22 Dec

Satanismo

O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não tirei cópia desses dados, mas sei que é de 1928 e é com o português de então que você irá encontrá-lo.

Procurei por esse trabalho na net há algum tempo e não o encontrei, dai a vontade de colocá-lo aqui. Algumas coisas não deveriam ser esquecidas e perdidas, simples assim.

Segue:

- Tu também, Luis, chamares-me de louco!

E um esgar abriu-lhe a bocca, num sorriso ironico, em que os dentes ponteagudos, como talhados a formão, enegrecidos pelo uso do “haschich” e da nicotina, punham uma nota selvagem, suja, sob o lábio delgado, espiritualisado…

- São raras as Lindamôres na terra em que eu nasci, que não os tenham assim, como lanças! Mas a Lindamôr de que falo eu… Louco!? Tens, porém, razão de sêres cego… Surdo… E mudo… O mundo exterior não existe para ti. Muito menos o interior. Olha, as sensações são grãos. As deformações que ellas trazem são grãos, padrões, medidas de aferição…

- Estygmas…

- Estou a ver, porém, que não me comprehendes. Não me compreenderás jamais… Lindamôr… Oh! a agudeza dos seus sentidos a apontar para o alto, como uma flecha lançada! Tu não sabes absolutament o que está do outro lado do prazer… que tu chamas dôr… com periphrases de ungentos e de emplastos… Tu procuras equilibrio para o teu espírito na insensibilidade, na indifferença, no comodismo, em todos os “ismos”, em todos os “ades” e “enças” dos antiloqueos burgueses, inexpressivos, idiotas… Louco, chamo-te eu, meu insensivel, meu indiferente, meu commodo Luis! Louco como o mais louco. O que ha de facto por ahi, e é o teu caso (casos de manicomio), são espiritos embotados, sensibilidades estreiras, inextensiveis. Esticadas, essas sensibilidades, por poquinho que seja, arrebentam. Uma cocegazinha, eil-os a rir. Uma alfinetada fal-os chorar. Principalmente se esperam a alfinetada (no que entram o sensorio e a intelligencia como partes). Lindamôr! Dava-se com seu genio a solidão. Era de vel-a, quase bella, com os seus dentinhos cortados em ponta, as suas sobrancelhas arqueadas, os seus vestidos de chitão vermelho e o beicinho tremulo, bru-u-u-u-u-u-u… com que correia as capoeiras vizinhas, o chiqueiro e o curral. Naquelle dia de nuvens escondidas no céo, ella mesmo fôra dar a ração aos bacorinhos que grunhiam gulosos no chiqueiro. De volta descansou a gamella num velho coxo de madeira e deixou-se cahir sobre o velho tronco de araticum, onde a fazer lenha, exercitava os musculos e estimulava e (oh! coisa paradoxal) afogava, neutralizava o meu prurido doentio de destruição. As suas mãos, uma deixada no regaço, outra arrastando no chão, sobre as aparas de madeira que meu machado cortava nervosamente, tiveram um ligeiro movimento convulsivo, quando della me aproximei de machado em punho… E só. E eu? Tremendo, tiritando de medo e de emoção… Levantei outra vez o machado sobre sua cabeça… Nunca me julguei tão fraco para o amor. Deixei-o cahir para um lado e ajoelhei-me a seus pés. E com a cabeça no seu regaço tentei acalmar-me. Debalde, porém. Os teus nervos não permittem, nem por minucias, o relato desta história toda… Levantei-me de um salto, as suas mãos entre as minhas, e cobri-as furiosamente de beijos. Saquei do punhal… Que mascaras admiraveis se plasmaram no seu rosto de linhas vulgares! Principiei cortando-lhe os dedos da mão, phalange a phalange. E para reanimal-a, injectava-lhe ether de vez em quando… Ao desgarrar de um tendão, os seus empinaram-se-lhe, tão duros que enlouquecido de amor, arranquei-lhe os bicos com os dentes… Duas lagrimas de sangue correram-lhe o torso abaixo. Dos meus labios humidos e rubros fluiam palavras angelicas, que se mal ouviras, peior comprehenderas. Os seus olhos foram-se fechando devagarinho… Estava realizado enfim, o meu sonho de posse no absoluto, de gloria no amor, de previdencia contra a saciedade, e sobretudo, de prevenção contra as mil infidelidades em que é fertil o engenho feminino… Estava realizado o meu sonho e de morte e de belleza, alliviada a oppressão da minha febre immortal. Foi minha, destrui-a. Não com palavras, ou com os sentimentos vermelhos que o commum dos homens trazem dentro do peito, e cóleras contidas, e hypocrisias, mas com actos, heroicamente… Na destruição o absoluto… São gestos eternos que não se renovam. Só o marmore os permite. Com o escopro… Golpe por golpe.

- Hildebrando de Lima, Satanismo, 1928

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