Escrevi, há tempos, com base na leitura de Cassirer, um trabalho sobre como os estudos e crenças da magia renascentista, dos alquimistas etc, se transformaram na ciência moderna. O resultado é extenso e não vou postar todo aqui, exceto por esse fragmento, que dá um pouco o que pensar.
Segue:
“La verdadera filosofia no tiene otra meta que el sacar a luz y elevar a conciencia el contenido que aparece recóndito en la naturaleza, pues ‘¿qué es la sino la filosofia? ¿Qué es la filosofia sino la naturaleza invisible?” (CASSIRER, 2004, p. 240). Neste trecho de Paracelso, citado por Cassirer, é apresentada a função da filosofia e talvez mais que a função, mas a “natureza” da filosofia. Conhecer a filosofia é, num certo sentido, desvendar a natureza, trazer luz sob o que está invisível.
Essa visão abre caminho para que as doutrinas medievais passem a ser superadas pelo sistema das ciências empíricas. Quando os alquimistas rompiam e questionavam toda a explicação dos fenômenos da natureza baseados na magia, fazendo ligações de observação empírica e criando espécies de fórmulas, poderiam responder questões de ordem prática, bem como curar doenças, manipular o tempo, elementos, fenômenos etc. Dessa forma, o valor central era dado à observação e a partir da observação, à busca de conclusões teóricas e de suas utilidades práticas.
Embora pareça que esse conhecimento empírico, dado pela observação, seja livre de crenças religiosas ou místicas, seria engano pensar isso. Há uma espécie de ruptura no sentido de que a magia se transforma de simples crença a uma possibilidade prática, quero dizer, passa a ser possível, de certa maneira, posto que parece haver uma estrutura universal, dada por Deus, ou pelo espírito do mundo, que pode ser compreendida e utilizada empiricamente. O problema, no entanto, é a forma como era utilizada, para quais fins: resolver problemas cotidianos, fazer chover, buscar poder, curar doenças etc. Era, portanto, a mesma finalidade das crenças mágicas antigas, com a diferença, entretanto, de que pareciam haver encontrado, finalmente, a lógica estrutural do mundo e com ela poderiam por em prática qualquer solução, a curto prazo, para os problemas que viessem a surgir.
Vale notar, com relação a isso, que a ciência moderna, por não ter uma espécie de planejamento tecnológico, por exemplo, ainda guarda muita relação com a magia renascentista e com as crenças místicas anteriores, que visavam resolver problemas a curto prazo. Tecnologicamente, como disse, a relação é bem próxima, posto que se criam ferramentas para resolver problemas, para controlar situações, todas com fim imediato, pois não há uma visão de longo prazo, não há, novamente, um pensamento sobre o que há em mãos, apenas a adoção de técnicas. Pode-se mesmo dizer que a tecnologia engole a si, pois em muitos casos é necessária para resolver situações criadas por si mesma.
Segundo Paracelso, “La mano de Dios ha ordenado que el cielo se mueva por sus rutas y el hombre por las suyas proprias” (Cassirer, 2004, p. 241). Esta solução garante a independência humana para conhecer a natureza e a existência divina, de forma que o conhecimento encontrado por trás das coisas, as associações e fórmulas, não dá ao homem poder divino, ou seja, não significa ruptura com uma divindade superior, mas o contrário.
Para quem quiser estudar mais, recomendo ler e pensar a respeito das idéias expostas em “El problema del conocimento, vol. 1″, de E. Cassirer, publicado pelo Fondo de Cultura Econômica, Mexico, 2004.
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