Postado em 22-03-2009

Neubauten in “1/2 Mensch”

por Aseth | Categoria: Visuais | Lido 217 vezes

Lembro quando ouvi Einstuerzende Neubauten pela primeira vez. O álbum era “Haus der luegue”, que acredito ter sido o único álbum da banda já lançado em terra brasilis. Comprei o vinilzão lançado pela Stiletto e fui atrás de mais coisas. Achei, então, uma coletânea chamada “Strategies against architeture” e gastei uma pequena fortuna para levar pra casa.

Quando comecei a ouvir gostei ainda mais: as músicas eram mais experimentais, algumas muito barulhentas, e outras bastante melódicas, apesar dos “instrumentos” usados. Na época eu ainda não conhecia Throbbing Gristle e toda aquela barbárie industrial era novidade. Quando vi imagens da banda, associei com La Fura Dels Baus e até hoje vejo uma ligação entre os dois trabalhos, bem pouco sutil, aliás.

O tempo passou, ambos foram ficando “domesticados” (sacanagem usar esse termo, pq sei bem o que se passa), mudaram as formas de atingir o público e de se expressar, mas o importante é que aquelas experiências, lá atrás, influenciaram muita gente, e mudando ou não, deixaram sua herança pra muita gente, tanto que até hoje é meio comum ver o logo da banda tatuado em pessoas por ai, inclusive em mim.

O problema é que mesmo com essa herança, salvo poucas e raras exceções, as bandas hoje são domesticadas, quase todas em coleiras, como cães, agindo como foram ensinadas e mesmo as que se consideram independentes sonham em ter um contrato. Faltam vísceras!

Procurei no iutublio um vídeo tirado do dvd Halber Mensch, com um pouco daquele desespero e experimentalismo do começo dos anos 80, que se refletia no visual, na música, enfim, no todo da expressão da banda. Quando assisto, me lembro pq não vou mais a shows, pq cansei da mesmisse das bandas atuais, que sobem no palco, tocam regularmente, não fazem nada de diferente, não se esforçam, não aproveitam dos recursos que a interação com o público poderia (pode!) oferecer. Não fossem os diretores de videoclipes, muitas bandas não existiriam hoje. Me pergunto: de quem é o mérito, então?

Pra quem quiser ver um pouquinho disso que estou falando, segue o tal vídeo:

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Postado em 18-03-2009

Liber Pennae Praenumbra

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 341 vezes

Há alguns anos, em 1997 para ser mais preciso, estava estudando Maat Magick e – não vou entrar em detalhes – tive uma conexão muito interessante com o trabalho de Soror Nema, com quem mantinha contato por email e com quem aprendi várias coisas.

Um dia desses encontrei o arquivo com o Liber Pennae Praenumbra, que traduzi na época, antes da Madras publicá-lo oficialmente em português. Muita coisa está ruim e precisa de melhorias. O fato é que é praticamente impossível traduzir um livro “inspirado”, de forma qualquer tradução será, sempre, apenas um apoio ao leitor do original. Como traduzir isto, por exemplo: “The pylons of the ages are unshaken, firmly are they Set”? Literalmente? E ignorar a óbvia alusão ao deus Set? Optei por Set.

Por fim, recomendo a leitura do original, bem como das “notas e comentários” da scriba, tratando de detalhes, da qabalah e da interpretação do texto. Tanto isso quanto os rituais podem ser encontrados em seu livro, Maat Magick.

Segue:

No Akasha-Eco isto é inscrito:

Pela mesma boca, Oh Mãe do Sol, é suspirada a palavra e o néctar recebido. Pela mesma respiração, Oh Contrapeso do Coração, é o manifesto criado e destruído.

Mas há um portal, embora pareçam ser nove, Mímico dançarino das Estrelas. Quão formosa tua teia e tecido, a-reluzente no fogo-escuro do espaço!

Os dois que nada são te saúdam, Chama Negra que move Hadit! Quanto menos Um cresce, mais Pra-NU se manifesta. Fale a nós agora, as crianças do tempo-por-vir; declare tua vontade e concede nos teu Amor!

Falou então Aquela que Move:

Eu derramo sobre vocês, Crianças de Heru! Todos vocês que amam e guardam a Lei, Nada guardando para si mesmos, são a-bençoados. Vocês tem procurado os pedaços espalhados de Nosso Senhor, incessantemente para montar tudo que tem sido. E no Reino dos Mortos vocês produziram dos Mortos o Iluminado. Vocês deram à luz e O alimentaram.

Vossa Terra de Leite deve também ter o mel, deixado cair como orvalho pelo Ginandro Divino. O prazer e deleite estão no Trabalho, o Todo excedendo as Partes juntas.

O Senhor das Partes é colocado em seu reino, como pela Besta e pelo Pássaro. A terra do Sol não é aberta às Crianças. Atenção à Criança Eterna – seu Caminho flui livre, adaptado à Natureza de sua existência.

Uma Voz Gritou no Eco de Cristal:

Que significa essa demonstração? É o Tempo em Si Mesmo esperado? O Falcão voou sessenta e dez em Seu trajeto acumulado!

Ela sorri, linda como a Noite:

Observe, Ele abre as pontas de Suas asas ainda em vôo, banhando e agitando a Luz Dourada sobre os corações dos homens. E em que Ele voa, e por que meios? A Pena e o Ar são Seus para cavalgar, para suportá-lo sempre em seu IN-do.

Os pilares das eras são imutáveis, firmes eles são Set. O Dia do Falcão está amanhecendo, e verá sua devida medida segundo as Leis de Tempo e Espaço.

A Voz então falou:

Então a Visão falhou? Eu Os observo deformados, pensando em Ti como Quem Tu Não és?

Ela dançou e girou, espalhando a luz das estrelas em sua risada silenciosa.

Eu Sou Quem Eu pareço ser, às vezes, e então novamente Eu visto um véu triplo. Não se confunda! Acima de tudo, prevalece a Verdade.

Eu sou a Ilimitada. Quem lá está para me dizer não, para dizer, “Você não deve passar”? Quem realmente pode dizer, “Seu tempo ainda está por vir,” quando o próprio Tempo é meu principal servo-criado, e Espaço o Major-domo de meu Templo?

De fato, Oh Voz do Akasha, Eu sou os meios pelos quais você fala. Pela mesma boca que respira o Ar, despeja palavras de dúvida. Então em silêncio, Me conheça. Pois Eu venho com propósito desta vez, para auxiliar os Amantes do Falcão a voar.

A Palavra de Vôo

Quem hesita no Vôo deve por isso cair: a grandeza dos Deuses está no IN-do.

Quando pela primeira vez vocês voaram, Amados de Heru, quebraram a concha que longamente os protegeu. Sobre as Asas da Vontade vocês se aventuraram, ganhando vigor e força vocês voaram. Vocês ganharam todo o conhecimento do Reino Emplumado, pelo que se tornaram perfeitos como o Sol. Todos os amigos e mestres se tornaram irmãos.

O Cisne real, a Garça e a Coruja – o Corvo e o Galo lhes ajudaram. A Beleza do próprio Falcão foi concedida, as virtudes do Pavão, o Colibri e Pombo. A Águia revelou sua natureza interior e seus mistérios – observem, vocês testemunharam como, com seu Leão, ela se tornou o Cisne. E o Íbis do Abismo mostrou o Conhecimento.

Vocês voaram, Oh Reis e Eremitas! E voaram mesmo agora, dentro do encanto curvado de NU. Mas há aqueles dentre vocês, e abaixo de vocês, que laçariam suas asas e os arrastariam do céu.

Olhem bem fundo! Julguem seu Coração corretamente! Se vocês são puros, ele não pesa mais que Eu. Isto não os trará para dentro do Abismo. Pois Ouro é Luz/Leve, mas Chumbo é fatal quando em vôo – observe suas próprias profundidades, em Verdade e em auto-conhecimento.

Se algo te impede, é teu feitio. Observe agora este ensinamento dentro do Templo.

Assim dizendo, Aquela-Que-Move assumiu a forma da grande Chama Negra, crescendo do tronco central e ondulando dentro do Vazio. As Crianças de Heru observaram em silêncio, e escutaram Suas palavras formarem-se em seus corações.

Observe! Esta lente de Estrelas se tornando Espaço frente a vocês – os homens a nomearam corretamente como Andrômeda. Através delas fluo para a Lua do Cão sagrado, e dali a Ra, e dali a vocês, Oh Sacerdotes.

Vocês não devem ficar satisfeitos enquanto no Reino, mas lutar e assim exceder o que é feito. Em Amor da Dama do Norte, e em Vontade do Príncipe do Sul, fazei que cada coisa seja. Na força da Estrela de Sete-raios devem compreender a Besta. E desde HAD do Coração se deleitem na tua querida estrela-arcada.

Faça tudo isto, e então, vá além. Abandone qualquer coisa que possa te distinguir de outra coisa, sim, ou de não-coisa/na-da (no-thing, no original). Se caires em armadilha, deixe teu manto-de-penas a-balançar em sua mão e seja invisível e nua para além!

Mas agora! Como sacerdotes dentro do Templo vocês estão aqui, como Reis, e Guerreiros, todos Magos. O Caminho está na Obra.

O Um Escondido do Abismo agora dá os dois onde é forjada a alta Alquimia: suportando a Terra está Chthonos – aprenda bem, e todos as amarras se soltarão para a Obra da Vontade. Acima do Espirito, lá está Ychronos, cuja natureza é duração e a morte disto.

Os dois são um, e formam a essência do Reino. Quem os domina é Mestre do Mundo. Eles são as chaves completas da Transmutação, e chaves da força dos outros Elementos.

Os Guerreiros-Sacerdotes receberam as Chaves, e as colocaram dentro de seus robes, para mantê-las bem ocultas acima de seus corações. A Chama Negra dançou e decaiu, se tornando pequena, uma pena, emplumada e pontiaguda. Não tendo nada sobre o que escrever, um dentre os Sacerdotes veio à frente, e colocou a pele de seu corpo sobre o altar como um pergaminho vivo.

Aquela-Que-Move escreveu sobre ela uma Palavra, mas não colocou diante eles. Em paciência esperaram os Reis e Eremitas, assegurando a completa Compreensão final.

A Pena cresceu outra vez, arredondada em suas margens, tornando-se perante seus olhos o Yonilingam. Veio a imagem do Antigo Baphomet, O Chifrudo, que falou:

Há tempos vocês sabiam a Chave dos Dois-em-Um unidos. Vocês viveram e amaram completamente como NU e HAD, como PAN e BABALON. O Mistério de minha própria imagem vocês também conhecem, como era uma Verdade para as antigas Ordens do Leste e do Oeste.

Bipartida tem sido a Raça dos Homens em sua época. O Pai e a Mãe fizeram uma Criança. Eu sou a mais antiga das Crianças, verdade – mas agora o jovem ascendem para Seu Dia.

A natureza da verdadeira Alquimia é que isto muda não só a substância da Obra, mas muda então também o Alquimista. Vocês cuja Vontade é Trabalhar por esse meio, observem minha imagem inversa, e considerem bem seu significado para tua Tarefa.

A Demonstração da Imagem

De fora do Yonilingam soprou uma Nuvem, violeta e lampejante. No coração nublado um som surgiu, vibrando macio, preenchendo toda parte.

Adornada e reluzindo luzes-arco-íris das asas, pairou no meio uma humilde ABELHA. Listada de ouro e marrom, suavemente peluda e encurvada na forma, brilharam seus olhos sobre os Sacerdotes e Reis reunidos.

Falou então Aquela-Que-Move fora da névoa circundante:

Isto é o símbolo da Obra-por-vir, o Grande Ginandro em sua forma Terrestre. O Mago deve crescer por sobre a ABELHA enquanto o Aeon se desdobra, um líder e um sinal sobre a Raça dos Homens.

Que então nos mostra a ABELHA de sua natureza?

Observe, isto não é masculino nem feminino no singular. Trabalha de dia em vôo constante, um fa-zedor sem ego, cuja vontade e Vontade da Colméia são apenas uma.

Coleta o néctar da flor, voa para a Colméia e lá, em pura Com-Unhão, faz seu corpo Transmutar.

O néctar agora é mel. Abelha a abelha, é transferido, falando todos os Mistérios da Colméia de e para cada boca. Pela mesma boca que primeiro coletou, é o mel consumido, a Alquimia secreta dentro dos Centros tornando Prata em Ouro.

A Colméia agora vive, imortal. Com rainha e trabalhadores, zangões e operárias, soldados e madrastas – todos são um. Em constante renovação da vida, a Colméia respira como Um Ser – pois realmente é isto. Na Vontade da Colméia está preenchida a Vontade da Abelha. Cada uma em seu lugar, as Abelhas trabalham sua Vontade em ordenada harmonia.

A imagem desaparece. Agora a equilibrada Pluma se move numa dança elegante, abrindo as longas asas, tomando a forma do escuro Abutre.

Mas saibam, Oh Crianças do Falcão, um Homem não é uma Abelha. Ele pode se beneficiar desta imagem, para aprender da Sabedoria da Obra. Observe em Mim outra imagem para instruir teu coração.

Ergueu-se ante seus olhos a Torre do Silêncio, em que os Amantes do Fogo depositam seus mortos.

A forma do Abutre desceu suavemente, e comeu a carne dos cadáveres, até o osso. O vento uivou, desolado, neste lugar medonho, agitando as mortalhas sobre os esqueletos de marfim.

Silenciosamente, O Alado olhou, o bico sujo de sangue. Dentro dos olhos de cada Sacerdote lá reunidos, seu olhar pernicioso procurou. Em paz perfeita eles observaram sua busca, pois cada um, como Guerreiro, tinha feito da Morte um irmão. Então deliberadamente, ele abriu suas asas, pegou o vento, e decolou daquele lugar.

A Entrega da Palavra

Eternidade então reinou, Infinito o véu que penduraram sobre eles.

Em Algum Lugar, algum dia, o véu se abriu por um momento, e Aquela-Que-Move passou. Mais atrativa que qualquer mulher mortal havia sido, Ela irradiava um brilho de pérola e ametista. Bem dobrado linho era Seu vestido, cingido em ouro e prata, e em Sua cabeça, um nemyss de estrelado azul. Sua coroa era uma única pluma, ereta, e em suas mãos o Ankh e o Bastão da cura.

Sobre cada Guerreiro-Sacerdote ela se moveu, os abraçou e os beijou. Então, pousando no meio, Ela falou como um colega de mesmo nível.

“Todos vocês que praticam a Alta Arte, escutem. Nada deve haver escondido de tua vista. Todas as formulas e Palavras vocês devem descobrir, sendo iniciados por aqueles que Trabalham para ajudar a Lei da Vontade.”

“Vocês trabalham bem em tudo que tem sido dado; sobre a Árvore da Vida são vocês encontrados. No Tetragrammaton vocês continuaram; tudo dado pela Besta vocês praticaram corretamente. Vocês tornaram-se Hadit, e NU, e também Ra-Hoor-Khuit. Como Heru-Pa-Kraath vocês continuam em silêncio. Vocês conhecem PAN como amante e como forma divina, e BABALON é noiva e Seu Ser.”

“Vocês engendraram as forças de Shaitan, extraindo o nexo do noventa e três para trabalhar sua Vontade. Separação para o prazer de União vocês conheceram, e Alquimia é Ciência de sua Arte.”

“Para aqueles que sabem, e vão, e ousam, e se mantém em silêncio, isto agora irá além.”

“Na morte está a Vida – agora como sempre tem sido. A Morte Querida é eterna – guarde isto. O Ego, filho de Maya, deve ser assassinado no momento do nascimento. O Olho que não dorme deve manter vigília, Oh Guerreiros, pois a ilusão é auto-gerada.”

“Observação constante é o primeiro Ato – o Abismo é cruzado em minutos, todos os dias.”

“Se vocês podem dançar a Máscara, então mascarem a Dança. Seleta deve ser a Arte nesta instrução; e equilíbrio no Centro seja mantido, ou senão dareis inusitada Vida a tuas próprias criações. Trilhe cuidadosamente este caminho de Trabalho, Mago. Uma ferramenta, por Vontade criada, faz um mau mestre.”

“Agora na Missa, a Águia deve ser alimentada com o que ajudou fazer. Pela mesma boca que ruge sobre a montanha, é dada a palavra-ato de Nenhuma Diferença.”

“E quando a Vontade declara, deverá se agrupar à ABELHA para somar o ouro ao vermelho e ao branco. A essência de Shaitan é Néctar aqui, o Templo é a Colméia. O Leão é a Flor, agora é o momento, a Águia invoca a natureza da ABELHA.”

“Dentro da câmara-tripla do santuário é o primeiro néctar colhido. A convocação do bastão de PAN desperta a felicidade do portal se abrindo. E da terceira e mais íntima câmara, em prazer supremo, o presente de Sothis, hidromel quintessential, reunidos para unir lágrimas-de-Águia e sangue-de-Leão.”

“Solve et Coagula. Com-Unhão por esse meio, de que o próprio Cosmos dissolve, e re-forma por Vontade. E saiba, se de qualquer forma pode ser ordenado no Reino, que três ou mais é zero, assim como as antigas verdades.”

Então se agitaram os Guerreiro-Sacerdotes, e de seu número, um sem nome se adiantou.

“Nós a conhecemos, Senhora, embora Teu nome não tenha sido pronunciado. Mas diz agora – o que foi escrito na pele do homem? Qual é a palavra que Tu destes?”

Ela sorriu e tirou de seu manto um pergaminho ressecado, dobrado como uma Estrela. Desenrolando, Ela o virou, para que todos pudessem ver.

IPSOS

“Que é esta Palavra, Oh Senhora – como pode ser usada?”

“Em sabedoria silenciosa, Rei e Sacerdote-Guerreiro. Deixe a escritura brilhar e deixe a palavra ser oculta; a escritura é iluminação suficiente para velar a face.”

“Esta é a palavra do vigésimo-terceiro caminho, cujo número é cinqüenta e seis. Esta é a Permanência do não dito, em que a Dança da Máscara é ensinada por Mim. Tahuti observa sem o Macaco; Eu sou o Abutre também.”

“Este é o Cálice do Ar e o Bastão da Água, a Espada da Terra e o Pantáculo de Fogo. Isto é a ampulheta e a serpente mordendo a cauda. Isto é o Ganges se tornando Oceano, o Caminho da Criança Eterna.”

“Isto nomeia a Fonte de Minha Própria Existência – e da sua. Isto é a origem desta transmissão, que canaliza através de Andrômeda e Set. Que raça de deuses fala aos homens, Oh Queridos/Cheios de Vontade (Willed, no original)? A palavra deles é ambos o Nome e o Fato.”

“Isto é para teu mantra e encantamento. Falar é efetuar certa mudança. Seja prudente em seu uso – pois se a verdade for conhecida no exterior, poderá talvez levar os escravos à loucura e desespero.”

“Apenas um verdadeiro Sacerdote-Rei pode conhecer completamente, e permanecer em equilíbrio em seu IN-do (GO-ing, no original) vôo. Isto é tudo que falo por hora. O Livro da Ante-Sombra da Pena está completo. Faze que tu queres é o todo da Lei. Amor é a lei, amor sob vontade.”

# Donat per Omne
# Scriba – Nema
# Sol in Capricornus
# Anno Heru LXX
# Cincinnati, Ohio

Postado em 12-03-2009

Alguns elementos de fetiche

por Aseth | Categoria: Pensamentos, Visuais | Lido 353 vezes

O desdobramento dos signos tem essa consequência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse no sentido de uma separação do ser pessoal e de todo limite, é no entanto expresso por um objeto.
- Bataille, in O Erotismo

Cresci vendo minha mãe costurar, fazendo roupas tanto para nós de casa quanto para suas clientes. Uma decorrência disso é que também cresci com revistas de moda por perto, muitas eram importadas, e, vale lembrar, eram os anos 70.

Essas revistas, quando velhas, depois de usadas para que as clientes escolhessem modelos ou para que minha mãe tivesse idéias, se transformavam em meus trabalhos de escola, as famosas colagens, além de serem uma forma de ver o mundo além dos portões e da rua onde morava. Era curioso, pois tinha mais contato com elas do que com quadrinhos, por exemplo, imaginava conversas entre as pessoas e, como não sabia ler, imaginava o que os anúncios diziam.

Há alguns meses, andando pelo MoMA, encontrei uma sala com um painel enorme que disparou, imediatamente, um gatilho na minha memória e retomei muita coisa da infância. Tirei algumas fotos e depois fiquei pensando o motivo de ter sido atraído. A única explicação que consigo encontrar é que tenha sido fetiche, esquema freudiano mesmo. As imagens nas paredes eram do mesmo tipo de revistas que eu via, exatamente os mesmos, mas algumas ganharam destaque por sobre a montagem das páginas, como se tivessem vida própria. Acredito, de fato, que tinham e ainda tenham. São fetiches, ou seja, gatilhos, que falam ao inconsciente, sem as barreiras da razão. Quase atavismos, talvez.

Ao lado do grande painel na parede havia uma caixa de vidro com alguns daqueles elementos em três dimensões, palpáveis, praticamente vivos. Sim, nunca gatilhos foram tão ativos. Reproduzo abaixo duas fotos que tirei, só para dar uma idéia do que fato. Os turistas ainda não tomaram o lugar dos viajantes.

O problema é que fui muito espertão e não fotografei a ficha da obra. Pensei “pego depois, em detalhes, no site do museu”. Acontece que o site do museu é enorme, tem milhares de obras, algumas sem fotos, e até hoje não achei. Se alguém souber do que se trata e puder me dizer, agradeço imensamente.

Postado em 27-12-2008

Perspectivas

por Aseth | Categoria: Livros, Pensamentos | Lido 409 vezes

Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Estética, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são erros, que fique claro.

Segue:

As palavras depositaram tamanha confiança no espirito credulo dos homens, que estes acabaram por lhes voltar as costas. A gente começa a admirar-se de que uma porção de civilisações tenha enxergado incessantemente na letra qualquer cousa que não seja uma negação da vida – negação formal, está claro, mas nem por isso menos eficiente. Um estupendo livro ainda por se escrever: o tratado de historia da civilisação em que se considere o esplendor e a decadencia de cada povo coincidindo precisamente com a maior ou menor consideração que a palavra escrita ou falada mereceu de cada povo.

Nada do que vive se exprime impunemente em vocabulos. Os mais sabios dentre os homens têm, sofrido um pouco das necessidades a que essa lei os subordina. Eu, Sergio Buarque de Hollanda, acho indiscutivel que em todas as cousas exista um limite, um termo, além do qual elas perdem sua instabilidade, que é uma condição de vida, para se instalarem confortavelmente no que só por eufemismo chamamos sua espressão e que na realidade é menos que seu reflexo. Só os pensamentos já vividos, os que se podem considerar não em sua duração, mas objetivamente e já dissecados encontram um termo. Quero dizer: esse termo só coexiste com o ponto de ruptura com a vida.

Os homens que sentiram nitidamente essa ausencia do principio de vida, essa atmosfera irrespiravel que nos propõem as formas inteligiveis, já mandam ao diabo tudo quanto possa preencher um termo, tudo quanto caiba entre as quatro paredes de um pensamento comunicavel ou espresso. A palavra escrita ou falada só se concilia com a dificuldade vencida, com a energia satisfeita e a paz proclamada depois da guerra. É em vão que se tentará atrair a tempestade, invocar o demonio ou realisar o misterio dentro do quotidiano, quando não se renunciou à virtude ilusoria da linguagem dos cemiterios.

Mas não é sem remorsos que os homens aceitam a falsa paz que as letras impuzeram. A resistencia ao milagre caracteriza um estado de espirito que não é bem o dos contemporaneos. Já se ousa pretender mesmo e sem escandalo, que a mediocridade ou a grandeza de nosso mundo visivel só dependem da representação que nós fazemos dele, – da qualidade dessa representação. Nada nos constrange a que nos fiemos por completo na suave e engenhosa caligrafia que os homens inventaram pra substituir o desenho rigido e anguloso das cousas. Hoje mais do que nunca toda arte poética ha de ser principalmente – por quasi nada eu diria apenas – uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos seculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraizo nas regiões ainda inesploradas. Resta-nos portanto o recurso de dizer das nossas expedições armados por esses dominios. Só à noite enxergamos claro.

Não lhe quero negas leitor o direito que você tem de achar ingenuo e irrealisavel tal proposito. Lembro mesmo, e a seu favor, o trecho admiravel de Marcel Proust sobre essas “visões que nos é possivel esprimir e quasi prohibido constatar, porque, precisamente quando se tenta dormir, vem-nos a caricia de seu encanto irreal, no instante mesmo em que a razão nos abandona os olhos se serram e antes de se conhecer não só o inefavel, mas o invisivel, a gente adormece.”

Mas de que nos vale ter confiança no milagre se não ousamos transpor aquelle impossivel e aquelle prohibido colocados ali por prudencia ou por covardia? “Ha muitas cousas no céu e na terra além do que imagina a vossa filosofia”, diz Hamleto a Horatio. O certo é que essa filosofia não se interessa senão por divertimento ou por acaso em todas essas cousas que existem na terra e no céu fóra de seu alcance. Para os sabios mais consideraveis uma certa amplitude de pensamento acarreta o invencivel sacrificio de tudo quanto escapa à logica da continuidade, de tudo quanto se esalta e afirma, pelo simples facto de ser, um direito à existencia, a sua diferença essencial em relação ao que a rodeia e por isso mesmo, implicitamente, a sua singularidade. A ciencia compraz-se em estabelecer um nivelamento, uma uniformidade tal em todas as cousas, que acaba por escluir de seu Universo qualquer objeto que não se resigne a ser um simples termo prás suas equações, um instrumento docil às suas construcções arbitrarias. O acto elementar de definir, que se encontra à base de toda ciencia humana, implica o proposito de instalar todo o objeto de conhecimento numa continuidade fixa e inalteravel. Não existe ciencia do particular que estude cada cousa em relação à sua propria particularidade. Todos os nossos conhecimentos procedem ao contrario subordinando o singular ao universal e utilisando-se para esse efeito de um sistema de seleção que só se tem por essencial o que ha de constante em uma dada série de objetos. O resto, o que ha em cada um de individual é considerado inutil para a formação do conceito. Acontece porém que para certos homens o essencial continua sendo o que ha de particular, o que ha de milagroso, o elemento irredutivel em cada cousa. São esses homens, os que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das cidades que reclamam com violencia um regresso a esse estado de guerra que não é mais do que uma conformação com a vida. (1)

Mas prá maioria dos homens a morte como que se seja apresenta encantos e seduções que a Vida está muito longe de lhes proporcionar. Para uma porção de poétas ela tem sido um sinonimo comodo de misterio e para Socrates ela apareceu como uma aquisição de pensamento. Nem todos sentiram que não é necessário renunciar à vida para descobrir o “irreal” e que ao contrario o que parece mais real e até mesmo o que se apresenta mais dócil à verificação comporta uma parte de misterio imprevisivel e tráe concessões escandalosas ao irracional. Essa ilusão esplica a subsistencia, embora disfarçada, em cada um dos nossos actos. de uma aspiração à morte. A propria creação artistica não escapou desde os seus inicios a esse pecado original. Parece claro que o proprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um desejo de libertação como já se te dito (isto é libertação no sentido de exaltação: correspondendo a uma espansão de vitalidade), não de um esforço de resistencia contra o aniquilamento, mas ao contrario, e acentuadamente, ao desejo invencivel de negar a vida em todas as suas manifestações.

Surge assim em sua espressão artistica mais rudimentar esse afan de reduzir o informe à fórma, ao livre necessario, o acidental à regra. O desenho regular e monotono dos primitivos, essa esclusão de todos os elementos especiaes e acidentaes que eles revelam mostram claramente o significado e o sentido da tendencia dos homens para uma regularidade abstracta e inanime.

Paralela a essa tendencia que não é um privilegio do homem primitivo, a necessidade de confissao, essa doença moderna que condena à morte pela palavra e pela sintaxe, todos os sentimentos que nos oprimem, toda manifestação de vida inoportuna corresponde a essa mesma lei de aspiração ao inerte. (2)

Não me cabe resumir aqui todas as perspectivas que esse ponto de vista me propõe. Não disse ainda porque razão os homens começam a procurar a realidade de preferencia na esperança, na recordação e na ausencia e porque muitos deles sem renunciar a essa atitude conseguiram revogar para uso proprio a lei de aspiração à morte. Tambem não disse porque a exaltação do particular resolve-se em certos momentos na anulação de qualquer singularidade, no sentimento da harmonia de todas as cousas. Direi provisoriamente que a vida, apesar de tudo, continúa a nutrir subrepticiamente e por uma especie de verba secreta as regiões mais ocultas de nossas ideologias. É incontestavel que os nossos actos e mesmo aqueles que comportam uma série de movimentos irremediavelmente previstos pela logica e pelo calculo mais precisos, não prescindem dessa parcela contingente que participa do divino. Deante dessa impossibilidade de opôr uma resistencia mais eficaz ao misterio que nos sitia por todos os lados, deante do absurdo dessa resistencia não ha duas atitudes igualmente legitimas. Nada mais comodo, é verdade, que concluir pela vaidade de todos os nossos gestos e pela inutilidade de qualquer atitude, – ideia que o Universo nos fornece a troco de um simples bocejo.

- Sergio Buarque de Hollanda

(1) – Nunca será demasiado insistir no que representou para a literatura contemporanea a “descoberta” de que cada individuo representa um mundo isolado e muitas vezes indecifravel para os outros homens. A ideia da “incomunicabilidade dos espiritos” que constitue, pode-se dizer o fundamento e o tema essencial do teatro de um Pirandello já estava admiravelmente espressa numa passagem dos comentarios de Newman aos argumentos de Paley sobre as evidencias do Cristianismo: “Se quizerem que eu me utilize do argumento de Paley para minha propria conversao direi resolutamente: não desejo ser convertido por um silogismo habil; se quizerem que o mesmo argumento me sirva pra converter a outros, direi: não me interessa convence-los pela razão sem que seu coração seja atingido. Os homens não podem aceitar integralmente uma verdade, é preciso que cada qual a descubra por si. Toda convicção profunda ha de ser conhecida por essa descoberta.

(2) – Digo “doença moderna” apenas por comodidade. Não ignoro os argumentos que poderiam me opôr. Quero dizer que a confissão, a necessidade de espressão dos nossos sentimentos mais profundos manifesta-se menos disfarçada entre os contemporaneos. Ha quem atribua à influencia do confessionario a extraordinaria situação de quem ainda hoje goza e que mantem o catolicismo romano. (V. Dr. William Stekel – The Dephts of the Soul – trans. by Dr. S.A. Tannenbaum – London, Kegan Paul – 1921). O artigo de Prudente de Moraes, neto, sobre a sinceridade publicado no ultimo numero desta revista estuda o mesmo assumpto com admiravel lucidez.

Postado em 21-11-2008

Evolucionismo, rupturas e movimento

por Aseth | Categoria: Filosofia | Lido 570 vezes

Este é um trabalho longo, interessante, e que permanece aberto. Escrevi estas linhas para o professor Leon Kossovich, que as chamou “aporéticas”. Hoje, alguns anos depois, reli e vejo o quanto pode ser discutido e aprofundado. Como o professor ainda ministra o curso na FFLCH e usa Panofsky como referência, aposto que esse será um dos textos bem “procurados” em finais de semestre. Vou acompanhar as estatísticas…

Segue:

A proposta de Erwin Panofsky de questionar se houve um Renascimento enquanto tal em seu livro “Renascimento e renascimentos na arte ocidental” me parece válida e ambiciosa. Parece me também, no entanto, que no próprio autor há ainda alguns resquícios do que ele chama “romantismo”, que deixam lacunas ou mesmo equívocos na obra. Tendo isso como ponto de partida, passarei a comentar algumas passagens, sem a pretensão de corrigir a obra do autor em questão, mas adicionar um segundo ponto de vista.

Ao criticar o sistema de divisão da história em períodos de tempo e pensar em uma nova proposta, Panofsky nos diz que “o primeiro argumento, de caráter monista, poderemos abandoná-lo pela simples razão de que, se fosse verdadeiro, tudo seria possível em todos os lugares e em todos os momentos” (PANOFSKY, 1964, p. 18).  O ponto é que isso me parece bastante lógico e claro e exatamente por esse motivo não deveria ser abandonado. Daí surgiria, talvez, uma nova proposta de se pensar o movimento histórico não só da arte, mas também da humanidade: se tudo é possível, então como os movimentos se deram? Essa mutiplicidade dá ao mundo um leque maior e mais realista de realizações, tendo ainda em mente que essas realizações se influenciam entre si, por afirmação ou negação, ou seja, dialética, conforme o caso e o momento.

A possibilidade de fazer história não me parece ser aniquilada no caso de assumirmos a hipótese anterior como verdade. O autor lembra que “a alteração do que se encontra estabelecido necessariamente pressupõe o que está estabelecido”, porém não vejo motivos para que o estabelecido precise, necessariamente, ser um período que limite as possibilidades em um número qualquer (PANOFSKY, 1964, p. 18). Concordo com o exemplo dado pelo autor ao citar a crítica ao emprego de palavras vazias feita pelo Prof. G. Boas, que exemplifica como uma definição pode ser utilizada desde que haja uma metodologia empregada em sua construção, definindo em termos precisos o que se pretende afirmar ao utilizá-la (PANOFSKY, 1964, p. 20). O problema, no entanto, é quem define essas palavras. Não posso dizer a “época” para não supor a criação de um termo muito abrangente e, por isso mesmo, vazio, mas se o grupo, o movimento, estiver atento às suas propostas, a criação de um termo para defini-lo, por seus participantes, seria válida, mas deve ser vista com restrição se feita por terceiros, principalmente com muito espaço de tempo entre os fatos e seu estudo. Os surrealistas, por exemplo, se sabiam surrealistas, havia um motivo, um manifesto inclusive. Teria este nome a mesma validade se criado por estudiosos-críticos?

O autor afirma que “para decidir se uma solução do indivíduo representa ou não uma inovação, teremos de aceitar a existência de uma tal constante e procurar definir a sua direção; e para determinar se a inovação é ou não decisiva, teremos de determinar se a direção da constante mudou ou não em resposta à variável.” (PANOFSKY, 1964, p. 18) Tenho a impressão de que uma mudança de direção não é, de forma alguma, o fator fundamental para que haja um movimento, mas sim o seu desenvolvimento, que pode continuar em frente, linear ou verticalmente, conforme o caso. Um exemplo disso é que o Surrealismo se considerava “a última cauda do cometa Romantismo”, de forma que uma mudança de direção aqui deve ser considerada cuidadosamente, para não deixarmos de dar a devida importância ao Surrealismo, decisivo em seu momento. Embora não haja uma “mudança de direção” no sentido literal do termo, é óbvio que uma mudança ocorreu, envolvendo uma espécie delicada de “evolução” que, se tomada no sentido baconiano, pode ser bastante perigosa em se tratando da arte.

Ao afirmar que “uma história da Europa na época de Luís XIV, embora não uma história da Europa na época das Cruzadas, legitimamente incluiria o que aconteceu na América, ao mesmo tempo” (PANOFSKY, 1964, p. 18), o autor mostra estar ciente da influência que trabalhos diferentes causam entre si e da possibilidade de discussão que se abre. É exatamente dessa discussão e influência que surgem movimentos artísticos, agrupando idéias semelhantes, mas também são estas que ocasionam rupturas, finalizando ou criando novos movimentos, novas questões e até mesmo novos dogmas.

Breton deu um passo importantíssimo ao afirmar, nos Manifestos, que já existiam surrealistas antes de existir o surrealismo, nomeando diversos, como Rimbaud e Sade, por exemplo. A quebra da linha evolucionista baconiana, da linearidade temporal, que fecha círculos no tempo, torna-se fundamental para questionar todo o restante da história e o autor parece concordar ao afirmar que “provavelmente nunca concordaremos e em numerosos casos não deveríamos fazer o mínimo esforço para concordar sobre o momento e lugar exato do começo e do fim de um período ou megaperíodo” (PANOFSKY, 1964, p. 20).

A proposta do autor de atribuir às mudanças o nome de seus autores é válida tanto por possibilitar mais discussão quanto por evitar generalizações vazias que se tornam espécies de academismo às avessas, como o Dadá, por exemplo. Dadá, conforme seu manifesto, foi negação e não movimento (“Dadá é anti-Dadá”), era a necessidade de ruptura que a época exigia, um grito angustiado de “basta”, porém, ao ser considerado um “ismo” e, como tal, movimento, passou a ser afirmação. Não é necessário dizer que os envolvidos, de Tzara a Breton, não aceitariam essa idéia. Tanto que, após a “negação”, se voltaram aos questionamentos, através do Surrealismo e/ou mesmo do envolvimento político, como veio a ocorrer com alguns, resultando no manifesto escrito por Breton e Trotski.

Uma possibilidade que podemos levantar a partir desse raciocínio é que os  renascentistas, por assim chamá-los, estavam conscientes da retomada que faziam do trabalho clássico, sem, no entanto, sequer imaginar que estariam apenas copiando o que foi feito antes, mas sim dando sua contribuição e questionando as possibilidades que se abriam. Independente do surgimento do termo “renascimento” ou de qualquer outro, a consciência do trabalho parece exercer mais influência dado à capacidade organizacional que pode surgir daí, ao mesmo tempo em que daí também viria a grande dificuldade em se definir quando um movimento nasce e morre. Não seria o renascimento, então, o mesmo movimento da antiguidade questionando pontos que ficaram em aberto? Como o autor afirma “os fios da tradição se tinham por vezes tornado extremamente tênues, nunca esteve irrecuperavelmente perdida” (PANOFSKY, 1964, p. 24). Talvez, então, os próprios renascimentos que nos sugere o autor não fossem renascimentos, mas o próprio classicismo, enfraquecido, esperando um possível fortalecimento.

Sou obrigado a crer, baseado em reproduções de trabalhos da antiguidade, que em alguns momentos, fora de ordem cronológica, já questionavam o uso de movimento, cores e linhas, mesmo que em poucos casos. O fato de poucos casos ocorrerem dá a eles uma importância ainda maior, pois parecem ser casos “isolados” que vieram a se alastrar lentamente, pelo movimento da sociedade/civilização – comércio, movimentos pastoris etc –, foram aos poucos provocando discussões em outros que vieram a se encontrar com tais provocações, sem, no entanto, fazer com que os trabalhos mais comuns deixassem de existir. Não se trata, portando, de uma substituição de discussão e técnicas, mas de uma abertura de leque de possibilidades combinatórias.

É difícil, senão impossível, imaginar que um determinado dia surja um movimento e depois acabe da mesma forma como começou, como o autor afirma “não há nenhuma linha divisória entre a cultura ‘medieval’ e a cultura do ‘Renascimento’” (PANOFSKY, 1964, p. 25). O mesmo pode-se dizer de qualquer outra época. O período de surgimento deveria ser longo, para seguirmos um raciocínio do óbvio. Após muitos trabalhos feitos com o uso da linha, por exemplo, surge um que não a utiliza, para, depois de muito tempo, surgir outro. Uma vez que a discussão está aberta nem todos a percebem e sua propagação começa a se estruturar lentamente. Essa estruturação não ocorre, obviamente, em separado da arte “vigente”, pois seria o mesmo que pensar que nada se faz enquanto se pensa no que se fará a seguir. Desta forma, sou levado a crer que o aumento da discussão gerada por um movimento enfraquece outros à medida que ganha forma. Não posso, no entanto, crer numa simples linha evolutiva onde um trabalho substitui o outro, por ser mais complexo. A questão vai além: a diferença de pensamento e estudos de toda uma época possibilita a manutenção de diversos “movimentos”, por assim chamá-los, mesmo que quase esquecidos e não lembrados, que carregam por muito tempo uma chama que pode voltar a se fortalecer ou “apenas” influenciar outros trabalhos, à medida que é experimentada e incorporada por este, fazendo parte então da criação de algo totalmente novo, a partir do conflito deste com o que se fez até então, de tudo que já foi estabelecido.

Devemos pensar ainda que a própria língua estava se modificando no período anterior, chamado Idade Média, e esse movimento da linguagem torna-se essencial para o questionamento de uma época, de suas influências. Talvez não seja arriscado pensar que a possibilidade de perder o elo com os antepassados, com a tradição, levasse a uma necessidade de repensá-la, para manter o pouco que restava, já que a língua, essencial ao espírito da época e sendo, talvez, seu maior reflexo, estava mudando/mudada, se dividindo em outras. Por esse pensamento podemos lembrar a associação proposta por diversos autores, e citada por diversas vezes no texto, entre poesia e pintura. Esse mesmo sentimento pode ser pensado pela citação de Ramée dada pelo autor, onde aquele afirmava que “alegrava-se pelo fato de os médicos agora poderem ler Galeno e Hipócrates em vez dos árabes e os filósofos Aristóteles e Platão em vez dos Escotistas”. Se pensarmos em visão evolucionista, teríamos que, em sua época, Petrarca teria feito como os românticos viriam a fazer depois, ou seja, classificar de forma questionável o que se fez antes de seus dias, uma espécie de visão do novo senhor sobre o antigo: “quem duvida que Roma poderia levanta-se de novo, bastando para isso conhecer-se a si mesma” (PANOFSKY, 1964, p. 39).

Panofsky cita Vasari, dando uma idéia fundamental para estruturarmos essa maneira de pensar o movimento histórico, ao lembrar que este afirmara que “Brunelleschi redescobrira as medidas e proporções dos antigos; as obras de Donatello se lhe igualavam; e Masaccio brilhava pela sua nova maneira de colorir, de perspectivar, pelas posições naturais e pela maior expressão das emoções da alma bem como dos gestos do corpo” (PANOFSKY, 1964, p. 43). Dentre tais elogios, me parece digno de nota o fato de Vasari afirmar que Masaccio brilhava pela sua “nova” maneira de colorir. Temos, daí, que Masaccio não era mais um imitador dos antigos, mas alguém desenvolvendo um novo trabalho, discutindo, a ponto de criar novas técnicas. Esse desenvolvimento feito sobre o classicismo, o resultado dessa discussão, foi a doutrina, revelada pela “perdida doutrina dos antigos” (PANOFSKY, 1964, p. 52).

A própria confusão, difícil de “resolvida” nos dias de hoje, já os afetava quando de alguma forma começaram a se questionar sobre a mudança que se fazia notar: “Filarete e Manetti referenciam-se às velhas construções dos arquitetos transalpinos (a cujo estilo haveríamos de chamar de gótico) como moderni e às construções feitas segundo o novo estilo do Renascimento, antichi ou allá romana et allá ântica” (PANOFSKY, 1964, p. 59). Creio que o fato de classificarem o que estava sendo retomado como antigo ou “à romana” dava-se pela falta de clareza que tinham, no momento, sobre as mudanças e novas discussões que se faziam sobre a antiguidade, pela sutileza que ainda não se fazia notar, dando em seus contemporâneos a impressão de que era “apenas” repetição. Possivelmente daí veio a necessidade de Vasari em forjar uma terminologia que evitasse a confusão, percebendo que essa retomada não era uma repetição, mas uma continuação, “trazida à luz” por Masaccio e que “começou a ser praticada por todos os nossos artistas até aos nossos dias”, embora louve Leonardo por “ter lançado os fundamentos desse estilo a que decidimos dar o nome de moderno” (PANOFSKY, 1964, p. 61). O autor refere-se, durante o texto, a erros de Vasari que não estou apto a discutir, mas baseado nas citações, sou levado a crer que se houve erro, foi apenas pela proximidade em relação aos acontecimentos, da mesma forma que não estamos ainda aptos a perceber tudo o que está se desenvolvendo à nossa volta, estando limitados a criticar coisas com que não concordamos, louvar outras tantas e especular possíveis desenrolares.

Pelo exposto anteriormente, concordo com Panofsky apenas em parte quando ele afirma que “houve um Renascimento que principiou na Itália na primeira metade do século catorze, alargou suas tendências classicizantes às artes visuais no século quinze e, subseqüentemente, deixou sua marca em todas as atividades culturais do resto da Europa” (PANOFSKY, 1964, p. 69). Um Renascimento quantitativo pode ser aceito, como uma grande “retomada”, mas qualitativamente me parece questionável. Se houve evolução de sua primeira manifestação para a atual, não creio que podemos pensar qualitativamente em relação aos “renascimentos” menores, pois esses “menores” não me parecem ter sido renascimentos, mas continuidades, como vemos com movimentos que estão próximos à exaustão, que continuam agonizantes até o momento em que alguma mudança/questão lhe dá um novo sopro de vida. Baseado nisso, suponho que não houvesse em algum momento entre a queda de Roma e o chamado Renascimento algum resquício da tradição clássica, o Renascimento, como tal, não teria ocorrido, pois seria como tentar resgatar algo já esgotado, ao contrário de dar fôlego a algo de potencial. Esses resquícios, como cita o autor, podiam ser encontrados em regiões como a “Itália, o Norte da África, a Espanha e o Sul da Gália, onde se pode observar a sobrevivência do que foi candidamente designado por estilo ‘subantigo’” (PANOFSKY, 1964, p. 71).

Através de outros exemplos, Panofsky nos mostra que esses resquícios podiam ser encontrados tanto na “alta Idade Média” quanto no período carolíngio (PANOFSKY, 1964, p. 75-121), para citarmos apenas estes, e se ignorarmos essa continuidade, corremos o risco de começarmos a fazer classificações baconianas, pensando de forma que “o melhor substitui o pior”, quando na verdade o processo como tal é único, portanto, nem melhor nem pior, e dele vem a possibilidade histórica. Ao utilizar termos como “medieval”, que dividem a época por longos períodos, tenho a impressão de que Panofsky, embora tenha ciência dos problemas que essa divisão causa, estivesse propenso a trocá-la por uma outra, em períodos menores, tão problemática quanto a primeira em termos de progresso. Uma divisão em épocas menores pode, a meu ver, ser uma etapa no caminho para a solução da organização do movimento histórico de forma que possa ser estudado e compreendido, ou seja, é uma etapa na medida em que os períodos menores possibilitam um melhor vislumbre das discussões propostas por meio da criação artística, para não dizer humana, mas não pode ser definitivo enquanto ainda pode ser transformada em uma substituição lógica de um trabalho por outro, distante da realidade.

Referências bibliográficas:
Panofsky, E., Renascimento e renascimentos na arte ocidental, Lisboa, Editorial Presença, 1964