Achei o rascunho de uma prova de Filosofia da Linguagem, um dos meus assuntos preferidos, que pretendia (pretende) comentar uma passagem das Investigações Filosóficas, de Wittgenstein.
O conteúdo tem muito a ver com as coisas que posto por aqui, tanto com os textos mais metafísicos, que aparentam ser “viagens”, quanto com os posts sobre arte, ocultismo e derivados, mas também, dado o trecho escolhido, pode ser estendido para a arrogância humana em relação à capacidade de pensar dos animais ou mesmo à negação do divino, implícito em sinais que muitas vezes não reconhecemos.
Poderíamos discutir, a partir dai, a necessidade de se acabar com a linguagem, pregada por Artaud, ou entrarmos na discussão da Qabalah, onde através da Gematria as palavras são associadas umas às outras, indicando que há, sim, uma conexão entre elas e que não é tão casual quanto parece, ou ainda entramos no uso do vocabulário bárbaro no ocultismo e seus efeitos, que existem, quer queiram, quer não.
Esse assunto é complexo, é claro, e essas são apenas sugestões de possíveis discussões. Podemos levantar outras tantas, mas o fato é que não me cabe aprofundar em posts aqui no blog. Ninguém lê o que escrevo, imagine se for entrar nesse nível… Enfim, são apenas algumas provocações que cabem aqui.
Segue o texto com algumas poucas adaptações:
Às vezes se diz que os animais não falam porque lhes falta uma certa capacidade mental. E com isso se está querendo dizer o seguinte: “Eles não pensam, e é por isso que eles não falam”. Mas, eles simplesmente não falam. Ou, melhor dizendo: eles não usam a linguagem, se excetuarmos as mais primitivas formas de linguagem. Dar ordens, fazer perguntas, narrar e bater-papo são coisas que pertencem à nossa história natural tanto quanto andar, comer, beber e jogar.
- Wittgenstein, in Investigações Filosóficas
Começo comentando a “falta de uma certa capacidade mental”. Essa “falta” me parece, na verdade, uma “diferente capacidade”, que nos leva, como indicado no final do parágrafo, a uma forma de comunicação primitiva. Dito isso, fica evidente o peso de afirmar que não pensam.
Wittgenstein chama a atenção para o que está implícito quando escreve que estão “querendo dizer”, indicando que isso se trata, simplesmente, de uma afirmação feita por quem não entende a linguagem em questão, bem como não entenderia a linguagem de outros seres quaisquer.
Se imaginarmos um brasileiro, por exemplo, afirmando tal coisa, podemos imaginar que essa pessoa não entenderia também um babilônio falando. Não entenderiam o que está sendo dito, é fato, mas também não iriam inferir que o babilônio não pensa, posto que fala. Inferem apenas por analogia que o que fala, embora diferente, é uma linguagem.
Acostumados que estamos com a fala, nos habituamos muitas vezes a pensá-la como única forma de comunicação, não atentando para todas as sutilezas que envolvem a comunicação, tais como olhares, sinais, movimentos e até mesmo vibrações.
Quando pensamos, pensamos em palavras. Podemos imaginar objetos, mas pensamentos diversos, sobre decisões, fatos rotineiros, enfim, todo esse leque de possibilidades é pensado em palavras, de onde associamos o pensar à palavra.
Embora primitiva, há comunicação entre os cães, há uma organização básica. Podemos concluir, com base naquela afirmação, que pensam primitivamente, mas se há comunicação, temos também de admitir que pensam, ainda que basicamente ou, caso não concordemos com o pensar, teremos que admitir que a linguagem não está ligada ao pensamento.
Wittgenstein indica em seu texto que concorda com o uso de uma forma primitiva, ou seja, que pensam. Nossa história natural, no entanto, como afirma o filósofo, contém em sua natureza o uso da linguagem, da forma como conhecemos, mais complexa que a canina, sem dúvida.
Posso, porém, após ver um objeto qualquer cujo nome desconheça, trazê-lo à memória posteriormente, formando sua imagem. Se ouvir seu nome ao acaso, não me ocorrerá uma associação, como me ocorreria ao ouvir uma palavra comum, como maçã, por exemplo. Nesse caso eu teria quase que imediatamente formada a imagem da fruta.
Fica evidente, então, que ouvir uma palavra desconhecida e sem sentido não implica em ausência de pensamento. Isso nos coloca, em certo nível, num ponto onde somos similares aos cães: podemos ser treinados. Assim como é possível treinar um cão para reconhecer palavras e sinais, os humanos são treinados em situações e em associações. Se não reconhecemos uma palavra ou um objeto, é porque ainda não fomos treinados para reconhecê-los.
Aprendemos a reconhecer uma maçã assim como aprendemos a entender “sim” e “não”, reconhecer cores e utilizar números. Aprendemos os nomes das coisas e, no entanto, os nomes não são essas coisas. São, talvez, a forma de identificação que fomos treinados a usar.