<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Transtorno&#187; Livros &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
	<atom:link href="http://www.transtorno.net/livros/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.transtorno.net</link>
	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
	<lastBuildDate>Thu, 10 Jun 2010 03:40:36 +0000</lastBuildDate>
	<language>en</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.0.1</generator>
		<item>
		<title>Certezas</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/11/certezas/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2009/11/certezas/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 18:58:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[efêmero]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=580</guid>
		<description><![CDATA[Nos últimos 3 meses, li aproximadamente 15 livros para a prova do mestrado. Não acho que é muito, pelo contrário, teria dado para ler mais, se minha vida se resumisse a leituras. Felizmente não é o caso. É claro que gosto de ler, mas é preciso bem mais do que isso, por certo. Curiosamente, apesar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nos últimos 3 meses, li aproximadamente 15 <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> para a prova do mestrado. Não acho que é muito, pelo contrário, teria dado para ler mais, se minha vida se resumisse a leituras. Felizmente não é o caso. É claro que gosto de ler, mas é preciso bem mais do que isso, por certo. Curiosamente, apesar de serem <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> obrigatórios, não são <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> dogmáticos, cheios de respostas. Claro que defendem idéias, representam seus autores, mas são aporéticos em sua maioria e por isso são bons <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a>.</p>
<p>Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> com fórmulas e receitas fossem tão bons, a história da <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">Filosofia</a></a> seria outra, certeira, sem discussões, provavelmente teria sido acabada há mais de dois mil anos. A frieza dos dogmas não me interessa, apenas o orgânico das certezas que se tornam <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>. O último livro lido, de Peter Brook, termina dizendo que quando forem publicadas, aquelas linhas já estarão ultrapassadas e merecerão questionamentos. Detalhe: o livro foi publicado pela primeira vez há mais de 30 anos.</p>
<p>É curioso hoje ver com tantas &#8220;certezas&#8221; tornaram o mundo um tédio. A maioria das pessoas é tão cega e certa dentro de seus pequenos mundos que mesmo os que posam de visionários apenas receitam absolutos. Sucesso, ambição, falta de conflitos, necessidades de diferença expressas na aparência quando por dentro há apenas homogêneo: concordância generalizada com uma ordem que esconde os vícios do comum sob a aparência da modernidade.</p>
<p>Acontece, porém, que não cabe ser nostálgico e crer que as coisas eram melhores antes. Esse seria um equívoco sem proporções. Poderia afirmar diversas coisas aqui, mas não quero também incorrer em erro exatamente quando estou com mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a> e questionamentos vivos na mente. Não me cabe dizer como algo deve ser, apenas continuar questionando. Se um dia eu tiver alguma certeza, meu crescimento terá acabado.</p>
<p>Adaptando uma afirmação de Marvin Carlson, digo que não há espaço confortável para mim em nenhuma das diversas teorias existentes, mas me interesso por elas quando me fazem ver onde estou, seja por afirmação ou negação.</p>
<p>São bons <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a>, mas não os recomendo.</p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2009/11/certezas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Nadja, sempre Nadja</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/08/nadja-sempre-nadja/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2009/08/nadja-sempre-nadja/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 04:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[acasos]]></category>
		<category><![CDATA[Nadja]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=520</guid>
		<description><![CDATA[Sexta-feira à noite, em casa. Pensamentos correndo, pessoas saindo para encontrar a noite, ansiedade, momentos curtos. Talvez&#8230; Sim, a magia do talvez. Vozes, movimento, barulho, fumaça, luzes. Nada disso aqui. Não agora! Me encontro só, com meus pensamentos, em companhia de minhas dúvidas, questionamentos e de meus gatos. Deprimente, não? Não, nem um pouco. Não [...]


Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/11/nadja/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Nadja'>Nadja</a></li>
<li><a href='http://www.transtorno.net/2009/07/efemero-eterno-memorias/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O efêmero, o eterno e as memórias'>O efêmero, o eterno e as memórias</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sexta-feira à noite, em casa.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">Pensamentos</a></a> correndo, pessoas saindo para encontrar a noite, ansiedade, <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> curtos. Talvez&#8230; Sim, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> do talvez. Vozes, movimento, barulho, fumaça, luzes. Nada disso aqui. Não agora! Me encontro só, com meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">pensamentos</a></a>, em companhia de minhas <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>, questionamentos e de meus gatos. Deprimente, não? Não, nem um pouco. Não se pensarmos que muitos que saem às noites buscam apenas companhia, a que não conseguem encontrar em si mesmos.</p>
<p>Ligo a TV. Desligo. Ligo meu equipamento, e continuo a mexer nas músicas que estão a caminho de vir a público. Me canso, por enquanto. Volto, ligo a TV, procuro um filme, desligo. Volto às músicas. Apago partes que um dia me pareceram boas e hoje parecem apenas barulho. Outras voltam a tomar forma, formar ondas: saws, squares, pulses. Já próximo da meia-noite o barulho incomoda os vizinhos. Ligo o fone, mas os graves provocam dores de cabeça. Preciso de uma pausa, volto à sala, olho a estante e depois de anos pego um livro que me olha: &#8220;História do <a href="http://www.transtorno.net/tag/surrealismo/">Surrealismo</a>&#8221;, de Maurice Nadeau. Abro aleatoriamente, ao acaso, como tanto gostavam.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>.</p>
<p>O nome, a palavra, a imagem. A primeira coisa que vejo, ali, magn<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>. Sorrio sozinho, sento e começo a ler a página. Está ali, tanto e sempre. Questionamentos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>, mas a certeza de algo: para mim <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> será sempre um símbolo. A prova de que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> existe, prova de que posso me encontrar comigo, em paz ou em guerra, mas sempre haverá o espelho. Está ali.</p>
<p>Querem saber o que dizia? Vos digo. Acredito que não se importarão, que não fará sentido, talvez. Talvez. Certeza e dúvida é o que vejo ali, não direi quando e onde, mas há sentido, sempre.</p>
<blockquote><p>Com <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, eis a antítese do estilo polêmico de Aragon, a tal ponto que se tomou a <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> por um romance, que se lhe atribuiu sucesso enquanto tal. Os fatos relatados parecem, de fato, tão inacreditáveis que se preferiu pensar que foram inventados. Ora, em <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> nada há de imaginado, tudo é perfeita e rigorosamente verdadeiro. <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> existiu, muitos a conheceram, seu destino brilhante e lamentável é exatamente como <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> o retrata.</p>
<p>Uma mulher que <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> encontra um dia, por acaso, na rua Lafayete, e que, como muitas mulheres por quem ele se apaixona, o atrai com um par de olhos &#8220;que ele jamais vira&#8221;. Ela se chama &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, porque em russo é o princípio da palavra <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>, e porque não passa do princípio&#8221;. &#8220;Quem é você?&#8221;, pergunta <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a>. &#8220;Eu sou a Alma errante.&#8221; Parece que ela se encontra sempre e naturalmente naquilo que os espíritas chamam de &#8220;estado de vidência&#8221;, numa disponibilidade perfeita e constante. Ela conta histórias e as vive: &#8220;é exatamente dessa maneira que eu vivo&#8221;. Depois dessa primeira entrevista, houve uma sequência, uma cascata de acasos: ela marca encontros, não aparece, mas eles se encontram sempre, <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, em lugares desconhecidos, em horas inconvenientes. Parece que o destino os aproxima um do outro, apesar do que pensem. Suas conversas se desenvolvem numa atmosfera que já não é normal, onde <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> muitas vezes perde pé. O que ela diz sempre parece provir de uma além onde ela vive naturalmente. Tem visões, alucinações que procura partilhar com seu companheiro; vive em outras épocas, em outros meios, com uma precisão supreendente; emprega expressões, irradia imagens que mantém estreita relação com <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> (livro que ele acaba de ler, expressões que usou e ela não pode conhecer etc.). Ela parece exercer uma influência inexplicável sobre as pessoas que surpreende em seus gestos habituais. Desenha estranhas composições repletas de significados misteriosos, escrever frases incoerentes que &#8220;lhe causam espanto&#8221;: &#8220;A garra do leão aperta os seios da vinha&#8221;. Escreve Breton:</p>
<p>&#8220;Do primeiro ao último dia, tomei <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> por um gênio livre, algo como um desses espíritos do ar que cetas práticas de <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> permitem momentaneamente que se os prenda, mas que não seria o caso de submerter-se-lhes&#8230;&#8221;</p>
<p>O poeta logo não pode mais segui-la: &#8220;eu talvez não estivesse à altura do que ela me propunha&#8230;&#8221; Ele se afasta pouco a pouco. <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> fica louca. É presa.</p>
<p>É uma história pequena, cheia de um peso imenso. É a entrada na vida de seres que estão além da vida; é a irrupção dos fantasmas que com naturalidade vêm dar as mãos aos vivos. Loucura? É fácil dizer. E o que é a loucura? Em que a loucura muda alguma coisa nos fatos relatados? Em que explica os inúmeros <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">acasos</a> e a realização das predições por meio de acontecimentos que não dependem de nenhum dos parceiros? <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> ficou louca a partir do momento em que foi presa? Ou o era antes? Foi <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> que, como lho censuraram, agravou seu estado? Que importa! Para além das aparências, <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> é um ser que vive doravante em nós, conosco.</p>
<p>- Maurice Nadeau, in História do <a href="http://www.transtorno.net/tag/surrealismo/">Surrealismo</a>
</p></blockquote>
<p>Pessoas saem em <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> de lugares desconhecidos e horas inconvenientes. <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">Busca</a>, ora, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a>. O movimento é, em si, parte da <a href="http://www.transtorno.net/tag/poesia/">poesia</a>.</p>

<p>Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/11/nadja/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Nadja'>Nadja</a></li>
<li><a href='http://www.transtorno.net/2009/07/efemero-eterno-memorias/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O efêmero, o eterno e as memórias'>O efêmero, o eterno e as memórias</a></li>
</ol></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2009/08/nadja-sempre-nadja/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Pertencer, por Clarice Lispector</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/06/pertencer-clarice-lispector/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2009/06/pertencer-clarice-lispector/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 00:36:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[vontade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=454</guid>
		<description><![CDATA[Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial. Segue: &#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial.</p>
<p>Segue:</p>
<p>&#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.    </p>
<p>Tenho certeza de que no berço a minha primeira <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.   </p>
<p>Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> quando vejo uma freira: ela pertence a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.   </p>
<p>Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.   </p>
<p>Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de &#8220;solidão de não pertencer&#8221; começou a me invadir como heras num muro.    </p>
<p>Se meu <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar pat<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos &#8211; e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.   </p>
<p>Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> intensa de pertencer vem em mim de minha própria força &#8211; eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.   </p>
<p>Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.   </p>
<p>No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.   </p>
<p>A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.&#8221;</p>
<p>&#8220;A Descoberta do Mundo&#8221;, Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1999</p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2009/06/pertencer-clarice-lispector/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A voz do Demônio, por William Blake</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/04/voz-demonio-william-blake/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2009/04/voz-demonio-william-blake/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 19 Apr 2009 18:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[abismo]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[mal]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=427</guid>
		<description><![CDATA[Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem necessidade de meus comentários: Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros: 1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma. 2. Que a Energia, denominada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de meus comentários:</p>
<blockquote><p>
Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:<br />
1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma.<br />
2. Que a Energia, denominada <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>, provém apenas do Corpo; &#038; que a Razão, denominada Bem, provém apenas da Alma.<br />
3. Que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> atormentará o Homem pela Eternidade por seguir suas Energias.</p>
<p>Mas os seguintes contrários são Verdadeiros:</p>
<p>1. O homem não tem um Corpo distinto de sua Alma, pois o que se denomina Corpo é uma parcela da Alma, discernida pelos cinco Sentidos, os principais acessos da Alma nessa etapa.<br />
2. Energia é a única vida, e provém do Corpo; e Razão, o limite ou circunferência externa da Energia.<br />
3. Energia é Deleite Eterno.</p>
<p>Quem refreia o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar e governa o inapetente.</p>
<p>E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>.</p>
<p>Essa história está relatada no Paraíso Perdido, &#038; o Governante, ou Razão, chama-se Messias.</p>
<p>E o Arcanjo Original, ou possessor dos comandos das hostes celestiais, chama-se Demônio ou Satã, e seus filhos chamam-se Pecado &#038; Morte.</p>
<p>No Livro de Jó, porém, o Messias de Milton chama-se Satã.</p>
<p>Pois essa história tem sido adotada por ambos os lados.</p>
<p>Em verdade pareceu à Razão que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a> havia sido banido mas, segundo a versão do Demônio, sucumbiu o Messias, formando um céu com o que roubara do <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">Abismo</a>.</p>
<p>Isso revela o Evangelho, onde ele suplica ao Pai que envie o confortador, ou <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a>, para que a Razão possa ter Idéias sobre as quais se fundamentar, não sendo outro o Jeová da Bíblia senão aquele que mora nas flamas flamantes.</p>
<p>Sabei que Cristo, após sua morte, tornou-se Jeová.</p>
<p>Mas, em Milton, o Pai é Destino, o Filho, Quociente dos cinco sentidos, &#038; o Espírito Santo, Vácuo!</p>
<p>Nota: A razão pela qual Milton escreveu em grilhões sobre Anjos e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, e em <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> sobre Demônios &#038; Inferno, está em que ele era um Poeta autêntico e tinha parte com o Demônio, sem sabê-lo.
</p></blockquote>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2009/04/voz-demonio-william-blake/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Abrahadabra, de Rodney Orpheus</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/03/abrahadabra-rodney-orpheus/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2009/03/abrahadabra-rodney-orpheus/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 02:50:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[conhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Crowley]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[ocultismo]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=416</guid>
		<description><![CDATA[Terminei há pouco de ler &#8220;Abrahadabra&#8221;, de Rodney Orpheus, e a impressão que tive é das melhores. Trata-se de uma introdução à religião (sim, o autor defende que Thelema é religião e concordo com ele &#8211; &#8220;the method of science, the aim of religion&#8221;) thelemica, passando por diversos dos pontos nela contidos. É um trabalho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Terminei há pouco de ler &#8220;Abrahadabra&#8221;, de Rodney Orpheus, e a impressão que tive é das melhores.</p>
<p>Trata-se de uma introdução à religião (sim, o autor defende que <a href="http://www.transtorno.net/tag/thelema/">Thelema</a> é religião e concordo com ele &#8211; &#8220;the method of science, the aim of religion&#8221;) thelemica, passando por diversos dos pontos nela contidos. </p>
<p>É um trabalho introdutório, mas tenho certeza de que inclusive quem já tem uma boa base vai tirar proveito. Eu, por exemplo, acredito ter mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> do que um leitor &#8220;normal&#8221;, recém chegado ao assunto, e ainda assim aprendi bastante.</p>
<p>Os assuntos abrangem Yoga (Asana e Pranayama, por exemplo), concentração, viagem astral, cosmologia &#8211; Nuit? Hadit? Therion? Babalon? Hoor-Paar-Kraat?  -, rituais básicos e suas explicações, <a href="http://www.transtorno.net/tag/qabalah/">qabalah</a>, tarot, bem como métodos de pensar na estrutura das construções ritualísticas de forma a adaptar o que for necessário às suas necessidades.</p>
<p>Um assunto importante que também é introduzido é a moralidade. Embora muitos <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> thelemicos lembrem que &#8220;todo homem e toda mulher é uma estrela&#8221;, nem todos os estudantes levam isso para a prática. É importante não confundir &#8220;Faze o que Tu queres&#8221; com &#8220;faça o que quiser&#8221;. A diferença é óbvia e não é nada fácil adotar e seguir um sistema que dá tamanha <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> e ainda assim saber o limite de colisão das órbitas.</p>
<p>Gostaria muito que esse livro já existisse há uns 12 anos, quando tive meu primeiro contato com os escritos de Aleister <a href="http://www.transtorno.net/tag/crowley/">Crowley</a>. Teria me poupado muito trabalho, evitado muitos conflitos e me poupado também de algumas dores no estômago. Mas quem foi que disse que seria fácil?</p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2009/03/abrahadabra-rodney-orpheus/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Perspectivas</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2008/12/perspectivas/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2008/12/perspectivas/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 27 Dec 2008 13:41:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[criação]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[Erros]]></category>
		<category><![CDATA[esperança]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[momentos]]></category>
		<category><![CDATA[necessidade]]></category>
		<category><![CDATA[ruptura]]></category>
		<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[vaidade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=294</guid>
		<description><![CDATA[Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Estética, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, que fique claro.</p>
<p>Segue:</p>
<p>As palavras depositaram tamanha confiança no espirito credulo dos homens, que estes acabaram por lhes voltar as costas. A gente começa a admirar-se de que uma porção de civilisações tenha enxergado incessantemente na letra qualquer cousa que não seja uma negação da vida &#8211; negação formal, está claro, mas nem por isso menos eficiente. Um estupendo livro ainda por se escrever: o tratado de historia da civilisação em que se considere o esplendor e a decadencia de cada povo coincidindo precisamente com a maior ou menor consideração que a palavra escrita ou falada mereceu de cada povo.</p>
<p>Nada do que vive se exprime impunemente em vocabulos. Os mais sabios dentre os homens têm, sofrido um pouco das necessidades a que essa lei os subordina. Eu, Sergio Buarque de Hollanda, acho indiscutivel que em todas as cousas exista um limite, um termo, além do qual elas perdem sua instabilidade, que é uma condição de vida, para se instalarem confortavelmente no que só por eufemismo chamamos sua espressão e que na realidade é menos que seu reflexo. Só os <a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">pensamentos</a></a> já vividos, os que se podem considerar não em sua duração, mas objetivamente e já dissecados encontram um termo. Quero dizer: esse termo só coexiste com o ponto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a> com a vida.</p>
<p>Os homens que sentiram nitidamente essa ausencia do principio de vida, essa atmosfera irrespiravel que nos propõem as formas inteligiveis, já mandam ao diabo tudo quanto possa preencher um termo, tudo quanto caiba entre as quatro paredes de um pensamento comunicavel ou espresso. A palavra escrita ou falada só se concilia com a dificuldade vencida, com a energia satisfeita e a paz proclamada depois da guerra. É em vão que se tentará atrair a tempestade, invocar o demonio ou realisar o misterio dentro do quotidiano, quando não se renunciou à virtude ilusoria da <a href="http://www.transtorno.net/tag/linguagem/">linguagem</a> dos cemiterios.</p>
<p>Mas não é sem remorsos que os homens aceitam a falsa paz que as letras impuzeram. A resistencia ao milagre caracteriza um estado de espirito que não é bem o dos contemporaneos. Já se ousa pretender mesmo e sem escandalo, que a mediocridade ou a grandeza de nosso mundo visivel só dependem da representação que nós fazemos dele, &#8211; da qualidade dessa representação. Nada nos constrange a que nos fiemos por completo na suave e engenhosa caligrafia que os homens inventaram pra substituir o desenho rigido e anguloso das cousas. Hoje mais do que nunca toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> po<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> ha de ser principalmente &#8211; por quasi nada eu diria apenas &#8211; uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos seculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraizo nas regiões ainda inesploradas. Resta-nos portanto o recurso de dizer das nossas expedições armados por esses dominios. Só à noite enxergamos claro.</p>
<p>Não lhe quero negas leitor o direito que você tem de achar ingenuo e irrealisavel tal proposito. Lembro mesmo, e a seu favor, o trecho admiravel de Marcel Proust sobre essas &#8220;visões que nos é possivel esprimir e quasi prohibido constatar, porque, precisamente quando se tenta dormir, vem-nos a caricia de seu encanto irreal, no instante mesmo em que a razão nos abandona os olhos se serram e antes de se conhecer não só o inefavel, mas o invisivel, a gente adormece.&#8221;</p>
<p>Mas de que nos vale ter confiança no milagre se não ousamos transpor aquelle impossivel e aquelle prohibido colocados ali por prudencia ou por covardia? &#8220;Ha muitas cousas no céu e na terra além do que imagina a vossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>&#8221;, diz Hamleto a Horatio. O certo é que essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> não se interessa senão por divertimento ou por acaso em todas essas cousas que existem na terra e no céu fóra de seu alcance. Para os sabios mais consideraveis uma certa amplitude de pensamento acarreta o invencivel sacrificio de tudo quanto escapa à logica da continuidade, de tudo quanto se esalta e afirma, pelo simples facto de ser, um direito à existencia, a sua diferença essencial em relação ao que a rodeia e por isso mesmo, implicitamente, a sua singularidade. A ciencia compraz-se em estabelecer um nivelamento, uma uniformidade tal em todas as cousas, que acaba por escluir de seu Universo qualquer objeto que não se resigne a ser um simples termo prás suas equações, um instrumento docil às suas construcções arbitrarias. O acto elementar de definir, que se encontra à base de toda ciencia humana, implica o proposito de instalar todo o objeto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> numa continuidade fixa e inalteravel. Não existe ciencia do particular que estude cada cousa em relação à sua propria particularidade. Todos os nossos conhecimentos procedem ao contrario subordinando o singular ao universal e utilisando-se para esse efeito de um sistema de seleção que só se tem por essencial o que ha de constante em uma dada série de objetos. O resto, o que ha em cada um de individual é considerado inutil para a formação do conceito. Acontece porém que para certos homens o essencial continua sendo o que ha de particular, o que ha de milagroso, o elemento irredutivel em cada cousa. São esses homens, os que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das cidades que reclamam com violencia um regresso a esse estado de guerra que não é mais do que uma conformação com a vida. <sup>(1)</sup></p>
<p>Mas prá maioria dos homens a morte como que se seja apresenta encantos e seduções que a Vida está muito longe de lhes proporcionar. Para uma porção de poétas ela tem sido um sinonimo comodo de misterio e para Socrates ela apareceu como uma aquisição de pensamento. Nem todos sentiram que não é necessário renunciar à vida para descobrir o &#8220;irreal&#8221; e que ao contrario o que parece mais real e até mesmo o que se apresenta mais dócil à verificação comporta uma parte de misterio imprevisivel e tráe concessões escandalosas ao irracional. Essa ilusão esplica a subsistencia, embora disfarçada, em cada um dos nossos actos. de uma aspiração à morte. A propria creação artistica não escapou desde os seus inicios a esse pecado original. Parece claro que o proprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> de libertação como já se te dito (isto é libertação no sentido de exaltação: correspondendo a uma espansão de vitalidade), não de um esforço de resistencia contra o aniquilamento, mas ao contrario, e acentuadamente, ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> invencivel de negar a vida em todas as suas manifestações.</p>
<p>Surge assim em sua espressão artistica mais rudimentar esse afan de reduzir o informe à fórma, ao livre necessario, o acidental à regra. O desenho regular e monotono dos primitivos, essa esclusão de todos os elementos especiaes e acidentaes que eles revelam mostram claramente o significado e o sentido da tendencia dos homens para uma regularidade abstracta e inanime.</p>
<p>Paralela a essa tendencia que não é um privilegio do homem primitivo, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de confissao, essa doença moderna que condena à morte pela palavra e pela sintaxe, todos os sentimentos que nos oprimem, toda manifestação de vida inoportuna corresponde a essa mesma lei de aspiração ao inerte. <sup>(2)</sup></p>
<p>Não me cabe resumir aqui todas as perspectivas que esse ponto de vista me propõe. Não disse ainda porque razão os homens começam a procurar a realidade de preferencia na <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>, na recordação e na ausencia e porque muitos deles sem renunciar a essa atitude conseguiram revogar para uso proprio a lei de aspiração à morte. Tambem não disse porque a exaltação do particular resolve-se em certos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> na anulação de qualquer singularidade, no sentimento da harmonia de todas as cousas. Direi provisoriamente que a vida, apesar de tudo, continúa a nutrir subrepticiamente e por uma especie de verba secreta as regiões mais ocultas de nossas ideologias. É incontestavel que os nossos actos e mesmo aqueles que comportam uma série de movimentos irremediavelmente previstos pela logica e pelo calculo mais precisos, não prescindem dessa parcela contingente que participa do divino. Deante dessa impossibilidade de opôr uma resistencia mais eficaz ao misterio que nos sitia por todos os lados, deante do absurdo dessa resistencia não ha duas atitudes igualmente legitimas. Nada mais comodo, é verdade, que concluir pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/vaidade/">vaidade</a> de todos os nossos gestos e pela inutilidade de qualquer atitude, &#8211; ideia que o Universo nos fornece a troco de um simples bocejo.</p>
<p>- Sergio Buarque de Hollanda</p>
<p><sup>(1)</sup> &#8211; Nunca será demasiado insistir no que representou para a literatura contemporanea a &#8220;descoberta&#8221; de que cada individuo representa um mundo isolado e muitas vezes indecifravel para os outros homens. A ideia da &#8220;incomunicabilidade dos espiritos&#8221; que constitue, pode-se dizer o fundamento e o tema essencial do <a href="http://www.transtorno.net/tag/teatro/"><a href="http://www.transtorno.net/teatro/">teatro</a></a> de um Pirandello já estava admiravelmente espressa numa passagem dos comentarios de Newman aos argumentos de Paley sobre as evidencias do Cristianismo: &#8220;Se quizerem que eu me utilize do argumento de Paley para minha propria conversao direi resolutamente: não <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> ser convertido por um silogismo habil; se quizerem que o mesmo argumento me sirva pra converter a outros, direi: não me interessa convence-los pela razão sem que seu coração seja atingido. Os homens não podem aceitar integralmente uma verdade, é preciso que cada qual a descubra por si. Toda convicção profunda ha de ser conhecida por essa descoberta.</p>
<p><sup>(2)</sup> &#8211; Digo &#8220;doença moderna&#8221; apenas por comodidade. Não ignoro os argumentos que poderiam me opôr. Quero dizer que a confissão, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de espressão dos nossos sentimentos mais profundos manifesta-se menos disfarçada entre os contemporaneos. Ha quem atribua à influencia do confessionario a extraordinaria situação de quem ainda hoje goza e que mantem o catolicismo romano. (V. Dr. William Stekel &#8211; The Dephts of the Soul &#8211; trans. by Dr. S.A. Tannenbaum &#8211; London, Kegan Paul &#8211; 1921). O artigo de Prudente de Moraes, neto, sobre a sinceridade publicado no ultimo numero desta revista estuda o mesmo assumpto com admiravel lucidez.</p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2008/12/perspectivas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Satanismo</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2008/12/satanismo/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2008/12/satanismo/#comments</comments>
		<pubDate>Tue, 23 Dec 2008 01:37:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Rabiscos]]></category>
		<category><![CDATA[abismo]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[crueldade]]></category>
		<category><![CDATA[mal]]></category>
		<category><![CDATA[ruptura]]></category>
		<category><![CDATA[sensações]]></category>
		<category><![CDATA[transgressão]]></category>
		<category><![CDATA[vontade]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.transtorno.net/?p=290</guid>
		<description><![CDATA[O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não [...]


Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/12/infancia/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Infância'>Infância</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não tirei cópia desses dados, mas sei que é de 1928 e é com o português de então que você irá encontrá-lo.</p>
<p>Procurei por esse trabalho na net há algum tempo e não o encontrei, dai a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> de colocá-lo aqui. Algumas coisas não deveriam ser esquecidas e perdidas, simples assim.</p>
<p>Segue:</p>
<p>- Tu também, Luis, chamares-me de louco!</p>
<p>E um esgar abriu-lhe a bocca, num sorriso ironico, em que os dentes ponteagudos, como talhados a formão, enegrecidos pelo uso do &#8220;haschich&#8221; e da nicotina, punham uma nota selvagem, suja, sob o lábio delgado, espiritualisado&#8230;</p>
<p>- São raras as Lindamôres na terra em que eu nasci, que não os tenham assim, como lanças! Mas a Lindamôr de que falo eu&#8230; Louco!? Tens, porém, razão de sêres cego&#8230; Surdo&#8230; E mudo&#8230; O mundo exterior não existe para ti. Muito menos o interior. Olha, as <a href="http://www.transtorno.net/tag/sensacoes/">sensações</a> são grãos. As deformações que ellas trazem são grãos, padrões, medidas de aferição&#8230;</p>
<p>- Estygmas&#8230;</p>
<p>- Estou a ver, porém, que não me comprehendes. Não me compreenderás jamais&#8230; Lindamôr&#8230; Oh! a agudeza dos seus sentidos a apontar para o alto, como uma flecha lançada! Tu não sabes absolutament o que está do outro lado do prazer&#8230; que tu chamas dôr&#8230; com periphrases de ungentos e de emplastos&#8230; Tu procuras equilibrio para o teu espírito na insensibilidade, na indifferença, no comodismo, em todos os &#8220;ismos&#8221;, em todos os &#8220;ades&#8221; e &#8220;enças&#8221; dos antiloqueos burgueses, inexpressivos, idiotas&#8230; Louco, chamo-te eu, meu insensivel, meu indiferente, meu commodo Luis! Louco como o mais louco. O que ha de facto por ahi, e é o teu caso (casos de manicomio), são espiritos embotados, sensibilidades estreiras, inextensiveis. Esticadas, essas sensibilidades, por poquinho que seja, arrebentam. Uma cocegazinha, eil-os a rir. Uma alfinetada fal-os chorar. Principalmente se esperam a alfinetada (no que entram o sensorio e a intelligencia como partes). Lindamôr! Dava-se com seu genio a solidão. Era de vel-a, quase bella, com os seus dentinhos cortados em ponta, as suas sobrancelhas arqueadas, os seus vestidos de chitão vermelho e o beicinho tremulo, bru-u-u-u-u-u-u&#8230; com que correia as capoeiras vizinhas, o chiqueiro e o curral. Naquelle dia de nuvens escondidas no céo, ella mesmo fôra dar a ração aos bacorinhos que grunhiam gulosos no chiqueiro. De volta descansou a gamella num velho coxo de madeira e deixou-se cahir sobre o velho tronco de araticum, onde a fazer lenha, exercitava os musculos e estimulava e (oh! coisa paradoxal) afogava, neutralizava o meu prurido doentio de destruição. As suas mãos, uma deixada no regaço, outra arrastando no chão, sobre as aparas de madeira que meu machado cortava nervosamente, tiveram um ligeiro movimento convulsivo, quando della me aproximei de machado em punho&#8230; E só. E eu? Tremendo, tiritando de medo e de emoção&#8230; Levantei outra vez o machado sobre sua cabeça&#8230; Nunca me julguei tão fraco para o <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>. Deixei-o cahir para um lado e ajoelhei-me a seus pés. E com a cabeça no seu regaço tentei acalmar-me. Debalde, porém. Os teus nervos não permittem, nem por minucias, o relato desta história toda&#8230; Levantei-me de um salto, as suas mãos entre as minhas, e cobri-as furiosamente de beijos. Saquei do punhal&#8230; Que mascaras admiraveis se plasmaram no seu rosto de linhas vulgares! Principiei cortando-lhe os dedos da mão, phalange a phalange. E para reanimal-a, injectava-lhe ether de vez em quando&#8230; Ao desgarrar de um tendão, os seus empinaram-se-lhe, tão duros que enlouquecido de <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>, arranquei-lhe os bicos com os dentes&#8230; Duas lagrimas de sangue correram-lhe o torso abaixo. Dos meus labios humidos e rubros fluiam palavras angelicas, que se <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> ouviras, peior comprehenderas. Os seus olhos foram-se fechando devagarinho&#8230; Estava realizado enfim, o meu sonho de posse no absoluto, de gloria no <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>, de previdencia contra a saciedade, e sobretudo, de prevenção contra as mil infidelidades em que é fertil o engenho feminino&#8230; Estava realizado o meu sonho e de morte e de belleza, alliviada a oppressão da minha febre immortal. Foi minha, destrui-a. Não com palavras, ou com os sentimentos vermelhos que o commum dos homens trazem dentro do peito, e cóleras contidas, e hypocrisias, mas com actos, heroicamente&#8230; Na destruição o absoluto&#8230; São gestos eternos que não se renovam. Só o marmore os permite. Com o escopro&#8230; Golpe por golpe.</p>
<p>- Hildebrando de Lima, Satanismo, 1928</p>

<p>Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/12/infancia/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Infância'>Infância</a></li>
</ol></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2008/12/satanismo/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Nadja</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2008/11/nadja/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2008/11/nadja/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 07 Nov 2008 15:46:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[Breton]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças]]></category>
		<category><![CDATA[Nadja]]></category>
		<category><![CDATA[surrealismo]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.a-set.com/?p=197</guid>
		<description><![CDATA[De minha parte, continuarei a habitar minha casa de vidro, de onde se pode ver a todo instante quem vem me visitar, onde tudo o que está pendurado no teto ou nas paredes se sustém como que por encanto, onde repouso à noite, sobre um leito de vidro com lençois de vidro, onde quem sou [...]


Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2009/08/nadja-sempre-nadja/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Nadja, sempre Nadja'>Nadja, sempre Nadja</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>De minha parte, continuarei a habitar minha casa de vidro, de onde se pode ver a todo instante quem vem me visitar, onde tudo o que está pendurado no teto ou nas paredes se sustém como que por encanto, onde repouso à noite, sobre um leito de vidro com lençois de vidro, onde quem sou me aparecerá cedo ou tarde, gravado em diamante.</p></blockquote>
<p>- Andre <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a>, in <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a></p>
<p>Sempre, desde que li &#8220;Os manifestos do <a href="http://www.transtorno.net/tag/surrealismo/">surrealismo</a>&#8221;, admirei <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a>. Há coisas com as quais não concordo, como sua relação com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a>, ou o que diz sobre Dostoievski, para citar alguns exemplos, mas é óbvio que não é necessário concordar com tudo que uma pessoa diz ou faz para admirar sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a>.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, por vários motivos, é um dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> que mais gosto. Sempre que retomo esse livro é porque procuro por <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a>. É inconsciente, percebo apenas depois. Percebo agora, quando escrevo.</p>
<p>O fragmento acima é um dos mais belos exemplos de imagem de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a>. Existem outros, centenas, muitos, mas esse é de <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a> e, por isso, o escolhido.</p>
<p>Se o que somos aparecer gravado em diamante implica dureza, transparência e brilho. Implica que há algo de raro. Implica também eternidade. A essência é eterna e embora única, tem nuances, diferentes faces, como um diamante.</p>

<p>Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2009/08/nadja-sempre-nadja/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Nadja, sempre Nadja'>Nadja, sempre Nadja</a></li>
</ol></p>]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.transtorno.net/2008/11/nadja/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
