Sem lágrimas, o senhor dos campos prepara seu desjejum entre dilúvios infindáveis. O dia surgia aguado, observando ainda sutil por entre os seios da terra, no momento em que os cristais d’água se transformavam. Ora, os discrepantes reinos, eletrificados no fastio dos pólos, reagente às mortais aberrações que gritam na natureza madre, não são também a casa que emana as sendas dos aprendizes alquímicos?
Mas nem perdão nem tragédias ofuscariam o retorno do alvorecer doentio, cabendo às tormentas, em todo seu esplendor, invadir mares e terras, ocidentais e orientais, lançando corpos pela estrada em que um vidente-viajante busca a feição que mais lhe agrade, tendo à escolha todos os corpos perdidos entre pedras e lama.
Borboletas, temendo rotinas efervescentes, adornam a moldura do horizonte oblíquo, descontínuo, enquanto pendem às rotas ígneas os demônios pequenos, olhos faiscantes e emitindo ondas. Semelhante às dores de um parto, somadas às dores de estômago infernalmente pontiagudas e afiadas – para saná-las, os habitantes são banhados em vinagre e álcool -, o bater de asas move o globo em torno de seu eixo.
A força dos dedos anular e indicador, enterrados na carne de uma donzela, à altura do peito, em busca do coração que servirá de alimento – apenas após temperado, que fique claro -, compara-se ao sopro de minha voz em uma manhã gloriosa, diferenciando-se também da qualidade dos orgasmos provocados quando se toca a baioneta afiada, provocante e diversa.
Em torno do anel-espiral que as lâminas abrem no ponto exato da carne levemente pálida, a boca aberta em espasmos contrai seus músculos do ventre à garganta, lançando jatos de sangue, vomitados através do ar com sua ajuda. Os olhos se contraem nas mais desesperadas linhas, obrigando a face a acompanhá-los em seus movimentos ondular-requebrantes, como que aliados ao sismógrafo, perdido quando a terra dança sob meus pés.
O restante do corpo é preenchido com a seiva da eternidade, popularmente conhecida como formol, dando à luz um filho que levará o nome de Embalsamado. Nele frutificarão os germes da idolatria mítica, acolhidos com fervor pela massa desfigurada, amotinante, descomplexa, incubada e inoculada, grunhindo deboches estéreis que caem pelas ventas e ouvidos, podres como uma pasta malcheirosa.
Entre as milhares de sentenças que podem ser encontradas em livros, desde os de caligrafia até os filosóficos, ruínas emergentes se escondem: os mistérios da mente são maiores que os do corpo, já invadido por bisturis, sondas e radiografias, liderados por membros de sociedades obstinadas.
Meu paladar se delicia com os órgãos aflitos: imagino despojos femininos me afagando e lançando sua saliva contra meu rosto coberto de feridas, tomando meu brilho em seu olhar ao me perfurar com os talheres que outrora usei. Da lâmina à cama, mais uma vez a morte faz leito sobre corpos que repousam, abafados pelo calor da respiração ofegante e do coração sincopado.
Observo os lugares tomados em volta da gigantesca mesa, bordada e decorada com dentes serviçais, castiçais ergonômicos e fadigas uterinas. Meu olhar torna-se rubro como o vulcão que tudo à volta destrói, por certo criado em banhos de cera fervente, ao perceber que o deleite que me toma nada espanta aos convivas e habituais. A esfera epilética dos corpos unidos desmaia mesmo a apoplexia que sorri no gozo.
Celebramos, portanto, nessa manhã, a orgia infindável da Trindade da Carne. Desfeitos e complexos, infinitos, a luxúria do vinho e do sangue, do paladar da pele, o mergulho da entrega, o dar-se ao eterno.
Brindamos nessa manhã o ciclo que abraça, a vertigem que aquece.
Saturno implora pela repetição refletida em seus anéis, dando ao mar o nascer da estrela da manhã: Vênus e Marte traçam linhas desde tempos ancestrais.
Somos Dois à mesa posta.
São os Três eternos a nos mimar.
A luz de Kether acima.
João Cláudio é um cara moderno. Fuma “unzinho” e defende a liberação das drogas em geral. Crê estar na Holanda. Notório defensor de marginais, admira pessoas da “periferia”, independentemente de este ser apenas um conceito chique, uma espécie de rótulo para tirar proveito de uma situação, a saber, a isenção ideológica proporcionada. João Cláudio admira um “rapper” que vive de apologia ao crime. Também admira um escritor, tão pobre de idéias quanto de propostas. João Cláudio representa uma larga parcela da população, mas não se iludam: é um indivíduo, existe.
Não há muito, João Cláudio chegava em casa. Periferia, de certo modo, mas nem tanto: São Paulo é grande, existem lugares piores. Ao abrir a garagem, foi abordado por dois assaltantes, drogados, crack, provavelmente. Colocaram uma arma em sua cabeça, levaram carro, carteira, a aliança de casamento.
Indignado, João Cláudio procurou a polícia, registrou B.O. A quem mais iria pedir ajuda? Aos “rappers”? Ao escritor? Ao fornecedor? João Cláudio recorreu a quem era conveniente. A polícia recuperou o carro, encontrado não muito longe sua residência, muito próximo a uma favela.
O susto se foi, mas deixou João Cláudio pensativo: “preciso me defender, não há polícia aqui”. João havia esquecido que seu carro fora recuperado. A conveniência mudara: João Cláudio precisava se proteger, proteger sua família. João fora ferido em sua virilidade, precisava fazer algo. Comprou uma pistola 380, ilegalmente.
Esposa e filhos dividem o mesmo teto de João. Três filhos. João não sabia onde guardar a pistola, não havia se preocupado com isso. O que João Cláudio não pensara era de ordem prática, logística, e agora precisaria resolver, não podia arriscar a vida das crianças. Decidiu carregar a arma consigo.
Na mochila, junto a seu corpo, viajava o brinquedo, do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Restava, no entanto, o medo, de outro tipo. Não dos assaltantes, mas da polícia. Como justificar a posse de tal objeto em uma eventual abordagem? Não podia. João Cláudio precisava se livrar da pistola. Já sabia a quem recorrer…
Clarão é um traficante, conhecido de longa data de João Cláudio. João o achava um sujeito “classe A”, um comerciante, como qualquer outro. Fecharam negócio: um pedaço de “fumo” a troco da pistola. Clarão não precisava da arma, aceitou-a pela amizade, iria revendê-la. João Cláudio, feliz pelo negócio, afirmou: “não dava pra deixar em casa, me preocupo com meus filhos”.
João Cláudio se preocupa com os seus filhos, não com o dos outros. João Cláudio não sabe que a arma apontada antes para seus filhos está agora apontada para os filhos de outrem. João Cláudio não se interessa pelos demais, essa não é sua função. Apontar o dedo, acusar e julgar, sim. Avaliar a si? De forma alguma. Tal como o presidente eleito por ele, é livre de pecado.
João Cláudio não se importa. Fuma seu prêmio e esquece.