Sexta-feira à noite, em casa.
Pensamentos correndo, pessoas saindo para encontrar a noite, ansiedade, momentos curtos. Talvez… Sim, a magia do talvez. Vozes, movimento, barulho, fumaça, luzes. Nada disso aqui. Não agora! Me encontro só, com meus pensamentos, em companhia de minhas dúvidas, questionamentos e de meus gatos. Deprimente, não? Não, nem um pouco. Não se pensarmos que muitos que saem às noites buscam apenas companhia, a que não conseguem encontrar em si mesmos.
Ligo a TV. Desligo. Ligo meu equipamento, e continuo a mexer nas músicas que estão a caminho de vir a público. Me canso, por enquanto. Volto, ligo a TV, procuro um filme, desligo. Volto às músicas. Apago partes que um dia me pareceram boas e hoje parecem apenas barulho. Outras voltam a tomar forma, formar ondas: saws, squares, pulses. Já próximo da meia-noite o barulho incomoda os vizinhos. Ligo o fone, mas os graves provocam dores de cabeça. Preciso de uma pausa, volto à sala, olho a estante e depois de anos pego um livro que me olha: “História do Surrealismo”, de Maurice Nadeau. Abro aleatoriamente, ao acaso, como tanto gostavam.
O nome, a palavra, a imagem. A primeira coisa que vejo, ali, magnética. Sorrio sozinho, sento e começo a ler a página. Está ali, tanto e sempre. Questionamentos, dúvidas, mas a certeza de algo: para mim Nadja será sempre um símbolo. A prova de que a magia existe, prova de que posso me encontrar comigo, em paz ou em guerra, mas sempre haverá o espelho. Está ali.
Querem saber o que dizia? Vos digo. Acredito que não se importarão, que não fará sentido, talvez. Talvez. Certeza e dúvida é o que vejo ali, não direi quando e onde, mas há sentido, sempre.
Com Nadja, eis a antítese do estilo polêmico de Aragon, a tal ponto que se tomou a obra de Breton por um romance, que se lhe atribuiu sucesso enquanto tal. Os fatos relatados parecem, de fato, tão inacreditáveis que se preferiu pensar que foram inventados. Ora, em Nadja nada há de imaginado, tudo é perfeita e rigorosamente verdadeiro. Nadja existiu, muitos a conheceram, seu destino brilhante e lamentável é exatamente como Breton o retrata.
Uma mulher que Breton encontra um dia, por acaso, na rua Lafayete, e que, como muitas mulheres por quem ele se apaixona, o atrai com um par de olhos “que ele jamais vira”. Ela se chama “Nadja, porque em russo é o princípio da palavra esperança, e porque não passa do princípio”. “Quem é você?”, pergunta Breton. “Eu sou a Alma errante.” Parece que ela se encontra sempre e naturalmente naquilo que os espíritas chamam de “estado de vidência”, numa disponibilidade perfeita e constante. Ela conta histórias e as vive: “é exatamente dessa maneira que eu vivo”. Depois dessa primeira entrevista, houve uma sequência, uma cascata de acasos: ela marca encontros, não aparece, mas eles se encontram sempre, Breton e Nadja, em lugares desconhecidos, em horas inconvenientes. Parece que o destino os aproxima um do outro, apesar do que pensem. Suas conversas se desenvolvem numa atmosfera que já não é normal, onde Breton muitas vezes perde pé. O que ela diz sempre parece provir de uma além onde ela vive naturalmente. Tem visões, alucinações que procura partilhar com seu companheiro; vive em outras épocas, em outros meios, com uma precisão supreendente; emprega expressões, irradia imagens que mantém estreita relação com Breton (livro que ele acaba de ler, expressões que usou e ela não pode conhecer etc.). Ela parece exercer uma influência inexplicável sobre as pessoas que surpreende em seus gestos habituais. Desenha estranhas composições repletas de significados misteriosos, escrever frases incoerentes que “lhe causam espanto”: “A garra do leão aperta os seios da vinha”. Escreve Breton:
“Do primeiro ao último dia, tomei Nadja por um gênio livre, algo como um desses espíritos do ar que cetas práticas de magia permitem momentaneamente que se os prenda, mas que não seria o caso de submerter-se-lhes…”
O poeta logo não pode mais segui-la: “eu talvez não estivesse à altura do que ela me propunha…” Ele se afasta pouco a pouco. Nadja fica louca. É presa.
É uma história pequena, cheia de um peso imenso. É a entrada na vida de seres que estão além da vida; é a irrupção dos fantasmas que com naturalidade vêm dar as mãos aos vivos. Loucura? É fácil dizer. E o que é a loucura? Em que a loucura muda alguma coisa nos fatos relatados? Em que explica os inúmeros acasos e a realização das predições por meio de acontecimentos que não dependem de nenhum dos parceiros? Nadja ficou louca a partir do momento em que foi presa? Ou o era antes? Foi Breton que, como lho censuraram, agravou seu estado? Que importa! Para além das aparências, Nadja é um ser que vive doravante em nós, conosco.
- Maurice Nadeau, in História do Surrealismo
Pessoas saem em busca de lugares desconhecidos e horas inconvenientes. Busca, ora, a busca. O movimento é, em si, parte da poesia.
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“A magia do ‘talvez’”. Eu vivo com isso há algum tempo… não sei se gosto. Talvez eu esteja enjoada. Talvez eu sinta falta de como as coisas eram antes. Mas uma coisa eu posso afirmar: COM CERTEZA, eu me prefiro como sou hoje, com as experiências, com gostar de ficar sozinha com o meu conteúdo enquanto o mundo sai para preencher os seus vazios. Mais uma vez, não preciso dizer nada sobre identificação, né? Kisses!