29 Aug

A lagarta

O verde se desfaz sob pés ingratos, desaparece o solo, vértebras cortadas por rios e milhares de afluentes. Saltam por sobre o musgo aveludado as veias firmes de tecido sólido, oblíquo em vastas proporções, aparado por dezenas de lâminas naturais, roucas em seu cortar celeste.

Deveras seco seria se suas águas verdes não fossem também seu sangue imerso, imenso, intenso, vivo e perfeito, de anomalias liberto, amoral e complexo.

Ah, como derrama! Fios sóbrios sobre aroma cultivado…

Milhares de universos dissimulam sob os diversos pés e seus corpos listrados, esgueirando-se furtivamente e consumindo as bases macias de fronteiras lubrificadas por óleo e água. Furtivas são as tendências de seus vícios…

Se unem e se tocam, arredondados, cilíndricos, ora coberto de pêlos, ora expostos, pele multicor.

Nada vemos, dispersos que somos.

Não percebo a pequena boca que se abre devorando o corpo que se sustenta, saliva a cobrir o objeto em que se apóia ereta.

Boca pequena, ácida, em atrevida antena.

Pudera me dar ao prazer único, intenso e breve de esmagar a ambos. Faria disso uma explosão tão potente que desfaleceria seco, coberto por seu óbito, sorrindo quando se vê indefesa.

Ora, o toque!

Um tapa, uma foice, um pássaro. Pequenas ou grandes armas, simples ferramentas. O jorrar sadio do branco sal! Tudo isso te aniquila.

Amarela e negra, em ondas senóides, se move enquanto decido teu fim, corada e com a face em chamas por irreversível decisão. Ah, tenha certeza, faça disso tua memória: como você terei outras tantas e decidirei novamente, mas és única sob meu poder limitado, como também são todas as ações. Únicas no momento, diversas no eterno efêmero.

Crisálida não serás, toma o tormento de minha presença!

Transformação… Não, não! Jamais! A decisão é necessária, mas observo…

Vejo teu universo desaparecendo e sei logo que conquistarás outro, rastejando, pois nunca alçarás vôo. Penso em te impedir, certo de poder através de qualquer método e isso me sufoca: tenso que estou, cego por minha certeza, encontro tantas opções que me inflamo de êxito antecipado e jamais saberei qual a melhor forma para meu prazer.

Fugidio é o momento, minha decisão me toma de sobressalto sobre a areia roxa do solo infestado. Os múltiplos enobrecem tua cadela da misericórdia e me enfraquecem. Ah, fossemos apenas dois! Seria simples fazer desse segundo decisivo a nossa Sodoma, eternizada em fogo, desmembrada pelo intenso rio de lava que brota na morada de Heféstos. Milênios nos assistiriam e se perguntariam que prazer houve naquela face hedionda no momento da asfixia.

Tuas cores e movimentos, teus poucos cabelos, a relva que se faz escassa, os traços suaves, longos e perfeitos de tuas mordidas. Não vejo marcas de dentes, como pode? Tua boca não os tem, regada em um reino apostólico. Abraça mais uma vez o galho e caminha.

És horrível, demonstração de desprezo, como as outras milhões que representa. A natureza cruel se redime em seu respeito por ti. Se alimentas buscando a mutação, experiência transformadora – não é óbvio? -, sentença de tua sina, mas a beleza das asas será tirada pela mão decidida que toca o sino, destruindo a simetria do ambiente com ruídos metálicos.

Sino, movimento, sina.

Farfalhos, pequenos ruídos engolfados pela urgência das árvores irritantes, deflorada pela fatalidade gratuita dos ventos molhados. Sequer uma vez questionaram, não lhes foi dada escolha: movem-se pelo sopro. Não seremos nós apenas pequenas tempestades? Ou grãos de areia decolando com grandes tornados?

Ouço uma gargalhada…

Nada, apenas o rufar de galhos dançantes, arrojados, forjados em coleiras e cóleras, livrando o rio de tuas seivas de teu detestável paladar.

Indeciso.

O corpo do astro, perfeito e insólito, sob as pinhas infectas aguarda. Não percebemos seu tempo, suas pequenas sinapses. Vemos, no entanto, sua raiva incontida, nunca encapsulada, manifesta nos gritos da brisa cortante e perversa, cruel em tudo que toca.

Ouço asas.

O esgar é agudo, porém preciso, certeiro em sua visão decorosa. Se aproxima, bicos negros bem abertos, berrando em direção oposta às curvas da estrada cortante, um perímetro afunilando-se em ângulos descendentes, defesa rubra de sua vida determinada.

Em cordeiro te transforma, entregue às farpas longilíneas de penas cruéis.

Ah, minha indecisão!

Acreditei ser maior, terrível, ilimitado quando decidia teu destino. Sim, há poder na escolha, no amedrontar que o olhar diverso toma sobre as Moiras e suas linhas.

O prazer da escolha…

Há poder ainda na decisão. Ah, minha dúvida, mal percebi que enquanto determinava o destino da pequena rastejante eras tu que rias de mim, que brincavas comigo. Ouvi no trepidar das folhas tua risada histérica.

O grande corvo negro, preciso e cirúrgico em seu vôo educado me tirou o brilhante gozo, gosto de esmagar-te, oh verme colorido. Teu sangue verde-escurecido que se mistura às folhas de pêssego alimentará a prole que cresce em alguma floresta católica.

Outros universos se encontram ao meu alcance e neles escolherei voluptuosas lagartas enfermas, envoltas em cordões de seda e tecidos elásticos, vestes nobres, que seja, esperando pela liberdade dos ares enquanto simples e efetivamente rastejam ou adormecem envoltas em um sono que Morfeu ignora.

A lança noturna te afasta de mim, minhas mãos entristecem.

Guardo a violência de meu torque para outro momento, dos quais alguns serão desfeitos, outros levados e tantos ainda cheios de cores e reflexos ameaçadores.

Todos rastejam.

Quem és tu que emana o som infame do sarcasmo por sobre meus ouvidos rasgados?

Ora, dúvida, vejo-te a me abandonar, estou certo? Seria esse o momento tão esperado, o domínio da certeza? Não sei – a dúvida não me abandonou completamente, percebo -, mas sinto o tremer das mãos, o corpo secretando adrenalina, a visão focada, turva, os dentes rangendo e ruindo… Pois bem! Sinto que te encontrei!

Aquele pássaro, sombra escura que te arrastava, passou irônico, quase zombando, perto de meus olhos cegos pela ingratidão de perder-te. Ah, o deleite! Foi então que percebi que o prazer maior da espera não é tirado pela dúvida e pela razão, pelas escolhas e aparências, pelas oportunidades e opções. Não, nunca! O momento é exato e pulsamos em ritmo único com o metabolismo do cosmo, engrenagens úteis, embora únicas. Pulsamos, somos sístole e diástole, contingência e necessidade, prece e maldição.

Estendi a mão tensa e afiada, pregos abertos, cravos empalando o ar em direção à sombra opaca que grita fielmente, informando a todos sua vitória. Abri caminho por sobre os ruídos secos e fiz com que a química da atmosfera se movesse tão rapidamente que um assobio foi ouvido, unificado aos gritos de dor. Todo ruído se fez um naquele momento: o moribundo suspirando em um deserto asiático ou a zebra tombando na savana. Todo ruído foi tua morte, som, tudo foi música naquele instante, atravessado estava em minha lança, soluçando pelo fim abreviado.

O poder infalível da escolha me deu ainda uma opção secreta. Ante todas estava outra que jamais encontraria. Presenteado que fui, vi o verme tomado pelas asas que um dia desejara e as destruí, tomado pela fúria de terem te tirado de mim. Certeiro foi o ódio, a oportunidade que me trouxe o acaso de teu vôo…

E de simples coadjuvante passaste a Rei em meu tabuleiro: através de tua união, percebi que reduzir dois a apenas um me faz maior que a pureza das escolhas matemáticas, ainda que infinitas. Observar uma vida tomar a outra e reduzir ambas a nada me exita ainda mais!

Passaste então ao foco: me fizeste Deus, emanando luz sobre ti da escuridão em que me encontro!

25-26/08/2009

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