14 Dec

Magnetismo Universal

Nesta enseada de vísceras dispersas, branco intenso de gotas transparentes, cidade que se esconde pálida em tua aparência de veludo, seda e carbono, que cega as milhares de perfeitas constelações gregas, erguidas há milênios como símbolos de inspiração abissal, olho para a bússola de meus horizontes cândidos onde me encontro arfante amarrado.

Vem, abre o manto d’água que respinga junto a mim, queimando em folhas minha pele e minhas escamas. Vem, abre o mar e me aguarda, indica a espuma de onde surgiste em cada onda, aponta os céus e respira, tirando vida do barro que me cobre. Vem, queima com a sutileza de tua voz as amarras que me cortam quando me apontas o mundo sorrindo e soletra perversa a luz que me afoga.

Cria vida nessa escuridão que alastra em mim, cria vida nesse alarde que faço no vazio que preenches com teu sermão vermelho. Faz de mim o arco que tensiona ao puxar minha alma alaranjada, refletindo palidamente tua cor de chamas, que chama meu falo erguido à divindade, cravo profundo nas aparas vivas, dívida para com a natureza.

Ergo me sempre para jamais questionar se as cores, cortes e cheiros que chegam junto a meus sentidos, buscando a essência da hipnose, são passageiras ou se são guias, se se deixam levar ou se levam como um oceano de sal que jorra de mim, varrendo a terra passiva, que se umedece e abre com o calor da afeição e dos ardis da semente.

Abro meus braços cicatrizados deixando que teu norte me guie, encontro destino em todos os cardeais, magnetismo absoluto que me desvirtua, corrompe e perde quando moves meu ponteiro, que te adentra como grão e prisma de cores estapafúrdias, selecionadas uma a uma, sem me incomodar se é o caminho da mão esquerda perante o qual meus joelhos dobram se busco minhas forças recompostas.

Faz das formas gigantes, absolutas e milimétricas, da pureza assassinada de todo ser, de minha cegueira, faz de tudo que se move e do porvir pura aniquilação!

Quando me perco, sem ver insetos e rastros ondulantes no céu almiscarado, me esqueço. Quando me perco, me encontro navegando questões filosóficas e existenciais: se o entardecer é mais cadenciado nas manhãs de inverno, se o sol aquece formigas solitárias no verão de outros continentes, se o frio dos pólos tornaria minha pele sólida, uma vez amaciada pelos beijos que arrancam minhas formas em camadas.

Exposto unicamente, perduro na essência única da união, extrema unção, do óleo que cobre tua testa, olhos e lábios rubros, dos impronunciáveis nomes, dos números infinitos e suas combinações, do ocultismo e seus segredos.

Duplamente, perduro onde termino e recomeço, onde o reino dos mortos passa por nós, rápido e afobado, sob o signo de escorpião, ao renascer na sentença de vida, na boca aberta de desejo que se fecha, reiniciando a unidade do culto dos astros.

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