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	<title>Transtorno&#187; Sobre o autor &#8211; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Espaço vazio</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Jun 2010 03:40:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ao contrário do costume, não vou prolongar muito: esse espaço deixará de existir em breve. Estamos em junho e esse é o primeiro post do ano. Já fiz isso em outras ocasiões, tendo em mente que comecei a escrever uma coisa ou outra no formato conhecido como &#8220;blog&#8221; por volta de 2002, mas dessa vez [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao contrário do costume, não vou prolongar muito: esse espaço deixará de existir em breve. </p>
<p>Estamos em junho e esse é o primeiro post do ano. Já fiz isso em outras ocasiões, tendo em mente que comecei a escrever uma coisa ou outra no formato conhecido como &#8220;blog&#8221; por volta de 2002, mas dessa vez é diferente.</p>
<p>Estou cansado e não me sinto à <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> para falar mais nada relevante nesse espaço e, na verdade, em nenhum outro. Nunca gostei de evidência, agora gosto ainda menos.</p>
<p>Gone.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Certezas</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 18:58:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nos últimos 3 meses, li aproximadamente 15 livros para a prova do mestrado. Não acho que é muito, pelo contrário, teria dado para ler mais, se minha vida se resumisse a leituras. Felizmente não é o caso. É claro que gosto de ler, mas é preciso bem mais do que isso, por certo. Curiosamente, apesar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos 3 meses, li aproximadamente 15 <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> para a prova do mestrado. Não acho que é muito, pelo contrário, teria dado para ler mais, se minha vida se resumisse a leituras. Felizmente não é o caso. É claro que gosto de ler, mas é preciso bem mais do que isso, por certo. Curiosamente, apesar de serem <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> obrigatórios, não são <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> dogmáticos, cheios de respostas. Claro que defendem idéias, representam seus autores, mas são aporéticos em sua maioria e por isso são bons <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a>.</p>
<p>Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> com fórmulas e receitas fossem tão bons, a história da <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">Filosofia</a></a> seria outra, certeira, sem discussões, provavelmente teria sido acabada há mais de dois mil anos. A frieza dos dogmas não me interessa, apenas o orgânico das certezas que se tornam <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>. O último livro lido, de Peter Brook, termina dizendo que quando forem publicadas, aquelas linhas já estarão ultrapassadas e merecerão questionamentos. Detalhe: o livro foi publicado pela primeira vez há mais de 30 anos.</p>
<p>É curioso hoje ver com tantas &#8220;certezas&#8221; tornaram o mundo um tédio. A maioria das pessoas é tão cega e certa dentro de seus pequenos mundos que mesmo os que posam de visionários apenas receitam absolutos. Sucesso, ambição, falta de conflitos, necessidades de diferença expressas na aparência quando por dentro há apenas homogêneo: concordância generalizada com uma ordem que esconde os vícios do comum sob a aparência da modernidade.</p>
<p>Acontece, porém, que não cabe ser nostálgico e crer que as coisas eram melhores antes. Esse seria um equívoco sem proporções. Poderia afirmar diversas coisas aqui, mas não quero também incorrer em erro exatamente quando estou com mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a> e questionamentos vivos na mente. Não me cabe dizer como algo deve ser, apenas continuar questionando. Se um dia eu tiver alguma certeza, meu crescimento terá acabado.</p>
<p>Adaptando uma afirmação de Marvin Carlson, digo que não há espaço confortável para mim em nenhuma das diversas teorias existentes, mas me interesso por elas quando me fazem ver onde estou, seja por afirmação ou negação.</p>
<p>São bons <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a>, mas não os recomendo.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Equívocos</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Oct 2009 00:19:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
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		<description><![CDATA[Nietzsche (odeio citá-lo, maaaas&#8230; *) escreveu sobre o conflito Apolo/Dionísio e acreditava que em algum momento essas oposições se confundiriam, de tal modo que sua filosofia assumia assim uma posição anti-cristã, ainda que dentro do cristianismo. Antes dele, Hegel levantou a idéia de opostos no nível racional: a dialética, a razão que pensa a si [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nietzsche (odeio citá-lo, maaaas&#8230; *) escreveu sobre o conflito Apolo/Dionísio e acreditava que em algum momento essas oposições se confundiriam, de tal modo que sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> assumia assim uma posição anti-cristã, ainda que dentro do cristianismo. Antes dele, Hegel levantou a idéia de opostos no nível racional: a dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, a razão que pensa a si mesma. É essa a mesma coisa que o conflito nietzscheano? Not quite. Não podemos dizer que Édipo, ao arrancar seus olhos, pensou dialeticamente. Faz sentido? Não foi a razão que arrancou seus olhos, foi a paixão.</p>
<p>Hoje, apesar da banalidade da morte e da incomunicabilidade humana expressa por Ionesco e <a href="http://www.transtorno.net/tag/beckett/">Beckett</a>, nos impressionamos com alguns fenômenos isolados. Édipo causa impressão após mais de 2.000 anos, assim como Electra e Orestes. Centenas morrem diariamente em explosões no Oriente Médio, em conflitos na África, nas favelas e ruas do Rio ou de SP, mas o que chama a atenção do público, mantendo os notíciários sensacionalistas por horas e até mesmo dias, é o caso de uma menina atirada de uma janela.</p>
<p>Aparentemente não é o fenômeno de massa que interessa. É o Único que causa interesse. Alguém duvida que traficantes, comunistas, nazistas, terroristas e cia matam/mataram mais do que Ted Bundy, Ramirez ou Dave Berkowitz? Não há dúvida alguma, mas esses casos isolados, dotados de face e nome, são pequenos universos, dotados de leis próprias e incompreensíveis, que atuaram de forma não categorizável. O que foge aos padrões é comumente temido e torna-se interessante à distância. Um exemplo disso pode ser obtido se pensarmos que os romanos mataram centenas de pessoas, mas que foi através da idéia de Cristo, de um único, de um redentor, que se fez a história do ocidente nos últimos XX séculos. O que é comum é que é aceito facilmente e pode, por certo, tornar-se extremamente perigoso.</p>
<p>Alguns Filósofos escreveram sobre o impacto que o Holocausto causou à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, temendo que após esse fenômeno nada mais interessasse: se toda uma época permitiu tal coisa, o que poderia ser forte o suficiente a ponto de levar à comoção depois disso? Ainda mais mortes? É um equívoco pensar em identificação do um ao todo. O único é que ainda causa estranheza. Também &#8211; e por isso mesmo &#8211; o desconhecido, o aleatório. É óbvio que cada judeu morto era único e esse é exatamente o ponto em questão: questiono o resultado dessa alta exposição, posto que esses fenômenos reduzem os indivíduos a números sem rostos, sem individualidade. A massa não é mais afetada por grandes números, mas por rostos, vistos como símbolos, mártires. Por isso há, por exemplo, o interesse em Anne Frank.</p>
<p>Se hoje surgisse um sujeito dizendo &#8220;matarei todas as pessoas pardas&#8221;, haveria indignação, mas em muitos casos de forma falsa: &#8220;estou indignado, mas não sou pardo, logo, não é o meu rabo que está na reta&#8221;. Imagine que apareça um sujeito que mate garotas em série: &#8220;nossa, que absurdo, ele mata mulheres, mas eu sou homem, então não corro risco&#8221;. Entende? Não foi essa a mesma atitude perante o Holocausto? Agora pensem no atirador de Washington. Lembram do caso? Descobriram que eles (era uma dupla, pra quem não se lembra) estavam apenas atirando em pessoas aleatórias pra encobrir o assassinato de uma específica, que aconteceria em meio às demais. O todo seria apenas um desvio de atenção. Engenhoso, mas interessado. Ainda assim, quando não se sabia a causa dos disparos, quando se acreditava no ato desinteressado e randômico, o terror foi intenso: ruas vazias e pessoas apavoradas. Não havia um grupo determinado como alvo.</p>
<p>Não vou entrar no mérito dos tiroteios que acontecem no Brasil, das guerras, de brigas que acabam em mortes, de balas perdidas. Esses são casos que ocorrem dentro de um sistema geralmente interessado e banal, cujo controle é possível por meios repressivos/políticos, por exemplo. Pensem agora no seguinte: um sujeito normal, extremamente comum, sai de casa, vai a um lugar movimentado qualquer, olha à sua volta, admira o que está ali, inveja mesmo, e começa a disparar em mulheres, crianças, adolescentes e homens indistintamente. Se você soubesse que tal coisa é possível, sairia de casa em paz? Perderia os <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> mais intensos de sua vida com a facilidade com que perde hoje? Acontece que também é um equívoco se acreditar imune, pois é claramente possível. &#8220;Mas se eu pensar assim, não terei mais um segundo de paz sequer&#8221;. É, talvez não tenha. Mas repito as perguntas anteriores: perderia tanto tempo quanto costuma perder ou aproveitaria o que tem da melhor forma, intensamente?</p>
<p>É um equívoco acreditar no conforto e na segurança, acreditar que isso jamais acontecerá. É um equívoco também que sejam necessárias situações tão extremas para aquisição de consciência de tudo o que nos cerca, de que o tempo foge, do que deixamos de fazer. É um equívoco ignorar o Eu e pensar em engajamentos e universais. O &#8220;social&#8221;, o &#8220;bem maior&#8221;, é um câncer: cega, faz crer que existe um propósito que na verdade não há, dá uma sensação de conforto enganosa, de isolamento por concordância com a maioria. O indivíduo expressa o mundo à sua maneira e crer no &#8220;social&#8221; é crer no ocidente equivocado dos últimos 2000 anos. Se anular é um equívoco e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/despertar/">despertar</a> é violento.</p>
<p>O assunto é por demais interessante pra um pobre post de blog. Vale lembrar que Hanna Arendt foi a fundo em muitos desses tópicos em sua análise da &#8220;banalidade do <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>&#8221;, bem como sobre a forma como esta foi somada à organização das massas por regimes totalitários como comunismo e o nazismo. Se o assunto interessar, recomendo muito a leitura de suas obras. Cabe questionar, por fim, se estamos tão livres dos totalitarismos quanto alguns afirmam e &#8211; principalmente &#8211; se todos possuem a forma organizada destes citados. Se não, como se dão as manifestações hoje? E não me venham com a bullshit cafona do &#8220;imperialismo americano&#8221;, por favor.</p>
<p>* odeio citar Nietzsche pois se trata do &#8220;Filósofo das frases prontas&#8221;: qualquer debilóide isola algumas delas e sai citando como se fossem máximas de sabedoria, sem analisar como ele chegou a essas afirmações ou negações e, principalmente, onde queria chegar. Meu problema não é com Nietzsche, mas com o uso que fazem dele.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Mediocridade e ridículo</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Oct 2009 02:24:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Faz tempo que não escrevo aqui. Ando ocupado e, principalmente, sem vontade nenhuma, mas já que estou aqui, vamos ao assunto&#8230; A música é uma ótima forma de expressão pra quem tem aquele ímpeto adolescente, aquela rebeldia ingênua, que acha que vai mudar algo se expressando dessa forma. Vejo Rolling Stones e outros dinossauros no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Faz tempo que não escrevo aqui. Ando ocupado e, principalmente, sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> nenhuma, mas já que estou aqui, vamos ao assunto&#8230;</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a> é uma ótima forma de expressão pra quem tem aquele ímpeto adolescente, aquela rebeldia ingênua, que acha que vai mudar algo se expressando dessa forma. Vejo Rolling Stones e outros dinossauros no palco tocando as mesmas coisas que tocavam nos anos 50/60 e fico com vergonha pelos fãs. A banda está fazendo o papel deles, enchendo cofres. Os fãs acham rebeldia. Eu acho apenas ridículo. A transformação não é feita de clássicos, é feita de rupturas e violência. Tudo o que se torna clássico se torna referência e, como tal, deixa de ser um provocador de fato, mas apenas um espelho para cópias</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a> não é mais uma forma de expressão pra mim. Deixou de ser lá atrás, na adolescência, quando a ingenuidade foi ficando pra trás. Hoje, depois do acúmulo de bagagem da vida, de tudo que me forma, só sinto desprezo por quase tudo que vejo de forma <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a>. Desprezo a superficialidade e se você é assim, é um lixo como qualquer outro, se não, siga em frente. A real é que difícil alguém aceitar o fato de ser.</p>
<p>Não achei que mudaria nada fazendo <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a>, pelo contrário, tenho <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> de que poucos ouvem e deixar de &#8220;compor&#8221; não fez ou faz diferença alguma. A máquina do mundo continua e somos apenas bactéria em relação ao todo maior. A questão que resta é: eu gostaria de fato de mudar algo? A resposta é sim, mas não pela escrita ou composição. Se eu pudesse, não seria pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a>, mas por um massacre&#8230; </p>
<p>Odeio passividade, sorrisos falsos, pessoas &#8220;super legais&#8221;, sem senso crítico algum, que aplaudem qualquer porcaria pela est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> e não pelo que aquilo representa de fato. E digo isso não apenas em relação à <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a>. Serve também para amizades, relacionamentos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> (todas as formas) e o que mais vocês quiserem pensar. Qualquer coisa desprovida de provocação é pobre em forma e conteúdo.</p>
<p>Me falaram mil vezes para eu levar a vida mais levemente, mais alegre, ser mais sociável. Sabe quem é que faz isso? Pessoas comuns e/ou que se contentam com pouco. Não eu. Hoje é um sábado de calor insuportável. Só meu carro está na garagem. Se estivesse chovendo, só o meu não estaria.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O teatro</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Sep 2009 03:26:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Teatro]]></category>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo foi escrito em 1991, quando eu tinha 18 anos. É um dos que faz sentido e gosto até hoje. Não posto aqui por orgulho ou sei lá o que, mas por não querer que se perca. É parte de algo&#8230; Segue: Por em movimento o “retorno de si mesmo ao anel dos [...]


Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/11/o-teatro-duplo-dos-dias/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O teatro duplo dos dias'>O teatro duplo dos dias</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo foi escrito em 1991, quando eu tinha 18 anos. É um dos que faz sentido e gosto até hoje. Não posto aqui por orgulho ou sei lá o que, mas por não querer que se perca. É parte de algo&#8230;</p>
<p>Segue:</p>
<p>Por em movimento o “retorno de si mesmo ao anel dos anéis”. Nada se perde no inextinguível archote <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a>. O sêmen que se vai retorna em prazer, e o corpo, este Único, se faz <a href="http://www.transtorno.net/tag/duplo/">Duplo</a>.</p>
<p>Este palpitar é necessário, força motriz imperativa da imaginação. A força-sensação trabalhando num ponto anterior à configuração. Um abalo no impacto dos sons e uma imagem anteposta ao compreender.</p>
<p>Aficcionar-se e desagregar-se pela inoculação do sentido/sensação/re-ação. E se dá o retorno. Toma-se a origem das pausas e a provocação da carne como análise ultra-imediata de estímulos e sua reação, respectivamente.</p>
<p>Explodir-se em si e para si, explodir-se em outro, para si. Tornar-se voz de autoridade. Terrorismo provocativo onde o que o outro sente e quer depende de minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, mesmo suas variações, devido à multiplicidade de imagens e suas correlações, por ter-se permitido sentir.  Minha visão se impõe ao deleite/desespero do outro.</p>
<p>Não haverão mais pontos despercebidos ao imaginário. Tudo será visto/sentido e re-sentido e, ainda, re-tornado, imediatamente auto-associando-se ao seu fragmento somático/emocionante.</p>
<p>A ação da imagem. Sua palpitação. Sua adaptação à mobilidade e à acústica que lhe passarão a ser próprias. E tudo é próprio da imagem. Re-tornar à imagem e a si. Um descobrir e, com este, outro. Cabe ao olfato/paladar da imagem sua associação.</p>
<p>Dionisiacamente re-tornar aos alimentos de emoções, continuamente aprendendo onde por pausas, impedindo assim que se o outro desfaleça antes da superação. Mais uma vez retornar, como nos eternos retornos sadeanos, à nova imagem/palpitação/desejo, sendo tudo isto o ato do visionário e atitude suprema.</p>
<p>(Foto ilustrativa: <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> Dels Baus, em Imperium)</p>

<p>Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/11/o-teatro-duplo-dos-dias/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O teatro duplo dos dias'>O teatro duplo dos dias</a></li>
</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>A lagarta</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/08/a-lagarta/</link>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 18:20:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rabiscos]]></category>
		<category><![CDATA[abismo]]></category>
		<category><![CDATA[labirinto]]></category>
		<category><![CDATA[mal]]></category>
		<category><![CDATA[vertigem]]></category>

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		<description><![CDATA[O verde se desfaz sob pés ingratos, desaparece o solo, vértebras cortadas por rios e milhares de afluentes. Saltam por sobre o musgo aveludado as veias firmes de tecido sólido, oblíquo em vastas proporções, aparado por dezenas de lâminas naturais, roucas em seu cortar celeste. Deveras seco seria se suas águas verdes não fossem também [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O verde se desfaz sob pés ingratos, desaparece o solo, vértebras cortadas por rios e milhares de afluentes. Saltam por sobre o musgo aveludado as veias firmes de tecido sólido, oblíquo em vastas proporções, aparado por dezenas de lâminas naturais, roucas em seu cortar celeste.</p>
<p>Deveras seco seria se suas águas verdes não fossem também seu sangue imerso, imenso, intenso, vivo e perfeito, de anomalias liberto, amoral e complexo.</p>
<p>Ah, como derrama! Fios sóbrios sobre aroma cultivado&#8230;</p>
<p>Milhares de universos dissimulam sob os diversos pés e seus corpos listrados, esgueirando-se furtivamente e consumindo as bases macias de fronteiras lubrificadas por óleo e água.  Furtivas são as tendências de seus vícios&#8230;</p>
<p>Se unem e se tocam, arredondados, cilíndricos, ora coberto de pêlos, ora expostos, pele multicor.</p>
<p>Nada vemos, dispersos que somos.</p>
<p>Não percebo a pequena boca que se abre devorando o corpo que se sustenta, saliva a cobrir o objeto em que se apóia ereta.</p>
<p>Boca pequena, ácida, em atrevida antena.</p>
<p>Pudera me dar ao prazer único, intenso e breve de esmagar a ambos. Faria disso uma explosão tão potente que desfaleceria seco, coberto por seu óbito, sorrindo quando se vê indefesa.</p>
<p>Ora, o toque!</p>
<p>Um tapa, uma foice, um pássaro. Pequenas ou grandes armas, simples ferramentas. O jorrar sadio do branco sal! Tudo isso te aniquila.</p>
<p>Amarela e negra, em ondas senóides, se move enquanto decido teu fim, corada e com a face em chamas por irreversível decisão. Ah, tenha certeza, faça disso tua memória: como você terei outras tantas e decidirei novamente, mas és única sob meu poder limitado, como também são todas as ações. Únicas no momento, diversas no eterno <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a>.</p>
<p>Crisálida não serás, toma o tormento de minha presença!</p>
<p>Transformação&#8230; Não, não! Jamais! A decisão é necessária, mas observo&#8230;</p>
<p>Vejo teu universo desaparecendo e sei logo que conquistarás outro, rastejando, pois nunca alçarás vôo. Penso em te impedir, certo de poder através de qualquer método e isso me sufoca: tenso que estou, cego por minha certeza, encontro tantas opções que me inflamo de êxito antecipado e jamais saberei qual a melhor forma para meu prazer.</p>
<p>Fugidio é o momento, minha decisão me toma de sobressalto sobre a areia roxa do solo infestado. Os múltiplos enobrecem tua cadela da misericórdia e me enfraquecem. Ah, fossemos apenas dois! Seria simples fazer desse segundo decisivo a nossa Sodoma, eternizada em fogo, desmembrada pelo intenso rio de lava que brota na morada de Heféstos. Milênios nos assistiriam e se perguntariam que prazer houve naquela face hedionda no momento da asfixia.</p>
<p>Tuas cores e movimentos, teus poucos cabelos, a relva que se faz escassa, os traços suaves, longos e perfeitos de tuas mordidas. Não vejo marcas de dentes, como pode? Tua boca não os tem, regada em um reino apostólico. Abraça mais uma vez o galho e caminha.</p>
<p>És horrível, demonstração de desprezo, como as outras milhões que representa. A natureza cruel se redime em seu respeito por ti. Se alimentas buscando a mutação, experiência transformadora &#8211; não é óbvio? -, sentença de tua sina, mas a beleza das asas será tirada pela mão decidida que toca o sino, destruindo a simetria do ambiente com ruídos metálicos.</p>
<p>Sino, movimento, sina.</p>
<p>Farfalhos, pequenos ruídos engolfados pela urgência das árvores irritantes, deflorada pela fatalidade gratuita dos ventos molhados. Sequer uma vez questionaram, não lhes foi dada escolha: movem-se pelo sopro. Não seremos nós apenas pequenas tempestades? Ou grãos de areia decolando com grandes tornados?</p>
<p>Ouço uma gargalhada&#8230;</p>
<p>Nada, apenas o rufar de galhos dançantes, arrojados, forjados em coleiras e cóleras, livrando o rio de tuas seivas de teu detestável paladar.</p>
<p>Indeciso.</p>
<p>O corpo do astro, perfeito e insólito, sob as pinhas infectas aguarda. Não percebemos seu tempo, suas pequenas sinapses. Vemos, no entanto, sua raiva incontida, nunca encapsulada, manifesta nos gritos da brisa cortante e perversa, cruel em tudo que toca.</p>
<p>Ouço asas.</p>
<p>O esgar é agudo, porém preciso, certeiro em sua visão decorosa. Se aproxima, bicos negros bem abertos, berrando em direção oposta às curvas da estrada cortante, um perímetro afunilando-se em ângulos descendentes, defesa rubra de sua vida determinada.</p>
<p>Em cordeiro te transforma, entregue às farpas longilíneas de penas cruéis.</p>
<p>Ah, minha indecisão!</p>
<p>Acreditei ser maior, terrível, ilimitado quando decidia teu destino. Sim, há poder na escolha, no amedrontar que o olhar diverso toma sobre as Moiras e suas linhas.</p>
<p>O prazer da escolha&#8230;</p>
<p>Há poder ainda na decisão. Ah, minha dúvida, <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> percebi que enquanto determinava o destino da pequena rastejante eras tu que rias de mim, que brincavas comigo. Ouvi no trepidar das folhas tua risada histérica.</p>
<p>O grande corvo negro, preciso e cirúrgico em seu vôo educado me tirou o brilhante gozo, gosto de esmagar-te, oh verme colorido. Teu sangue verde-escurecido que se mistura às folhas de pêssego alimentará a prole que cresce em alguma floresta católica.</p>
<p>Outros universos se encontram ao meu alcance e neles escolherei voluptuosas lagartas enfermas, envoltas em cordões de seda e tecidos elásticos, vestes nobres, que seja, esperando pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> dos ares enquanto simples e efetivamente rastejam ou adormecem envoltas em um sono que Morfeu ignora.</p>
<p>A lança noturna te afasta de mim, minhas mãos entristecem.</p>
<p>Guardo a violência de meu torque para outro momento, dos quais alguns serão desfeitos, outros levados e tantos ainda cheios de cores e reflexos ameaçadores.</p>
<p>Todos rastejam.</p>
<p>Quem és tu que emana o som infame do sarcasmo por sobre meus ouvidos rasgados?</p>
<p>Ora, dúvida, vejo-te a me abandonar, estou certo? Seria esse o momento tão esperado, o domínio da certeza? Não sei &#8211; a dúvida não me abandonou completamente, percebo -, mas sinto o tremer das mãos, o corpo secretando adrenalina, a visão focada, turva, os dentes rangendo e ruindo&#8230; Pois bem! Sinto que te encontrei!</p>
<p>Aquele pássaro, sombra escura que te arrastava, passou irônico, quase zombando, perto de meus olhos cegos pela ingratidão de perder-te. Ah, o deleite! Foi então que percebi que o prazer maior da espera não é tirado pela dúvida e pela razão, pelas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e aparências, pelas oportunidades e opções. Não, nunca! O momento é exato e pulsamos em ritmo único com o metabolismo do cosmo, engrenagens úteis, embora únicas. Pulsamos, somos sístole e diástole, <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, prece e maldição.</p>
<p>Estendi a mão tensa e afiada, pregos abertos, cravos empalando o ar em direção à sombra opaca que grita fielmente, informando a todos sua vitória. Abri caminho por sobre os ruídos secos e fiz com que a química da atmosfera se movesse tão rapidamente que um assobio foi ouvido, unificado aos gritos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a>. Todo ruído se fez um naquele momento: o moribundo suspirando em um deserto asiático ou a zebra tombando na savana. Todo ruído foi tua morte, som, tudo foi <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a> naquele instante, atravessado estava em minha lança, soluçando pelo fim abreviado.</p>
<p>O poder infalível da escolha me deu ainda uma opção secreta. Ante todas estava outra que jamais encontraria. Presenteado que fui, vi o verme tomado pelas asas que um dia desejara e as destruí, tomado pela fúria de terem te tirado de mim. Certeiro foi o ódio, a oportunidade que me trouxe o acaso de teu vôo&#8230;</p>
<p>E de simples coadjuvante passaste a Rei em meu tabuleiro: através de tua união, percebi que reduzir dois a apenas um me faz maior que a pureza das <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> matemáticas, ainda que infinitas. Observar uma vida tomar a outra e reduzir ambas a nada me exita ainda mais!</p>
<p>Passaste então ao foco: me fizeste <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, emanando luz sobre ti da escuridão em que me encontro!</p>
<p>25-26/08/2009</p>]]></content:encoded>
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		<title>A piedade</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Aug 2009 05:06:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Rabiscos]]></category>
		<category><![CDATA[crueldade]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[piedade]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre me pego pensando em como mudei e também, por vezes, em como continuo o mesmo. Continuo o mesmo no pensar demais, mudei no ímpeto. Não o perdi completamente, mas sinto falta do excesso que um dia tive. Hoje posso prever coisas que farei e isso provoca tédio. Me lembro de quando não podia prever [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre me pego pensando em como mudei e também, por vezes, em como continuo o mesmo. Continuo o mesmo no pensar demais, mudei no ímpeto. Não o perdi completamente, mas sinto falta do excesso que um dia tive. Hoje posso prever coisas que farei e isso provoca tédio.</p>
<p>Me lembro de quando não podia prever nada, de quando fazia o inesperado. Deixei a adolescência há muito, sei disso, mas nem por isso deveria ter me tornado previsível. Deveria ter guardado um tanto transbordante de surtos e repentes junto aos diversos ítens que mantenho em caixas e gavetas. Seriam úteis, estou certo disso.</p>
<p>Há uma parte de mim, no entanto, em que ainda existe a inquietude sobre a qual escrevi há dias. Essa parte não reside em gavetas, em caixas ou envelopes. Está sob a pele, sempre latente. Tenho certeza de que é ela a responsável por muito da minha complexidade &#8211; ah, sim, sim&#8230; &#8211; e, habitando ali estão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> e a <a href="http://www.transtorno.net/tag/crueldade/">crueldade</a>.</p>
<p>Tenho <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de ser cruel e isso não é o mesmo que ser violento, não sejam ingênuos. Se quiserem entender do que falo, leiam <a href="http://www.transtorno.net/tag/artaud/">Artaud</a>, Lautreamont, Rimbaud e <a href="http://www.transtorno.net/tag/sade/">Sade</a>. Sinto, por outro lado, a agonia da <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, tão judaico-cristã e tão inculcada: palavra pequena para problema grande. Admiro Maldoror, Minski, Dolmancé e Juliette, que não a sentem. Rejeito os que se tratam para negá-la, escondendo-a sob uma pilha de palavras narradas a alguém. Admiro aqueles que a entendem, mas gargalham.</p>
<p>Nunca consegui terminar de ler &#8220;Crime e Castigo&#8221;. Tentei por duas vezes, mas nunca cheguei ao fim, enquanto que &#8220;Memórias do subsolo&#8221; foi lido e digerido. Por diferentes motivos, sinto raiva de ambos os protagonistas. Entendo a beleza deles, sei a impressão que causam, mas não consigo aceitá-los. Sinto <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, mas não deixo que isso me transforme em um nada envergonhado, como Rascolnicov. Por conta disso, costumo me sentir um filho da puta, admito.</p>
<p>Acredito que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/piedade/">piedade</a>, tentativa pat<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> de suprimir a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, habita os que mais varrem sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/crueldade/">crueldade</a> para baixo de pilhas de vergonhas. Me enoja. Admiro aqueles que a surram, vergalham, provocam ainda mais, trazendo-a à superfície para poderem agredir ainda mais, transformando a relação em um tipo de simbiose. </p>
<p>Lembrei de um poema de Roberto Piva que sempre fez muito sentido. Os motivos ficam pra algum outro post de <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">confissões</a>, mas ficam como migalhas de pão indicando uma passagem:</p>
<blockquote><p>
    as senhoras católicas são piedosas<br />
    os comunistas são piedosos<br />
    os comerciantes são piedosos<br />
    só eu não sou piedoso<br />
    se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria<br />
    aos sábados à noite<br />
    eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me<br />
    fariam perguntas porque navio bóia? porque prego afunda?<br />
    eu deixaria proliferar uma úlcera admiraria as estátuas de<br />
    fortes dentaduras<br />
    iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou<br />
    barbudos<br />
    eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes<br />
    eu não sou piedoso<br />
    eu nunca poderei ser piedoso<br />
    meus olhos retinem e tingem-se de verde<br />
    os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos<br />
    os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas<br />
    arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos</p>
<p>a <a href="http://www.transtorno.net/tag/piedade/">piedade</a>, roberto piva, in paranóia, 1963
</p></blockquote>
<p>Pensei em ilustrar esse post com a Pietá, mas seria muito óbvio. Optei por Prometeu (de Rubens) e o motivo deveria ser evidente.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Nadja, sempre Nadja</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 04:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[acasos]]></category>
		<category><![CDATA[Nadja]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[Sexta-feira à noite, em casa. Pensamentos correndo, pessoas saindo para encontrar a noite, ansiedade, momentos curtos. Talvez&#8230; Sim, a magia do talvez. Vozes, movimento, barulho, fumaça, luzes. Nada disso aqui. Não agora! Me encontro só, com meus pensamentos, em companhia de minhas dúvidas, questionamentos e de meus gatos. Deprimente, não? Não, nem um pouco. Não [...]


Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/11/nadja/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Nadja'>Nadja</a></li>
<li><a href='http://www.transtorno.net/2009/07/efemero-eterno-memorias/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O efêmero, o eterno e as memórias'>O efêmero, o eterno e as memórias</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sexta-feira à noite, em casa.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">Pensamentos</a></a> correndo, pessoas saindo para encontrar a noite, ansiedade, <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> curtos. Talvez&#8230; Sim, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> do talvez. Vozes, movimento, barulho, fumaça, luzes. Nada disso aqui. Não agora! Me encontro só, com meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">pensamentos</a></a>, em companhia de minhas <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>, questionamentos e de meus gatos. Deprimente, não? Não, nem um pouco. Não se pensarmos que muitos que saem às noites buscam apenas companhia, a que não conseguem encontrar em si mesmos.</p>
<p>Ligo a TV. Desligo. Ligo meu equipamento, e continuo a mexer nas músicas que estão a caminho de vir a público. Me canso, por enquanto. Volto, ligo a TV, procuro um filme, desligo. Volto às músicas. Apago partes que um dia me pareceram boas e hoje parecem apenas barulho. Outras voltam a tomar forma, formar ondas: saws, squares, pulses. Já próximo da meia-noite o barulho incomoda os vizinhos. Ligo o fone, mas os graves provocam dores de cabeça. Preciso de uma pausa, volto à sala, olho a estante e depois de anos pego um livro que me olha: &#8220;História do <a href="http://www.transtorno.net/tag/surrealismo/">Surrealismo</a>&#8221;, de Maurice Nadeau. Abro aleatoriamente, ao acaso, como tanto gostavam.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>.</p>
<p>O nome, a palavra, a imagem. A primeira coisa que vejo, ali, magn<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>. Sorrio sozinho, sento e começo a ler a página. Está ali, tanto e sempre. Questionamentos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>, mas a certeza de algo: para mim <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> será sempre um símbolo. A prova de que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> existe, prova de que posso me encontrar comigo, em paz ou em guerra, mas sempre haverá o espelho. Está ali.</p>
<p>Querem saber o que dizia? Vos digo. Acredito que não se importarão, que não fará sentido, talvez. Talvez. Certeza e dúvida é o que vejo ali, não direi quando e onde, mas há sentido, sempre.</p>
<blockquote><p>Com <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, eis a antítese do estilo polêmico de Aragon, a tal ponto que se tomou a <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> por um romance, que se lhe atribuiu sucesso enquanto tal. Os fatos relatados parecem, de fato, tão inacreditáveis que se preferiu pensar que foram inventados. Ora, em <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> nada há de imaginado, tudo é perfeita e rigorosamente verdadeiro. <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> existiu, muitos a conheceram, seu destino brilhante e lamentável é exatamente como <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> o retrata.</p>
<p>Uma mulher que <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> encontra um dia, por acaso, na rua Lafayete, e que, como muitas mulheres por quem ele se apaixona, o atrai com um par de olhos &#8220;que ele jamais vira&#8221;. Ela se chama &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, porque em russo é o princípio da palavra <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>, e porque não passa do princípio&#8221;. &#8220;Quem é você?&#8221;, pergunta <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a>. &#8220;Eu sou a Alma errante.&#8221; Parece que ela se encontra sempre e naturalmente naquilo que os espíritas chamam de &#8220;estado de vidência&#8221;, numa disponibilidade perfeita e constante. Ela conta histórias e as vive: &#8220;é exatamente dessa maneira que eu vivo&#8221;. Depois dessa primeira entrevista, houve uma sequência, uma cascata de acasos: ela marca encontros, não aparece, mas eles se encontram sempre, <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, em lugares desconhecidos, em horas inconvenientes. Parece que o destino os aproxima um do outro, apesar do que pensem. Suas conversas se desenvolvem numa atmosfera que já não é normal, onde <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> muitas vezes perde pé. O que ela diz sempre parece provir de uma além onde ela vive naturalmente. Tem visões, alucinações que procura partilhar com seu companheiro; vive em outras épocas, em outros meios, com uma precisão supreendente; emprega expressões, irradia imagens que mantém estreita relação com <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> (livro que ele acaba de ler, expressões que usou e ela não pode conhecer etc.). Ela parece exercer uma influência inexplicável sobre as pessoas que surpreende em seus gestos habituais. Desenha estranhas composições repletas de significados misteriosos, escrever frases incoerentes que &#8220;lhe causam espanto&#8221;: &#8220;A garra do leão aperta os seios da vinha&#8221;. Escreve Breton:</p>
<p>&#8220;Do primeiro ao último dia, tomei <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> por um gênio livre, algo como um desses espíritos do ar que cetas práticas de <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> permitem momentaneamente que se os prenda, mas que não seria o caso de submerter-se-lhes&#8230;&#8221;</p>
<p>O poeta logo não pode mais segui-la: &#8220;eu talvez não estivesse à altura do que ela me propunha&#8230;&#8221; Ele se afasta pouco a pouco. <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> fica louca. É presa.</p>
<p>É uma história pequena, cheia de um peso imenso. É a entrada na vida de seres que estão além da vida; é a irrupção dos fantasmas que com naturalidade vêm dar as mãos aos vivos. Loucura? É fácil dizer. E o que é a loucura? Em que a loucura muda alguma coisa nos fatos relatados? Em que explica os inúmeros <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">acasos</a> e a realização das predições por meio de acontecimentos que não dependem de nenhum dos parceiros? <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> ficou louca a partir do momento em que foi presa? Ou o era antes? Foi <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> que, como lho censuraram, agravou seu estado? Que importa! Para além das aparências, <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> é um ser que vive doravante em nós, conosco.</p>
<p>- Maurice Nadeau, in História do <a href="http://www.transtorno.net/tag/surrealismo/">Surrealismo</a>
</p></blockquote>
<p>Pessoas saem em <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> de lugares desconhecidos e horas inconvenientes. <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">Busca</a>, ora, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a>. O movimento é, em si, parte da <a href="http://www.transtorno.net/tag/poesia/">poesia</a>.</p>

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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Irina Ionesco</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Aug 2009 05:07:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Visuais]]></category>
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		<category><![CDATA[fotografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Visitando um site de fotografia encontrei alguns trabalhos sombrios e fortemente eróticos. Os créditos diziam apenas &#8220;Irina Ionesco&#8221;. Coloquei o nome no google e encontrei algumas informações, bastante superficiais, diga-se de passagem, mas encontrei também muito mais de suas obras. Serei eu, então, mais um a escrever um texto um tanto quanto superficial, pois o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Visitando um site de <a href="http://www.transtorno.net/tag/fotografia/">fotografia</a> encontrei alguns trabalhos sombrios e fortemente eróticos. Os créditos diziam apenas &#8220;Irina Ionesco&#8221;. Coloquei o nome no google e encontrei algumas informações, bastante superficiais, diga-se de passagem, mas encontrei também muito mais de suas obras.</p>
<p>Serei eu, então, mais um a escrever um texto um tanto quanto superficial, pois o que sei resume-se ao pouco que li. Irina Ionesco, fotógrafa francesa de família romena, teve uma carreira um tanto quanto controversa, pelo conteúdo de suas fotos, é claro, mas também por retratar em várias delas sua filha, nua, quando criança. Irina acompanhou o crescimento da filha também em fotos, sempre eróticas &#8211; e eu, que não sou idiota, não vou reproduzir nenhuma aqui, pois não quero nenhum idiota me chamando de pedófilo -, causando polêmica por esse motivo.</p>
<p>Aliás, isso daria uma discussão interessante, posto que não fossem essas fotos a carreira dela teria sido bem diferente. Até onde é possível ir pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a>? Até onde as regras atuais valem para o que era feito no passado? Teria sequer passado por sua cabeça as idéias que passaram pelos demais? Como colocar nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> no tempo? É anacrônico? Enfim, caberia lembrar também, nesse exato <a href="http://www.transtorno.net/tag/contexto/">contexto</a>, de Lewis Carroll, mas fica pra outro post, um dia que eu estiver a fim de falar bobagens que nada mudarão o mundo.</p>
<p>Reproduzo abaixo algumas fotos das que encontrei. Logo mais terei um outro post, sobre fotografias, todas referentes a uma outra fotógrafa que conheci recentemente. Por enquanto, fiquem com essas e, caso queiram, procurem mais por ai. As fotos de Irina Ionesco aparecem aos montes, mas uma biografia decente, não, e será bem-vinda, caso alguém encontre e queira compartilhar comigo.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.transtorno.net/images/irina1.jpg" alt="" /><br />
<img src="http://www.transtorno.net/images/irina2.jpg" alt="" /><br />
<img src="http://www.transtorno.net/images/irina3.jpg" alt="" /></p>]]></content:encoded>
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		<title>Confissões, pt. IV</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jul 2009 04:17:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Confissões]]></category>
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		<category><![CDATA[desenvolvimento]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando era criança, criança mesmo, pré-escola, ia muito para o interior, quando minha mãe visitava minha tia. Era a maior aventura possível. A cidade, que fica a 1h30 de SP, parecia não chegar nunca, tal era a relação tempo x espaço na época. Meus primos colecionavam diversas coisas, de chaveiros a calendários. Certa vez, vendo [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando era criança, criança mesmo, pré-escola, ia muito para o interior, quando minha mãe visitava minha tia. Era a maior aventura possível. A cidade, que fica a 1h30 de SP, parecia não chegar nunca, tal era a relação tempo x espaço na época. </p>
<p>Meus primos colecionavam diversas coisas, de chaveiros a calendários. Certa vez, vendo a coleção com minha mãe e minha tia, encontrei um com a imagem de Cristo crucificado e algo me chamou a atenção ali. Pedi se podia ficar com ele e como se tratava de um repetido, me deram. Me recordo dos comentários que fizeram sobre eu querer a imagem de Cristo, sobre querer proteção etc. Na verdade o que ninguém sabe até hoje é que esse foi o último dos motivos para o pedido. O que me chamou a atenção, de fato, foi o crânio que havia no pé da cruz.</p>
<p>A associação do crânio com meu interesse nunca foi feita por ninguém. Essas &#8220;esquisitices&#8221; só começaram a ser notadas depois. quando comecei a folhear enciclopédias e <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> recortando esqueletos (sim, estragava mesmo) e colar na parede, ou quando comecei a me interessar por <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a> e suas bizarrices. Já disse aqui que a primeira banda que me interessou foi o Kiss. Jamais vou esquecer a primeira impressão que o clipe de &#8220;I love it loud&#8221; me causou: escuridão, maquiagem, olhos brilhantes, o peso da bateria de Eric Carr, Mr. Simmons cuspindo sangue&#8230; Eu tinha nove anos.</p>
<p>Dai pra frente foi a complicação: desde meus pais querendo me levar a psicólogos sem poder pagar, tentando conseguir um público, ao momento em que descobri que não estava em uma consulta normal, mas em um psiquiatra. Nessa época eu era uma criaturinha bem estranha para os padrões. Me vestia de preto, calças apertadas, tinha o cabelo comprido&#8230; e onze anos. </p>
<p>Se for escrever detalhes demais, mato vocês de tédio e não termino nunca, então vou dar alguns pulos na cronologia. O interesse específico por metal durou muitos anos. Depois de muito tempo ouvindo só isso, apareceu um festival de bandas de um colégio, o São Bento, no centro de SP. Eu tinha 17 anos e uns colegas me chamaram pra tocar pq eu tinha uma guitarra. Seria uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a> nossa &#8211; horrível! &#8211; e um cover. Um colega escolheu o até então desconhecido (para mim) The Sisters of Mercy. Comecei a ouvir a <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a> para poder tocá-la, mas comecei a ouvir o resto da fita tb e cai de amores pela banda e comecei a expandir os interesses.</p>
<p>Dai a chegar ao saudoso espaço Retrô foi um pulo. De chegar ao Retrô, ver o Martin (Simbolo) tocando e descobrir o EBM, outro pulo, de ouvir Skinny Puppy e descobrir o Industrial, outro. Os anos foram passando, os pulos acontecendo, meu casamento, a misantropia aumentando mais e mais, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> de ficar calado atingindo todos à minha volta, o divórcio.</p>
<p>Com mais de 30 anos comecei a frequentar uma psicóloga, a fazer &#8220;terapia&#8221;, como gostam de chamar por ai. Fui por mais de dois anos e hoje tenho <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a> se tive algum <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> de fato. O que sei é que lembrei de lixo demais que estava sob o tapete e agora tenho que lidar com isso na memória. Vão falar &#8220;ah, então fez <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>&#8221;, mas duvido, afinal, quem é que sabe o que foi que lembrei e o que é que tento esquecer novamente, huh?</p>
<p>Nessa época comecei a me forçar a criar novos hábitos, comprar roupas de várias cores, não mais usar só preto (não uso mais só preto, é verdade), tentar ter um comportamento mais leve, enfrentar menos as pessoas, guardar um pouco mais do que penso só pra mim. Comecei a ser mais sociável, tentar parar de ser julgado por quem não tem <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> pra isso. Tentei ser comum. Resumindo: comecei a me violentar pois é isso que se espera que alguém fora dos padrões faça. Em contraste com os vários anos de uso de substâncias diversas e ilícitas, comecei a comer bem, com horários determinados, ir à academia, parei de fumar. &#8220;Ah, foi uma evolução&#8221;, dirá você. É claro que sim, pois é uma evolução dentro da SUA ótica, do SEU ponto de vista, de quem adora julgar os outros. Da ótica de quem prega a diferença, mas de fato espera a homogeneidade. Te peguei, idiota? </p>
<p>Nos últimos dias me peguei olhando as roupas que tenho guardadas, outras que não tenho, as coisas que eu gostaria de ter vestido quando novo, feito, dito, escrito. Na época eu datilografava meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">pensamentos</a></a> e xerocava para alguém que pedisse. Hoje largo aqui, big deal. Só mudou a mídia. O conteúdo tá ali, é o mesmo, gritando pra ser respeitado, para ser aceito. Aquele texto da Clarice Lispector que postei há dias, Pertencer, era por isso. O erro é achar que isso é de fato possível, pois não é. Para alguns, pertencer é só causa de <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a>. O caminhar apenas é que é possível.</p>
<p>Durante esse tempo conheci tanta gente que não faço a menor questão de rever. Alguns só queriam pertencer também, mas a qualquer coisa, era só pertencer. Outros, como eu, também queriam, mas sequer sabiam a que, só tentavam. Hoje percebo que pertencer ao mundo, como sou, como uma peça fundamental, sem precisar ser moldada, apenas sendo a peça, é que eu queria. </p>
<p>Quando olhei para as roupas, pensei nos piercings que usava e removi, nos que nunca coloquei e nas várias tatuagens. Me parece claro que esses detalhes estabelecem, em certo nível, a identidade para o público. Ao pensar que hoje os pais levam os filhos até a galeria e compram camisetas e acessórios para eles e que eu tinha que sair escondido para ir até lá, que fiz minhas primeiras tatuagens escondido e fui chamado de animal por conta disso, que tomei um soco no olho quando furei a orelha aos 15 anos, tenho certeza que fazer as coisas do meu jeito era mais divertido, rendeu mais histórias para contar. Nunca pedi aprovação, fui e fiz.</p>
<p>Daqui alguns anos essas crianças e adolescentes estarão vestindo cores, ouvindo pop, e eu estarei pensando nos <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> que li e que não li, nas palavras que não disse, nas outras que disse com sentido e nas que disse só para machucar. Estarei pensando se pertenço ou não a algo. Estarei vestindo preto &#8211; ou qualquer outra cor &#8211; e não estarei me violentando. Estarei inquieto, buscando pequenos prazeres, perdendo tempo tentando racionalizar certas coisas que deveriam ser apenas&#8230; coisas e, ai sim, me violentando.</p>
<p>Percebo hoje que é sempre fácil pertencer a algo, a alguém. O difícil é pertencermos a nós mesmos o suficiente para nos aceitarmos como somos, pela natureza que temos, sem nos deixarmos moldar ou querermos moldar os demais.</p>

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