A piedade
Sempre me pego pensando em como mudei e também, por vezes, em como continuo o mesmo. Continuo o mesmo no pensar demais, mudei no ímpeto. Não o perdi completamente, mas sinto falta do excesso que um dia tive. Hoje posso prever coisas que farei e isso provoca tédio.
Me lembro de quando não podia prever nada, de quando fazia o inesperado. Deixei a adolescência há muito, sei disso, mas nem por isso deveria ter me tornado previsível. Deveria ter guardado um tanto transbordante de surtos e repentes junto aos diversos ítens que mantenho em caixas e gavetas. Seriam úteis, estou certo disso.
Há uma parte de mim, no entanto, em que ainda existe a inquietude sobre a qual escrevi há dias. Essa parte não reside em gavetas, em caixas ou envelopes. Está sob a pele, sempre latente. Tenho certeza de que é ela a responsável por muito da minha complexidade – ah, sim, sim… – e, habitando ali estão a culpa e a crueldade.
Tenho necessidade de ser cruel e isso não é o mesmo que ser violento, não sejam ingênuos. Se quiserem entender do que falo, leiam Artaud, Lautreamont, Rimbaud e Sade. Sinto, por outro lado, a agonia da culpa, tão judaico-cristã e tão inculcada: palavra pequena para problema grande. Admiro Maldoror, Minski, Dolmancé e Juliette, que não a sentem. Rejeito os que se tratam para negá-la, escondendo-a sob uma pilha de palavras narradas a alguém. Admiro aqueles que a entendem, mas gargalham.
Nunca consegui terminar de ler “Crime e Castigo”. Tentei por duas vezes, mas nunca cheguei ao fim, enquanto que “Memórias do subsolo” foi lido e digerido. Por diferentes motivos, sinto raiva de ambos os protagonistas. Entendo a beleza deles, sei a impressão que causam, mas não consigo aceitá-los. Sinto culpa, mas não deixo que isso me transforme em um nada envergonhado, como Rascolnicov. Por conta disso, costumo me sentir um filho da puta, admito.
Acredito que a piedade, tentativa patética de suprimir a culpa, habita os que mais varrem sua crueldade para baixo de pilhas de vergonhas. Me enoja. Admiro aqueles que a surram, vergalham, provocam ainda mais, trazendo-a à superfície para poderem agredir ainda mais, transformando a relação em um tipo de simbiose.
Lembrei de um poema de Roberto Piva que sempre fez muito sentido. Os motivos ficam pra algum outro post de confissões, mas ficam como migalhas de pão indicando uma passagem:
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me
fariam perguntas porque navio bóia? porque prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera admiraria as estátuas de
fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou
barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhosa piedade, roberto piva, in paranóia, 1963
Pensei em ilustrar esse post com a Pietá, mas seria muito óbvio. Optei por Prometeu (de Rubens) e o motivo deveria ser evidente.