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	<title>Transtorno &#187; culpa &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Saltando contra muros</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Sep 2011 20:32:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os últimos meses não estão sendo fáceis. Datas e símbolos tomam porporções que jamais imaginei que tomariam, lugares tornam-se templos, palavras tomam sentido diverso. O caos faz-se tão presente que qualquer coisa começa a tomar sentido diverso: o que um olho vê engana o outro. A sensação de ter falhado é absurda, enorme, desde as &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os últimos meses não estão sendo fáceis. Datas e símbolos tomam porporções que jamais imaginei que tomariam, lugares tornam-se templos, palavras tomam sentido diverso. O caos faz-se tão presente que qualquer coisa começa a tomar sentido diverso: o que um olho vê engana o outro.</p>
<p>A sensação de ter falhado é absurda, enorme, desde as coisas pequenas, como fumar quando não deveria, quanto as grandes, que não vou abrir aqui para não expor as pessoas ou a mim. A verdade é que algo comum, como falhar, parece transformar o rumo de nossas vidas, mas pergunto: já não falhamos antes?</p>
<p>Se uma falha faz com que a gente aprenda, é uma falha? E se repetirmos o erro, continuaremos falhando? Acredito que sim, não vou ser auto indulgente e é por isso que estou aqui escrevendo.</p>
<p>É muito fácil mascarar um erro com desculpas, sejam elas quais forem. O difícil é aceitar que esse erro existiu e falar &#8220;errei, fiz merda, não quero mais repetir&#8221;. Claro que não é fácil, mas é preciso, é o que quero tentar.</p>
<p>Passei o dia de ontem fora de casa, no aniversário de um amigo, pra não precisar pensar. Pensei demais nos últimos meses e não cheguei a conclusão alguma. Ontem eu precisava de alívio. Sai, bebi, conversei, mas eventualmente voltei pra casa, fiquei só e voltei a pensar. </p>
<p>Enquanto pensava, comecei a analisar o que é a maturidade pra mim. Aos 38 anos, poderia pensar que ter meu próprio apto, um bom emprego, um carro e condições de ter algo outro acima da média é maturidade, mas não é.</p>
<p>Fiquei pensando em decisões, aquelas que afetam toda uma vida, na forma como encaramos, e descobri que não sou maduro, não mesmo. Percebi que meus traumas e medos são maiores do que quero deixar transparecer, percebi que a capacidade de encarar meus desafios também se torna um problema.</p>
<p>Trocar de carro não afeta a vida, comprar alguns <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> também não. O carro será pago em alguns anos, os <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> imediatamente. Quais são as decisões que afetam uma vida? Muitas, geralmente as que envolvem as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> que fazemos a partir de nossos sonhos. </p>
<p>Sonhar com &#8220;entrega&#8221; e não estar apto a se entregar leva a erro. Sonhar com &#8220;entrega&#8221; e não se envolver com quem se entrega é outro erro. Quando há entrega, entretanto, não há erro, mas todos esses casos mudam vidas. Estar ou não preparado, escolher de forma incorreta ou, quando tudo dá certo, formar um ideal: vidas são transformadas.</p>
<p>Como dizia, ontem pensei muito sobre maturidade e foi inevitável perceber que meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> são imaturos. A questão é: como percebo isso hoje e não percebi antes, quando errei? Imaturidade. Ganhei um aprendizado que não tinha antes. Hoje tenho, mas o estrago já está feito. </p>
<p>Durante a noite sonhei que estava acompanhado de alguém, em um lugar desconhecido, olhava para o lado e via meu gato vir correndo, subir em uma mesa e saltar contra uma parede, se arrebentando e caindo machucado. Pensei, ainda dentro do sonho, que ele errou por ver algo que estava ali, mas eu sabia não estar.</p>
<p>Pela minha ótica, ele via uma prateleira naquela parede, pelo engano causado por uma sombra. Eu, vendo de fora, sabia que ela não estava ali, mas ele não sabia e arriscou assim mesmo. Naquele sonho, tive maturidade para ver que era um erro saltar contra uma parede, ele não teve. Percebi que ter a técnica ou possibilidade de fazer algo não quer dizer que deva ser feito, que seja a melhor escolha. Foi muito significativo ter esse sonho exatamente nesse momento de minha vida.</p>
<p>Hoje passei horas escrevendo um projeto de mestrado que preciso apresentar. O tema do projeto é a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana e <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina na <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>. Resumindo: para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criou o melhor dos mundos pois é onisciente, viu todos os mundos possíveis e escolheu, dentre todos, o melhor, o que vivemos. Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> viu todos os mundos, viu também todos os humanos e todas as suas decisões. A questão que vem à tona, portanto, é que se vivemos nesse mundo escolhido, somos livres para tomar decisões que já estão tomadas sem que saibamos? </p>
<p>Nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> é nossa ignorância. Ignorância do minuto seguinte, do dia seguinte, das consequências.  Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, os homens tomam decisões buscando a perfeição e, se erram, erram buscando a perfeição, acreditando que sua escolha era certa naquele momento.</p>
<p>Isso funcionaria como a desculpa perfeita para meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, mas não é. Olho o que vi há meses e penso: como não percebi isso antes, era tão óbvio? Olho para o que está acontecendo e tudo parece tão claro que é impossível deixar de me achar um completo imbecil, como me acho agora. A chave é a maturidade. Me atirei contra uma parede, como o gato se atirou no sonho. Me machuquei quando a atingi, me machuco agora quando me torturo por não ter percebido a escolha errada que fazia.</p>
<p>A ignorância do momento seguinte pode funcionar como desculpa para alguns, mas não para mim. A ignorância do momento seguinte só me traz mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> ao mostrar minha cegueira no momento de minhas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e ao mostrar que com tudo o que passei, com tudo que aprendi, continuo errando e um ano depois de escrever &#8220;Recordações&#8221;, meu maior pedido de desculpas, continuo errando cegamente, estupidamente, e me desculpando.</p>
<p>Continuo pulando contra muros e quando aprendo a passar por eles, eles se tornam mais altos, mais resistentes. Depois de citar <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> e toda essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, pode parecer bobo, mas nunca Pink Floyd coube tão bem na situação: continuo colocando mais tijolos no muro.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Recordações</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 05:28:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo foi escrito em 31/08/2010, por causa da morte do Porps. Um ano depois ainda desmonto, ainda peço desculpas e continuo perdendo momentos. Apenas um ano e tanto se foi&#8230; Segue: No final de 2000 um gato persa foi achado na rua, no bairro de Higienópolis. Era um gato enorme, branco, muito peludo, &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo foi escrito em 31/08/2010, por causa da morte do Porps. Um ano depois ainda desmonto, ainda peço desculpas e continuo perdendo <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a>. Apenas um ano e tanto se foi&#8230; </p>
<p>Segue:</p>
<p>No final de 2000 um gato persa foi achado na rua, no bairro de Higienópolis. Era um gato enorme, branco, muito peludo, assustado e com medo de pessoas, que se escondia ao ver qualquer estranho. Ele tinha razão para isso: antes de ser recolhido, foi agredido por alguém, foi muito machucado e teve dentes quebrados.</p>
<p>O gato foi recolhido por uma senhora e entregue a um pet shop, para que cuidassem dele e encontrassem o dono. O dono não apareceu, como costuma acontecer, e fui convidado a conhecê-lo, para ver se queria ficar com ele. Entrei na casa do veterinário, dono do pet shop, e lá estava ele, enorme, com seus 10 quilos, já recuperado, deitado no sofá: não se escondeu quando me viu, para espanto do doador.</p>
<p>No mesmo dia esse moço passou a habitar outro endereço, o meu. Levou algumas horas para se adaptar ao ambiente, o que é normal para felinos. Se escondia e saia para reconhecer a área quando ninguém estava por perto, ao mesmo tempo que escolhia um nome para ele. Devido à sua gula e tamanho, acabou chamado de Porpetto, o que pareceu agradá-lo, pois em poucos dias já virava de barriga pra cima para ganhar carinhos e “amassava pãozinho” no ar.</p>
<p>Por muitos anos ele foi meu despertador pessoal, já que diariamente, às 6h00 da manhã, pontualmente, se sentava ao lado da minha cabeça e miava no meu ouvido, bem próximo, me chamando para alimentá-lo. Da mesma forma, diariamente, quando me deitava para ler os inúmeros <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> da faculdade, ficava ao meu lado ou aos meus pés. Quando apagava a luz, descia da cama e ia para o sofá, onde não seria importunado pelo humano desajeitado que se mexia dormindo. Esse ritual se manteve até algumas semanas atrás, exceto quando ele decidia passar a maior parte da noite na cama, roubando meu travesseiro, me deixando com a cabeça pendurada.</p>
<p>Por muitos anos, quase 11, ele esteve perto, me dando alegrias e também me deixando nervoso ao furar o sofá comprado naquele mesmo dia, arranhando o estojo da guitarra (da mais cara, claro) para afiar as unhas, fazendo xixi fora do lugar. Levou muitas broncas por isso, mas sempre me olhava com cara de “o que você está falando?”, sem levar para o lado pessoal as inúmeras repreendidas que levou. Pelo menos é assim que tenho tentado ver.</p>
<p>Alguns anos se passaram e outro amigo veio dividir o espaço com ele, o Billy Idol. O Billy passou uma semana escondido embaixo do sofá, sem exageros, até acostumar com o ambiente. Não saia nem para comer. No primeiro dia que saiu o Porpetto o pegou e deu vários cascudos, como quem diz “eu mando aqui, entendeu?”. No dia seguinte já eram amigos, dormiam abraçados, ficavam juntos o tempo todo. O porps, já mais velho, adotou o Billy como filho e assim foi até a semana passada.</p>
<p>Não posso e nem cabe contar 11 anos de histórias nesse espaço. Não me recordo de todas, mas de algumas que são chaves para a “conclusão” desse texto. Uso aspas em conclusão, pois nada de fato se conclui, são apenas questionamentos que se fazem necessários, são simbólicos.</p>
<p>Pois bem&#8230; na última semana o Porps, como era chamado carinhosamente, começou a se isolar. Não atendia mais quando chamado, dormia em lugares estranhos, distantes da cama e de mim, não tomava água do pote, apenas do box do banheiro, dormia no chão molhado. Eu já havia visto ele passar por coisa do tipo, já que era alérgico e os últimos dias estão sendo cruéis com a população de SP, inclusive dos que não podem reclamar, como ele. O que não imaginava é que, por trás dessa alergia e desse distanciamento, havia muito mais.</p>
<p>Não vou narrar os últimos dias, mas durante a consulta com o veterinário no último sábado, o Porps teve uma parada cardíaca e não voltou pra casa. Na verdade voltou, mas não era mais ele. Era, sim, um menino leve, longe daqueles 10 quilos, ainda peludo, mas mole em meus braços. Aquele menino que odiava ser carregado e se agitava para voltar ao chão, não reagia mais quando segurado. Só me recordo de pedir “não faz isso, filho”.</p>
<p>O menino, que dividiu o espaço comigo por 11 anos, estava longe de mim e minha tristeza estava tão próxima como raramente poderei descrever. Segurar o Porps daquele jeito disparou um gatilho: só conseguia pensar nas broncas que dei, nas vezes que não estive perto quando ele miava pedindo atenção. Só conseguia me sentir extremamente cruel comigo mesmo, pensando em como só via agora o que havia feito, depois de tantos anos.</p>
<p>Passei a me questionar se ele havia sido feliz aqui. Espero que sim, pois me lembro de muitos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> em que ele se deitava próximo a mim e ronronava, forma felina de dizer “eu te amo”. Isso me deixava feliz, mas de todas as vezes que ele fez, quantas eu percebi? Não sei dizer. Sei dizer que inúmeras foram as broncas pelo xixi fora do lugar, coisa que ele nunca entendeu, pelo olhar que me devolvia.</p>
<p>Isso me remeteu a um outro evento, de janeiro de 1997. Passei uma noite na rua, bebendo, e cheguei em casa já com o dia amanhecendo. Ainda morava com meus pais, era o final dessa época. Dormi um tanto, acordei e fui para o computador. Meu irmão dormia ainda, pois também havia virado a noite. Em certo momento ele acordou, se vestiu e passou por trás de mim. Me lembro de ter virado para trás e visto ele passar. Não disse nada. Foi a última vez que vi meu irmão vivo. No dia seguinte, estava desesperado, indo em delegacias e hospitais, procurando por ele, quando finalmente o encontrei no IML, tratado como indigente.</p>
<p>Dadas as devidas proporções, o que percebi é que aquele não era meu irmão, assim como o gato que esteve em meus braços no sábado não era mais o Porps. Ambos eram símbolos. Símbolos de meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> que perdi. Senti todo o carinho do mundo quando segurei o Porps, senti todo o carinho do mundo quando velei meu irmão, mas senti também toda a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> do mundo por não poder dizer e fazer por eles tudo o que tive chances de fazer.</p>
<p>Todos aqueles momento existiram e eu os perdi. Tive bons e maus <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> com ambos, mas e agora, o que me restou? Restou a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> por saber que não fiz tudo o que era possível e que agora não terei mais chance alguma, que o tempo se foi. O ponto é exatamente esse: o tempo! Tomamos – eu tomo e tenho certeza de que vocês também – quase todo o nosso tempo achando que as coisas estão “garantidas”, mas elas não estão, pelo simples fato de que não são “coisas”. O porps não era “meu” gato. Era um gato, sim, mas não era “meu”. Ele morava comigo, eu o protegia, cuidava, mas não era meu. Ele não estaria ali até eu decidir que estaria, como acontece, por exemplo, com uma bicicleta, que posso falar “cansei, vou vender”. Não! Assim também era meu irmão. Ele não era meu, não estaria ali pra sempre. Aliás, ele é um símbolo enorme para quem conhece os efeitos que sua morte causou em minha família e, principalmente, para todos os que o conheceram. Ele tinha apenas 21 anos. Você ai, seguro de si, está certo de que vai voltar para casa? Tem certeza disso? Já pensou que pode não voltar? Ou que alguém próximo a você pode não voltar?</p>
<p>Não, não estou sendo agourento. Não mesmo. Só quero entender o motivo de percebermos essas coisas apenas quando não as temos. Quero entender esse comodismo humano que deixa tudo para depois, para poder gastar dinheiro em psicólogos, igrejas e outras coisas, tratando a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>. Quero entender o motivo de eu não ter feito coisas que poderia e hoje ficar pensando “e se?”. Sei que “e se?” não vai resolver nada, mas preciso pensar, preciso tentar entender, para que da próxima vez eu não faça a mesma coisa.</p>
<p>Sim, da próxima vez, sim! Ou vocês pensam que acham que não vai acontecer de novo? Tenho o Billy, tenho meus pais, irmão, sobrinho, amigos! Não quero me culpar por ter dado mais tempo a banalidades do que a eles, a vocês. Não quero! E não posso esquecer também que posso ser aquele que não vai voltar para casa. Nesse caso não entraria a minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, mas o quanto há para ser feito antes desse momento? Posso fazer minha parte para que um dia as pessoas próximas a mim não pensem “e se?”. Talvez, mas não sei como. Não ainda. Nesse momento, só sinto tristeza. E não é pouca.</p>
<p>Quando meu irmão morreu, meus pais se mudaram para o interior de SP e ele nunca conheceu a casa que ajudou a construir. Sempre evitei visitá-los, os mais próximos sabem: meus pais moram lá desde 1998 e eu posso contar as vezes que fui até lá. Motivo? Lembranças! Vejo fotos, objetos, me recordo de minha infância, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> ruins, bons&#8230; me recordo de coisas que gostaria de apagar, todas elas. Hoje olho à minha volta em meu apto e vejo os lugares onde o Porps dormia vazios, a comida no pote, a água&#8230; E não posso fugir de nada, não posso largar minha casa. Entendam: falo de símbolos.</p>
<p>Sabem o que é curioso? Só comecei a tomar gosto por ir ao interior visitar meus pais quando meu sobrinho nasceu. Meus pensamentos se desviam dessas coisas, pois estou focado nele, no meu irmão que está vivo, na forma boa e bonita como ele vive seu casamento, como se amam, nos meus pais&#8230; Penso que é a vida trazida de volta à família que tanto sofreu. Não quero que um dia meu sobrinho pense que não dei atenção a ele, não quero que se distancie.  Não quero que minhas inúmeras mágoas e minha história afetem a dele. Aliás, não quero que isso afete ninguém à minha volta. Por isso escrevo esse texto: é um pedido de desculpas. É minha forma de dizer que sei que erro, que sei que errei, que ainda vou errar, mas que quero que vocês saibam que estando próximo ou mesmo distante penso em vocês e não quero que brigas idiotas e <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> de ausência apaguem as histórias que valem ser lembradas e contadas aos meus filhos. Sim, filhos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Só os neuróticos verão a Deus&#8221;</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 14:34:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[culpa]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
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		<description><![CDATA[É notório que não atualizo mais esse espaço, que não sinto vontade, mas o texto abaixo, de Luiz Felipe Pondé, publicado na Folha de S. Paulo do dia 28/03/2011, me fez voltar aqui, mesmo que apenas para um copy&#038;paste. Isso me lembra que preciso ler o livro dele, mas preciso também ler tantos outros&#8230; Segue &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É notório que não atualizo mais esse espaço, que não sinto <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, mas o texto abaixo, de Luiz Felipe Pondé, publicado na Folha de S. Paulo do dia 28/03/2011, me fez voltar aqui, mesmo que apenas para um copy&#038;paste. Isso me lembra que preciso ler o livro dele, mas preciso também ler tantos outros&#8230;</p>
<p>Segue o texto:</p>
<p>Tenho pensando demais em dinheiro e sucesso. Não porque eu os tenha em excesso (haveria uma &#8220;quantidade justa&#8221; de dinheiro e sucesso?), mas porque, sem eles, somos afogados no sentimento da inexistência. Talvez por isso tanta conversa fiada sobre sermos honestos e desapegados quando, na realidade, em silêncio, babamos por dinheiro e sucesso.</p>
<p>Haverá <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> sem dinheiro e sucesso, ou terá razão o grandioso Nelson Rodrigues quando diz que dinheiro compra até <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> verdadeiro? Aqui, ele fala a anos-luz de distância da sensibilidade infantil da classe média e de seu marketing da ética que assola o mundo.</p>
<p>Quando me afundo na agonia, tenho dois profetas: Nelson Rodrigues e Fiodor Dostoiévski. Diante deles, sou um anão de Velásquez.</p>
<p>À noite, ouço a voz do demônio do <a href="http://www.transtorno.net/tag/ceticismo/">ceticismo</a> me chamando para o seu país da solidão e sua aridez de três desertos.</p>
<p>Um dos efeitos clínicos do <a href="http://www.transtorno.net/tag/ceticismo/">ceticismo</a> é a indiferença para com o que os outros pensam. Num mundo do marketing, que faz da vida um baile da monarquia francesa decadente do final do século 18, a indiferença para com o que os outros pensam é uma forma de ascese. Mas, como toda ascese, é uma danação.</p>
<p>Faz <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> pensar em dinheiro e sucesso. Meu <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, que escravidão! Onde me perdi?</p>
<p>Talvez na infância, quando percebi que o mundo não só é indiferente a nós, mas que nossa mãe é também uma pobre carente de <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> e que nosso pai (quando existe pai, porque pai é produto da indústria do luxo) é um coitado esmagado pela carência não só de <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>, mas também de dinheiro e de sucesso.</p>
<p>Tornei-me esse ser obscuro e muitas vezes cínico cedo demais. Digo sempre aos meus alunos que tomem cuidado com excessos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/ceticismo/">ceticismo</a> na juventude, porque ele facilmente deforma a face, e quando se é jovem a face ainda é o espelho da alma.</p>
<p>Hoje estou em companhia de Nelson Rodrigues e sua sublime obsessão pela alma atormentada. Há dias o leio e releio, assim como quem toma um remédio acima da dose, tropeçando na água, por pura pressa de ver o mundo, de novo, por trás de sua membrana opaca. À diferença de <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, Nelson sim conhecia a &#8220;coisa em si&#8221;.</p>
<p>Sua peça &#8220;Bonitinha, Mas Ordinária&#8221; é essencialmente dominada pela angústia <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> dostoievskiana. Nela, o herói, Edgar, é atormentado pela famosa frase, supostamente de Otto Lara Resende, &#8220;mineiro só é solidário no câncer&#8221;.</p>
<p>Segundo a fortuna crítica, esta sentença niilista seria, por sua vez, semelhante a uma de Ivan Karamazov: &#8220;Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não existe, tudo é permitido&#8221;; se não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, não há impedimento absoluto contra o que quisermos fazer.</p>
<p>Se o mineiro só é solidário no câncer, é porque sua solidariedade não passa de um gozo secreto pela miséria do &#8220;amigo&#8221; doente. Se a única solidariedade possível é essa, então não há solidariedade de fato, logo, não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a> para o mundo.</p>
<p>Ambas as frases decretariam o niilismo como condição amoral do mundo. E o niilismo não é uma brincadeira de adolescente que atropela gatos com sua bicicleta, é um fardo, um fado, um problema filosófico, para alguns, o maior dos séculos 19 e 20, que reuniu ao seu redor gente como Nietzsche, Freud, <a href="http://www.transtorno.net/tag/schopenhauer/">Schopenhauer</a>, Dostoiévski, Turguêniev, Cioran, Bernanos, Berdiaev e o próprio Nelson.</p>
<p>Não é o drama do &#8220;serial killer&#8221; de TV. É o drama do policial honesto diante da inexistência do bem como forma de ordenamento do mundo.</p>
<p>Não pressinto o niilismo quando escrevo por aí poemas ruins sobre a agonia dos pobres nas ruas, pressinto o niilismo quando sei que esses poemas são mentiras na forma de marketing da ética, uma especialização do recém-criado &#8220;personal marketing&#8221;. Ambos logo serão um MBA na área de recursos humanos.</p>
<p>Certa feita, falando sobre sua peça &#8220;Bonitinha, Mas Ordinária&#8221;, Nelson disse (respire fundo): &#8220;A nossa opção, repito, é entre a angústia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece. E, se me perguntarem o que eu quero dizer com minha peça, eu responderia: que só os neuróticos verão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>&#8221;.</p>
<p>Bem-aventurados os de sorriso raro e de beleza tímida. Bem-aventurados os que se desesperam, mas não desistem, porque deles é o reino dos céus.</p>]]></content:encoded>
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		<title>A piedade</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Aug 2009 05:06:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[crueldade]]></category>
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		<description><![CDATA[Sempre me pego pensando em como mudei e também, por vezes, em como continuo o mesmo. Continuo o mesmo no pensar demais, mudei no ímpeto. Não o perdi completamente, mas sinto falta do excesso que um dia tive. Hoje posso prever coisas que farei e isso provoca tédio. Me lembro de quando não podia prever &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Sempre me pego pensando em como mudei e também, por vezes, em como continuo o mesmo. Continuo o mesmo no pensar demais, mudei no ímpeto. Não o perdi completamente, mas sinto falta do excesso que um dia tive. Hoje posso prever coisas que farei e isso provoca tédio.</p>
<p>Me lembro de quando não podia prever nada, de quando fazia o inesperado. Deixei a adolescência há muito, sei disso, mas nem por isso deveria ter me tornado previsível. Deveria ter guardado um tanto transbordante de surtos e repentes junto aos diversos ítens que mantenho em caixas e gavetas. Seriam úteis, estou certo disso.</p>
<p>Há uma parte de mim, no entanto, em que ainda existe a inquietude sobre a qual escrevi há dias. Essa parte não reside em gavetas, em caixas ou envelopes. Está sob a pele, sempre latente. Tenho certeza de que é ela a responsável por muito da minha complexidade &#8211; ah, sim, sim&#8230; &#8211; e, habitando ali estão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> e a <a href="http://www.transtorno.net/tag/crueldade/">crueldade</a>.</p>
<p>Tenho <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de ser cruel e isso não é o mesmo que ser violento, não sejam ingênuos. Se quiserem entender do que falo, leiam <a href="http://www.transtorno.net/tag/artaud/">Artaud</a>, Lautreamont, Rimbaud e <a href="http://www.transtorno.net/tag/sade/">Sade</a>. Sinto, por outro lado, a agonia da <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, tão judaico-cristã e tão inculcada: palavra pequena para problema grande. Admiro Maldoror, Minski, Dolmancé e Juliette, que não a sentem. Rejeito os que se tratam para negá-la, escondendo-a sob uma pilha de palavras narradas a alguém. Admiro aqueles que a entendem, mas gargalham.</p>
<p>Nunca consegui terminar de ler &#8220;Crime e Castigo&#8221;. Tentei por duas vezes, mas nunca cheguei ao fim, enquanto que &#8220;Memórias do subsolo&#8221; foi lido e digerido. Por diferentes motivos, sinto raiva de ambos os protagonistas. Entendo a beleza deles, sei a impressão que causam, mas não consigo aceitá-los. Sinto <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, mas não deixo que isso me transforme em um nada envergonhado, como Rascolnicov. Por conta disso, costumo me sentir um filho da puta, admito.</p>
<p>Acredito que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/piedade/">piedade</a>, tentativa pat<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> de suprimir a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, habita os que mais varrem sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/crueldade/">crueldade</a> para baixo de pilhas de vergonhas. Me enoja. Admiro aqueles que a surram, vergalham, provocam ainda mais, trazendo-a à superfície para poderem agredir ainda mais, transformando a relação em um tipo de simbiose. </p>
<p>Lembrei de um poema de Roberto Piva que sempre fez muito sentido. Os motivos ficam pra algum outro post de <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">confissões</a>, mas ficam como migalhas de pão indicando uma passagem:</p>
<blockquote><p>
    as senhoras católicas são piedosas<br />
    os comunistas são piedosos<br />
    os comerciantes são piedosos<br />
    só eu não sou piedoso<br />
    se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria<br />
    aos sábados à noite<br />
    eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me<br />
    fariam perguntas porque navio bóia? porque prego afunda?<br />
    eu deixaria proliferar uma úlcera admiraria as estátuas de<br />
    fortes dentaduras<br />
    iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou<br />
    barbudos<br />
    eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes<br />
    eu não sou piedoso<br />
    eu nunca poderei ser piedoso<br />
    meus olhos retinem e tingem-se de verde<br />
    os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos<br />
    os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas<br />
    arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos</p>
<p>a <a href="http://www.transtorno.net/tag/piedade/">piedade</a>, roberto piva, in paranóia, 1963
</p></blockquote>
<p>Pensei em ilustrar esse post com a Pietá, mas seria muito óbvio. Optei por Prometeu (de Rubens) e o motivo deveria ser evidente.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pertencer, por Clarice Lispector</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 00:36:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[amor]]></category>
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		<description><![CDATA[Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial. Segue: &#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial.</p>
<p>Segue:</p>
<p>&#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.    </p>
<p>Tenho certeza de que no berço a minha primeira <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.   </p>
<p>Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> quando vejo uma freira: ela pertence a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.   </p>
<p>Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.   </p>
<p>Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de &#8220;solidão de não pertencer&#8221; começou a me invadir como heras num muro.    </p>
<p>Se meu <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar pat<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos &#8211; e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.   </p>
<p>Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> intensa de pertencer vem em mim de minha própria força &#8211; eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.   </p>
<p>Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.   </p>
<p>No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.   </p>
<p>A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.&#8221;</p>
<p>&#8220;A Descoberta do Mundo&#8221;, Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1999</p>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade, transgressão e moral</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 01:08:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[Bataille]]></category>
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		<description><![CDATA[“A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?” - Bataille in “A literatura e o Mal” Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”<br />
- <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> in “A literatura e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>”</p></blockquote>
<p>Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um momento de epifania, por assim dizer. Acontece, no entanto, que as idéias continuaram transbordando desde então e novas teorias e questionamentos, opostos aos iniciais, continuaram surgindo, uma torrente de compreensão/entendimento. Me deparei e ainda me deparo com diversas questões que precisaria responder e com outras que surgiram já trazendo suas respostas.</p>
<p>As linhas que seguirão abaixo são apenas um rascunho de algo que precisará ser desenvolvido, esmiuçado e detalhado, pois tratam-se de uma breve nota sobre como me sinto agora, neste momento, enquanto questionador e questionado.</p>
<p>Sem querer entrar em uma discussão das diferenças de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nas filosofias de <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Descartes ou qualquer outro filósofo, mas passando – seria impossível evitar –, ainda assim, por algumas generalidades de um e de outro, prossigo&#8230;</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é garantida pelos livres decretos e que, em um desses decretos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> se determina a criar o melhor dos mundos. Outro diria, entretanto, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criou esse mundo por pura bondade. Outros dariam ainda diferentes motivos, não importa. O que importa para essa discussão é como o mundo se dá para nós. As ações divinas podem ser livres, como amar a si, é claro. O fato de ter escolhido este mundo e não outro demonstra escolha, mas se essa escolha é determinada pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> (ainda que autodeterminada) do melhor, ou pela bondade, ou por outro motivo, seria de fato livre?</p>
<p>O problema, entretanto, é que a escolha do melhor não exclui a possibilidade da escolha do pior, ou seja, decidiu-se por esse mundo, mas poderia ter sido outro. A possibilidade de um outro mundo torna evidente uma escolha livre. Colocando isso em termos humanos: o homem padrão, comum, que sai de casa todas as manhãs em <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> do sustento de sua prole tem também a possibilidade da escolha oposta, é claro. Poderia não ir. Poderia, mas ainda assim se determina e vai. <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">Amor</a> à prole? <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">Culpa</a>? Medo de punição? Imperativo categórico? O que o move? Estamos claramente entrando nos domínios da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Voltamos a Deus: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana nos foi dada por decisão de sua bondade. Não é essa uma escolha <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>?</p>
<p>Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">deus</a> criou o mundo dessa forma e não de outra, teve a possibilidade dos demais, mas sua autodeterminação o impediu. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> existente foi excluída por uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> auto imposta. Voltamos, então, à frase de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> que abre esse texto: “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> “não pode desobedecer a ordem que existe”. É claro, desobedecê-la seria criar uma nova, implicando em sua imperfeição, em uma retificação da ordem anteriormente imposta, determinada como a melhor. Temos ai, além da discussão sobre a perfeição, também o bem comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> tão evidente nos questionamentos humanos.</p>
<p>Em <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> não me parece lógico discutir isso, pois trata-se mais de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e, portanto, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> levando a outra. Arrisco dizer que há uma maior evidência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> nesse caso. As <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> dão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, que se contamina quando a possibilidade do oposto não é data. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> é, portanto, diretamente ligada à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>A &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>&#8221; de algo limita a ação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. O meio pode ou não fornecê-la, não cabe obviamente discutir <a href="http://www.transtorno.net/tag/sartre/">Sartre</a>, mas a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de algo, quando existe, a limita. A própria <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de alimentar-se, por exemplo. Não é possível tomar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de não se alimentar sem conseqüências. A punição implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, em bem maior, ainda que neste exemplo diga respeito apenas ao indivíduo em questão.</p>
<p>Bem maior, disse. Pois bem, diariamente pessoas acordam e, para manterem seu “melhor dos mundos”, sua alimentação, seu conforto, condições básicas ou mesmo prover para a família, limitam suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de forma que essas deixam mesmo de existir, pois o próprio questionamento é aniquilado, cedendo ao comodismo e à aceitação cega de algo tão comum e tão pouco evidente.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">Liberdade</a> absoluta implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e talvez essa seja mesmo a razão da mítica dos grandes heróis: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> é o que serve de magnetismo, o que atrai e os diferencia dos demais. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> só existe quando abandonam o comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> existe quando abandonam o bem maior, quando seguem seu instinto, seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> e seu destino. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> é o freio da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> absoluta, que se dá por completo no “<a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a> desinteressado”, como diria novamente <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a>, mas não só ai. Cabe pensar em Saturno que castra Urano. Cabe pensar também a beleza de Vênus, filha desse ato, nascendo nas espumas do mar.</p>
<p>Seguir determinações morais e o bem necessário é tão limitante quando ter de acordar diariamente, trabalhar, se alimentar, procriar e repetir o ciclo. Nesse sentido, o homem comum é de fato a imagem e semelhança de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Voltamos à questão do provedor que sai de casa para buscar o alimento de sua prole, cuja bondade é livremente determinada. Poderia não ser bondade, mas medo? Não sabemos de casos de pais presos por abandonar bebês? Seja por bondade, medo, ou qualquer outro motivo, o homem permite ser colocado sob freios. Não cabe, no entanto, perguntar se em algum momento uma explosão se dará, <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a>, castração simbólica, ou se a aceitação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> estará apenas mais aprofundada a cada novo dia. Essa pergunta não faz sentido quando dirigida ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a>, ao grupo. Cabe apenas a alguns humanos, mitos em potência.</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, desvinculada da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, no sentido em que não tem a preocupação de manter uma ordem universal estabelecida, nem o limitante da perfeição, baseada apenas na ignorância total ou parcial das conseqüências de seus atos, é maior que a divina. A ignorância e/ou o <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> humano propicia a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, enquanto que a bondade e a perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criam a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>. Que fique claro: não falo aqui de estado de natureza. Falo de outra coisa, sutilmente ainda que profundamente distinta, livre de <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, muito próxima da infância.</p>
<p>28/01/2009</p>]]></content:encoded>
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		<title>Infância</title>
		<link>http://www.transtorno.net/infancia/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Dec 2008 19:35:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[encontro os desenhos do devasso vergalho ainda cálidos sobre minha pele sulfurosa, cadentes células, traços vermelhos de contato, romper de lâminas, respostas contra meu querer sete caudas deslizam quando se enroscam, sua prole sangrando em minha pele icônica arrependido, com efeito, espero o porvir do galho, fustigando meu corpo como pássaro, couro rasgado, amarelo ouro, &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>encontro os desenhos do devasso vergalho<br />
ainda cálidos sobre minha pele sulfurosa,<br />
cadentes células, traços vermelhos de contato,<br />
romper de lâminas, respostas contra meu querer</p>
<p>sete caudas deslizam quando se enroscam,<br />
sua prole sangrando em minha pele icônica</p>
<p>arrependido, com efeito, espero o porvir do galho,<br />
fustigando meu corpo como pássaro, couro rasgado,<br />
amarelo ouro, corado pelo rubro de meu sangue oleoso,<br />
deveras louro, respingado pelo grânulo de ferro</p>
<p>ópio e demais sabores, demiurges atemporais e afetuosas<br />
queria dessas lambidas lascivas o fulgor de um lince</p>
<p>mas de relance um estampido sorrindo seco<br />
ao segurar meu braço quando defendo o peito<br />
oferecendo as costas ao rufar de trançado atento<br />
ora embebido em álcool, ora verde claro, leitoso, materno</p>
<p>amores vencidos de segunda classe<br />
fisgados pelo lampejo amorfo de minha vingança</p>
<p>exímio mártir na senda biológica de meu templo desfeito<br />
me traz em vôo seres fadados, tomados de pontas e agulhas,<br />
alimentando chamas com as memórias amputadas<br />
que minha infância belicosa me traz</p>
<p>17/11/2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>Egoísmo e tragédia</title>
		<link>http://www.transtorno.net/egoismo-e-tragedia/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/egoismo-e-tragedia/#comments</comments>
		<pubDate>Mon, 17 Jan 2005 01:54:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Preciso escrever algo. Não sei o que, mas preciso. Estou sufocando literalmente. Sinto um nó atravessado em minha garganta e mal posso respirar. Gostaria de ter um cigarro agora, o acenderia com prazer, se é que se pode chamar assim. Parei de fumar novamente há alguns dias e então é melhor evitar ter por perto. &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Preciso escrever algo. Não sei o que, mas preciso. Estou sufocando literalmente. Sinto um nó atravessado em minha garganta e <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> posso respirar. Gostaria de ter um cigarro agora, o acenderia com prazer, se é que se pode chamar assim. Parei de fumar novamente há alguns dias e então é melhor evitar ter por perto.</p>
<p>Sabado, quase 2 da manhã. Em casa. Ótimo lugar. Se é que existe um ótimo lugar, claro. Sabe, tenho a sensação de que estou cometendo um grande erro ou de que já cometi, mas não sei exatamente qual é ou foi. Sempre há como arrumar. Mesmo? Não sei. Sei, sim, que os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>/acertos mudam os caminhos que trilharemos. Só não sei exatamente se gostarei do que vou encontrar pela frente. Quero dizer, não sei que tipo de caminho resta depois de errar bastante.</p>
<p>Ser muito ético, moralista, etc, tem seus problemas. Vários problemas, aliás. Começa que faço as coisas pensando nos outros. Deveria começar uma escolha qualquer pensando no que EU quero, mas penso nos outros, se não vou magoar alguém, se não vou machucar. Resultado? Nó na garganta. Ninguém imagina como está doendo. E dai? <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">Culpa</a> minha. Se eu fosse mais egoista não estaria. Estaria na de alguém que não eu e eu não teria nada a ver com isso. Mesmo?</p>
<p>Meu silêncio fala por mim. Sabe como é estar em um lugar e não se achar por ali, mesmo sendo bem acostumado(a) a ele? É isso. No momento este é um ótimo lugar. Não vejo ninguém sorrindo perto de mim. Nem chorando. Mmmm&#8230; exceto eu. Chorando e rindo de minha idiotice. Perda de tempo&#8230; quem se importa?</p>
<p>Daqui a pouco amanhecerá novamente. Estou bem cansado das manhãs.</p>]]></content:encoded>
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