até então os metafísicos fizeram afirmações com base em ligações que não poderiam ser feitas, quero dizer, colocando nos objetos o conhecimento obtido a partir do hábito e, com isso, fazendo afirmações que ultrapassam o campo da experiência.
Hume, segundo Kant, “jamais duvidara de que o conceito de causa era exato, prático, indispensável relativamente a todo conhecimento”, mas “se ele era concebido pela razão a priori e se, deste modo, possuia uma verdade interna independente de toda a experiência” (KANT, 2003, p. 15). Lebrun, por sua vez, afirma que Hume era “um contrametafísico, e não um crítico da metafísica. Desafiava-nos a encontrar entre as coisas uma conexão necessária” (LEBRUN, 2001, p. 12).
. Kant e a revolução copernicana
Kant, desperto por Hume, conforme nos diz, percebe o ponto que o escocês pretendia atingir, ainda que ignorado pelos metafísicos dogmáticos de então, e como afirma na introdução de “Prolegômenos a toda metafísica futura”, pretende “convencer todos os que crêem na utilidade de se ocuparem da metafísica de que lhes é absolutamente necessário interromper seu trabalho, considerar como inexistente tudo o que se fez até agora e levantar antes de tudo a questão: ‘de se uma coisa como a metafísica é simplesmente possível’”. (KANT, 2003, p. 12).
Para avançar em seu pensamento, Kant pretende “empreender a mais difícil das suas tarefas”: a “constituição de um tribunal que lhe assegure as pretenções legítimas e, em contrapartida, possa condenar-lhe todas as presunções infundadas (…) em nome das suas [da razão] leis eternas e imutáveis. Esse tribunal outra coisa não é que a própria Crítica da Razão Pura” (KANT, 2001, A XII). Kant oferece, então, como resposta, sua crítica, uma forma da razão “com respeito a todos os conhecimentos a que pode aspirar, independentemente de toda a experiência; portanto, a solução do problema da possibilidade ou impossibilidade de uma metafísica em geral e a determinação tanto das suas fontes como da sua extensão e limites; tudo isso, contudo, a partir de princípios” (id., ibid., A XII).
Kant passa, então, a “dissipar a ilusão proveniente de um mal-entendido”, aprofundando-se no estudo da razão, buscando estabelecer seus limites, bem como compreender seu funcionamento.
Já no prefácio à segunda edição da Crítica, Kant anuncia a revolução que pretende tratar, da inversão que pretende fazer no decorrer da obra: “até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos objetos; porém todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse nosso conhecimento, malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um conhecimento a priori desses objetos” (id., ibid., B XVI).
Com essa passagem, sem dúvida uma das mais importantes da história da filosofia, Kant muda o foco, buscando, como Copérnico, conseguir melhores resultados, mudando, dessa forma, o ponto de vista, indicando que a necessidade do juízo não provém do objeto do conhecimento, mas que a própria necessidade é o que constitui para nós o único sentido concebível da idéia do objeto. Segundo Cassirer, “quien compreenda sobre qué descansa esta necesidad y en qué condiciones constitutivas se funda, habrá conseguido resolver el problema del ser en la medida en que es susceptible de solución desde el punto de vista del conocimiento. (…) Pues no es la existência de un mundo de cosas lo que hace que exista para nosotros (…), sino la inversa: es la existencia de juicios incondicionalmente ciertos (…) la que hace que exista para nosotros uma ordenación de impressiones e ideas, sinto también como una ordenación de objetos” (CASSIRER, 1997, p. 179). Essa mudança de foco não é, portanto, nada menos do que a mudança no pensamento que Kant compara, no prefácio à segunda edição da Crítica, com a revolução no modo de pensar à maneira de Copérnico.
A filosofia crítica kantiana terá por objetivo criticar a própria razão, avaliando quais de suas exigências são justificadas e descartar as pretensões infundadas. Se a ciência funciona de forma que nos obriga a interrogar a natureza, o mesmo deve acontecer em relação à filosofia, para que dela possam ser obtidos resultados certos, mantendo-a no caminho da ciência: “no respeitante à certeza, a lei que impus a mim próprio obriga-me a que, nesta ordem de considerações, de modo algum seja permitido emitir opiniões e que tudo o que se pareça com uma hipótese seja mercadoria proibida” (KANT, 2001, A XVI).
Vemos, com essa virada, que embora todo conhecimento tenha início na experiência, a esta não devemos dar todos os créditos. Conhecimentos oriundos da experiência traduzem-se em conhecimentos sintéticos, quando a eles acrescentamos mais coisas. Não podemos esquecer, nos mostra Kant, que ainda existem os juízos analíticos, sempre a priori, que nada nos acrescentam como conhecimento. Passamos boa parte do tempo analisando conceitos que já possuímos, logo, não estamos criando novos saberes, mas apenas tratando do que já temos.
O que interessa a Kant, principalmente, é entender como podem se dar os juízos sintéticos a priori, haja visto que essas sínteses se dão pela faculdade do entendimento, aliada às intuições da sensibilidade.
Os objetos não chegam a nós como são, pois já estão submetidos às condições do conhecimento. Não temos acesso, portanto, à coisa em si, pois não podemos chegar a ela em tais condições. A coisa em si existe como condição dos fenômenos, não sua causa. Podemos pensar a coisa em si, não conhecê-la, pois para isso seria necessário que tivéssemos intuição intelectual. Os objetos se dão como fenômenos, sujeitos às formas a priori da sensibilidade, a saber, espaço e tempo. Sem essas formas não podemos ter a intuição da experiência e tudo o que nos chega através delas é submetido à síntese a priori do entendimento. Kant afirma que “todas as tentativas para os pensar [os objetos da experiência] serão, consequentemente, uma magnífica pedra de toque daquilo que consideramos ser a mudança de método na maneira de pensar, a saber, que só conhecemos a priori das coisas o que nós mesmos nela pomos” (id., ibid., B XVIII).
Como vemos, ao lado da sensibilidade temos o entendimento, que nos fornece o conceito, as sínteses. Esses conceitos podem ser empíricos, mas existem também conceitos existentes a priori no entendimento. Kant fornece, então, uma espécie de mapa de classificação de juízos, chamado de “tábua das categorias”, que, diferentemente de Aristóteles, são funções do entendimento. Essas funções tratam-se de diferentes pontos de vista, segundo os quais o entendimento sintetiza os dados da intuição, formando o objeto. Sem os dados da intuição sensível, as categorias nada seriam além de formas. O entendimento é limitado ao domínio da sensibilidade.
Acontece, porém, que além da sensibilidade e do entendimento, Kant trata da razão, faculdade que busca dar unidade aos conhecimentos do entendimento. A razão tem como função ligar juízos uns aos outros, portanto não é ligada diretamente à experiência. Quando busca unificar os conhecimentos, sobe de condição em condição e como é de sua natureza unificá-los, a razão dirige-se também para o incondicionado. Kant chama os conceitos da razão “idéias”, das quais não podemos ter um conhecimento, pois que não encontram um conteúdo adequado na experiência e, portanto, não podem ter conhecimento objetivo, científico, são transcendentes.
O problema, entretanto, é que ao tentar unificar os conhecimentos, a razão, como dito anteriormente, dirige-se ao incondicionado, chegando ao que Kant chama de antinomias. Há duas classes de antinomias: as matemáticas, que representam o contraditório como conciliável em um conceito, e as dinâmicas, que representam como contraditório o que pode ser conciliado, de forma que ambas as afirmações podem ser verdadeiras, corrigindo-se o equivoco que as separa, a saber, a confusão da razão em relação a coisa em si e fenômeno. Kant identifica quatro antinomias, contradições da razão consigo mesma, quando especula sobre o mundo em si.
Nem mesmo ao tentar provar a existência de Deus os argumentos adquirem valor objetivo. Kant afirma que a razão humana se convence da existência de um ente necessário qualquer e nele reconhece existência incondicionada para, então, procurar o conceito fora de toda condição, encontrando-o como condição suficiente de todas as outras coisas. Dessa forma, o todo, unidade absoluta, comporta o conceito de um ente único, supremo, que a razão reconhece como fundamento originário de tudo, existente de modo absolutamente necessário. O necessário atrai nossa razão, mas não podemos acreditar que uma regra do pensamento é também uma realidade existente em si.
Se deixarmos de lado a metafísica dogmática, não significa que devemos deixar se lado também toda espécie de metafísica. Kant mostra que é possível admitir, no nível da razão pura, uma outra metafísica, imanente, cujo objetivo é analisar o espírito e suas categorias. Com isso Kant torna possível, novamente, a existência da metafísica, de uma metafísica não dogmática, diferente daquela atacada por Hume.
Devemos crer, então, que admitindo a metafísica imanente de Kant não poderemos ter acesso ao transcendental? A resposta kantiana é afirmativa, pois acessar o transcendental e fazer dele conhecimento objetivo é impossível: “o proveito maior e talvez único de toda a filosofia da razão pura é, por isso, certamente negativo; é que não serve de organon para alargar os conhecimentos, mas de disciplina para lhe determinar os limites e, em vez de descobrir a verdade, tem apenas o mérito silencioso de impedir os erros” (id, ibid., B 823).
Acredito, a título de conclusão, que dizer que a filosofia da razão pura não serve para alargar os conhecimentos trata-se de um exagero, mesmo que do próprio Kant. Creio que o mérito de tal filosofia se encontra, sim, na negatividade, no estabelecimento de limites para a especulação da razão. Podemos pensar a coisa em si, pensar Deus, mas não podemos fazer ciência a partir disso. Por outro lado, sabendo os limites de nossa razão, teremos a disciplina, conforme diz Kant, para ir até onde devemos e não além, tendo, portanto, certeza do que estamos fazendo, conhecendo e concluindo sem eventuais exageros e afirmações descabidas. Ao tentar impedir erros, Kant dá uma grande contribuição, sem dúvida, mas há muito ainda além disso em sua filosofia. Sou obrigado a crer, por fim, que ao afirmar aquele como sendo único mérito da filosofia crítica, Kant estava sendo modesto, ou ainda sutil em sua afirmação, ciente de que a revolução que promovera no modo de pensar era muito grande e demoraria para ser compreendida, pois como diz, “efetivamente, quando o sistema é novo, poucos possuem a argúcia de espírito bastante para dele obter uma visão de conjunto e menos ainda os que encontram nisso prazer, porque todas as inovações os incomodam” (id., ibid., B XLIV).
Referências bibliográficas:
Cassirer, Ernst, Kant, vida y doctrina, Bogotá, Fondo de Cultura Económica 1997
Kant, Immanuel, Prolegômenos a toda metafísica futura, Lisboa, Edições 70, 2003
Kant, Immanuel, Crítica da razão pura, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001
Lebrun, Gérard, Sobre Kant, São Paulo, Iluminuras, 2001
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