Há alguns anos, em 1997 para ser mais preciso, estava estudando Maat Magick e – não vou entrar em detalhes – tive uma conexão muito interessante com o trabalho de Soror Nema, com quem mantinha contato por email e com quem aprendi várias coisas.
Um dia desses encontrei o arquivo com o Liber Pennae Praenumbra, que traduzi na época, antes da Madras publicá-lo oficialmente em português. Muita coisa está ruim e precisa de melhorias. O fato é que é praticamente impossível traduzir um livro “inspirado”, de forma qualquer tradução será, sempre, apenas um apoio ao leitor do original. Como traduzir isto, por exemplo: “The pylons of the ages are unshaken, firmly are they Set”? Literalmente? E ignorar a óbvia alusão ao deus Set? Optei por Set.
Por fim, recomendo a leitura do original, bem como das “notas e comentários” da scriba, tratando de detalhes, da qabalah e da interpretação do texto. Tanto isso quanto os rituais podem ser encontrados em seu livro, Maat Magick.
Segue:
No Akasha-Eco isto é inscrito:
Pela mesma boca, Oh Mãe do Sol, é suspirada a palavra e o néctar recebido. Pela mesma respiração, Oh Contrapeso do Coração, é o manifesto criado e destruído.
Mas há um portal, embora pareçam ser nove, Mímico dançarino das Estrelas. Quão formosa tua teia e tecido, a-reluzente no fogo-escuro do espaço!
Os dois que nada são te saúdam, Chama Negra que move Hadit! Quanto menos Um cresce, mais Pra-NU se manifesta. Fale a nós agora, as crianças do tempo-por-vir; declare tua vontade e concede nos teu Amor!
Falou então Aquela que Move:
Eu derramo sobre vocês, Crianças de Heru! Todos vocês que amam e guardam a Lei, Nada guardando para si mesmos, são a-bençoados. Vocês tem procurado os pedaços espalhados de Nosso Senhor, incessantemente para montar tudo que tem sido. E no Reino dos Mortos vocês produziram dos Mortos o Iluminado. Vocês deram à luz e O alimentaram.
Vossa Terra de Leite deve também ter o mel, deixado cair como orvalho pelo Ginandro Divino. O prazer e deleite estão no Trabalho, o Todo excedendo as Partes juntas.
O Senhor das Partes é colocado em seu reino, como pela Besta e pelo Pássaro. A terra do Sol não é aberta às Crianças. Atenção à Criança Eterna – seu Caminho flui livre, adaptado à Natureza de sua existência.
Uma Voz Gritou no Eco de Cristal:
Que significa essa demonstração? É o Tempo em Si Mesmo esperado? O Falcão voou sessenta e dez em Seu trajeto acumulado!
Ela sorri, linda como a Noite:
Observe, Ele abre as pontas de Suas asas ainda em vôo, banhando e agitando a Luz Dourada sobre os corações dos homens. E em que Ele voa, e por que meios? A Pena e o Ar são Seus para cavalgar, para suportá-lo sempre em seu IN-do.
Os pilares das eras são imutáveis, firmes eles são Set. O Dia do Falcão está amanhecendo, e verá sua devida medida segundo as Leis de Tempo e Espaço.
A Voz então falou:
Então a Visão falhou? Eu Os observo deformados, pensando em Ti como Quem Tu Não és?
Ela dançou e girou, espalhando a luz das estrelas em sua risada silenciosa.
Eu Sou Quem Eu pareço ser, às vezes, e então novamente Eu visto um véu triplo. Não se confunda! Acima de tudo, prevalece a Verdade.
Eu sou a Ilimitada. Quem lá está para me dizer não, para dizer, “Você não deve passar”? Quem realmente pode dizer, “Seu tempo ainda está por vir,” quando o próprio Tempo é meu principal servo-criado, e Espaço o Major-domo de meu Templo?
De fato, Oh Voz do Akasha, Eu sou os meios pelos quais você fala. Pela mesma boca que respira o Ar, despeja palavras de dúvida. Então em silêncio, Me conheça. Pois Eu venho com propósito desta vez, para auxiliar os Amantes do Falcão a voar.
A Palavra de Vôo
Quem hesita no Vôo deve por isso cair: a grandeza dos Deuses está no IN-do.
Quando pela primeira vez vocês voaram, Amados de Heru, quebraram a concha que longamente os protegeu. Sobre as Asas da Vontade vocês se aventuraram, ganhando vigor e força vocês voaram. Vocês ganharam todo o conhecimento do Reino Emplumado, pelo que se tornaram perfeitos como o Sol. Todos os amigos e mestres se tornaram irmãos.
O Cisne real, a Garça e a Coruja – o Corvo e o Galo lhes ajudaram. A Beleza do próprio Falcão foi concedida, as virtudes do Pavão, o Colibri e Pombo. A Águia revelou sua natureza interior e seus mistérios – observem, vocês testemunharam como, com seu Leão, ela se tornou o Cisne. E o Íbis do Abismo mostrou o Conhecimento.
Vocês voaram, Oh Reis e Eremitas! E voaram mesmo agora, dentro do encanto curvado de NU. Mas há aqueles dentre vocês, e abaixo de vocês, que laçariam suas asas e os arrastariam do céu.
Olhem bem fundo! Julguem seu Coração corretamente! Se vocês são puros, ele não pesa mais que Eu. Isto não os trará para dentro do Abismo. Pois Ouro é Luz/Leve, mas Chumbo é fatal quando em vôo – observe suas próprias profundidades, em Verdade e em auto-conhecimento.
Se algo te impede, é teu feitio. Observe agora este ensinamento dentro do Templo.
Assim dizendo, Aquela-Que-Move assumiu a forma da grande Chama Negra, crescendo do tronco central e ondulando dentro do Vazio. As Crianças de Heru observaram em silêncio, e escutaram Suas palavras formarem-se em seus corações.
Observe! Esta lente de Estrelas se tornando Espaço frente a vocês – os homens a nomearam corretamente como Andrômeda. Através delas fluo para a Lua do Cão sagrado, e dali a Ra, e dali a vocês, Oh Sacerdotes.
Vocês não devem ficar satisfeitos enquanto no Reino, mas lutar e assim exceder o que é feito. Em Amor da Dama do Norte, e em Vontade do Príncipe do Sul, fazei que cada coisa seja. Na força da Estrela de Sete-raios devem compreender a Besta. E desde HAD do Coração se deleitem na tua querida estrela-arcada.
Faça tudo isto, e então, vá além. Abandone qualquer coisa que possa te distinguir de outra coisa, sim, ou de não-coisa/na-da (no-thing, no original). Se caires em armadilha, deixe teu manto-de-penas a-balançar em sua mão e seja invisível e nua para além!
Mas agora! Como sacerdotes dentro do Templo vocês estão aqui, como Reis, e Guerreiros, todos Magos. O Caminho está na Obra.
O Um Escondido do Abismo agora dá os dois onde é forjada a alta Alquimia: suportando a Terra está Chthonos – aprenda bem, e todos as amarras se soltarão para a Obra da Vontade. Acima do Espirito, lá está Ychronos, cuja natureza é duração e a morte disto.
Os dois são um, e formam a essência do Reino. Quem os domina é Mestre do Mundo. Eles são as chaves completas da Transmutação, e chaves da força dos outros Elementos.
Os Guerreiros-Sacerdotes receberam as Chaves, e as colocaram dentro de seus robes, para mantê-las bem ocultas acima de seus corações. A Chama Negra dançou e decaiu, se tornando pequena, uma pena, emplumada e pontiaguda. Não tendo nada sobre o que escrever, um dentre os Sacerdotes veio à frente, e colocou a pele de seu corpo sobre o altar como um pergaminho vivo.
Aquela-Que-Move escreveu sobre ela uma Palavra, mas não colocou diante eles. Em paciência esperaram os Reis e Eremitas, assegurando a completa Compreensão final.
A Pena cresceu outra vez, arredondada em suas margens, tornando-se perante seus olhos o Yonilingam. Veio a imagem do Antigo Baphomet, O Chifrudo, que falou:
Há tempos vocês sabiam a Chave dos Dois-em-Um unidos. Vocês viveram e amaram completamente como NU e HAD, como PAN e BABALON. O Mistério de minha própria imagem vocês também conhecem, como era uma Verdade para as antigas Ordens do Leste e do Oeste.
Bipartida tem sido a Raça dos Homens em sua época. O Pai e a Mãe fizeram uma Criança. Eu sou a mais antiga das Crianças, verdade – mas agora o jovem ascendem para Seu Dia.
A natureza da verdadeira Alquimia é que isto muda não só a substância da Obra, mas muda então também o Alquimista. Vocês cuja Vontade é Trabalhar por esse meio, observem minha imagem inversa, e considerem bem seu significado para tua Tarefa.
A Demonstração da Imagem
De fora do Yonilingam soprou uma Nuvem, violeta e lampejante. No coração nublado um som surgiu, vibrando macio, preenchendo toda parte.
Adornada e reluzindo luzes-arco-íris das asas, pairou no meio uma humilde ABELHA. Listada de ouro e marrom, suavemente peluda e encurvada na forma, brilharam seus olhos sobre os Sacerdotes e Reis reunidos.
Falou então Aquela-Que-Move fora da névoa circundante:
Isto é o símbolo da Obra-por-vir, o Grande Ginandro em sua forma Terrestre. O Mago deve crescer por sobre a ABELHA enquanto o Aeon se desdobra, um líder e um sinal sobre a Raça dos Homens.
Que então nos mostra a ABELHA de sua natureza?
Observe, isto não é masculino nem feminino no singular. Trabalha de dia em vôo constante, um fa-zedor sem ego, cuja vontade e Vontade da Colméia são apenas uma.
Coleta o néctar da flor, voa para a Colméia e lá, em pura Com-Unhão, faz seu corpo Transmutar.
O néctar agora é mel. Abelha a abelha, é transferido, falando todos os Mistérios da Colméia de e para cada boca. Pela mesma boca que primeiro coletou, é o mel consumido, a Alquimia secreta dentro dos Centros tornando Prata em Ouro.
A Colméia agora vive, imortal. Com rainha e trabalhadores, zangões e operárias, soldados e madrastas – todos são um. Em constante renovação da vida, a Colméia respira como Um Ser – pois realmente é isto. Na Vontade da Colméia está preenchida a Vontade da Abelha. Cada uma em seu lugar, as Abelhas trabalham sua Vontade em ordenada harmonia.
A imagem desaparece. Agora a equilibrada Pluma se move numa dança elegante, abrindo as longas asas, tomando a forma do escuro Abutre.
Mas saibam, Oh Crianças do Falcão, um Homem não é uma Abelha. Ele pode se beneficiar desta imagem, para aprender da Sabedoria da Obra. Observe em Mim outra imagem para instruir teu coração.
Ergueu-se ante seus olhos a Torre do Silêncio, em que os Amantes do Fogo depositam seus mortos.
A forma do Abutre desceu suavemente, e comeu a carne dos cadáveres, até o osso. O vento uivou, desolado, neste lugar medonho, agitando as mortalhas sobre os esqueletos de marfim.
Silenciosamente, O Alado olhou, o bico sujo de sangue. Dentro dos olhos de cada Sacerdote lá reunidos, seu olhar pernicioso procurou. Em paz perfeita eles observaram sua busca, pois cada um, como Guerreiro, tinha feito da Morte um irmão. Então deliberadamente, ele abriu suas asas, pegou o vento, e decolou daquele lugar.
A Entrega da Palavra
Eternidade então reinou, Infinito o véu que penduraram sobre eles.
Em Algum Lugar, algum dia, o véu se abriu por um momento, e Aquela-Que-Move passou. Mais atrativa que qualquer mulher mortal havia sido, Ela irradiava um brilho de pérola e ametista. Bem dobrado linho era Seu vestido, cingido em ouro e prata, e em Sua cabeça, um nemyss de estrelado azul. Sua coroa era uma única pluma, ereta, e em suas mãos o Ankh e o Bastão da cura.
Sobre cada Guerreiro-Sacerdote ela se moveu, os abraçou e os beijou. Então, pousando no meio, Ela falou como um colega de mesmo nível.
“Todos vocês que praticam a Alta Arte, escutem. Nada deve haver escondido de tua vista. Todas as formulas e Palavras vocês devem descobrir, sendo iniciados por aqueles que Trabalham para ajudar a Lei da Vontade.”
“Vocês trabalham bem em tudo que tem sido dado; sobre a Árvore da Vida são vocês encontrados. No Tetragrammaton vocês continuaram; tudo dado pela Besta vocês praticaram corretamente. Vocês tornaram-se Hadit, e NU, e também Ra-Hoor-Khuit. Como Heru-Pa-Kraath vocês continuam em silêncio. Vocês conhecem PAN como amante e como forma divina, e BABALON é noiva e Seu Ser.”
“Vocês engendraram as forças de Shaitan, extraindo o nexo do noventa e três para trabalhar sua Vontade. Separação para o prazer de União vocês conheceram, e Alquimia é Ciência de sua Arte.”
“Para aqueles que sabem, e vão, e ousam, e se mantém em silêncio, isto agora irá além.”
“Na morte está a Vida – agora como sempre tem sido. A Morte Querida é eterna – guarde isto. O Ego, filho de Maya, deve ser assassinado no momento do nascimento. O Olho que não dorme deve manter vigília, Oh Guerreiros, pois a ilusão é auto-gerada.”
“Observação constante é o primeiro Ato – o Abismo é cruzado em minutos, todos os dias.”
“Se vocês podem dançar a Máscara, então mascarem a Dança. Seleta deve ser a Arte nesta instrução; e equilíbrio no Centro seja mantido, ou senão dareis inusitada Vida a tuas próprias criações. Trilhe cuidadosamente este caminho de Trabalho, Mago. Uma ferramenta, por Vontade criada, faz um mau mestre.”
“Agora na Missa, a Águia deve ser alimentada com o que ajudou fazer. Pela mesma boca que ruge sobre a montanha, é dada a palavra-ato de Nenhuma Diferença.”
“E quando a Vontade declara, deverá se agrupar à ABELHA para somar o ouro ao vermelho e ao branco. A essência de Shaitan é Néctar aqui, o Templo é a Colméia. O Leão é a Flor, agora é o momento, a Águia invoca a natureza da ABELHA.”
“Dentro da câmara-tripla do santuário é o primeiro néctar colhido. A convocação do bastão de PAN desperta a felicidade do portal se abrindo. E da terceira e mais íntima câmara, em prazer supremo, o presente de Sothis, hidromel quintessential, reunidos para unir lágrimas-de-Águia e sangue-de-Leão.”
“Solve et Coagula. Com-Unhão por esse meio, de que o próprio Cosmos dissolve, e re-forma por Vontade. E saiba, se de qualquer forma pode ser ordenado no Reino, que três ou mais é zero, assim como as antigas verdades.”
Então se agitaram os Guerreiro-Sacerdotes, e de seu número, um sem nome se adiantou.
“Nós a conhecemos, Senhora, embora Teu nome não tenha sido pronunciado. Mas diz agora – o que foi escrito na pele do homem? Qual é a palavra que Tu destes?”
Ela sorriu e tirou de seu manto um pergaminho ressecado, dobrado como uma Estrela. Desenrolando, Ela o virou, para que todos pudessem ver.
IPSOS
“Que é esta Palavra, Oh Senhora – como pode ser usada?”
“Em sabedoria silenciosa, Rei e Sacerdote-Guerreiro. Deixe a escritura brilhar e deixe a palavra ser oculta; a escritura é iluminação suficiente para velar a face.”
“Esta é a palavra do vigésimo-terceiro caminho, cujo número é cinqüenta e seis. Esta é a Permanência do não dito, em que a Dança da Máscara é ensinada por Mim. Tahuti observa sem o Macaco; Eu sou o Abutre também.”
“Este é o Cálice do Ar e o Bastão da Água, a Espada da Terra e o Pantáculo de Fogo. Isto é a ampulheta e a serpente mordendo a cauda. Isto é o Ganges se tornando Oceano, o Caminho da Criança Eterna.”
“Isto nomeia a Fonte de Minha Própria Existência – e da sua. Isto é a origem desta transmissão, que canaliza através de Andrômeda e Set. Que raça de deuses fala aos homens, Oh Queridos/Cheios de Vontade (Willed, no original)? A palavra deles é ambos o Nome e o Fato.”
“Isto é para teu mantra e encantamento. Falar é efetuar certa mudança. Seja prudente em seu uso – pois se a verdade for conhecida no exterior, poderá talvez levar os escravos à loucura e desespero.”
“Apenas um verdadeiro Sacerdote-Rei pode conhecer completamente, e permanecer em equilíbrio em seu IN-do (GO-ing, no original) vôo. Isto é tudo que falo por hora. O Livro da Ante-Sombra da Pena está completo. Faze que tu queres é o todo da Lei. Amor é a lei, amor sob vontade.”
# Donat per Omne
# Scriba – Nema
# Sol in Capricornus
# Anno Heru LXX
# Cincinnati, Ohio
Um Comentário
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Se metendo na minha área! ;)
Bom, pra ser honesta, não li o texto inteiro por pura falta de tempo, você sabe por quê. Então, não vou comentar o texto, mas a questão da tradução. Sempre acreditei ser impossível passar 100% do texto de partida pro texto de chegada, mas acredito, sim, que um bom tradutor (com tempo decente disponível – vc conhece os prazos) consiga soluções bem interessantes para alguns desses casos. Se não, sempre teremos as N. do T., o que pra mim, só prova que existem coisas intraduzíveis, já que são sempre último recurso mesmo, pois ferem o princípio da invisibilidade do tradutor.
Shakespeare, para mim, é intraduzível, por exemplo. Podemos seguir a métrica, as aliterações, o ritmo, os sentidos… mas o impacto nunca será o mesmo. E impacto é parte essencial de qualquer arte.
Só digo isso: é infinitamente mais difícil do que parece. (Além disso, ainda existem as questões linguísticas e culturais, nas quais não vou entrar.)
Saudade de traduções não-técnicas… :(
Beijinhos!