Há algum tempo postei parte de um trabalho em que falava sobre a magia renascentista e sua relação com a ciência atual. Disse, então, que se tratava de um trabalho extenso e que não postaria tudo, apenas um fragmento para dar o que pensar. Pois bem, curiosamente esse é um texto muito lido aqui, embora ninguém comente. Não sei se alguém parou pra pensar, se só usaram o copy & paste ou nem isso, mas resolvi postar mais um fragmento aqui. Não é conclusivo e, de fato, está longe de ser, mas coloca mais algumas questões pra se pensar. Talvez eu poste mais fragmentos em breve.
Segue:
Segundo Cassirer, a solução que Paracelso apresenta à questão da relação do objeto e do ser que conhece é dizer que o ser que conhece só pode fazê-lo na medida em que já traz dentro de si a fonte e origem dos objetos: “Mal podríamos recibir y albergar em nosotros la luz natural, si ésta no tuviese em nosotros mismos su fuente y su origen” (CASSIRER, 2004, p. 245).
Só podemos conhecer porque os fenômenos que se apresentam na natureza já estão dentro de nós. Com essa definição, no entanto, não fica claro como o ser que conhece recebe essa luz natural: se já nasce com ela, criando uma relação de aproximação com o conceito platônico de mundo das idéias ou seria obra se um ser superior, Deus.
O espírito humano é concebido como imortal e, portanto, se fosse possível conhecer o próprio espírito, nada seria impossível ao homem. “Pero como la ciência no há alcanzado todavia el grado de madurez necessário para poder apoyar o guiar este postulado, es la mística la única que, em última instância, puede aplacar la sed de unidad del conocimiento” (CASSIRER, 2004, p. 246). Aqui o autor adverte dizendo que na medida em que a ciência ainda não alcançou uma maturidade que lhe permita responder à questão da unidade do conhecimento, ou seja, da relação que existe entre o objeto e o ser que conhece e todas as questões que surgem desse problema e que, neste caso, só se pode apelar para a mística (Deus) para responder de maneira satisfatória a esta questão.
Trabalhando com o pensador Girolando Fracastoro, Cassirer mostra que o mesmo rejeita a idéia de que podemos conhecer as coisas em si. O que conhecemos é somente sua representação indireta, através de um símbolo sensível. Portanto, ele adota a idéia de que a única fonte segura de conhecimento são os sentidos humanos. Ele nega que a alma ocupe ou exerça alguma atividade própria e independente. Pensar dessa forma é, então, recusar a possibilidade de que o objeto molde o conhecimento, que durante o momento que se dá ao conhecimento seja totalmente integrado a ele, tornando-o passível a esse nível. Pensar isso seria aproximar o conhecimento da loucura, posto que no momento em que se dá, o ser que conhece estaria entregue completamente ao objeto. Corre-se, ainda, o risco de que o objeto se perca totalmente ao dar se a conhecer. E preciso, portanto, manter essa distância entre essas duas formas de entender a forma como os sentidos recebem o objeto.
A visão de Girolando leva a um outro complicador, que de alguma maneira reflete a polêmica desenvolvida até aqui, a saber, que na medida em que a única fonte de conhecimento são os sentidos humanos e a alma não possui atividade própria, esta se transforma apenas num conglomerado de imagens representativas dos objetos sensíveis, onde cada imagem representa um objeto próprio. Cada percepção é a percepção de um objeto particular e cada fenômeno é o fenômeno de um objeto particular. Sendo assim, não há repetição de fenômenos e não há a possibilidade de universalização do conhecimento (por repetição dos fenômenos) ou mesmo a construção de conceitos que possam explicar os fenômenos, de forma que a partir dai, então, não se pode fazer ciência. É necessário pensar em outras possibilidades.
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