01 May

Quatro mundos em um grão de areia

To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.

- William Blake in Auguries of Innocence

Começo citando os versos de Blake em inglês por falta de versão apropriada em português. As que encontrei eram adaptadas e não diziam necessariamente a mesma coisa do original. O verso mais importante para o que quero, no entanto, é o primeiro: “Ver um mundo em um grão de areia”, e esse não é um problema.

Gosto de Blake desde a primeira vez que o li, foi imediado. Alguns autores conquistam com o tempo, outros depois de páginas. Blake o fez nos primeiros versos de “O matrimônio do céu e do inferno”. Há alguns dias pensei em escrever este texto, mas decidi postar outro fragmento.

As poucas pessoas que me acompanham aqui sabem do meu interesse em acasos e coincidências e que, já deixei claro, acho que são bem mais do que isso. Pois bem, há alguns dias comecei a estudar, ainda superficialmente, o Grande Grimório, também conhecido como Le Dragon Rouge, ou O Dragão Vermelho. Acontece que o nome desse Grimório é também o nome de um filme (é, aquele, com o Ralph Fiennes) onde, por acaso, aparecem aqueles versos de “Auguries of Innocence”

Como sou uma criatura que “trabalha em rede”, leio e estudo outras coisas simultaneamente e não acredito que uma atrapalhe a outra. Ao contrário, acho que formam bases mais fortes e, em alguns casos, como estou vendo aqui, fazem bastante sentido, além de lançar possibilidades ao ar. Uma das bases para meu estudo das Qliphoth é o livro “Climbing the Tree of Life”, de David Rankine. Como se trata de um livro introdutório/intermediário de Qabalah, o autor precisava explicar os quatro mundos, o que fez da maneira usual, e depois usou aquele verso para sugerir uma meditação sobre sua explicação. Nada mais apropriado!

Quem já leu um pouco do assunto sabe que é complicado entender a idéia dos quatro mundos. Sabe também que varios autores em geral dão uma passada rápida e não se aprofundam. No começo isso me parecia algo como “um dia você vai entender”, depois comecei a achar que também não entendiam muito e acabavam fugindo. Não foi o que aconteceu ao ler Rankine.

Não vou explicar o que são os quatro mundos, apenas listá-los. Se você precisar saber, pode sempre encontrar as explicações pela net ou em livros. São “enlatadas”? Sim, várias são, mas serão úteis se você meditar a respeito, talvez mesmo usando o modelo do grão de areia abaixo.

Os quatro mundos são:
- Atziluth (Olahm ha-Atziluth) – Mundo Arquetípico
- Briah (Olahm ha-Briah) – Mundo Criativo
- Yetzirah (Olahm ha-Yetzirah) – Mundo Formativo
- Assiah (Olahm ha-Assiah) – Mundo “Feito” (manifesto)

Imagine isso: em Assiah você vê um grão de areia apenas, mas em Yetzirah, um nível acima, o grão de areia é uma combinação de elementos químicos em estado sólido. Continuando, em Briah, são os átomos específicos, estruturados para sua formação. Em Atziluth, por fim, no topo de tudo, são milhões de átomos apenas, um universo em miniatura, um microcosmo.

Usando o processo inverso, de cima para baixo dessa vez, o exemplo de uma moeda: em Atziluth são milhões de átomos, assim como todos os outros, incluindo você. Em Briah esses átomos se conectam, formando prata, níquel, ouro ou cobre. Em Yetzirah é uma liga de metal estampada e, por fim, em Assiah é um objeto feito pelo homem, usado no comércio, ou seja, a forma como se manifesta.

Esses exemplos são muito claros – pra quem sabe do que estou falando – e incentiva ainda a meditar sobre o resto do que nos cerca. A dualidade, atacada por Blake no fragmento do post anterior, é, por tabela, atingida aqui novamente.

Se alguém quiser o livro citado, pode procurar em livrarias gringas (óbvio que aqui não vão achar). A editora é a Avalonia, mas esse é só um detalhe. Quanto ao Dragon Rouge, existem várias edições por ai, de qualidade duvidosa, mas como se trata de um trabalho muito antigo, existem algumas versões online também.

Links relacionados:

  1. Paisagem a quatro mãos
  2. O melhor dos mundos

Comente

Seu email nunca será exibido. Campos com * são obrigatórios

*
*