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	<title>Transtorno&#187; Adorno &raquo; MÃºsica, Filosofia e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>MÃºsica, Filosofia, Rabiscos AleatÃ³rios e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Comodismo versus razão no Esclarecimento</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Feb 2003 01:43:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Adorno]]></category>
		<category><![CDATA[civilizaÃ§Ã£o]]></category>
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		<category><![CDATA[Horkheimer]]></category>
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		<description><![CDATA[Neste trabalho pretendo estudar o Esclarecimento, baseado nas visÃµes de Adorno/Horkheimer e Kant, tendo como princÃ­pio a proposta aberta no primeiro parÃ¡grafo da &#8220;DialÃ©tica do esclarecimento&#8221;, de Adorno e Horkheimer, a saber, &#8220;no sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-los [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Neste trabalho pretendo estudar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">Esclarecimento</a>, baseado nas visÃµes de <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer e <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, tendo como princÃ­pio a proposta aberta no primeiro parÃ¡grafo da &#8220;Dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">Ã©tica</a> do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>&#8221;, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">Horkheimer</a>, a saber, &#8220;no sentido mais amplo do <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> do pensamento, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e investi-los na posiÃ§Ã£o de senhores. Mas a terra, totalmente esclarecida, resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a> / <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">HORKHEIMER</a>, 1985, p. 19).</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer parecem ter uma visÃ£o mais clara do processo do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>, embora falem em uma terra totalmente esclarecida, ponto no qual <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> me parece mais correto, quando diz que nÃ£o somos esclarecidos, mas &#8220;vivemos em uma Ã©poca de <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 1974, p. 112). A argumentaÃ§Ã£o usada por <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> para chegar Ã  conclusÃ£o de que o estamos em processo de <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> Ã© muito clara, enquanto a argumentaÃ§Ã£o de <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer, nesse sentido, deixa a desejar, pois apÃ³s a leitura do texto Ã© possÃ­vel chegar apenas Ã  idÃ©ia de processo, nÃ£o de <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> total. O prÃ³prio filÃ³sofo dÃ¡ margem a isto ao afirmar que &#8220;o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> Ã© a radicalizaÃ§Ã£o da angÃºstia mÃ­tica. Os deuses nÃ£o tiram o medo dos homens, pois sÃ£o cria deste. O homem presume estar livre quando nÃ£o hÃ¡ nada mais de desconhecido. Ã‰ o caminho da desmitologizaÃ§Ã£o&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a> / <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">HORKHEIMER</a>, 1985, p. 29) e nos diz, no prefÃ¡cio &#8220;ao tachar de complicaÃ§Ã£o obscura e, de preferÃªncia, de alienÃ­gena o pensamento que se aplica negativamente aos fatos, bem como Ã s formas de pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu sobre ele, esse conceito mantÃ©m o espÃ­rito sob o domÃ­nio da mais profunda cegueira&#8221; (id., ibid., p. 14). Parece, assim, e o texto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> nÃ£o discorda, posto que analisa a questÃ£o de outra forma, que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> nÃ£o tem obtido um <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> verdadeiro, mas apenas uma substituiÃ§Ã£o de mitologias, substituindo um medo por outro, um mito por outro, tendo deixado de lado apenas o aspecto religioso.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer, ainda no prefÃ¡cio, dizem que &#8220;o aumento da produtividade econÃ´mica, que por um lado produz as condiÃ§Ãµes para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho tÃ©cnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da populaÃ§Ã£o&#8221; (id., ibid., p. 14). Este Ã© o medo que substituiu o medo dos deuses. O problema, porÃ©m, nÃ£o Ã© perceber tal fato, mas buscar uma saÃ­da: &#8220;o mito converte-se em <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> e a natureza em mera objetividade. O preÃ§o que os homens pagam pelo aumento de seu poder Ã© a alienaÃ§Ã£o daquilo sobre o que exercem o poder&#8221; (id., ibid., p. 24).</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> tem uma visÃ£o bastante plausÃ­vel, a princÃ­pio, sobre o que Ã© o maior impedimento do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> humano ao afirmar que &#8220;a preguiÃ§a e a covardia sÃ£o as causas pelas quais uma tÃ£o grande parte dos homens, depois que a natureza hÃ¡ muito os libertou de uma direÃ§Ã£o estranha (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto, de bom grado menores durante toda a vida&#8221; e &#8220;Ã© tÃ£o cÃ´modo ser menor&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 1974, p. 100), mas parece se perder, ao longo do texto, quando passa a creditar quase totalmente aos lÃ­deres que conduzem os covardes/acomodados, a manutenÃ§Ã£o desta situaÃ§Ã£o. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> se equivoca ao dizer que o homem Ã© &#8220;por ora, realmente incapaz de utilizar seu prÃ³prio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim o proceder&#8221; e logo abaixo &#8220;sÃ³ seria capaz de dar um salto inseguro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque nÃ£o estÃ¡ habituado a este movimento livre&#8221; (id., ibid., p. 102). <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> parece superestimar a aÃ§Ã£o dos lÃ­deres humanos e subestimar a capacidade humana de aprender. O problema nÃ£o Ã© quanto tempo o homem levaria para se esclarecer, mas se estÃ¡ realmente disposto a isso. &#8220;A menoridade revela-se como a incapacidade de se conservar a si mesmo&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a> / <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">HORKHEIMER</a>, 1985, p. 82)</p>
<p>Devemos ainda levar em conta a afirmaÃ§Ã£o de <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> que &#8220;revoluÃ§Ã£o nÃ£o produz a verdadeira reforma no modo de pensar&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 1974, p. 104). O autor afirma, a seguir, que &#8220;para o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> nada mais se exige senÃ£o <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>&#8221; (id., ibid., p. 104). Temos, com isso, um retorno ao princÃ­pio, pois se a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> inicial do homem continha o germe da preguiÃ§a e da covardia que se instaurou, porque deixaria, agora, de tÃª-la? Parece uma questÃ£o superficial, mas dentro desta lÃ³gica kantiana, ainda Ã© vÃ¡lida. Ã‰ necessÃ¡rio perguntar qual o objetivo dos senhores que comandam os covardes. Um senhor Ã© esclarecido ao escravizar? Se sim, podemos chamar de escravizaÃ§Ã£o? Ou Ã© um altruÃ­sta, que afasta do <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">abismo</a> os acomodados? A resposta nÃ£o Ã© exata, pois dÃ¡ espaÃ§o para que se encaixem tanto verdadeiros dÃ©spotas quanto grandes estadistas.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> afirma que leis podem ser usadas temporariamente, nunca fixas, de forma que venham a &#8220;aniquilar um perÃ­odo de tempo na marcha da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> no caminho do aperfeiÃ§oamento&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 1974, p. 110), mas de quem depende saber qual perÃ­odo de tempo deve perdurar atÃ© que a lei seja substituÃ­da? O bem comum? E como entÃ£o evitar que o homem venha a tornar-se um obediente esclarecido, e saber se Ã© possÃ­vel delimitar sua individualidade e seus deveres ligados ao grupo? <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer lembram-se deste problema ao darem como exemplo o retorno de Ulisses, ao tapar o ouvido de seus soldados para que nÃ£o ouÃ§am o canto da sereia. Temos nÃ³s, nesse sentido, condiÃ§Ãµes morais de questionar se Ulisses estava salvando seus soldados ou mantendo vivo neles o mito, que tambÃ©m o amedrontava? (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a> / <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">HORKHEIMER</a>, 1985, p. 45). Temos de lembrar que Ulisses nÃ£o tapou seus prÃ³prios ouvidos e, embora estivesse atado ao mastro, era o lÃ­der desperto que dependia de seus soldados surdos.</p>
<p>Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> diga que o &#8220;uso pÃºblico da razÃ£o realiza o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 1974, p. 104), corre-se o risco de que a massa aprisione o esclarecido, independentemente deste ser parte dela ou um lÃ­der. Podemos questionar isso usando atÃ© mesmo argumentos do autor, que diz que os sÃ¡bios tÃªm &#8220;o direito de fazer publicamente, isto Ã©, por meio de obras escritas, seus possÃ­veis reparos a possÃ­veis defeitos das instituiÃ§Ãµes vigentes&#8221; (id., ibid., 110). <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> parece, novamente, se contradizer, esquecendo que Ã© no indivÃ­duo acomodado e preguiÃ§oso que reside o problema. Quantas obras, belas, Ãºteis, outras nem tanto, sÃ£o esquecidas nas prateleiras de livreiros e de bibliotecas, por sÃ©culos, sem que uso algum se faÃ§a delas. A massa parece querer continuar acomodada, satisfeita pelo Ã³pio. Poderia-se questionar que motivaÃ§Ã£o os lÃ­deres e sÃ¡bios dariam para que os indivÃ­duos lessem tais obras, mas o ponto Ã© que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>, em potÃªncia, estÃ¡ em cada ser humano e depende apenas da covardia de cada um, da relaÃ§Ã£o de proporÃ§Ã£o inversa que se estabelece, buscÃ¡-las para deixar sua menoridade. <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer dizem que &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> na sociedade Ã© inseparÃ¡vel do espÃ­rito esclarecedor&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a> / <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">HORKHEIMER</a>, 1985, p. 13): nÃ£o me parece haver qualquer impedimento para que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> tenha acesso obras grandiosas e esclarecedoras, nem mesmo para que se organizem em torno de idÃ©ias, nÃ£o visando revoluÃ§Ã£o, mas estudar, aprender, para que a mudanÃ§a de suas idÃ©ias possa alcanÃ§ar mais pessoas e, conseqÃ¼entemente, a extensÃ£o do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>.</p>
<p>Citando Schelling, <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer dizem que &#8220;a <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> entra em aÃ§Ã£o quando o saber desampara os homens&#8221; (id., ibid., 32). Talvez, nesse sentido, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> seja uma prova de que hÃ¡ um certo saber, intuitivo, independente do racional. Se esta idÃ©ia estiver certa, no entanto, apenas alguns poucos homens questionaram o que obtinham, ou o que o grupo obtinha, pelo <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>. Muito poucos se questionaram e dentre estes poucos, vÃ¡rios usaram a <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> apenas como forma de obter status, nÃ£o de colaborar no processo do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> humano, perpetuando o jogo que coloca falsos esclarecidos no poder. Nesse sentido, o uso do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> pela sadeana Juliette, longamente analisado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer, poderia nÃ£o somente levar Ã  desordem civil, como provavelmente acreditaria <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, mas tambÃ©m a uma condenaÃ§Ã£o cega ao prÃ³prio <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>, tendo em vista seu &#8220;gosto intelectual pela regressÃ£o&#8221; e &#8220;o prazer de derrotar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/civilizacao/">civilizaÃ§Ã£o</a> com suas prÃ³prias armas&#8221;. (id., ibid., 92). Parece mesmo que o personagem chegou a um extremo do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> e se ofende com a covardia dos demais, valorizando, por isso, ainda mais, sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> obtida por seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>, superior em relaÃ§Ã£o aos demais, fazendo dele, entÃ£o, prova de sua superioridade.</p>
<p>Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>/Horkheimer lembrem que &#8220;o credo de Juliette Ã© a <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciÃªncia</a>&#8221; e que &#8220;ela abomina toda veneraÃ§Ã£o cuja racionalidade nÃ£o se possa demonstrar&#8221; (id., ibid., 94), dentro de sua lÃ³gica Ã© uma opÃ§Ã£o vÃ¡lida, contra qualquer superstiÃ§Ã£o, enaltecedora da exploraÃ§Ã£o do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> humano que, nÃ£o pode atingir o Ã¡pice pois pode ainda ser ultrapassado, e, como nos lembram ainda, citando Nietzsche, &#8220;eles buscam nas regiÃµes selvagens uma compensaÃ§Ã£o para a tensÃ£o provocada por um longo encerramento e clausura na paz da comunidade, eles retornam Ã  inocÃªncia <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do animal de rapina, como monstros a se rejubilar&#8221; (id., ibid., 95).</p>
<p>O problema recai, portanto, sobre os humanos como indivÃ­duos, nÃ£o mais como componentes de uma sociedade, e <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> parece concordar ao afirmar que &#8220;encontrar-se-Ã£o sempre alguns indivÃ­duos capazes de pensamento prÃ³prio, atÃ© entre os tutores estabelecidos da grande massa&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 1974, p. 102). Se, como diz, &#8220;a natureza humana consiste apenas nesse avanÃ§o&#8221; (id., ibid., 108), nÃ£o cabe perguntar, sem compaixÃ£o, se estes poucos esclarecidos nÃ£o tem mesmo o direito sobre os covardes, que atrasam o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> de sua espÃ©cie. A resposta, independente de que rumo tome, Ã© perigosa e ainda vÃ¡lida. &#8220;O homem pode, individualmente, adiar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a>, nÃ£o renunciar a ele&#8221; (id., ibid., 110), mas nÃ£o deveria, entÃ£o, ter o direito de atrapalhar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> dos demais, se sua covardia servir como mau exemplo a outros, &#8220;pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">esclarecimento</a> Ã© totalitÃ¡rio como qualquer outro sistema&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a> / <a href="http://www.transtorno.net/tag/horkheimer/">HORKHEIMER</a>, 1985, p. 37).</p>
<p><strong>ReferÃªncias BibliogrÃ¡ficas</strong><br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>, T.W.., <em>Dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">Ã©tica</a> do <a href="http://www.transtorno.net/tag/esclarecimento/">Esclarecimento</a></em>, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, I., <em>Textos Seletos</em>, PetrÃ³polis, Vozes, 1974</p>]]></content:encoded>
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		<title>Progresso: tragédia ou esperança distante?</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2003/01/progresso-tragedia-ou-esperanca-distante/</link>
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		<pubDate>Fri, 17 Jan 2003 01:41:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Rabiscos]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;As narraÃ§Ãµes feitas para a cena sÃ£o mais ordenadas e elegantes e aprazem mais que as verdadeiras narraÃ§Ãµes tomadas da histÃ³ria&#8221;
- Francis Bacon &#8211; Novum Organum (Livro I, LXII)
O presente trabalho tem por objetivo examinar o Progresso a partir de Bacon, Voltaire e Rousseau. O documento enfoca a relaÃ§Ã£o entre o progresso tecnolÃ³gico e o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>&#8220;As narraÃ§Ãµes feitas para a cena sÃ£o mais ordenadas e elegantes e aprazem mais que as verdadeiras narraÃ§Ãµes tomadas da histÃ³ria&#8221;</p></blockquote>
<p>- Francis <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> &#8211; Novum Organum (Livro I, LXII)</p>
<p>O presente trabalho tem por objetivo examinar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">Progresso</a> a partir de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/voltaire/">Voltaire</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>. O documento enfoca a relaÃ§Ã£o entre o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> tecnolÃ³gico e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, em resposta Ã  proposta apresentada na frase de Campanella, &#8220;HÃ¡ mais histÃ³ria em 100 anos do que teve o mundo em cinco milÃªnios&#8221;.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> crÃª, conforme cita Paulo Rossi em &#8220;NaufrÃ¡gios sem espectador&#8221; que &#8220;seria vergonhoso para os homens se, apÃ³s ter revelado e ilustrado o aspecto do orbe material, isto Ã©, das terras, dos mares, dos astros, os confins do orbe intelectual permanecessem dentro dos limites restritos das descobertas dos antigos&#8221; (ROSSI, 1996, p. 62). Parece-me, porÃ©m, que embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> tenha percebido o problema em questÃ£o, nÃ£o tenha, no entanto, deixado uma alternativa tÃ£o clara para solucionÃ¡-lo.</p>
<p>O fato, porÃ©m, Ã© que se hÃ¡ mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> em 100 anos, ou mesmo nas quatro Ã©pocas de que fala <a href="http://www.transtorno.net/tag/voltaire/">Voltaire</a>, temos um novo problema: a relaÃ§Ã£o entre as tecnologias e o espÃ­rito humano, pois percebemos que o tempo necessÃ¡rio para <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanÃ§as</a> no espÃ­rito e nas tecnologias nÃ£o Ã© o mesmo, exigindo, portanto, mÃ©todos de trabalho diferentes, embora nÃ£o desarticulados. Temos que levar em conta tambÃ©m que aqueles cinco milÃªnios podem ter sido, como disse J.G. Herder, em TambÃ©m uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> da histÃ³ria para a formaÃ§Ã£o da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, &#8220;uma idade herÃ³ica de um tempo de patriarcas, para que nos remotos antepassados de toda a posteridade se tenham podido constituir e implantar para sempre as primeiras formas prÃ³prias do gÃªnero humano&#8221; (HERDER, 1995, p. 8). Estes 100 anos nÃ£o teriam existido sem uma estrutura anterior e podem, por sua vez, vir a enfraquecer o espÃ­rito, ameaÃ§ando assim a continuidade de si, do prÃ³prio <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a>.</p>
<p>Ainda segundo Herder, &#8220;O egÃ­pcio nÃ£o teria sido egÃ­pcio sem o ensino ministrado Ã  crianÃ§a no Oriente e o grego nÃ£o teria chegado a ser grego sem a aplicaÃ§Ã£o escolar dos egÃ­pcios. A repugnÃ¢ncia dos que vÃªm depois sÃ³ mostra que houve <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a>, progressÃ£o, que se foram subindo os degraus da escada!&#8221; (id., ibid., p. 20) e continua depois, falando sobre os fenÃ­cios, &#8220;decerto que este estado que agora surgia quase nÃ£o tinha pontos de contato com a vida pastoril do Oriente. Desapareceram o sentimento da famÃ­lia, a religiÃ£o e o prazer calmo da vida do campo&#8221; (id., ibid., p. 24). Quando o espÃ­rito tem uma estrutura firme que lhe sirva de base, hÃ¡ uma relaÃ§Ã£o viva entre ele e aquela, sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Quando esta relaÃ§Ã£o se enfraquece, distanciando-se da vida prÃ¡tica tanto do indivÃ­duo quanto do grupo, ela Ã© escrita para que dela se lembrem. As leis sÃ£o escritas para que a influÃªncia de outras leis, outros costumes, nÃ£o as apague, causando entÃ£o um conflito entre os particulares e o universal. HÃ¡ aqui uma concordÃ¢ncia com <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> na existÃªncia do <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> e na dÃ­vida para com os antigos, levando em consideraÃ§Ã£o, porÃ©m, que nem todas as idÃ©ias precisam e devem ser substituÃ­das, questionando a realidade-qualidade da ruptura: &#8220;serÃ¡ possÃ­vel que debaixo da tenda do patriarca, onde reinavam exclusivamente o respeito, o exemplo, a autoridade, fosse o medo &#8211; na estreiteza do vocabulÃ¡rio da nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">polÃ­tica</a></a> &#8211; a mola propulsora da governaÃ§Ã£o?&#8221; (id., ibid., p. 12).</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> nos diz no prefÃ¡cio do Novus Organum que &#8220;resta, como Ãºnica salvaÃ§Ã£o, reempreender-se inteiramente a cura da mente&#8221; (id., ibid., p. 12) e continua no aforismo XXXI, Livro I, &#8220;vÃ£o seria esperar-se grande aumento nas ciÃªncias pela superposiÃ§Ã£o ou pelo enxerto do novo sobre o velho. Ã‰ preciso que se faÃ§a uma restauraÃ§Ã£o da empresa a partir do Ã¢mago de suas fundaÃ§Ãµes, se nÃ£o se quiser girar perpetuamente em cÃ­rculos, com magro e quase desprezÃ­vel <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>&#8221; (id., ibid., p. 25). Deste modo Ã© preciso ter o processo bem claro em mente, ou corre-se o risco de confundir tecnologia com a estrutura <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do espÃ­rito humano, substituindo esta a cada vez que a primeira Ã© atualizada, adaptando a natureza humana ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> tecnolÃ³gico, tornando-a escrava e colocando-a em movimento num ritmo que nÃ£o Ã© seu.</p>
<p>As tecnologias sÃ£o atualizadas rapidamente, tornando necessÃ¡ria a correÃ§Ã£o de problemas antes inexistentes que darÃ£o lugar a outros, novos, que surgem em decorrÃªncia do ritmo frenÃ©tico com que novas ferramentas sÃ£o criadas. As tecnologias sÃ£o substituÃ­das por outras novas antes mesmo de terem sido assimiladas. O espÃ­rito humano nÃ£o acompanha esse ritmo e se tentar acompanhÃ¡-lo perderÃ¡ sua capacidade criativa, bem como sua estrutura <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> que se enfraquecerÃ¡, esquecida. Tornar-se-Ã¡ apenas uma mÃ¡quina de assimilaÃ§Ã£o, vindo a frustrar-se por sua incapacidade e, ou deixarÃ¡ de pensar no problema tornando-se mecÃ¢nico ou perceberÃ¡ a grandeza da misÃ©ria que dele se apossa, acordando entÃ£o por sobre o <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">abismo</a> que surgiu entre seu espÃ­rito e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> tecnolÃ³gico do mundo. Claro que poderÃ£o dizer que esse <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> irÃ¡ puxar consigo o espÃ­rito humano, facilitando seu aprendizado enquanto o adapta para mais coisas. Mas que coisas seriam essas? Tecnologias? AdaptaÃ§Ã£o para a adaptaÃ§Ã£o a novas tecnologias?</p>
<p>NÃ£o podemos, contudo, culpar a tecnologia por isso, pois como escreve <a href="http://www.transtorno.net/tag/santo-agostinho/">Santo Agostinho</a> em A Cidade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, &#8220;as naturezas tambÃ©m desagradam aos homens, porque nÃ£o as consideram em si, mas em sua utilidade&#8221; (AGOSTINHO, 1990, p. 65). No aforismo XLII do Livro I, <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> parece prever, em parte, algumas idÃ©ias de <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>, no que se refere Ã  possibilidade dos homens serem corrompidos pela educaÃ§Ã£o, leitura e contato com os demais: &#8220;Os Ã­dolos da caverna sÃ£o os homens enquanto indivÃ­duos. Pois, cada um &#8211; alÃ©m das aberraÃ§Ãµes prÃ³prias da natureza humana em <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a> &#8211; tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido Ã  natureza prÃ³pria e singular de cada um; seja devido Ã  educaÃ§Ã£o ou conversaÃ§Ã£o com os outros; seja pela leitura dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">BACON</a>, 1973, p. 27). Neste sentido, <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> rompe tambÃ©m com a idÃ©ia agostiniana da &#8220;mÃ¡ <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>&#8221; quando fala em &#8220;aberraÃ§Ãµes prÃ³prias da natureza humana&#8221;. Ã‰ necessÃ¡rio identificar o ponto onde a luz estÃ¡ sendo corrompida e mesmo identificar se aquelas &#8220;aberraÃ§Ãµes&#8221; nÃ£o sÃ£o uma contradiÃ§Ã£o Ã  sua prÃ³pria <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>.</p>
<p>Chegamos, com isso, Ã  questÃ£o da revoluÃ§Ã£o: parece-me que o conceito de revoluÃ§Ã£o, no sentido planetÃ¡rio, funcionaria aqui como um retorno, determinando um novo inÃ­cio, um marco para que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> do espÃ­rito possa acompanhar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> tecnolÃ³gico e, a partir dai, outras revoluÃ§Ãµes nÃ£o seriam possÃ­veis para &#8220;nÃ£o girar perpetuamente em cÃ­rculos&#8221;. As <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanÃ§as</a> do espÃ­rito por princÃ­pio devem ter sido separadas da tecnologia, pois embora devam acompanhar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> tecnolÃ³gico, nada indica que seja ao mesmo tempo, de forma que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> continuaria de forma cÃ­clica ou linear, ou ambas, coexistindo. Cabe perguntar se seria possÃ­vel que tivÃ©ssemos aqui incluÃ­da alguma <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> atemporal: parece-me que sim, posto que o prÃ³prio <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>, uma vez instaurado, torna-se, enquanto movimento, atemporal. Resta entÃ£o perguntar &#8211; e talvez esta pergunta tivesse de vir antes &#8211; qual a possibilidade real de uma revoluÃ§Ã£o como esta e qual a sua relaÃ§Ã£o com a utopia da Nova AtlÃ¢ntida.</p>
<p>No caso de uma revoluÃ§Ã£o, como determinarÃ­amos os valores/idÃ©ias que seguirÃ£o dai? NÃ£o me parece que esta revoluÃ§Ã£o possa ser universal sem o entendimento claro do que Ã© natural, pois como observa <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> no aforismo XLI &#8220;Ã© falsa a asserÃ§Ã£o de que os sentidos do homem sÃ£o a medida das coisas&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">BACON</a>, 1973, pg. 27) e no aforismo XXII &#8220;tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e terminam nas formulaÃ§Ãµes da mais elevada generalidade&#8221; (id., ibid., p. 23). Fica claro que a proposta de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> Ã©, nesse sentido, a de uma revoluÃ§Ã£o de carÃ¡ter cristÃ£o, de conotaÃ§Ã£o praticamente religiosa, e como tal, inquestionÃ¡vel para os que nele tem fÃ©, pois sÃ³ assim teria a universalidade necessÃ¡ria para se aproximar de sua utopia.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a> nos diz que &#8220;somente sÃ£o verdadeiras aquelas reflexÃµes sobre o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> que mergulham nele sem deixar de manter distÃ¢ncia&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a>, 1992, 27, p. 218) e, no mesmo artigo, mais Ã  frente &#8220;tampouco cabe uma idÃ©ia de <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> sem a de <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>&#8221; (id., ibid., p. 219). Se pensarmos na relaÃ§Ã£o da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> com o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> nos cem anos de histÃ³ria de que fala Campanella, dificilmente chegarÃ­amos a um resultado positivo. NÃ£o falo apenas dos eventuais prejuÃ­zos causados Ã  <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> daquele perÃ­odo, mas tambÃ©m de prejuÃ­zos que chegam aos dias de hoje. Os acidentes da tecnologia colaboram para o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>, criando formas de evitar novos desastres. Os acidentes das idÃ©ias nos tornam ainda mais miserÃ¡veis.</p>
<p>Temos ainda de ver que a aÃ§Ã£o do grupo social catalisou a aÃ§Ã£o da misÃ©ria espiritual, independente da possibilidade da natureza humana ser boa ou mÃ¡, pois o enfraquecimento da forte estruturaÃ§Ã£o dos primeiros milÃªnios alterou a forma como se deu o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> e com isso aceitamos que no inÃ­cio a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> teve <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>, lento e estruturado: sem aquele o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> sequer teria existido. Tanto a teoria agostiniana da mÃ¡ <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> quanto a mÃ¡ natureza do homem ou a aÃ§Ã£o negativa da sociedade teriam o mesmo efeito devastador ao longo dos tempos, pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> agiria, em todos os casos, como catalisador. Contudo, em Agostinho, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> jÃ¡ estÃ¡ dividida pela providÃªncia e nÃ£o seria necessÃ¡rio <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> para <a href="http://www.transtorno.net/tag/despertar/">despertar</a> sua mÃ¡ <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, pois, nÃ£o fosse este, outra coisa seria.</p>
<p>Quanto Ã s artes me parece haver um problema maior e <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a> comenta, sabiamente citando SÃ³crates, em seu &#8220;Discurso sobre as ciÃªncias e as artes&#8221;: &#8220;nÃ£o sabemos, nem os sofistas, nem os poetas, nem os oradores, nem os artistas, nem eu, o que Ã© a verdade, o bom, o belo. Mas hÃ¡ entre nÃ³s uma diferenÃ§a: Ã© que conquanto essas pessoas nada saibam, todas elas acreditam saber algo. Ao passo que eu, se nada sei, nÃ£o tenho dÃºvida disso&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">ROUSSEAU</a>, 1999, p. 20). A ausÃªncia de estrutura de <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> causa esse tipo de problema: se na Ã©poca de SÃ³crates os artistas nada sabiam, podemos nÃ³s imaginar quantos pensavam saber nos tempos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>, quando haviam, em nÃºmero, multiplicado. Imaginemos entÃ£o hoje, quando qualquer um que se proclame artista o serÃ¡. Aqui parece haver um <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> apenas numÃ©rico, oposto ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. NÃ£o hÃ¡ <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> artÃ­stico, mas apenas uma seqÃ¼Ãªncia de sobreposiÃ§Ãµes e continuam &#8220;os interesses e os desejos do homem a faltar antes mesmo que as artes tenham atingido a perfeiÃ§Ã£o&#8221; (ROSSI, 1996, p. 111).</p>
<p>Na <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> de suprir a falta da idÃ©ia de <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> criam-se conceitos humanitÃ¡rios, limitados e questionÃ¡veis, tornando algumas idÃ©ias em mitos ao mesmo tempo em que banalizam outras. Citando <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a>, Paulo Rossi diz que &#8220;a razÃ£o de <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperanÃ§a</a> &#8216;que se extrai dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> do passado Ã© a maior de todas&#8217;&#8221; (id., ibid., p. 59) e seque &#8220;quanto mais negro Ã© o passado, mais luminosas sÃ£o as esperanÃ§as para o futuro&#8221; (id., ibid., p. 60). Cabe saber entÃ£o quÃ£o negro Ã© nosso passado e mesmo se foi negro ou se essa escuridÃ£o Ã© mais moderna do que imaginamos. Se concluirmos que a modernidade trouxe a escuridÃ£o, poderemos entÃ£o ter certeza de que as esperanÃ§as devem recair sobre um futuro bastante distante.</p>
<p><strong>ReferÃªncias bibliogrÃ¡ficas</strong><br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>, T.W., &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">Progresso</a>&#8221;, <em>Lua Nova</em>, 1992, 27<br />
Agostinho, S., <em>A Cidade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a></em>, Editora Vozes, 1990<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a>, F., <em>Pensadores</em>, SÃ£o Paulo, Abril Cultural, 1973<br />
Herder, J.G., <em>TambÃ©m uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> da histÃ³ria para a formaÃ§Ã£o da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a></em>, Lisboa, AntÃ­gona, 1995<br />
Nascimento. M.G.S. do, &#8220;Instauratio, Revolutio: docta spes&#8221;, <em>Discurso</em>, ____, 31<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>, J.J., <em>Discurso sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciÃªncia</a> e as artes</em>, SÃ£o Paulo, Martins Fontes, 1999<br />
Rossi, P., <em>NaufrÃ¡gios sem espectador</em>, SÃ£o Paulo, Editora Unesp, 1996</p>]]></content:encoded>
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