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	<title>Transtorno&#187; contingência &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>O efêmero, o eterno e as memórias</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 03:25:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se não somos eternos, como podemos sequer pensar essa possibilidade? Não, essa questão não é minha, é filosófica. Como pensamos? Pensamos no oposto do que somos. Eternidade, perfeição, bondade e outras coisas. Dai se pensa em Deus, se pensa no eterno. Não diria todos pq é claro que seria ridículo, mas uma grande, grande mesmo, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se não somos eternos, como podemos sequer pensar essa possibilidade? Não, essa questão não é minha, é filosófica. Como pensamos? Pensamos no oposto do que somos. Eternidade, perfeição, bondade e outras coisas. Dai se pensa em <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, se pensa no eterno.</p>
<p>Não diria todos pq é claro que seria ridículo, mas uma grande, grande mesmo, quantidade de pessoas <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> o eterno. Buscam quando vão à igreja, quando buscam relacionamentos, quando prometem amar na saúde e na doença, até que a morte os separe. É claro que há a promessa de união após a morte. Esse eterno fez a beleza da literatura por séculos, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/"><a href="http://www.transtorno.net/musica/">música</a></a>, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/pintura/">pintura</a>.</p>
<p>Quem não concordaria que Mozart, Bach, Platão, Aristóteles e outros são eternos? São pq sentimos assim. Um dia podem ser esquecidos, é fato, mas o efeito de suas obras terá influenciado tudo que se passou até ali. Hegel dizia, por exemplo, que é impossível pensar o mundo hoje sem pensar o cristianismo, de tão profunda a ligação. Resumi porcamente e com minhas palavras, mas é isso. Para Hegel o cristianismo fez-se eterno. É parte da dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>.</p>
<p>Ontem, por um motivo bobo, eu disse que nada era eterno, falei sem pensar. Agora estou pensando e discordo do que disse. Se tivesse pensado ontem, não teria dito. As coisas podem passar, virar memórias, mas se tornam eternas, pois influenciam os próximos passos todos da causalidade.</p>
<p>Me pego a pensar em <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, pra variar. O livro que me marca, volta e meia batendo à minha porta, me mostrando que vivo em uma &#8220;casa de vidro&#8221;, provando que a causalidade é real, ri de nós, brinca, mas faz de cada um de seus jogos um momento eterno.</p>
<p>Fui à terapia por algum tempo, anos atrás. Ela me disse à época que paixão era bobagem, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> existia quando as pessoas aprendiam a conviver sem paixão. Eu entendo o que ela queria dizer, faz sentido pra muita gente, para aqueles que não se questionam e vivem um dia após o outro. Não faz sentido para os inquietos, buscadores. Não faz sentido para mim.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">Amor</a> faz sentido, mas a paixão também faz. Não me importa se a origem de seu nome é de pathos, doença. Não me interessa se paixão é patológica. A mim importa que a calmaria é morte. Que não se questionar é morte. Que não sentir extremos é morte. Paixão não causa sensação de paz, pelo contrário. </p>
<p>As temperaturas são extremas, a mim não agrada o morno. A mim não agrada a paz. Não adianta eu tentar me iludir. Digo que quero paz, mas não, não quero. Estou em constante combate, prefiro assim. E já que citei <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, lembro que em &#8220;O <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> louco&#8221;, <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> diz que &#8220;o <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> será convulsivo ou não será nada&#8221;. Acredito que ali ele coloca o <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a> no eterno: o <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> não exclui a paixão de si, jamais, e torna-se para sempre seu próprio momento, na transformação que causa.</p>
<p>O <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a> parece perder o sentido assim, quando se transforma, se tornando parte do todo, que permanece.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade, transgressão e moral</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 01:08:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?” - Bataille in “A literatura e o Mal” Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”<br />
- <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> in “A literatura e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>”</p></blockquote>
<p>Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um momento de epifania, por assim dizer. Acontece, no entanto, que as idéias continuaram transbordando desde então e novas teorias e questionamentos, opostos aos iniciais, continuaram surgindo, uma torrente de compreensão/entendimento. Me deparei e ainda me deparo com diversas questões que precisaria responder e com outras que surgiram já trazendo suas respostas.</p>
<p>As linhas que seguirão abaixo são apenas um rascunho de algo que precisará ser desenvolvido, esmiuçado e detalhado, pois tratam-se de uma breve nota sobre como me sinto agora, neste momento, enquanto questionador e questionado.</p>
<p>Sem querer entrar em uma discussão das diferenças de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nas filosofias de <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Descartes ou qualquer outro filósofo, mas passando – seria impossível evitar –, ainda assim, por algumas generalidades de um e de outro, prossigo&#8230;</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é garantida pelos livres decretos e que, em um desses decretos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> se determina a criar o melhor dos mundos. Outro diria, entretanto, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criou esse mundo por pura bondade. Outros dariam ainda diferentes motivos, não importa. O que importa para essa discussão é como o mundo se dá para nós. As ações divinas podem ser livres, como amar a si, é claro. O fato de ter escolhido este mundo e não outro demonstra escolha, mas se essa escolha é determinada pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> (ainda que autodeterminada) do melhor, ou pela bondade, ou por outro motivo, seria de fato livre?</p>
<p>O problema, entretanto, é que a escolha do melhor não exclui a possibilidade da escolha do pior, ou seja, decidiu-se por esse mundo, mas poderia ter sido outro. A possibilidade de um outro mundo torna evidente uma escolha livre. Colocando isso em termos humanos: o homem padrão, comum, que sai de casa todas as manhãs em <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> do sustento de sua prole tem também a possibilidade da escolha oposta, é claro. Poderia não ir. Poderia, mas ainda assim se determina e vai. <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">Amor</a> à prole? <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">Culpa</a>? Medo de punição? Imperativo categórico? O que o move? Estamos claramente entrando nos domínios da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Voltamos a Deus: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana nos foi dada por decisão de sua bondade. Não é essa uma escolha <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>?</p>
<p>Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">deus</a> criou o mundo dessa forma e não de outra, teve a possibilidade dos demais, mas sua autodeterminação o impediu. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> existente foi excluída por uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> auto imposta. Voltamos, então, à frase de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> que abre esse texto: “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> “não pode desobedecer a ordem que existe”. É claro, desobedecê-la seria criar uma nova, implicando em sua imperfeição, em uma retificação da ordem anteriormente imposta, determinada como a melhor. Temos ai, além da discussão sobre a perfeição, também o bem comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> tão evidente nos questionamentos humanos.</p>
<p>Em <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> não me parece lógico discutir isso, pois trata-se mais de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e, portanto, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> levando a outra. Arrisco dizer que há uma maior evidência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> nesse caso. As <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> dão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, que se contamina quando a possibilidade do oposto não é data. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> é, portanto, diretamente ligada à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>A &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>&#8221; de algo limita a ação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. O meio pode ou não fornecê-la, não cabe obviamente discutir <a href="http://www.transtorno.net/tag/sartre/">Sartre</a>, mas a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de algo, quando existe, a limita. A própria <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de alimentar-se, por exemplo. Não é possível tomar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de não se alimentar sem conseqüências. A punição implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, em bem maior, ainda que neste exemplo diga respeito apenas ao indivíduo em questão.</p>
<p>Bem maior, disse. Pois bem, diariamente pessoas acordam e, para manterem seu “melhor dos mundos”, sua alimentação, seu conforto, condições básicas ou mesmo prover para a família, limitam suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de forma que essas deixam mesmo de existir, pois o próprio questionamento é aniquilado, cedendo ao comodismo e à aceitação cega de algo tão comum e tão pouco evidente.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">Liberdade</a> absoluta implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e talvez essa seja mesmo a razão da mítica dos grandes heróis: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> é o que serve de magnetismo, o que atrai e os diferencia dos demais. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> só existe quando abandonam o comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> existe quando abandonam o bem maior, quando seguem seu instinto, seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> e seu destino. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> é o freio da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> absoluta, que se dá por completo no “<a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a> desinteressado”, como diria novamente <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a>, mas não só ai. Cabe pensar em Saturno que castra Urano. Cabe pensar também a beleza de Vênus, filha desse ato, nascendo nas espumas do mar.</p>
<p>Seguir determinações morais e o bem necessário é tão limitante quando ter de acordar diariamente, trabalhar, se alimentar, procriar e repetir o ciclo. Nesse sentido, o homem comum é de fato a imagem e semelhança de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Voltamos à questão do provedor que sai de casa para buscar o alimento de sua prole, cuja bondade é livremente determinada. Poderia não ser bondade, mas medo? Não sabemos de casos de pais presos por abandonar bebês? Seja por bondade, medo, ou qualquer outro motivo, o homem permite ser colocado sob freios. Não cabe, no entanto, perguntar se em algum momento uma explosão se dará, <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a>, castração simbólica, ou se a aceitação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> estará apenas mais aprofundada a cada novo dia. Essa pergunta não faz sentido quando dirigida ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a>, ao grupo. Cabe apenas a alguns humanos, mitos em potência.</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, desvinculada da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, no sentido em que não tem a preocupação de manter uma ordem universal estabelecida, nem o limitante da perfeição, baseada apenas na ignorância total ou parcial das conseqüências de seus atos, é maior que a divina. A ignorância e/ou o <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> humano propicia a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, enquanto que a bondade e a perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criam a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>. Que fique claro: não falo aqui de estado de natureza. Falo de outra coisa, sutilmente ainda que profundamente distinta, livre de <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, muito próxima da infância.</p>
<p>28/01/2009</p>

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		<title>Natureza e liberdade em Espinosa</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Dec 2008 01:08:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre Leibniz, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem mal vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram Espinosa em um teórico do MST. “Na medida em que a alma conhece as coisas [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em um teórico do MST.</p>
<blockquote><p>“Na medida em que a alma conhece as coisas como<br />
necessárias, tem maior poder sobre as afecções, por<br />
outras palavras, sofre menos por causa delas”<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Ética, Parte V, Proposição VI</p></blockquote>
<p>Este trabalho tem por objetivo pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana a partir do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> de sua natureza, conforme a segunda proposta dada, a saber, “digo livre a coisa que existe e age a partir da só <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de sua natureza”, tendo em vista que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> de se autodeterminar é a mesma que o homem possui ao conhecer sua essência e tornar-se ativo, buscando também sua autodeterminação. </p>
<p>Faz-se necessário, antes de continuarmos, vermos o que vem a ser natureza e ação na <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> de Espinosa: na Ética, proposição XVI, parte I, o filósofo argumenta que “da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> da natureza divina devem resultar coisas infinitas em numero infinito de modos, isto é, tudo que pode cair sob um intelecto infinito”. Dessa <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> segue-se que as coisas têm, então, uma causa necessária. Conhecer pela causa é conhecer verdadeiramente e, portanto, conhecer a causa é conhecer a natureza, saber a essência, que, no caso humano, refere-se a singulares. </p>
<p>A substância, única, é capaz de infinitas ações, das quais conhecemos duas, pensamento e extensão. Os efeitos dessas ações são os modos/afecções. As afecções são a forma de agir (ação) da substância, de forma que inteligir, considerar o que se sabe sobre as coisas como partes de sua natureza e procurar conhecê-las, é buscar conhecer sua causa, sua essência, aproximar-se de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>. Portanto, como vemos no escólio da proposição IV, parte V, “devemos sobretudo trabalhar para conhecermos clara e distintamente, quanto possível, cada afecção”. </p>
<p>Ao tomarmos os homens como exemplos de coisas singulares, podemos concluir então que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, ou seja, o conhecer e viver de acordo com sua natureza, é onde reside sua divindade, tendo em vista que “tudo que existe são modos da natureza divina” e que “os modos da natureza divina são também conseqüência necessária, e não contingente, da própria natureza divina”, conforme a demonstração da proposição XXIX, parte I, da Ética.</p>
<p>Vivemos, no entanto, em ilusão de livre-arbítrio, pensando os atos como fins, quando são, na verdade, apenas efeitos. Sob tal ótica podemos considerar e compreender o exemplo dado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em sua carta 58, ao demonstrar que uma pedra atirada por alguém, caso pudesse pensar, se esforçaria para continuar se movendo, crendo depender de si só, ignorante da causa de seu movimento. </p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolheu criar as coisas como são: elas são necessárias, são parte da natureza divina, decorrem dela. Se houvesse escolha, haveria também negatividade, abriria-se espaço para outras possibilidades, para <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, para um não escolhido, mas “na Natureza nada existe de contingente; antes tudo é determinado pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> da natureza divina a existir e a agir de modo certo” (Proposição XXIX, parte I).</p>
<p>Falar em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> não implica, portanto, falar em fatalismo, pelo contrário. Para pensar em fatalismo é preciso pensar em contingências, em alternativas e possibilidades, em melhor ou pior, abrindo-se, novamente, espaço para a negatividade, que não existe nesse caso.</p>
<p>Isso não me parece conformismo, de forma alguma, como veio a ser entendido em alguns casos, mas, pelo contrário, uma forma de compreender melhor o que se dá, olhando para as causas e não para os fins, olhando para a natureza e o que ela exige para dar-se completamente, para ser plenamente. </p>
<p>Conhecer as afecções aumenta o poder sobre elas, sofre-se menos, aproxima-se então o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da natureza, da causa, não de uma suposta causa final, de um efeito tido como tal por ignorância, mas sim da origem, da positividade, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>.</p>
<p>Parece, entretanto, que é simples conhecer a causa e seus efeitos, mas não podemos esquecer que lidamos também com o que ocorre contra nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, dentro do contingente e do possível: as paixões. Os afetos podem ser ativos e passivos, ou seja, podem vir de nossa natureza ou não. Um afeto passivo pode trazer alegria, mas não é uma alegria que torna o indivíduo livre, posto que é contingente, não há controle ativo sobre ela. Pode ser uma paixão alegre, sim, mas poderia também não ser.</p>
<p>Conhecer causa e efeito, transformar paixão em ação, contingente em necessário, enfim, ser ativo. Essa atividade é o estado que capacita à autodeterminação, de forma que aí reside a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. Agindo dessa forma, pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de nossa natureza, estaremos nos aperfeiçoando, passando “de uma menor a uma maior perfeição” e, dessa forma, elevando nossa alegria, que está nessa passagem, nesse aperfeiçoamento.</p>
<p>Se é de nossa natureza buscarmos a felicidade e agirmos em função de tal objetivo, como podemos resolver o problema das diferenças entre indivíduos, haja visto que o que é felicidade para mim pode não ser para outro? A natureza deve ser pensada individualmente, de forma que ao conhecermos cada um nossa parte, lidaremos melhor com os demais e seremos felizes? Ou há uma unidade, uma natureza humana, única, que deve ser reconhecida, independente de contingências de nossas paixões enquanto indivíduos?</p>
<p>A idéia de uma natureza humana, de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de felicidade única, é perigosa, vale notar, na medida em que abre margem para a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de sistemas políticos e religiosos – cuja relação foi analisada por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em seu Tratado Teológico-Político –, dai <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> afirmar que os filósofos “em vez de uma ética, escreveram uma sátira”.</p>
<p>Não devemos pensar na Ética, entretanto, como apenas uma descrição dos singulares, posto que tudo é necessário. Não podemos pensar numa descrição pura e simples, onde não há possibilidade de transformação. É necessária uma mudança de foco para compreender onde pisamos: estamos, sim, buscando saber qual é a natureza/essência dos singulares, buscando aperfeiçoamento, não um mero relato. É necessário conhecer a natureza e então dar seqüência a ela, desenvolvê-la: é nesse campo que devemos buscar o cumprimento da ética.</p>
<p>Pensar felicidade e <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> universais, em bem e <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> universais é, portanto, um equívoco. Esses universais têm serventia à <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> descritiva, que se contenta em dizer como as coisas são ou não são e como deveriam ser, não à ética que <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da natureza. Nesse sentido, então, podemos compreender o exemplo dado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em sua carta 23, ao dizer que “se algum homem percebe que pode viver mais comodamente pendurado na forca que sentado à sua mesa, ele agiria como um insensato ao não se pendurar”.</p>
<p>Se seguirmos por esse caminho, podemos concluir que uma vez que cada indivíduo compreenda sua essência, fazendo de seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, de suas ações, a forma de determinar-se, exatamente como propõe o filósofo, não há como cair nessa armadilha, nessa universalização dos singulares, e assim, uma vez compreendida e sendo desenvolvida, autodeterminação em curso, veremos os humanos, individualmente, exercendo sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, sendo, enfim, agentes e então a alma não terá “outro poder que não seja o de pensar e de formar idéias adequadas” (Proposição IV, parte V, escólio).</p>
<p><b>Referências bibliográficas:</b><br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, B., Ética, Relógio d´Água, 1992</p>

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		<title>Liberdade humana e liberdade divina: contingência ou necessidade?</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Sep 2007 01:55:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[contingência]]></category>
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		<description><![CDATA[Este trabalho tem por objetivo analisar a liberdade humana e a liberdade divina em relação às necessidades absoluta e hipotética e à contingência, focando tanto na questão da liberdade divina durante a criação e suas escolhas de acordo com os decretos livres de Deus, bem como na liberdade humana, tanto sob o ponto de vista [...]


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<li><a href='http://www.transtorno.net/2008/03/o-melhor-dos-mundos/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O melhor dos mundos'>O melhor dos mundos</a></li>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Este trabalho tem por objetivo analisar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana e a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina em relação às necessidades absoluta e hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> e à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, focando tanto na questão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina durante a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de acordo com os decretos livres de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, bem como na <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, tanto sob o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> como do divino, buscando respostas para algumas questões que se seguem, das quais ressalto a que me parece mais intrigante: como a certeza divina de que algo irá acontecer é compatível com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> das <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> humanas?</p>
<p><strong>. <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">Contingência</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a></strong></p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é assegurada pelos livres decretos, garantindo a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> a escolha do melhor dos mundos. Ao criá-lo vê a série inteira do universo, as ações e suas causas determinadas. Vale notar que todas as causas são determinadas, como demonstra <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, haja visto que se fossem indeterminadas seria impossível até mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> prevê-las, assim como não existiria sentido para as mesmas.</p>
<p>Os humanos, por outro lado, não têm essa garantia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana é dada pela bondade divina, sendo, portanto, parte do melhor dos mundos, e é exercida perante as contingências, de forma que as ações humanas não podem ser e ter <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta, mas apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, ou seja, as ações humanas poderiam ser de outra forma, sem implicar contradição, como implicaria, por exemplo, pensarmos um quadrado sem quatro ângulos retos. As ações de um homem específico poderiam ser de outra forma, mas não são pelo fato de que se fossem implicariam em outro homem, em outro mundo possível.</p>
<p>Antes de prosseguirmos, creio ser necessário recorrer brevemente ao parágrafo XIII do “Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>”, em que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> expõe a diferença entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, isto é, <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>Começando pelo final do parágrafo, vê-se que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> chama a atenção para o fato de que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu criar o melhor mundo possível por um decreto, que estabelece criar o sempre o mais perfeito. Ao fazer essa escolha, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> mostra que poderia ter seguido outro caminho, criando um mundo imperfeito. É da perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolher criar o melhor dos mundos, portanto. É uma prova de sua bondade. Dentre os decretos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> está também o decreto sobre a natureza humana, que determina que o homem fará, embora livremente, sempre o que lhe parecer melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito, dotado de total <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, opta, então, por criar o melhor mundo possível, o mais perfeito, o que não implica que outros pudessem ser criados.</p>
<p>Pensar na impossibilidade de outros mundos seria, novamente, pensar a imperfeição divina e, por conseqüência, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, beirando o espinosismo. Seria a negação de qualquer forma de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, tanto divina quanto humana. Não poderia ser diferente: pensarmos <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> seria pensá-lo imperfeito e, por conseqüência, criador de um mundo que não seria o melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito só pode ser pensado se concedermos <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> total. Note-se que não há contradição alguma em pensarmos um outro mundo possível, pelo contrário. A possibilidade de outros mundos passa a ser um indicativo de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, em oposição à <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>. Não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta de este mundo ser como o é e não de outra forma, apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Clarke, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma mais uma vez que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu dentre possibilidades e que negá-las seria contra a hipótese, afirmando ainda que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolhe dentre possíveis, dos quais nenhum implica em contradição, quer dizer, de todas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> divinas, nenhuma cria a impossibilidade absoluta de outras. E continua: “but to say that God can only choose what’s best, and to infer from this that what he does not choose is impossible, this, I say, is confounding of terms; it is blending power and will, metaphysical necessity and <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> necessity, essences and existences” (CLARKE &amp; <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, 2000, p. 37).</p>
<p>Sob a ótica divina, a melhor escolha é feita pela perfeição, enquanto que para as criaturas é feita com o que lhes parece melhor, sem que isso impeça o menos perfeito de ser possível, ou seja, a melhor escolha é feita pois parece melhor às criaturas, mas uma outra, oposta, não é impossível, mas rejeitada pela imperfeição.</p>
<p>Dessa forma vemos que o oposto é possível, não necessário. Como dito anteriormente, mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> que faz não tornam seu oposto um absurdo. Essas contingências têm sua razão de ser. Essas contingências fizeram que as coisas fossem como fossem. Como existirmos, por exemplo. E necessário ex hyphotesi existirmos hoje, pois uma série de ações, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre contingências, nos trouxe aqui, mas é perfeitamente possível pensar uma outra forma, uma situação completamente diversa, em que não existíssemos. Seria menos perfeito, talvez, mas não impossível, enquanto que o necessário, o absolutamente necessário, fundado no princípio de contradição ou mesmo em sua essência, independe de qualquer <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, seja ela divina ou das criaturas, de forma que nem mesmo <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> pode pensar um triângulo com quatro lados. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> tem o poder para aniquilá-lo, mas não para fazer dele uma coisa diversa. Transformar sua essência seria destruí-lo. As contingências baseiam-se em <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre possibilidades, mas não podemos, como explicado, escolher um triângulo com quatro lados, posto que sua natureza ou essência o impede de ser assim.</p>
<p>Uma vez colocadas as questões da <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> e da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, devo então me aprofundar no problema da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, apontado anteriormente e de total importância para o questionamento que se seguirá. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> possa prever os futuros contingentes, isso não os torna necessários absolutamente, mas os torna certos. É certo, não necessário, que Adão será criado, irá pecar e terá filhos. É perfeitamente possível pensarmos em alternativas para Adão, não há contradição alguma nisso, embora essas alternativas impliquem também em outros mundos possíveis que não este.</p>
<p>O fato de tomarmos certas decisões e fazermos certas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> faz parte de nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é onisciente dessas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> quando escolhe este mundo em detrimento aos demais possíveis. Se pensarmos a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> em relação à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, porque estes humanos e não aqueles, veremos que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> faz sua escolha com base no que vê nas nossas: vê-nos agindo, vê a seqüência do universo, e nos escolhe com base nisso. O fato de que essas coisas venham a ocorrer posteriormente, cada uma a seu tempo, se dá devido à permissão divina, não por sua escolha, quero dizer, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos escolhe, mas não escolhe por nós. A escolha divina se dá somente no momento da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, dando lugar à escolha humana posteriormente.</p>
<p>Como bem lembra Tessa Moura Lacerda em seu livro “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>”, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que “Adão se determinou a pecar de acordo com certas inclinações que prevaleceram, mas essa determinação não destrói nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>” (LACERDA, 2005, p. 125).</p>
<p>A capacidade humana de refletir sobre suas ações, argumenta Tessa, tem um papel, senão o principal, para pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> dos homens. Ora, é essa mesma capacidade de reflexão que atribuída a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos mostra, em certo grau, suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e reflexões para tomar a decisão sobre esta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e não outra. Uma vez tomada a decisão desta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a>. Qualquer mudança feita por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> após a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> implicaria em arrependimento e, por conseqüência, em Sua imperfeição. Aqui se apresenta, então, um ponto claro da diferença entre a reflexão divina, não afetada por paixões, e a humana.</p>
<p>A reflexão sobre os atos é, portanto, o reconhecimento das ações é também reconhecer-se como agente e, com isso, assumir responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> sobre elas. Tessa, citando <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, indica novamente o caminho: “a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> (&#8230;) consiste na inteligência, que envolve um <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> distinto do objeto da deliberação” (LACERDA, 2005, p. 127).</p>
<p>Para que haja <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, ou seja, como já dito anteriormente, ela tem de ser possível e não implicar contradição. Qualquer acontecimento desse tipo é contingente, mas não sem sentido, posto que há razão para sua existência. Essa escolha, essa razão, é <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e sua conseqüência é necessária, embora não necessária absolutamente. Temos a impressão de <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, mas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>, quando observadas, provam que seus opostos podem existir, o que não pode acontecer para o que é necessário por natureza.</p>
<p>Suponho que com base nessa reflexão, nessa razão <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, é que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decide criar o melhor dos mundos, firmando seu primeiro decreto, dando mostra de sua perfeição e de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, conforme apontado anteriormente, afastando então a possibilidade de uma existência trágica. A bondade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é, com isso, também demonstrada, pois podemos pensar, então, que os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> humanos, que a possibilidade de aprendizado a partir dessas falhas, faz parte do melhor dos mundos e que o melhor segundo nosso ponto de vista não é o melhor para Deus: se pensarmos, por exemplo, um mundo onde ninguém erra e todos são perfeitos e não tem nada a aprender, onde a evolução atingiu o ponto máximo, estaremos pensando, portanto, um mundo sem sentido, imperfeito por conseqüência.</p>
<p>Para os humanos, a cadeia de causas de acontecimentos é indemonstrável, mas podemos ter certeza de que nada que tenha acontecido em um momento qualquer foi necessário metafisicamente e que o acontecimento seguinte é necessário somente em relação ao anterior, ou seja, hipoteticamente, pois de fato poderia ser diferente, caso o anterior também o fosse. Nisso vemos onde entra a deliberação sobre nossas ações, o julgamento, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> que assumimos perante eles, mudando o próximo de acordo com o anterior, fazendo com que a cadeia de acontecimentos siga um rumo de acordo com nosso aprendizado, como veremos a seguir.</p>
<p>O princípio do melhor rege também as inclinações da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Como dito anteriormente, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decreta também que o homem busque o bem, o melhor. O espírito tende, então, para o lado que parece ter maior bem e, com isso, mesmo os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> que se cometem, mesmo as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> consideradas erradas, são as melhores possíveis naquele momento, quando foram tomadas, pois os humanos podem se enganar escolhendo um bem aparente no lugar do melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> determina que o homem busque o melhor, tenda para o bem, mas dessa forma há uma dupla inclinação, sendo a outra a inclinação da alma com relação à causa próxima.</p>
<p>Assim como atravessar o Rubicão está contido na idéia de César, tudo o mais, todas as suas decisões e ações também estão, assim como para qualquer outra pessoa: “os homens encontram em si mesmos as razões que determinam suas ações” (LACERDA, 2005, p. 129), na alma, princípio de suas ações e paixões.</p>
<p>Queremos o que nos agrada, mas como nem sempre temos distinção, esse agrado pode ser um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, um bem menor (LACERDA, 2005, p. 137). Embora às vezes não façamos uso de nossa razão, não deixamos por isso de tê-la e isso não quer dizer, portanto, que não possamos fazer <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> livres.</p>
<p>Essas percepções confusas, que impedem o julgamento do entendimento, paixões que afetam o julgamento inconscientemente, impedem-nos, às vezes, de entender as razões de nossos instintos. Embora tenhamos em vista o bem, tendemos a fazer coisas cujo julgamento não é claro, segundo as inclinações da alma, sem percebermos. Vemos, com isso, como a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> pode contribuir com nosso julgamento, desviando nossa atenção.</p>
<p>Para um homem conhecer totalmente sua natureza, conforme citação da Teodicéia no livro de Tessa Lacerda, “seria preciso que ela [a alma] conhecesse perfeitamente todo o universo que está envolvido nela, ou seja, que ela fosse <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>” (LACERDA, 2005, p. 139).</p>
<p>Não é porque nos enganamos ou porque nos deixamos levar por tendências que não são claras que deixamos de ser livres. Não deixamos de ter a possibilidade de reflexão, que pode ser usada para orientar nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, o que caracteriza uma ação livre, a responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do homem, é a “possibilidade de buscar razões ou inclinações sobre seus desejos, a potencialidade de refletir sobre suas ações e influenciar pela razão os desejos futuros” (LACERDA, 2005, p. 140). A reflexão sobre uma ação a transforma em ação <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e quanto maior o uso do julgamento sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, maior o uso da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Arnauld, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz que ao escolher Adão, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolhe um Adão “vago”, mas também tudo o que será, também a sua posteridade. Tudo o que se segue dai tem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipotética: <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu o melhor Adão dentre outros possíveis. O ponto, entretanto, é que ao escolher a este Adão e não a outro, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não pode privar-lhe da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é livre ao escolher Adão e todos os seus descendentes, ao escolher Adão com estas inclinações e não outras, ao escolher o Adão que irá pecar e não outro. A questão que se coloca, então é se Adão é livre tendo sido escolhido pelo que é potencialmente, pelo que se sabia a seu respeito. Adão é livre mesmo que suas ações sejam certas, embora não sejam necessárias? Como alerta Arnauld em uma de suas cartas, o Adão possível escolhido ligou-se à mesma posteridade do Adão criado.</p>
<p><strong>. Conclusão</strong></p>
<p>O que sustento, seguindo <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> de perto, é que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> é livre em suas almas e deliberações. Não me parece, contudo, que sejam livres de acordo com a onisciência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, o qual a escolheu de uma forma e não outra. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, assim, sabia o que viria a acontecer: viu a seqüência do universo de fora do tempo, e assim foram feitas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>. Do ponto de vista lógico, as ações não são necessárias, e do ponto de vista divino elas não são necessárias, mas certas. O Adão possível tornou-se o Adão criado, como disse Arnauld, e é livre, concluímos, somente enquanto não conhece suas ações futuras, como <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> as conhece, e pode deliberar sobre elas, embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> já as tenha previsto. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não faça as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> pelos homens, me parece que, em certo nível, Sua escolha pelo melhor mundo possível já as fez.</p>
<p>Todo o universo está contido na noção de Adão, o mundo de acordo com seu ponto de vista está lá. <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz em sua correspondência com Arnauld, como citei anteriormente, que os eventos não são necessários, mas certos e exemplifica “é verdadeiro que poderia não fazer aquela viagem, mas é certo que farei”.</p>
<p>Embora a <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> espinosana seja muito diferente do que vejo aqui, tendo a perceber que se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> foi livre para escolher o mundo perfeito dentre as opções possíveis, somos livres também para escolher e agir de acordo com as opções que nos são apresentadas, mas somente de acordo com o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, ponto de vista de quem não sabe quais serão os próximos passos, de quem os teme e delibera para escolher o melhor a ser feito, enquanto que de acordo com a visão divina, tendo nos escolhido pelo certo – não pelo necessário – sejamos todos personagens de uma história cujo final é conhecido pelo criador, não por nós.</p>
<p>A despeito da forte afirmação, somos aqui levados a perceber que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> que possuímos está na ignorância do porvir, está apenas nas decisões que tomamos ignorando o que faremos a seguir, ou tendo apenas uma vaga idéia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> está, desse modo, em nossa responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, nas decisões que assumimos, em nossos atos. Pergunto-me, então, sabendo que tal questão não deve ser tratada com superficialidade, se a onisciência divina e a escolha pelo melhor dos mundos não é, em si, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> humana, como Édipo, por exemplo, fugindo de seu destino, ignorando que a própria fuga o levará de encontro a ele.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong><br />
CLARKE S., <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Correspondence, Indianapolis, Hackett, 2000<br />
LACERDA, T., A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, São Paulo, Humanitas, 2005<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> e outros textos, São Paulo, Martins Fontes, 2004</p>

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<li><a href='http://www.transtorno.net/2008/03/o-melhor-dos-mundos/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O melhor dos mundos'>O melhor dos mundos</a></li>
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