28 Jan

Liberdade, transgressão e moral

“A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”
- Bataille in “A literatura e o Mal

Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um momento de epifania, por assim dizer. Acontece, no entanto, que as idéias continuaram transbordando desde então e novas teorias e questionamentos, opostos aos iniciais, continuaram surgindo, uma torrente de compreensão/entendimento. Me deparei e ainda me deparo com diversas questões que precisaria responder e com outras que surgiram já trazendo suas respostas.

As linhas que seguirão abaixo são apenas um rascunho de algo que precisará ser desenvolvido, esmiuçado e detalhado, pois tratam-se de uma breve nota sobre como me sinto agora, neste momento, enquanto questionador e questionado.

Sem querer entrar em uma discussão das diferenças de Deus nas filosofias de Leibniz, Espinosa, Descartes ou qualquer outro filósofo, mas passando – seria impossível evitar –, ainda assim, por algumas generalidades de um e de outro, prossigo…

Leibniz afirma que a liberdade divina é garantida pelos livres decretos e que, em um desses decretos, Deus se determina a criar o melhor dos mundos. Outro diria, entretanto, que Deus criou esse mundo por pura bondade. Outros dariam ainda diferentes motivos, não importa. O que importa para essa discussão é como o mundo se dá para nós. As ações divinas podem ser livres, como amar a si, é claro. O fato de ter escolhido este mundo e não outro demonstra escolha, mas se essa escolha é determinada pela necessidade (ainda que autodeterminada) do melhor, ou pela bondade, ou por outro motivo, seria de fato livre?

O problema, entretanto, é que a escolha do melhor não exclui a possibilidade da escolha do pior, ou seja, decidiu-se por esse mundo, mas poderia ter sido outro. A possibilidade de um outro mundo torna evidente uma escolha livre. Colocando isso em termos humanos: o homem padrão, comum, que sai de casa todas as manhãs em busca do sustento de sua prole tem também a possibilidade da escolha oposta, é claro. Poderia não ir. Poderia, mas ainda assim se determina e vai. Amor à prole? Culpa? Medo de punição? Imperativo categórico? O que o move? Estamos claramente entrando nos domínios da moral. Voltamos a Deus: a liberdade humana nos foi dada por decisão de sua bondade. Não é essa uma escolha moral?

Se deus criou o mundo dessa forma e não de outra, teve a possibilidade dos demais, mas sua autodeterminação o impediu. A contingência existente foi excluída por uma necessidade auto imposta. Voltamos, então, à frase de Bataille que abre esse texto: “A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”. Deus “não pode desobedecer a ordem que existe”. É claro, desobedecê-la seria criar uma nova, implicando em sua imperfeição, em uma retificação da ordem anteriormente imposta, determinada como a melhor. Temos ai, além da discussão sobre a perfeição, também o bem comum, a moral tão evidente nos questionamentos humanos.

Em Espinosa não me parece lógico discutir isso, pois trata-se mais de uma tragédia e, portanto, uma contingência levando a outra. Arrisco dizer que há uma maior evidência de liberdade nesse caso. As escolhas dão a liberdade, que se contamina quando a possibilidade do oposto não é data. A liberdade é, portanto, diretamente ligada à contingência.

A “necessidade” de algo limita a ação da liberdade. O meio pode ou não fornecê-la, não cabe obviamente discutir Sartre, mas a necessidade de algo, quando existe, a limita. A própria necessidade de alimentar-se, por exemplo. Não é possível tomar a liberdade de não se alimentar sem conseqüências. A punição implica em necessidade, em bem maior, ainda que neste exemplo diga respeito apenas ao indivíduo em questão.

Bem maior, disse. Pois bem, diariamente pessoas acordam e, para manterem seu “melhor dos mundos”, sua alimentação, seu conforto, condições básicas ou mesmo prover para a família, limitam suas escolhas de forma que essas deixam mesmo de existir, pois o próprio questionamento é aniquilado, cedendo ao comodismo e à aceitação cega de algo tão comum e tão pouco evidente.

Liberdade absoluta implica em tragédia e talvez essa seja mesmo a razão da mítica dos grandes heróis: a transgressão é o que serve de magnetismo, o que atrai e os diferencia dos demais. A transgressão só existe quando abandonam o comum, a transgressão existe quando abandonam o bem maior, quando seguem seu instinto, seu egoísmo e seu destino. A moral é o freio da liberdade absoluta, que se dá por completo no “Mal desinteressado”, como diria novamente Bataille, mas não só ai. Cabe pensar em Saturno que castra Urano. Cabe pensar também a beleza de Vênus, filha desse ato, nascendo nas espumas do mar.

Seguir determinações morais e o bem necessário é tão limitante quando ter de acordar diariamente, trabalhar, se alimentar, procriar e repetir o ciclo. Nesse sentido, o homem comum é de fato a imagem e semelhança de Deus.

Voltamos à questão do provedor que sai de casa para buscar o alimento de sua prole, cuja bondade é livremente determinada. Poderia não ser bondade, mas medo? Não sabemos de casos de pais presos por abandonar bebês? Seja por bondade, medo, ou qualquer outro motivo, o homem permite ser colocado sob freios. Não cabe, no entanto, perguntar se em algum momento uma explosão se dará, ruptura, castração simbólica, ou se a aceitação da tragédia estará apenas mais aprofundada a cada novo dia. Essa pergunta não faz sentido quando dirigida ao geral, ao grupo. Cabe apenas a alguns humanos, mitos em potência.

A liberdade humana, desvinculada da moral, no sentido em que não tem a preocupação de manter uma ordem universal estabelecida, nem o limitante da perfeição, baseada apenas na ignorância total ou parcial das conseqüências de seus atos, é maior que a divina. A ignorância e/ou o egoísmo humano propicia a contingência, enquanto que a bondade e a perfeição de Deus criam a necessidade. Que fique claro: não falo aqui de estado de natureza. Falo de outra coisa, sutilmente ainda que profundamente distinta, livre de moral, muito próxima da infância.

28/01/2009

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