A inquietude que move e sufoca

Acho que os rabiscos mais íntimos que deixo aqui são os das madrugadas. A noite faz as pessoas íntimas, cúmplices. Faz as vítimas e os algozes, por isso as pessoas “normais” temem a noite. Algumas “anormais” também, mas por outros motivos: as primeiras temem o incomum, as últimas temem se expor, mostrar o quanto estão deslocadas.

Desde novo pertenci a esse último grupo, mas de uns anos pra cá tenho tentado “corrigir” isso, aproveitar o dia, me alimentar do sol como fazem os gatos em minha cama pela manhã, quando abro as janelas. Vejo como se esticam, rolam, adoram a luz que os aquece. Eu, por outro lado, entendo apenas parcialmente, com a dúvida de quem não sabe se é apenas uma necessidade física ou se há mesmo um certo prazer naquilo. Simplesmente não entendo.

A mim o calor apenas incomoda, prefiro o frio, que também é algo íntimo. A luz, quando não está em meus olhos, não faz diferença. Deixo sempre acesas, mas como li uma vez, se Deus disse “faça-se a luz”, é pq estava também no escuro, e existia lá antes de mais nada.

A noite, além de mais íntima, nos permite ver os astros, que se escondem durante o dia. Exceto pela estrela da manhã, Venus, Lúcifer, que está tão próxima do Sol e nem sempre pode ser vista a olho nu.

Citei as estrelas pois em algum momento lá atrás a astrologia me interessou. Pessoas perguntam “você acredita nisso?”, mas não é questão de acreditar, é de ver sentido, perceber sutilezas. Muita gente fala da teoria do caos, o papo da borboleta que causa maremotos, mas não pensa na astrologia da mesma forma. Deveriam pensar por esse viés, faria sentido. Voltando: em algum momento me interessei, talvez para entender o que era sofrer pela “influência má dos signos do zodíaco”, como diria Augusto dos Anjos.

Hoje vejo que não é nada daquilo, não é um sofrer, como também não é um gozar. É um entender e sentir, e ai é que se torna íntimo, pois é difícil fazer isso em público. É preciso confiar e deixar acontecer ou retrair-se. Timidez? Não diria isso. Auto-preservação seria mais apropriado. Acontece que há uma mistura de coisas, algumas dizendo “se exponha”, outras dizendo “cuidado”. Se expor é sempre delicado, mas o cuidado tira o sono, causa conflito, entre o real e o ideal.

Seria esse o motivo de existirem notívagos? Sem sono, expostos à noite, quando poucos podem ver, sendo geralmente outros inquietos. Não sei, sei apenas que é noite, me exponho em palavras, mas ninguém vê onde estou.

Realmente, há uma certa intimidade entre os inquietos, o prazer de uma cumplicidade silenciosa, que não precisa ser exposta, é apenas reconhecida, mesmo que parcialmente. Não falo que todos que estão ai pela noite são notívagos, de forma alguma. A maioria não é e teme a escuridão, saem em busca de adrenalina. Falo daqueles que querem paz, mas nunca a encontram, pois não está em sua natureza. É esse conflito que move, que chama inquietude. A paz é para as criaturas diurnas, as noturnas compartilham a intimidade.


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