Postado em 04-07-2009

O efêmero, o eterno e as memórias

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 16 vezes

Se não somos eternos, como podemos sequer pensar essa possibilidade? Não, essa questão não é minha, é filosófica. Como pensamos? Pensamos no oposto do que somos. Eternidade, perfeição, bondade e outras coisas. Dai se pensa em Deus, se pensa no eterno.

Não diria todos pq é claro que seria ridículo, mas uma grande, grande mesmo, quantidade de pessoas busca o eterno. Buscam quando vão à igreja, quando buscam relacionamentos, quando prometem amar na saúde e na doença, até que a morte os separe. É claro que há a promessa de união após a morte. Esse eterno fez a beleza da literatura por séculos, da música, da pintura.

Quem não concordaria que Mozart, Bach, Platão, Aristóteles e outros são eternos? São pq sentimos assim. Um dia podem ser esquecidos, é fato, mas o efeito de suas obras terá influenciado tudo que se passou até ali. Hegel dizia, por exemplo, que é impossível pensar o mundo hoje sem pensar o cristianismo, de tão profunda a ligação. Resumi porcamente e com minhas palavras, mas é isso. Para Hegel o cristianismo fez-se eterno. É parte da dialética.

Ontem, por um motivo bobo, eu disse que nada era eterno, falei sem pensar. Agora estou pensando e discordo do que disse. Se tivesse pensado ontem, não teria dito. As coisas podem passar, virar memórias, mas se tornam eternas, pois influenciam os próximos passos todos da causalidade.

Me pego a pensar em Nadja, pra variar. O livro que me marca, volta e meia batendo à minha porta, me mostrando que vivo em uma “casa de vidro”, provando que a causalidade é real, ri de nós, brinca, mas faz de cada um de seus jogos um momento eterno.

Fui à terapia por algum tempo, anos atrás. Ela me disse à época que paixão era bobagem, que amor existia quando as pessoas aprendiam a conviver sem paixão. Eu entendo o que ela queria dizer, faz sentido pra muita gente, para aqueles que não se questionam e vivem um dia após o outro. Não faz sentido para os inquietos, buscadores. Não faz sentido para mim.

Amor faz sentido, mas a paixão também faz. Não me importa se a origem de seu nome é de pathos, doença. Não me interessa se paixão é patológica. A mim importa que a calmaria é morte. Que não se questionar é morte. Que não sentir extremos é morte. Paixão não causa sensação de paz, pelo contrário.

As temperaturas são extremas, a mim não agrada o morno. A mim não agrada a paz. Não adianta eu tentar me iludir. Digo que quero paz, mas não, não quero. Estou em constante combate, prefiro assim. E já que citei Nadja, lembro que em “O amor louco”, Breton diz que “o amor será convulsivo ou não será nada”. Acredito que ali ele coloca o efêmero no eterno: o amor não exclui a paixão de si, jamais, e torna-se para sempre seu próprio momento, na transformação que causa.

O efêmero parece perder o sentido assim, quando se transforma, se tornando parte do todo, que permanece.

Postado em 21-06-2009

Confissões, pt. III

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 74 vezes

O fator Touro se refere, no entanto, a um componente muito mais profundo da personalidade: os critérios de valor. Atribuímos valores às coisas, a nós mesmos, e é este valor que sustenta tanto a realidade material que podemos construir quanto a segurança que sentimos através dessa realidade.
- Valdenir Benedetti in Textos Planetários

Comecei a pensar nisso ontem, tipo “posso escrever sobre isso depois”. Agora que comecei estou achando inútil e desnecessário. E é! Vou escrever brevemente, então, só para constar…

Decidi que vou tentar o máximo para ter uma vida mais espartana, sem coisas desnecessárias deixadas nos cantos da casa, ocupando espaço e me lembrando que estão sem uso.

Percebi que tenho coisas que jamais usei, outras que perderam o encanto depois que foram resolvidas. Exemplo? Quando era moleque queria ter uma guitarra decente, com modelo diferenciado, como as que via com as bandas nos videoclipes. Queria, mas não tinha, por falta de grana, mas também pq na época existia algo que a molecada hoje nem sabe, chamado “reserva de mercado”, e a importação dessas coisas não era fácil como hoje. Se hoje algumas coisas ainda são caras por causa dos impostos e frete, imagine como era nos anos 80.

Mais exemplos? Discos. Meu primeiro vinil foi “Creatures of the night”, do Kiss, comprado em 1983, quando eles estiveram no Brasil pela primeira vez. Depois disso comecei a ouvir mais e mais músicas, mas e pra comprar?

Os discos eram caros demais, tanto que eram comprados raramente e, quando acontecia, ouvia muito e conhecia as músicas de ponta a ponta. Bem diferente de hoje, não? O MP3 e as facilidades de produção em estúdios caseiros aumentou tanto a oferta que ninguém conhece mais nada. Eu mesmo já comprei discos e ouvi apenas uma vez. Mas vamos voltar ao assunto…

Comprei centenas de discos há algum tempo, coisas que queria naquela época e não tive. Ouvi alguns, outros foram direto para a prateleira, pra falar “eu tenho”. Isso vale pra tanta coisa… bicicleta, guitarras, discos, tênis, roupas. São apenas objetos, eu sei, e percebi que muitas dessas coisas podem ser simplesmente descartadas agora, mas somente agora. Antes não era possível, não podia descartar algo que não tinha.

Fico imaginando, por outro lado, qual será a próxima pendência perdida no subconsciente.

Postado em 07-06-2009

Confissões, pt. II

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 105 vezes

Continuando a série: odeio fazer qualquer coisa por obrigação. Qualquer coisa. E esse é o motivo de eu não saber se vou continuar escrevendo essas confissões. Depois que fiz a primeira, numerada, e disse que faria mais, fiquei pensando naqueles números: parte I, II, III, IV…. Poderiam até ser dias, um após o outro, horas, minutos. É rotina, rotina é obrigação e obrigação cansa.

Quando era mais novo eu me achava indisciplinado, pensava que não conseguiria fazer nada que exigisse muito esforço, mas isso, no fundo, não era verdade e hoje entendo melhor. Comecei a ter aulas de violino, adorava. Algumas aulas depois e eu já me sentia obrigado a ir. Dá pra imaginar o restante. O mesmo vale pras aulas de guitarra etc.

Percebo que não era indisciplina quando presto atenção na forma como trabalho e sempre trabalhei ou como me entrego às coisas que faço realmente por gosto: não penso duas vezes, não questiono se estou ou não com vontade, vou e faço.

O problema é quando algumas coisas que são feitas por gosto se tornam obrigação. Quando comecei a fazer músicas em meu quarto, ligava o computador, compunha, montava, editava, mixava, blá blá blá… Um dia soltei uma demo, divulguei relativamente bem, deu bom retorno, alguns bons reviews, outros nem tanto.

Continuei trabalhando em músicas novas, mas acontecia de alguém perguntar “e ai, quando teremos músicas novas?” e a coisa começou a degringolar… Me sentia obrigado a compor, bem como a dar satisfação. Deixei 12 músicas prontas, prontas pra gravar vocais, esquecidas por quase dois anos no computador. Um dia decidi que estava cansado delas e liberei como estavam, sem voz. Foi um tipo de exorcismo, eu sei. Não acho que letras e vocais sejam importantes em música, mas não é esse o ponto. O ponto é que não faço mais pq ainda me sinto obrigado. Uma hora, quando não me sentir mais, quem sabe…

O mesmo tá valendo pro site, pros escritos, pros rabiscos: estão se tornando obrigação. O chato é que sempre há um tanto de desapontamento por conta disso. Não gostar de fazer por obrigação é compreensível, ninguém gosta, imagino, mas não evita aquela pontada afiada que diz “falhei”.

Postado em 21-05-2009

Confissões, pt. I

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 189 vezes

Quando presto atenção nas pessoas vejo que sempre querem mostrar seu melhor lado, ou o que consideram assim. Vamos imaginar um flerte em um bar: o sujeito vai chegar para a garota, sorrir, falar onde trabalha, onde estuda, provavelmente encontrará uma maneira de colocar ali alguns adjetivos bons a seu respeito ou, no mínimo, vai se gabar de alguns de seus feitos e procurar mostrar seu melhor ângulo.

Na internet não é diferente. O que acontece aqui, por outro lado, é que a pessoa pode escrever o que quiser sobre ela e deixar lá. Quem não a vê ou conhece, é obrigado (eu hein!) a acreditar nos textos. Resultado? Na internerd esse povo é legal, valente, apóia as causas da moda, defende a tolerância, enfim, todo mundo é correto e antenado.

As maioria das pessoas que vemos pela internerd não são humanas. São personagens, estereotipos, são criações do que acreditam que o mundo espera delas. Não há diferença alguma entre elas e aquele exemplo ali atrás, flertando em um bar. O que muda é o tempo da ação: aquela é isolada, a internet as faz permanentes ou mais duradouras.

O que pretendo com esse post é ser humano, do tipo que ganha rótulos das pessoas legais. Como assim, pergunta você. Explico: trabalhei em uma empresa, onde comecei muito novo, e passei a adolescência lá. Vocês devem lembrar como é um adolescente, não? Pois bem, eu era pior. Havia lido muito e começado a aprontar já bem cedo, logo era bem arrogante, me achava superior em relação às pessoas da minha idade à época (mas eu era mesmo, é fato) e, quase sempre, superior aos mais velhos também.

Tive milhões de neuras precoces, atitudes idem, era arrogante, falava o que pensava (e às vezes o que não pensava, só para pisar no calo dos outros) e era bem estressado (isso não mudou). Se acreditava que algo era X, defendia minha idéia até que meu oponente desistisse ou brigasse. Podia mudar de opinião no meio do argumento só pra provocar a confusão, como já disse antes. Ganhei fama de problemático, neurótico, complexado, “plúmbeo” (sim, fui chamado assim!), entre outras. Fingia gostar desses rótulos, mas no fundo eu odiava. Ainda odeio…

Eu era tudo aquilo? Claro que era. Ainda sou, acredito, em parte. O que me incomodava era a facilidade com que as pessoas me rotulavam, fingindo que não eram elas mesmas aquelas coisas. A negação em frente ao espelho, entende? Nem todo mundo era chato como eu, mas “problemático”? Ora, pois bem: com a moda da psicanálise e a facilidade dos antidepressivos tenho visto a quantidade de problemáticos “aumentar” a cada dia. Não é à toa que a bipolaridade tornou-se a doença da moda.

Claro que algum jumento virá agora falar que estou eu também rotulando os outros. Não acho que esteja, pelo simples motivo que não apontei o dedo a alguém específico. Fiz um comentário geral, esperando que alguém vista a carapuça, mesmo ali, no escuro do quarto. Agora, se estou rotulando, não me importo e quero que se dane. Isso é direito adquirido. Não gostou? Vá ler outro blog idiota.

Qual o motivo de eu ter chamado esse post “Confissões” e afirmar que é a “parte 1″? Quem leu as Confissões de Santo Agostinho sabe que ele não se limita às coisas boas que fez, nem apenas lista seus “pecados”. O que há ali é outra coisa, é pensamento sobre o que foi feito, é análise. Pois é disso que se trata uma confissão, estou certo? Não se trata também de, ao criticar os próprios atos, mostrar os erros dos outros? Não estou falando, pois bem, do fiel que vai à igreja ler uma lista de coisas na orelha de um padre.

Cansado que estou de pessoas fajutas e artificiais, da moda, descoladas, whatever, serei eu, humano, Hilton, reclamão, estressado, mau humorado, intolerante e outros adjetivos que acabar encontrando pelo caminho. A diferença é que serei TAMBÉM o Hilton fiel, dedicado, determinado, justo. Não serei apenas estes, nem só aqueles. Não sou uma peça publicitária, sou completo.

Esta é a parte um, pois vou lembrar casos e comentar, tentar lembrar meu foco da época e retomar hoje. Não vou, entretanto, embelezar nada. Não vou transformar as pombas que eu matava com tiros de chumbinho em poesia e nem em filosofia. Fiz aquilo pelo simples prazer de falar “acertei” e ver o bicho cair. Era pra matar mesmo, maldade e desafio apenas. Eu era ruim por isso? Oh yeah, mas não tô nem ai com sua opinião. Hoje sou vegetariano. Não como carne por respeito aos direitos dos animais. Será que você, que me julgou, faz o mesmo?

É assim que será. Volto em breve com a parte II…

Postado em 01-05-2009

Quatro mundos em um grão de areia

por Aseth | Categoria: Pensamentos, Rabiscos | Lido 208 vezes

To see a world in a grain of sand
And a heaven in a wild flower,
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.

- William Blake in Auguries of Innocence

Começo citando os versos de Blake em inglês por falta de versão apropriada em português. As que encontrei eram adaptadas e não diziam necessariamente a mesma coisa do original. O verso mais importante para o que quero, no entanto, é o primeiro: “Ver um mundo em um grão de areia”, e esse não é um problema.

Gosto de Blake desde a primeira vez que o li, foi imediado. Alguns autores conquistam com o tempo, outros depois de páginas. Blake o fez nos primeiros versos de “O matrimônio do céu e do inferno”. Há alguns dias pensei em escrever este texto, mas decidi postar outro fragmento.

As poucas pessoas que me acompanham aqui sabem do meu interesse em acasos e coincidências e que, já deixei claro, acho que são bem mais do que isso. Pois bem, há alguns dias comecei a estudar, ainda superficialmente, o Grande Grimório, também conhecido como Le Dragon Rouge, ou O Dragão Vermelho. Acontece que o nome desse Grimório é também o nome de um filme (é, aquele, com o Ralph Fiennes) onde, por acaso, aparecem aqueles versos de “Auguries of Innocence”

Como sou uma criatura que “trabalha em rede”, leio e estudo outras coisas simultaneamente e não acredito que uma atrapalhe a outra. Ao contrário, acho que formam bases mais fortes e, em alguns casos, como estou vendo aqui, fazem bastante sentido, além de lançar possibilidades ao ar. Uma das bases para meu estudo das Qliphoth é o livro “Climbing the Tree of Life”, de David Rankine. Como se trata de um livro introdutório/intermediário de Qabalah, o autor precisava explicar os quatro mundos, o que fez da maneira usual, e depois usou aquele verso para sugerir uma meditação sobre sua explicação. Nada mais apropriado!

Quem já leu um pouco do assunto sabe que é complicado entender a idéia dos quatro mundos. Sabe também que varios autores em geral dão uma passada rápida e não se aprofundam. No começo isso me parecia algo como “um dia você vai entender”, depois comecei a achar que também não entendiam muito e acabavam fugindo. Não foi o que aconteceu ao ler Rankine.

Não vou explicar o que são os quatro mundos, apenas listá-los. Se você precisar saber, pode sempre encontrar as explicações pela net ou em livros. São “enlatadas”? Sim, várias são, mas serão úteis se você meditar a respeito, talvez mesmo usando o modelo do grão de areia abaixo.

Os quatro mundos são:
- Atziluth (Olahm ha-Atziluth) – Mundo Arquetípico
- Briah (Olahm ha-Briah) – Mundo Criativo
- Yetzirah (Olahm ha-Yetzirah) – Mundo Formativo
- Assiah (Olahm ha-Assiah) – Mundo “Feito” (manifesto)

Imagine isso: em Assiah você vê um grão de areia apenas, mas em Yetzirah, um nível acima, o grão de areia é uma combinação de elementos químicos em estado sólido. Continuando, em Briah, são os átomos específicos, estruturados para sua formação. Em Atziluth, por fim, no topo de tudo, são milhões de átomos apenas, um universo em miniatura, um microcosmo.

Usando o processo inverso, de cima para baixo dessa vez, o exemplo de uma moeda: em Atziluth são milhões de átomos, assim como todos os outros, incluindo você. Em Briah esses átomos se conectam, formando prata, níquel, ouro ou cobre. Em Yetzirah é uma liga de metal estampada e, por fim, em Assiah é um objeto feito pelo homem, usado no comércio, ou seja, a forma como se manifesta.

Esses exemplos são muito claros – pra quem sabe do que estou falando – e incentiva ainda a meditar sobre o resto do que nos cerca. A dualidade, atacada por Blake no fragmento do post anterior, é, por tabela, atingida aqui novamente.

Se alguém quiser o livro citado, pode procurar em livrarias gringas (óbvio que aqui não vão achar). A editora é a Avalonia, mas esse é só um detalhe. Quanto ao Dragon Rouge, existem várias edições por ai, de qualidade duvidosa, mas como se trata de um trabalho muito antigo, existem algumas versões online também.

Postado em 19-04-2009

A voz do Demônio, por William Blake

por Aseth | Categoria: Livros, Pensamentos | Lido 239 vezes

Um fragmento de “O matrimônio do Céu e do Inferno”, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem necessidade de meus comentários:

Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:
1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo & uma Alma.
2. Que a Energia, denominada Mal, provém apenas do Corpo; & que a Razão, denominada Bem, provém apenas da Alma.
3. Que Deus atormentará o Homem pela Eternidade por seguir suas Energias.

Mas os seguintes contrários são Verdadeiros:

1. O homem não tem um Corpo distinto de sua Alma, pois o que se denomina Corpo é uma parcela da Alma, discernida pelos cinco Sentidos, os principais acessos da Alma nessa etapa.
2. Energia é a única vida, e provém do Corpo; e Razão, o limite ou circunferência externa da Energia.
3. Energia é Deleite Eterno.

Quem refreia o desejo assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar e governa o inapetente.

E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do desejo.

Essa história está relatada no Paraíso Perdido, & o Governante, ou Razão, chama-se Messias.

E o Arcanjo Original, ou possessor dos comandos das hostes celestiais, chama-se Demônio ou Satã, e seus filhos chamam-se Pecado & Morte.

No Livro de Jó, porém, o Messias de Milton chama-se Satã.

Pois essa história tem sido adotada por ambos os lados.

Em verdade pareceu à Razão que o Desejo havia sido banido mas, segundo a versão do Demônio, sucumbiu o Messias, formando um céu com o que roubara do Abismo.

Isso revela o Evangelho, onde ele suplica ao Pai que envie o confortador, ou Desejo, para que a Razão possa ter Idéias sobre as quais se fundamentar, não sendo outro o Jeová da Bíblia senão aquele que mora nas flamas flamantes.

Sabei que Cristo, após sua morte, tornou-se Jeová.

Mas, em Milton, o Pai é Destino, o Filho, Quociente dos cinco sentidos, & o Espírito Santo, Vácuo!

Nota: A razão pela qual Milton escreveu em grilhões sobre Anjos e Deus, e em liberdade sobre Demônios & Inferno, está em que ele era um Poeta autêntico e tinha parte com o Demônio, sem sabê-lo.

Postado em 18-03-2009

Liber Pennae Praenumbra

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 341 vezes

Há alguns anos, em 1997 para ser mais preciso, estava estudando Maat Magick e – não vou entrar em detalhes – tive uma conexão muito interessante com o trabalho de Soror Nema, com quem mantinha contato por email e com quem aprendi várias coisas.

Um dia desses encontrei o arquivo com o Liber Pennae Praenumbra, que traduzi na época, antes da Madras publicá-lo oficialmente em português. Muita coisa está ruim e precisa de melhorias. O fato é que é praticamente impossível traduzir um livro “inspirado”, de forma qualquer tradução será, sempre, apenas um apoio ao leitor do original. Como traduzir isto, por exemplo: “The pylons of the ages are unshaken, firmly are they Set”? Literalmente? E ignorar a óbvia alusão ao deus Set? Optei por Set.

Por fim, recomendo a leitura do original, bem como das “notas e comentários” da scriba, tratando de detalhes, da qabalah e da interpretação do texto. Tanto isso quanto os rituais podem ser encontrados em seu livro, Maat Magick.

Segue:

No Akasha-Eco isto é inscrito:

Pela mesma boca, Oh Mãe do Sol, é suspirada a palavra e o néctar recebido. Pela mesma respiração, Oh Contrapeso do Coração, é o manifesto criado e destruído.

Mas há um portal, embora pareçam ser nove, Mímico dançarino das Estrelas. Quão formosa tua teia e tecido, a-reluzente no fogo-escuro do espaço!

Os dois que nada são te saúdam, Chama Negra que move Hadit! Quanto menos Um cresce, mais Pra-NU se manifesta. Fale a nós agora, as crianças do tempo-por-vir; declare tua vontade e concede nos teu Amor!

Falou então Aquela que Move:

Eu derramo sobre vocês, Crianças de Heru! Todos vocês que amam e guardam a Lei, Nada guardando para si mesmos, são a-bençoados. Vocês tem procurado os pedaços espalhados de Nosso Senhor, incessantemente para montar tudo que tem sido. E no Reino dos Mortos vocês produziram dos Mortos o Iluminado. Vocês deram à luz e O alimentaram.

Vossa Terra de Leite deve também ter o mel, deixado cair como orvalho pelo Ginandro Divino. O prazer e deleite estão no Trabalho, o Todo excedendo as Partes juntas.

O Senhor das Partes é colocado em seu reino, como pela Besta e pelo Pássaro. A terra do Sol não é aberta às Crianças. Atenção à Criança Eterna – seu Caminho flui livre, adaptado à Natureza de sua existência.

Uma Voz Gritou no Eco de Cristal:

Que significa essa demonstração? É o Tempo em Si Mesmo esperado? O Falcão voou sessenta e dez em Seu trajeto acumulado!

Ela sorri, linda como a Noite:

Observe, Ele abre as pontas de Suas asas ainda em vôo, banhando e agitando a Luz Dourada sobre os corações dos homens. E em que Ele voa, e por que meios? A Pena e o Ar são Seus para cavalgar, para suportá-lo sempre em seu IN-do.

Os pilares das eras são imutáveis, firmes eles são Set. O Dia do Falcão está amanhecendo, e verá sua devida medida segundo as Leis de Tempo e Espaço.

A Voz então falou:

Então a Visão falhou? Eu Os observo deformados, pensando em Ti como Quem Tu Não és?

Ela dançou e girou, espalhando a luz das estrelas em sua risada silenciosa.

Eu Sou Quem Eu pareço ser, às vezes, e então novamente Eu visto um véu triplo. Não se confunda! Acima de tudo, prevalece a Verdade.

Eu sou a Ilimitada. Quem lá está para me dizer não, para dizer, “Você não deve passar”? Quem realmente pode dizer, “Seu tempo ainda está por vir,” quando o próprio Tempo é meu principal servo-criado, e Espaço o Major-domo de meu Templo?

De fato, Oh Voz do Akasha, Eu sou os meios pelos quais você fala. Pela mesma boca que respira o Ar, despeja palavras de dúvida. Então em silêncio, Me conheça. Pois Eu venho com propósito desta vez, para auxiliar os Amantes do Falcão a voar.

A Palavra de Vôo

Quem hesita no Vôo deve por isso cair: a grandeza dos Deuses está no IN-do.

Quando pela primeira vez vocês voaram, Amados de Heru, quebraram a concha que longamente os protegeu. Sobre as Asas da Vontade vocês se aventuraram, ganhando vigor e força vocês voaram. Vocês ganharam todo o conhecimento do Reino Emplumado, pelo que se tornaram perfeitos como o Sol. Todos os amigos e mestres se tornaram irmãos.

O Cisne real, a Garça e a Coruja – o Corvo e o Galo lhes ajudaram. A Beleza do próprio Falcão foi concedida, as virtudes do Pavão, o Colibri e Pombo. A Águia revelou sua natureza interior e seus mistérios – observem, vocês testemunharam como, com seu Leão, ela se tornou o Cisne. E o Íbis do Abismo mostrou o Conhecimento.

Vocês voaram, Oh Reis e Eremitas! E voaram mesmo agora, dentro do encanto curvado de NU. Mas há aqueles dentre vocês, e abaixo de vocês, que laçariam suas asas e os arrastariam do céu.

Olhem bem fundo! Julguem seu Coração corretamente! Se vocês são puros, ele não pesa mais que Eu. Isto não os trará para dentro do Abismo. Pois Ouro é Luz/Leve, mas Chumbo é fatal quando em vôo – observe suas próprias profundidades, em Verdade e em auto-conhecimento.

Se algo te impede, é teu feitio. Observe agora este ensinamento dentro do Templo.

Assim dizendo, Aquela-Que-Move assumiu a forma da grande Chama Negra, crescendo do tronco central e ondulando dentro do Vazio. As Crianças de Heru observaram em silêncio, e escutaram Suas palavras formarem-se em seus corações.

Observe! Esta lente de Estrelas se tornando Espaço frente a vocês – os homens a nomearam corretamente como Andrômeda. Através delas fluo para a Lua do Cão sagrado, e dali a Ra, e dali a vocês, Oh Sacerdotes.

Vocês não devem ficar satisfeitos enquanto no Reino, mas lutar e assim exceder o que é feito. Em Amor da Dama do Norte, e em Vontade do Príncipe do Sul, fazei que cada coisa seja. Na força da Estrela de Sete-raios devem compreender a Besta. E desde HAD do Coração se deleitem na tua querida estrela-arcada.

Faça tudo isto, e então, vá além. Abandone qualquer coisa que possa te distinguir de outra coisa, sim, ou de não-coisa/na-da (no-thing, no original). Se caires em armadilha, deixe teu manto-de-penas a-balançar em sua mão e seja invisível e nua para além!

Mas agora! Como sacerdotes dentro do Templo vocês estão aqui, como Reis, e Guerreiros, todos Magos. O Caminho está na Obra.

O Um Escondido do Abismo agora dá os dois onde é forjada a alta Alquimia: suportando a Terra está Chthonos – aprenda bem, e todos as amarras se soltarão para a Obra da Vontade. Acima do Espirito, lá está Ychronos, cuja natureza é duração e a morte disto.

Os dois são um, e formam a essência do Reino. Quem os domina é Mestre do Mundo. Eles são as chaves completas da Transmutação, e chaves da força dos outros Elementos.

Os Guerreiros-Sacerdotes receberam as Chaves, e as colocaram dentro de seus robes, para mantê-las bem ocultas acima de seus corações. A Chama Negra dançou e decaiu, se tornando pequena, uma pena, emplumada e pontiaguda. Não tendo nada sobre o que escrever, um dentre os Sacerdotes veio à frente, e colocou a pele de seu corpo sobre o altar como um pergaminho vivo.

Aquela-Que-Move escreveu sobre ela uma Palavra, mas não colocou diante eles. Em paciência esperaram os Reis e Eremitas, assegurando a completa Compreensão final.

A Pena cresceu outra vez, arredondada em suas margens, tornando-se perante seus olhos o Yonilingam. Veio a imagem do Antigo Baphomet, O Chifrudo, que falou:

Há tempos vocês sabiam a Chave dos Dois-em-Um unidos. Vocês viveram e amaram completamente como NU e HAD, como PAN e BABALON. O Mistério de minha própria imagem vocês também conhecem, como era uma Verdade para as antigas Ordens do Leste e do Oeste.

Bipartida tem sido a Raça dos Homens em sua época. O Pai e a Mãe fizeram uma Criança. Eu sou a mais antiga das Crianças, verdade – mas agora o jovem ascendem para Seu Dia.

A natureza da verdadeira Alquimia é que isto muda não só a substância da Obra, mas muda então também o Alquimista. Vocês cuja Vontade é Trabalhar por esse meio, observem minha imagem inversa, e considerem bem seu significado para tua Tarefa.

A Demonstração da Imagem

De fora do Yonilingam soprou uma Nuvem, violeta e lampejante. No coração nublado um som surgiu, vibrando macio, preenchendo toda parte.

Adornada e reluzindo luzes-arco-íris das asas, pairou no meio uma humilde ABELHA. Listada de ouro e marrom, suavemente peluda e encurvada na forma, brilharam seus olhos sobre os Sacerdotes e Reis reunidos.

Falou então Aquela-Que-Move fora da névoa circundante:

Isto é o símbolo da Obra-por-vir, o Grande Ginandro em sua forma Terrestre. O Mago deve crescer por sobre a ABELHA enquanto o Aeon se desdobra, um líder e um sinal sobre a Raça dos Homens.

Que então nos mostra a ABELHA de sua natureza?

Observe, isto não é masculino nem feminino no singular. Trabalha de dia em vôo constante, um fa-zedor sem ego, cuja vontade e Vontade da Colméia são apenas uma.

Coleta o néctar da flor, voa para a Colméia e lá, em pura Com-Unhão, faz seu corpo Transmutar.

O néctar agora é mel. Abelha a abelha, é transferido, falando todos os Mistérios da Colméia de e para cada boca. Pela mesma boca que primeiro coletou, é o mel consumido, a Alquimia secreta dentro dos Centros tornando Prata em Ouro.

A Colméia agora vive, imortal. Com rainha e trabalhadores, zangões e operárias, soldados e madrastas – todos são um. Em constante renovação da vida, a Colméia respira como Um Ser – pois realmente é isto. Na Vontade da Colméia está preenchida a Vontade da Abelha. Cada uma em seu lugar, as Abelhas trabalham sua Vontade em ordenada harmonia.

A imagem desaparece. Agora a equilibrada Pluma se move numa dança elegante, abrindo as longas asas, tomando a forma do escuro Abutre.

Mas saibam, Oh Crianças do Falcão, um Homem não é uma Abelha. Ele pode se beneficiar desta imagem, para aprender da Sabedoria da Obra. Observe em Mim outra imagem para instruir teu coração.

Ergueu-se ante seus olhos a Torre do Silêncio, em que os Amantes do Fogo depositam seus mortos.

A forma do Abutre desceu suavemente, e comeu a carne dos cadáveres, até o osso. O vento uivou, desolado, neste lugar medonho, agitando as mortalhas sobre os esqueletos de marfim.

Silenciosamente, O Alado olhou, o bico sujo de sangue. Dentro dos olhos de cada Sacerdote lá reunidos, seu olhar pernicioso procurou. Em paz perfeita eles observaram sua busca, pois cada um, como Guerreiro, tinha feito da Morte um irmão. Então deliberadamente, ele abriu suas asas, pegou o vento, e decolou daquele lugar.

A Entrega da Palavra

Eternidade então reinou, Infinito o véu que penduraram sobre eles.

Em Algum Lugar, algum dia, o véu se abriu por um momento, e Aquela-Que-Move passou. Mais atrativa que qualquer mulher mortal havia sido, Ela irradiava um brilho de pérola e ametista. Bem dobrado linho era Seu vestido, cingido em ouro e prata, e em Sua cabeça, um nemyss de estrelado azul. Sua coroa era uma única pluma, ereta, e em suas mãos o Ankh e o Bastão da cura.

Sobre cada Guerreiro-Sacerdote ela se moveu, os abraçou e os beijou. Então, pousando no meio, Ela falou como um colega de mesmo nível.

“Todos vocês que praticam a Alta Arte, escutem. Nada deve haver escondido de tua vista. Todas as formulas e Palavras vocês devem descobrir, sendo iniciados por aqueles que Trabalham para ajudar a Lei da Vontade.”

“Vocês trabalham bem em tudo que tem sido dado; sobre a Árvore da Vida são vocês encontrados. No Tetragrammaton vocês continuaram; tudo dado pela Besta vocês praticaram corretamente. Vocês tornaram-se Hadit, e NU, e também Ra-Hoor-Khuit. Como Heru-Pa-Kraath vocês continuam em silêncio. Vocês conhecem PAN como amante e como forma divina, e BABALON é noiva e Seu Ser.”

“Vocês engendraram as forças de Shaitan, extraindo o nexo do noventa e três para trabalhar sua Vontade. Separação para o prazer de União vocês conheceram, e Alquimia é Ciência de sua Arte.”

“Para aqueles que sabem, e vão, e ousam, e se mantém em silêncio, isto agora irá além.”

“Na morte está a Vida – agora como sempre tem sido. A Morte Querida é eterna – guarde isto. O Ego, filho de Maya, deve ser assassinado no momento do nascimento. O Olho que não dorme deve manter vigília, Oh Guerreiros, pois a ilusão é auto-gerada.”

“Observação constante é o primeiro Ato – o Abismo é cruzado em minutos, todos os dias.”

“Se vocês podem dançar a Máscara, então mascarem a Dança. Seleta deve ser a Arte nesta instrução; e equilíbrio no Centro seja mantido, ou senão dareis inusitada Vida a tuas próprias criações. Trilhe cuidadosamente este caminho de Trabalho, Mago. Uma ferramenta, por Vontade criada, faz um mau mestre.”

“Agora na Missa, a Águia deve ser alimentada com o que ajudou fazer. Pela mesma boca que ruge sobre a montanha, é dada a palavra-ato de Nenhuma Diferença.”

“E quando a Vontade declara, deverá se agrupar à ABELHA para somar o ouro ao vermelho e ao branco. A essência de Shaitan é Néctar aqui, o Templo é a Colméia. O Leão é a Flor, agora é o momento, a Águia invoca a natureza da ABELHA.”

“Dentro da câmara-tripla do santuário é o primeiro néctar colhido. A convocação do bastão de PAN desperta a felicidade do portal se abrindo. E da terceira e mais íntima câmara, em prazer supremo, o presente de Sothis, hidromel quintessential, reunidos para unir lágrimas-de-Águia e sangue-de-Leão.”

“Solve et Coagula. Com-Unhão por esse meio, de que o próprio Cosmos dissolve, e re-forma por Vontade. E saiba, se de qualquer forma pode ser ordenado no Reino, que três ou mais é zero, assim como as antigas verdades.”

Então se agitaram os Guerreiro-Sacerdotes, e de seu número, um sem nome se adiantou.

“Nós a conhecemos, Senhora, embora Teu nome não tenha sido pronunciado. Mas diz agora – o que foi escrito na pele do homem? Qual é a palavra que Tu destes?”

Ela sorriu e tirou de seu manto um pergaminho ressecado, dobrado como uma Estrela. Desenrolando, Ela o virou, para que todos pudessem ver.

IPSOS

“Que é esta Palavra, Oh Senhora – como pode ser usada?”

“Em sabedoria silenciosa, Rei e Sacerdote-Guerreiro. Deixe a escritura brilhar e deixe a palavra ser oculta; a escritura é iluminação suficiente para velar a face.”

“Esta é a palavra do vigésimo-terceiro caminho, cujo número é cinqüenta e seis. Esta é a Permanência do não dito, em que a Dança da Máscara é ensinada por Mim. Tahuti observa sem o Macaco; Eu sou o Abutre também.”

“Este é o Cálice do Ar e o Bastão da Água, a Espada da Terra e o Pantáculo de Fogo. Isto é a ampulheta e a serpente mordendo a cauda. Isto é o Ganges se tornando Oceano, o Caminho da Criança Eterna.”

“Isto nomeia a Fonte de Minha Própria Existência – e da sua. Isto é a origem desta transmissão, que canaliza através de Andrômeda e Set. Que raça de deuses fala aos homens, Oh Queridos/Cheios de Vontade (Willed, no original)? A palavra deles é ambos o Nome e o Fato.”

“Isto é para teu mantra e encantamento. Falar é efetuar certa mudança. Seja prudente em seu uso – pois se a verdade for conhecida no exterior, poderá talvez levar os escravos à loucura e desespero.”

“Apenas um verdadeiro Sacerdote-Rei pode conhecer completamente, e permanecer em equilíbrio em seu IN-do (GO-ing, no original) vôo. Isto é tudo que falo por hora. O Livro da Ante-Sombra da Pena está completo. Faze que tu queres é o todo da Lei. Amor é a lei, amor sob vontade.”

# Donat per Omne
# Scriba – Nema
# Sol in Capricornus
# Anno Heru LXX
# Cincinnati, Ohio

Postado em 12-03-2009

Alguns elementos de fetiche

por Aseth | Categoria: Pensamentos, Visuais | Lido 353 vezes

O desdobramento dos signos tem essa consequência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse no sentido de uma separação do ser pessoal e de todo limite, é no entanto expresso por um objeto.
- Bataille, in O Erotismo

Cresci vendo minha mãe costurar, fazendo roupas tanto para nós de casa quanto para suas clientes. Uma decorrência disso é que também cresci com revistas de moda por perto, muitas eram importadas, e, vale lembrar, eram os anos 70.

Essas revistas, quando velhas, depois de usadas para que as clientes escolhessem modelos ou para que minha mãe tivesse idéias, se transformavam em meus trabalhos de escola, as famosas colagens, além de serem uma forma de ver o mundo além dos portões e da rua onde morava. Era curioso, pois tinha mais contato com elas do que com quadrinhos, por exemplo, imaginava conversas entre as pessoas e, como não sabia ler, imaginava o que os anúncios diziam.

Há alguns meses, andando pelo MoMA, encontrei uma sala com um painel enorme que disparou, imediatamente, um gatilho na minha memória e retomei muita coisa da infância. Tirei algumas fotos e depois fiquei pensando o motivo de ter sido atraído. A única explicação que consigo encontrar é que tenha sido fetiche, esquema freudiano mesmo. As imagens nas paredes eram do mesmo tipo de revistas que eu via, exatamente os mesmos, mas algumas ganharam destaque por sobre a montagem das páginas, como se tivessem vida própria. Acredito, de fato, que tinham e ainda tenham. São fetiches, ou seja, gatilhos, que falam ao inconsciente, sem as barreiras da razão. Quase atavismos, talvez.

Ao lado do grande painel na parede havia uma caixa de vidro com alguns daqueles elementos em três dimensões, palpáveis, praticamente vivos. Sim, nunca gatilhos foram tão ativos. Reproduzo abaixo duas fotos que tirei, só para dar uma idéia do que fato. Os turistas ainda não tomaram o lugar dos viajantes.

O problema é que fui muito espertão e não fotografei a ficha da obra. Pensei “pego depois, em detalhes, no site do museu”. Acontece que o site do museu é enorme, tem milhares de obras, algumas sem fotos, e até hoje não achei. Se alguém souber do que se trata e puder me dizer, agradeço imensamente.

Postado em 09-03-2009

Watchmen e as mudanças do mundo

por Aseth | Categoria: Filmes, Pensamentos, Rabiscos | Lido 586 vezes

Assisti Watchmen ontem e hoje foram inevitáveis algumas discussões sobre o assunto: se o filme fez justiça aos quadrinhos, se é bom, os efeitos especiais, os cortes, os extras do dvd. Essas discussões ocorreram tanto em conversas que tive quanto em blogs pela net, como pude ler algumas.

Bom, resolvi escrever também um post sobre o assunto, mas não vou discutir as qualidades do filme, nem se o Alan Moore está correto com seu “não vi e não gostei”, ou se os puristas tem razão em achar uma droga. O fato é que gostei do filme e, por hora, essa informação é suficiente.

Eu poderia ter falado sobre Watchmen há muito tempo, baseado apenas nos quadrinhos, tendo em vista que eu já havia lido. A diferença é que antes não faria sentido pra quase ninguém, hoje pode fazer. Muita gente verá o filme e o que direi fará sentido, pois é algo comum tanto à história de Moore e ao filme.

Li alguns posts e reviews falando sobre uma necessidade de mudar o mundo indicada na obra de Alan Moore. É disso que eu discordo completamente. O que há ali não é, de forma alguma, a indicação de que as pessoas devem mudar o mundo. Há, sim, uma indicação de mudança INDIVIDUAL, de formas de agir, de hábitos, de pensamentos. Repito: não é indicação de que é preciso mudar o mundo, é o contrário disso, e explico o motivo.

Rorschach, o mais radical dos heróis, é extremamente violento e segue um código bem particular. Seus métodos podem ser questionáveis, mas é com ele que as pessoas simpatizam. É um justiceiro, pode ser considerado cruel, mas também humano, como demonstra ao agradecer o Coruja por sua paciência. Voltarei a ele depois…

Ozymandias (estou contando os minutos pra que algum “gênio” diga que ele representa o capitalismo ou alguma asneira do tipo) é o homem mais inteligente do mundo. Pois bem, não é necessário que ele seja de fato, é necessário apenas que ele acredite nisso. Todos aqueles que se dão mais valor do que realmente tem acabam provocando desastres. Ozymandias é que representa a “necessidade” de mudança do mundo. Para ele é a mudança que conta, não os custos. Ozymandias é Hitler, é Stalin, é Castro, são os aiatolás. Ozymandias é a mudança pela imposição: mata milhões para salvar bilhões. É esse o preço da mudança do mundo.

A mudança importante – cuja necessidade é de fato apontada – se dá no indivíduo, naturalmente, não por obrigação. A mudança indicada não se dá como adorariam os imbecis marxistas, é outra coisa.

A mudança individual ocorreu em Jon, Dr. Manhattan, quando conversava com Spectral na superfície de Marte. Sua mente fria e científica consegue entender algo especial, raro: um milagre. A própria mudança individual e a possibilidade de que Jon perceba esse fenômeno, sutil e poético, é um milagre e, como tal, não se faz por decreto. Jon mudou, percebeu partes da humanidade que havia deixado de perceber após o acidente (não há nada que indique que antes ele percebia, mas enfim). A mudança, no entanto, é sutil, lenta, toma seu tempo. Ela aconteceu em Dr. Manhattan, mas não o suficiente para que ele tomasse o lado de Rorschach. Pode vir a ocorrer um dia, quem sabe. Como disse, é individual, lenta.

O violento Rorschach foi o único que entendeu que o que acontecia naquele momento, foi o único que não compactuou. Foi o único que não mudou e se manteve firme, defendendo seu modelo moral. Percebem o que quero dizer? Não é necessário que um indivíduo mude, ou que um grupo mude. De fato, talvez nenhuma mudança seja necessária. É preciso, sim, que as coisas sigam seu fluxo, naturalmente, não de forma imposta. É preciso também que haja uma base moral, ética, fundamentada. Essa foi a base de Rorschach.

Mudanças são lentas, são pequenos milagres. O mundo não os vê. Indivíduos vêem.

Postado em 27-02-2009

A moral da homogeneidade

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 352 vezes

Há pouco mais de uma semana, postei algumas linhas de pensamentos que surgiram ao lembrar de um livro de Georges Duby, sobre as cavalarias medievais. Quando escrevi aquele post, me lembrei de um verso de Liber AL vel Legis e abri com aquela citação. Pois bem, estava lendo “The Law is for all”, de Aleister Crowley, e quando cheguei ao comentário sobre aquele verso (AL, II, 58), percebi que caía quase que como uma luva.

Segue, em inglês:

Men should not be taught to read and write unless they exhibit capacity or inclination. Compulsory education has aided nobody. It has imposed an unwarrantable constraint on the people it was intended to benefit; it has been asinine presumption on the part of the intellectuals to consider a smattering of mental acquirements of universal benefit. It is a form of sectarian bigotry. We should recognize the fact that the vast majority of human beings have no ambition in life beyond mere ease and animal happiness. We should allow these people to fulfil their destinies without interference. We should give every opportunity to the ambitious, and thereby establish a class of morally and intellectually superior men and women. We should have no compunction in utilizing the natural qualities of the bulk of mankind.

(…)

In this way we shall have a contented class of slaves who will accept the conditions of existence as they really are, and enjoy life with the quiet wisdom of cattle. It is our duty to see to it that this class of people lack for nothing.

(…)

Our troubles have been caused by the assumption that everybody wanted the same things, and thereby the supply of those things has become artificially limited; even those benefits of which there is an inexhaustible store have been cornered. For example, fresh air and beautiful scenery. In a world where everyone did his own will none would lack these things. In our present society, they have become the luxuries of wealth and leisure, yet they are still accessible to any one who possesses sufficient sense to emancipate himself from the alleged advantages of city life. We have deliberately trained people to wish for things that they do not really want.

- Crowley, The Law is for all, novo comentário a AL, II, 58

Discordo de Crowley, no entanto, quando ele diz que “they lack nothing”. Eles não tem muita coisa, mas são rápidos em culpar os outros pelo que não possuem. Naquele post eu falava especificamente da falta de coragem, pois então vou usar isso como exemplo novamente: muitos não tem coragem sequer para defender sua existência, mas culparão os outros por não defendê-los.

Sobre os “escravos”, é interessante fazer uma leitura desse comentário tendo lido também a “Política”, de Aristóteles. Não vou entrar em detalhes e nem me aprofundar, mas ele fala da relação senhor x escravo e de como um precisa do outro. Não se trata, porém, da dialética do senhor e do escravo, de Hegel, é óbvio. Seria anacrônico, além de idiota, pensar uma bobagem dessas.

Crowley completa o comentário citando Liber Aleph, do qual dou apenas um fragmento:

All her Members let them differ in their Qualities, and let there be no Creature equal with another. Here also is the voice of true Science, crying aloud that Variation is the Key of Evolution. Thereunto Art cometh the third, perceiving Beauty in the Harmony of the Diverse. Know then, o my Son, that all Laws, all Systems, all Customs, all Ideals and Standards which tend to produce uniformity, are in direct opposition to Nature’s Will to change and to develop through Variety, and are accursed.

- Crowley, Liber Aleph, De Lege Motus

Concordo com isso, sim. O problema é que hoje, sobre o pretexto da diversidade, a mesma é destruída. Poucos percebem que a luta pela diversidade causa nada além de homogeneidade. As diferenças são naturais e não precisam de defesa. Essa defesa que promove o pensamento homogêneo enfraquece o processo.

O “politicamente correto”, por exemplo, hoje impede através de leis, algumas existentes apenas nos olhares de censura, que coisas sejam ditas ou feitas abertamente, criando novas gerações de hipócritas, de falsos livres pensadores, de lugar-comum.

Quem discorda disso, pode ler novamente o texto de Crowley, a primeira parte em especial. Deve reler, aliás. E se esse fragmento não te fizer pensar, pois bem, já sei em que lugar você se encaixa.

Assunto para ser continuado…