Confissões, pt. IV
Quando era criança, criança mesmo, pré-escola, ia muito para o interior, quando minha mãe visitava minha tia. Era a maior aventura possível. A cidade, que fica a 1h30 de SP, parecia não chegar nunca, tal era a relação tempo x espaço na época.
Meus primos colecionavam diversas coisas, de chaveiros a calendários. Certa vez, vendo a coleção com minha mãe e minha tia, encontrei um com a imagem de Cristo crucificado e algo me chamou a atenção ali. Pedi se podia ficar com ele e como se tratava de um repetido, me deram. Me recordo dos comentários que fizeram sobre eu querer a imagem de Cristo, sobre querer proteção etc. Na verdade o que ninguém sabe até hoje é que esse foi o último dos motivos para o pedido. O que me chamou a atenção, de fato, foi o crânio que havia no pé da cruz.
A associação do crânio com meu interesse nunca foi feita por ninguém. Essas “esquisitices” só começaram a ser notadas depois. quando comecei a folhear enciclopédias e livros recortando esqueletos (sim, estragava mesmo) e colar na parede, ou quando comecei a me interessar por música e suas bizarrices. Já disse aqui que a primeira banda que me interessou foi o Kiss. Jamais vou esquecer a primeira impressão que o clipe de “I love it loud” me causou: escuridão, maquiagem, olhos brilhantes, o peso da bateria de Eric Carr, Mr. Simmons cuspindo sangue… Eu tinha nove anos.
Dai pra frente foi a complicação: desde meus pais querendo me levar a psicólogos sem poder pagar, tentando conseguir um público, ao momento em que descobri que não estava em uma consulta normal, mas em um psiquiatra. Nessa época eu era uma criaturinha bem estranha para os padrões. Me vestia de preto, calças apertadas, tinha o cabelo comprido… e onze anos.
Se for escrever detalhes demais, mato vocês de tédio e não termino nunca, então vou dar alguns pulos na cronologia. O interesse específico por metal durou muitos anos. Depois de muito tempo ouvindo só isso, apareceu um festival de bandas de um colégio, o São Bento, no centro de SP. Eu tinha 17 anos e uns colegas me chamaram pra tocar pq eu tinha uma guitarra. Seria uma música nossa – horrível! – e um cover. Um colega escolheu o até então desconhecido (para mim) The Sisters of Mercy. Comecei a ouvir a música para poder tocá-la, mas comecei a ouvir o resto da fita tb e cai de amores pela banda e comecei a expandir os interesses.
Dai a chegar ao saudoso espaço Retrô foi um pulo. De chegar ao Retrô, ver o Martin (Simbolo) tocando e descobrir o EBM, outro pulo, de ouvir Skinny Puppy e descobrir o Industrial, outro. Os anos foram passando, os pulos acontecendo, meu casamento, a misantropia aumentando mais e mais, a vontade de ficar calado atingindo todos à minha volta, o divórcio.
Com mais de 30 anos comecei a frequentar uma psicóloga, a fazer “terapia”, como gostam de chamar por ai. Fui por mais de dois anos e hoje tenho dúvidas se tive algum progresso de fato. O que sei é que lembrei de lixo demais que estava sob o tapete e agora tenho que lidar com isso na memória. Vão falar “ah, então fez progresso”, mas duvido, afinal, quem é que sabe o que foi que lembrei e o que é que tento esquecer novamente, huh?
Nessa época comecei a me forçar a criar novos hábitos, comprar roupas de várias cores, não mais usar só preto (não uso mais só preto, é verdade), tentar ter um comportamento mais leve, enfrentar menos as pessoas, guardar um pouco mais do que penso só pra mim. Comecei a ser mais sociável, tentar parar de ser julgado por quem não tem moral pra isso. Tentei ser comum. Resumindo: comecei a me violentar pois é isso que se espera que alguém fora dos padrões faça. Em contraste com os vários anos de uso de substâncias diversas e ilícitas, comecei a comer bem, com horários determinados, ir à academia, parei de fumar. “Ah, foi uma evolução”, dirá você. É claro que sim, pois é uma evolução dentro da SUA ótica, do SEU ponto de vista, de quem adora julgar os outros. Da ótica de quem prega a diferença, mas de fato espera a homogeneidade. Te peguei, idiota?
Nos últimos dias me peguei olhando as roupas que tenho guardadas, outras que não tenho, as coisas que eu gostaria de ter vestido quando novo, feito, dito, escrito. Na época eu datilografava meus pensamentos e xerocava para alguém que pedisse. Hoje largo aqui, big deal. Só mudou a mídia. O conteúdo tá ali, é o mesmo, gritando pra ser respeitado, para ser aceito. Aquele texto da Clarice Lispector que postei há dias, Pertencer, era por isso. O erro é achar que isso é de fato possível, pois não é. Para alguns, pertencer é só causa de dor. O caminhar apenas é que é possível.
Durante esse tempo conheci tanta gente que não faço a menor questão de rever. Alguns só queriam pertencer também, mas a qualquer coisa, era só pertencer. Outros, como eu, também queriam, mas sequer sabiam a que, só tentavam. Hoje percebo que pertencer ao mundo, como sou, como uma peça fundamental, sem precisar ser moldada, apenas sendo a peça, é que eu queria.
Quando olhei para as roupas, pensei nos piercings que usava e removi, nos que nunca coloquei e nas várias tatuagens. Me parece claro que esses detalhes estabelecem, em certo nível, a identidade para o público. Ao pensar que hoje os pais levam os filhos até a galeria e compram camisetas e acessórios para eles e que eu tinha que sair escondido para ir até lá, que fiz minhas primeiras tatuagens escondido e fui chamado de animal por conta disso, que tomei um soco no olho quando furei a orelha aos 15 anos, tenho certeza que fazer as coisas do meu jeito era mais divertido, rendeu mais histórias para contar. Nunca pedi aprovação, fui e fiz.
Daqui alguns anos essas crianças e adolescentes estarão vestindo cores, ouvindo pop, e eu estarei pensando nos livros que li e que não li, nas palavras que não disse, nas outras que disse com sentido e nas que disse só para machucar. Estarei pensando se pertenço ou não a algo. Estarei vestindo preto – ou qualquer outra cor – e não estarei me violentando. Estarei inquieto, buscando pequenos prazeres, perdendo tempo tentando racionalizar certas coisas que deveriam ser apenas… coisas e, ai sim, me violentando.
Percebo hoje que é sempre fácil pertencer a algo, a alguém. O difícil é pertencermos a nós mesmos o suficiente para nos aceitarmos como somos, pela natureza que temos, sem nos deixarmos moldar ou querermos moldar os demais.
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- Publicado em:
- 28.07.09 / 1am
- Categoria:
- Pensamentos
- Tags:
- Confissões, crueldade, desenvolvimento
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