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	<title>Transtorno &#187; desejo &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>A catedral da desordem</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Nov 2010 17:54:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Relendo Roberto Piva, estou reencontrando coisas geniais, que devem ser compartilhadas, como esta, de &#8220;Os que viram a carcaça&#8221;: A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: &#8220;Como são lindos os olhos deste idiota&#8221;. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Relendo Roberto Piva, estou reencontrando coisas geniais, que devem ser compartilhadas, como esta, de &#8220;Os que viram a carcaça&#8221;:</p>
<p>A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: &#8220;Como são lindos os olhos deste idiota&#8221;. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambretta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha pela Dama das Camélias, contra Valéry por D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás, contra o futuro pelo presente, contra o poço pela fossa, contra Eliot pelo Marquês de <a href="http://www.transtorno.net/tag/sade/">Sade</a>, contra a bomba de gás dos funcionários públicos pelos chicletes do eunucos e suas concubinas, contra Hegel por Antonin <a href="http://www.transtorno.net/tag/artaud/">Artaud</a>, contra o violão pela bateria, contra as responsabilidades pelas <a href="http://www.transtorno.net/tag/sensacoes/">sensações</a>, contra as trajetórias nos negócios pelas faces pálidas e visões noturnas, contra Mondrian por Di Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o filho natural pelo bastardo, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais, contra a invasão de borboletas pelas invasão de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim <a href="http://www.transtorno.net/tag/europa/">Europa</a> pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a>, contra as magnólias pelos girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os professores pelos pajés, contra o meio dia pela meia-noite, contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por Carl Orff, contra tudo por Lautréamont.</p>
<p><em>Roberto Piva, in &#8220;Os que viram a carcaça&#8221;</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>O teatro</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Sep 2009 03:26:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo foi escrito em 1991, quando eu tinha 18 anos. É um dos que faz sentido e gosto até hoje. Não posto aqui por orgulho ou sei lá o que, mas por não querer que se perca. É parte de algo&#8230; Segue: Por em movimento o “retorno de si mesmo ao anel dos &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo foi escrito em 1991, quando eu tinha 18 anos. É um dos que faz sentido e gosto até hoje. Não posto aqui por orgulho ou sei lá o que, mas por não querer que se perca. É parte de algo&#8230;</p>
<p>Segue:</p>
<p>Por em movimento o “retorno de si mesmo ao anel dos anéis”. Nada se perde no inextinguível archote <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a>. O sêmen que se vai retorna em prazer, e o corpo, este Único, se faz <a href="http://www.transtorno.net/tag/duplo/">Duplo</a>.</p>
<p>Este palpitar é necessário, força motriz imperativa da imaginação. A força-sensação trabalhando num ponto anterior à configuração. Um abalo no impacto dos sons e uma imagem anteposta ao compreender.</p>
<p>Aficcionar-se e desagregar-se pela inoculação do sentido/sensação/re-ação. E se dá o retorno. Toma-se a origem das pausas e a provocação da carne como análise ultra-imediata de estímulos e sua reação, respectivamente.</p>
<p>Explodir-se em si e para si, explodir-se em outro, para si. Tornar-se voz de autoridade. Terrorismo provocativo onde o que o outro sente e quer depende de minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, mesmo suas variações, devido à multiplicidade de imagens e suas correlações, por ter-se permitido sentir.  Minha visão se impõe ao deleite/desespero do outro.</p>
<p>Não haverão mais pontos despercebidos ao imaginário. Tudo será visto/sentido e re-sentido e, ainda, re-tornado, imediatamente auto-associando-se ao seu fragmento somático/emocionante.</p>
<p>A ação da imagem. Sua palpitação. Sua adaptação à mobilidade e à acústica que lhe passarão a ser próprias. E tudo é próprio da imagem. Re-tornar à imagem e a si. Um descobrir e, com este, outro. Cabe ao olfato/paladar da imagem sua associação.</p>
<p>Dionisiacamente re-tornar aos alimentos de emoções, continuamente aprendendo onde por pausas, impedindo assim que se o outro desfaleça antes da superação. Mais uma vez retornar, como nos eternos retornos sadeanos, à nova imagem/palpitação/desejo, sendo tudo isto o ato do visionário e atitude suprema.</p>
<p>(Foto ilustrativa: <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> Dels Baus, em Imperium)</p>]]></content:encoded>
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		<title>Confissões, pt. III</title>
		<link>http://www.transtorno.net/confissoes-pt-iii/</link>
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		<pubDate>Mon, 22 Jun 2009 01:23:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Confissões]]></category>
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		<category><![CDATA[Música]]></category>

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		<description><![CDATA[O fator Touro se refere, no entanto, a um componente muito mais profundo da personalidade: os critérios de valor. Atribuímos valores às coisas, a nós mesmos, e é este valor que sustenta tanto a realidade material que podemos construir quanto a segurança que sentimos através dessa realidade. - Valdenir Benedetti in Textos Planetários Comecei a &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>O fator Touro se refere, no entanto, a um componente muito mais profundo da personalidade: os critérios de valor. Atribuímos valores às coisas, a nós mesmos, e é este valor que sustenta tanto a realidade material que podemos construir quanto a segurança que sentimos através dessa realidade.<br />
- Valdenir Benedetti in Textos Planetários</p></blockquote>
<p>Comecei a pensar nisso ontem, tipo &#8220;posso escrever sobre isso depois&#8221;. Agora que comecei estou achando inútil e desnecessário. E é! Vou escrever brevemente, então, só para constar&#8230;</p>
<p>Decidi que vou tentar o máximo para ter uma vida mais espartana, sem coisas desnecessárias deixadas nos cantos da casa, ocupando espaço e me lembrando que estão sem uso.</p>
<p>Percebi que tenho coisas que jamais usei, outras que perderam o encanto depois que foram resolvidas. Exemplo? Quando era moleque queria ter uma guitarra decente, com modelo diferenciado, como as que via com as bandas nos videoclipes. Queria, mas não tinha, por falta de grana, mas também pq na época existia algo que a molecada hoje nem sabe, chamado &#8220;reserva de mercado&#8221;, e a importação dessas coisas não era fácil como hoje. Se hoje algumas coisas ainda são caras por causa dos impostos e frete, imagine como era nos anos 80.</p>
<p>Mais exemplos? Discos. Meu primeiro vinil foi &#8220;Creatures of the night&#8221;, do Kiss, comprado em 1983, quando eles estiveram no Brasil pela primeira vez. Depois disso comecei a ouvir mais e mais músicas, mas e pra comprar? </p>
<p>Os discos eram caros demais, tanto que eram comprados raramente e, quando acontecia, ouvia muito e conhecia as músicas de ponta a ponta. Bem diferente de hoje, não? O <a href="http://www.transtorno.net/tag/mp3/">MP3</a> e as facilidades de produção em estúdios caseiros aumentou tanto a oferta que ninguém conhece mais nada. Eu mesmo já comprei discos e ouvi apenas uma vez. Mas vamos voltar ao assunto&#8230;</p>
<p>Comprei centenas de discos há algum tempo, coisas que queria naquela época e não tive. Ouvi alguns, outros foram direto para a prateleira, pra falar &#8220;eu tenho&#8221;. Isso vale pra tanta coisa&#8230; bicicleta, guitarras, discos, tênis, roupas. São apenas objetos, eu sei, e percebi que muitas dessas coisas podem ser simplesmente descartadas agora, mas somente agora. Antes não era possível, não podia descartar algo que não tinha. </p>
<p>Fico imaginando, por outro lado, qual será a próxima pendência perdida no subconsciente.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Pertencer, por Clarice Lispector</title>
		<link>http://www.transtorno.net/pertencer-clarice-lispector/</link>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 00:36:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial. Segue: &#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial.</p>
<p>Segue:</p>
<p>&#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.    </p>
<p>Tenho certeza de que no berço a minha primeira <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.   </p>
<p>Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> quando vejo uma freira: ela pertence a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.   </p>
<p>Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.   </p>
<p>Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de &#8220;solidão de não pertencer&#8221; começou a me invadir como heras num muro.    </p>
<p>Se meu <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar pat<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos &#8211; e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.   </p>
<p>Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> intensa de pertencer vem em mim de minha própria força &#8211; eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.   </p>
<p>Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.   </p>
<p>No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.   </p>
<p>A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.&#8221;</p>
<p>&#8220;A Descoberta do Mundo&#8221;, Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1999</p>]]></content:encoded>
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		<title>A voz do Demônio, por William Blake</title>
		<link>http://www.transtorno.net/voz-demonio-william-blake/</link>
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		<pubDate>Sun, 19 Apr 2009 18:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem necessidade de meus comentários: Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros: 1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma. 2. Que a Energia, denominada &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de meus comentários:</p>
<blockquote><p>
Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:<br />
1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma.<br />
2. Que a Energia, denominada <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>, provém apenas do Corpo; &#038; que a Razão, denominada Bem, provém apenas da Alma.<br />
3. Que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> atormentará o Homem pela Eternidade por seguir suas Energias.</p>
<p>Mas os seguintes contrários são Verdadeiros:</p>
<p>1. O homem não tem um Corpo distinto de sua Alma, pois o que se denomina Corpo é uma parcela da Alma, discernida pelos cinco Sentidos, os principais acessos da Alma nessa etapa.<br />
2. Energia é a única vida, e provém do Corpo; e Razão, o limite ou circunferência externa da Energia.<br />
3. Energia é Deleite Eterno.</p>
<p>Quem refreia o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar e governa o inapetente.</p>
<p>E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>.</p>
<p>Essa história está relatada no Paraíso Perdido, &#038; o Governante, ou Razão, chama-se Messias.</p>
<p>E o Arcanjo Original, ou possessor dos comandos das hostes celestiais, chama-se Demônio ou Satã, e seus filhos chamam-se Pecado &#038; Morte.</p>
<p>No Livro de Jó, porém, o Messias de Milton chama-se Satã.</p>
<p>Pois essa história tem sido adotada por ambos os lados.</p>
<p>Em verdade pareceu à Razão que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a> havia sido banido mas, segundo a versão do Demônio, sucumbiu o Messias, formando um céu com o que roubara do <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">Abismo</a>.</p>
<p>Isso revela o Evangelho, onde ele suplica ao Pai que envie o confortador, ou <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a>, para que a Razão possa ter Idéias sobre as quais se fundamentar, não sendo outro o Jeová da Bíblia senão aquele que mora nas flamas flamantes.</p>
<p>Sabei que Cristo, após sua morte, tornou-se Jeová.</p>
<p>Mas, em Milton, o Pai é Destino, o Filho, Quociente dos cinco sentidos, &#038; o Espírito Santo, Vácuo!</p>
<p>Nota: A razão pela qual Milton escreveu em grilhões sobre Anjos e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, e em <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> sobre Demônios &#038; Inferno, está em que ele era um Poeta autêntico e tinha parte com o Demônio, sem sabê-lo.
</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>Única, divide e une</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Jan 2009 01:18:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
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		<description><![CDATA[ajoelha perante mim oferecendo tua palidez como agrado, padece em definitivos beijos de minhas mãos eufóricas recebe o desejo de ser minha, tecido que me envolve percebe a ânsia sádica de te aspirar qual cinzas brancas acolhe a alegre ira de minha força setentrional descobre e me devolve um sorriso opaco, ainda por se abrir &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>ajoelha perante mim oferecendo tua palidez como agrado,<br />
padece em definitivos beijos de minhas mãos eufóricas</p>
<p>recebe o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> de ser minha, tecido que me envolve<br />
percebe a ânsia sádica de te aspirar qual cinzas brancas<br />
acolhe a alegre ira de minha força setentrional<br />
descobre e me devolve um sorriso opaco, ainda por se abrir</p>
<p>sorri queimando o sangue do sol que se põe ao entardecer<br />
quase escuro, o cinza expansivo abre a espera por mais</p>
<p>vive o querer de meus dedos animais em teus cabelos doloridos<br />
divide o latejar que me provocas com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> de te manter próxima<br />
experimenta o respirar de minhas mãos que te amam loucamente<br />
sente o sofrer amarelo de ser minha amante</p>
<p>meu perceber deveras novo cambaleia exausto em preciosidades<br />
quando te deito ao meu lado, quase roxa, desfalecendo delicada<br />
e te amo uma vez mais</p>
<p>finada é a noite torpe, consumida por feitios anteriores</p>
<p>09/12/2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>Páginas seladas de um diário</title>
		<link>http://www.transtorno.net/paginas-seladas-diario/</link>
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		<pubDate>Sun, 11 Jan 2009 00:23:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
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		<description><![CDATA[derrubo as portas que te separam de meu olhar expondo os desenhos suavemente azuis que vejo em tua tela sob a luz pálida que se confunde com a manhã em ti ainda perduram pontos rosa nos domínios das cores suaves refaço o trajeto de meu querer, entrando em ti como visão suprema e objetiva, senhora &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>derrubo as portas que te separam de meu olhar<br />
expondo os desenhos suavemente azuis que vejo em tua tela</p>
<p>sob a luz pálida que se confunde com a manhã em ti<br />
ainda perduram pontos rosa nos domínios das cores suaves</p>
<p>refaço o trajeto de meu querer, entrando em ti como visão<br />
suprema e objetiva, senhora do mundo que recebo<br />
e formo em meus calcificantes meios secretos<br />
o que espero, vejo e quero</p>
<p>associo merecidamente o tato de teu perfume palpável<br />
o toque abstrato de meu olfato confuso<br />
e derramo a vida quase branca<br />
nas páginas de teu diário incompleto</p>
<p>09/12/2008</p>]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Oferendas secretas do rito lunar</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jan 2009 23:34:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[ocultismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Cachoeiras de rios dançantes inundam meus veios estáticos Escoando no horizonte céus de pânico no morrer do Sol Véus etéreos, vingativos, torrentes translúcidas de sabor disforme O ocre úmido dissolvido na atmosfera inunda minhas narinas Aromas e ventos de sobrevida pudica e insensata Serenas gotas cremosas e rebentos fomentam o ar Partículas atômicas refletem a &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cachoeiras de rios dançantes inundam meus veios estáticos<br />
Escoando no horizonte céus de pânico no morrer do Sol<br />
Véus etéreos, vingativos, torrentes translúcidas de sabor disforme</p>
<p>O ocre úmido dissolvido na atmosfera inunda minhas narinas<br />
Aromas e ventos de sobrevida pudica e insensata</p>
<p>Serenas gotas cremosas e rebentos fomentam o ar<br />
Partículas atômicas refletem a luz incidente<br />
Agredidas por rochas antigas e salutares, suspensas,<br />
Esverdeadas pela imobilidade calma dos séculos,<br />
Tomadas por elementos terrosos e fundamentais</p>
<p>O gosto férreo do sangue me cai, dizendo baixo o querer<br />
Meus sensores vermelho-tingidos no imediato leito<br />
Dentes e língua enevoados<br />
Quente fluxo pela Lua marcado</p>
<p>- A pube clara é velada no culto ancestral proibido</p>
<p>Paisagem alterada, passado corrente se faz aqui<br />
Mil tonéis de vinhos únicos inspiram sua paixão<br />
Que a uva imersa aguarda entre o ventre escuro<br />
Protegida, transbordando novamente a ira evidente</p>
<p>Só, ofereço aos deuses famintos a nata suave</p>
<p>Arbustos ralos em meio a colinas maciças<br />
Respiram o lis ondulado<br />
Coberto por minha boca sedenta</p>
<p>Vocábulos caem com fragrância de amêndoas</p>
<p>16/12/2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>Erotismo x pornografia</title>
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		<pubDate>Sat, 03 Jan 2009 02:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[Bataille]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
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		<description><![CDATA[Não é segredo para qualquer pessoa que me conheça que sou admirador dos trabalhos do grupo catalão (se ainda posso chamá-los assim, tão internacionais que se tornaram) La Fura Dels Baus. Já disse em um post anterior que atualmente eles estão mais calmos, em outra frequência que não a &#8220;barbárie&#8221; de 15 ou 20 anos &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é segredo para qualquer pessoa que me conheça que sou admirador dos trabalhos do grupo catalão (se ainda posso chamá-los assim, tão internacionais que se tornaram) <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> Dels Baus. Já disse em um post anterior que atualmente eles estão mais calmos, em outra frequência que não a &#8220;barbárie&#8221; de 15 ou 20 anos atrás.</p>
<p>Enfim, voltando ao título do post: erotismo x pornografia. Qual a diferença? Est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>? <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">Moral</a>? Física? Se é física, como encaixar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>? Na <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a>/provocação, talvez? A <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> funcionaria como freio ou propulsor? Há inúmeras questões que devem ser levantadas e estas, por sua vez, levantam mais. Escrevi algumas linhas sobre isso quando tinha&#8230; 17 anos. Sei que ainda tenho por aqui, resta encontrar em meio à papelada. O que penso hoje é mais complexo, mas não joguei fora o que pensava então, implementei aqui, aprofundei ali, mudei acolá. Eram ingênuas lá atrás, mas curiosamente, talvez por isso, pegava um ponto do ser humano em espercial: a imaginação.</p>
<p>Qual a relação entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> e o tema proposto aqui? Quem conhece o trabalho do grupo sabe bem a ligação que eles tem com os instintos, com a provocação da parte sombria, da carne, do medo. Há mais do que isso: existe uma montagem do grupo chamada &#8220;XXX&#8221;, que infelizmente não chegou ao Brasil, assim como a maioria dos trabalhos que montaram. XXX é explícita e foi bem comentada na época. A maioria, no entanto, preferiu ficar com a hipótese mais óbvia: o &#8220;grupo queria chocar&#8221;. Tenho <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a> e por isso resolvi postar um trailer que encontrei no youtube com algumas cenas. Dá para ter uma idéia do que se passa e também é possível ver que mesmo vibrando em outra frequência, há ainda muito instinto ali. Instintos, porém, são puramente animais. O que há além disso naquelas imagens para torná-las também eróticas?</p>
<p>Segue o vídeo (espero que ninguém tire de lá, pois vale assistir):</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=dmLqMcUaUgs">http://www.youtube.com/watch?v=dmLqMcUaUgs</a></p>
<p>Em &#8220;O erotismo&#8221; (L&#038;PM, 1987), Georges <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> diz que </p>
<blockquote><p>&#8220;o erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente <em>fora</em> um objeto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>. Mas esse objeto corresponde à <em>interioridade</em> do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>. A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais do indivíduo: mesmo se ela recai sobre a mulher que a maioria teria escolhido, o que entra em jogo é sempre um aspecto indizível, não uma qualidade objetiva dessa mulher (&#8230;). Em resumo, mesmo estando de acordo com a maioria, a escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade interior, infinitamente complexa, que é típica do homem.&#8221; </p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>&#8220;A atividade sexual dos homens não é necessariamente erótica. Ela o é sempre que não for rudimentar, que não for simplesmente animal&#8221;.</p></blockquote>
<p>Percebem a diferença?</p>]]></content:encoded>
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		<title>Perspectivas</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Dec 2008 13:41:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[criação]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[Erros]]></category>
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		<description><![CDATA[Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Estética, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, que fique claro.</p>
<p>Segue:</p>
<p>As palavras depositaram tamanha confiança no espirito credulo dos homens, que estes acabaram por lhes voltar as costas. A gente começa a admirar-se de que uma porção de civilisações tenha enxergado incessantemente na letra qualquer cousa que não seja uma negação da vida &#8211; negação formal, está claro, mas nem por isso menos eficiente. Um estupendo livro ainda por se escrever: o tratado de historia da civilisação em que se considere o esplendor e a decadencia de cada povo coincidindo precisamente com a maior ou menor consideração que a palavra escrita ou falada mereceu de cada povo.</p>
<p>Nada do que vive se exprime impunemente em vocabulos. Os mais sabios dentre os homens têm, sofrido um pouco das necessidades a que essa lei os subordina. Eu, Sergio Buarque de Hollanda, acho indiscutivel que em todas as cousas exista um limite, um termo, além do qual elas perdem sua instabilidade, que é uma condição de vida, para se instalarem confortavelmente no que só por eufemismo chamamos sua espressão e que na realidade é menos que seu reflexo. Só os pensamentos já vividos, os que se podem considerar não em sua duração, mas objetivamente e já dissecados encontram um termo. Quero dizer: esse termo só coexiste com o ponto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a> com a vida.</p>
<p>Os homens que sentiram nitidamente essa ausencia do principio de vida, essa atmosfera irrespiravel que nos propõem as formas inteligiveis, já mandam ao diabo tudo quanto possa preencher um termo, tudo quanto caiba entre as quatro paredes de um pensamento comunicavel ou espresso. A palavra escrita ou falada só se concilia com a dificuldade vencida, com a energia satisfeita e a paz proclamada depois da guerra. É em vão que se tentará atrair a tempestade, invocar o demonio ou realisar o misterio dentro do quotidiano, quando não se renunciou à virtude ilusoria da <a href="http://www.transtorno.net/tag/linguagem/">linguagem</a> dos cemiterios.</p>
<p>Mas não é sem remorsos que os homens aceitam a falsa paz que as letras impuzeram. A resistencia ao milagre caracteriza um estado de espirito que não é bem o dos contemporaneos. Já se ousa pretender mesmo e sem escandalo, que a mediocridade ou a grandeza de nosso mundo visivel só dependem da representação que nós fazemos dele, &#8211; da qualidade dessa representação. Nada nos constrange a que nos fiemos por completo na suave e engenhosa caligrafia que os homens inventaram pra substituir o desenho rigido e anguloso das cousas. Hoje mais do que nunca toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> po<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> ha de ser principalmente &#8211; por quasi nada eu diria apenas &#8211; uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos seculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraizo nas regiões ainda inesploradas. Resta-nos portanto o recurso de dizer das nossas expedições armados por esses dominios. Só à noite enxergamos claro.</p>
<p>Não lhe quero negas leitor o direito que você tem de achar ingenuo e irrealisavel tal proposito. Lembro mesmo, e a seu favor, o trecho admiravel de Marcel Proust sobre essas &#8220;visões que nos é possivel esprimir e quasi prohibido constatar, porque, precisamente quando se tenta dormir, vem-nos a caricia de seu encanto irreal, no instante mesmo em que a razão nos abandona os olhos se serram e antes de se conhecer não só o inefavel, mas o invisivel, a gente adormece.&#8221;</p>
<p>Mas de que nos vale ter confiança no milagre se não ousamos transpor aquelle impossivel e aquelle prohibido colocados ali por prudencia ou por covardia? &#8220;Ha muitas cousas no céu e na terra além do que imagina a vossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a>&#8221;, diz Hamleto a Horatio. O certo é que essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> não se interessa senão por divertimento ou por acaso em todas essas cousas que existem na terra e no céu fóra de seu alcance. Para os sabios mais consideraveis uma certa amplitude de pensamento acarreta o invencivel sacrificio de tudo quanto escapa à logica da continuidade, de tudo quanto se esalta e afirma, pelo simples facto de ser, um direito à existencia, a sua diferença essencial em relação ao que a rodeia e por isso mesmo, implicitamente, a sua singularidade. A ciencia compraz-se em estabelecer um nivelamento, uma uniformidade tal em todas as cousas, que acaba por escluir de seu Universo qualquer objeto que não se resigne a ser um simples termo prás suas equações, um instrumento docil às suas construcções arbitrarias. O acto elementar de definir, que se encontra à base de toda ciencia humana, implica o proposito de instalar todo o objeto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> numa continuidade fixa e inalteravel. Não existe ciencia do particular que estude cada cousa em relação à sua propria particularidade. Todos os nossos conhecimentos procedem ao contrario subordinando o singular ao universal e utilisando-se para esse efeito de um sistema de seleção que só se tem por essencial o que ha de constante em uma dada série de objetos. O resto, o que ha em cada um de individual é considerado inutil para a formação do conceito. Acontece porém que para certos homens o essencial continua sendo o que ha de particular, o que ha de milagroso, o elemento irredutivel em cada cousa. São esses homens, os que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das cidades que reclamam com violencia um regresso a esse estado de guerra que não é mais do que uma conformação com a vida. <sup>(1)</sup></p>
<p>Mas prá maioria dos homens a morte como que se seja apresenta encantos e seduções que a Vida está muito longe de lhes proporcionar. Para uma porção de poétas ela tem sido um sinonimo comodo de misterio e para Socrates ela apareceu como uma aquisição de pensamento. Nem todos sentiram que não é necessário renunciar à vida para descobrir o &#8220;irreal&#8221; e que ao contrario o que parece mais real e até mesmo o que se apresenta mais dócil à verificação comporta uma parte de misterio imprevisivel e tráe concessões escandalosas ao irracional. Essa ilusão esplica a subsistencia, embora disfarçada, em cada um dos nossos actos. de uma aspiração à morte. A propria creação artistica não escapou desde os seus inicios a esse pecado original. Parece claro que o proprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> de libertação como já se te dito (isto é libertação no sentido de exaltação: correspondendo a uma espansão de vitalidade), não de um esforço de resistencia contra o aniquilamento, mas ao contrario, e acentuadamente, ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> invencivel de negar a vida em todas as suas manifestações.</p>
<p>Surge assim em sua espressão artistica mais rudimentar esse afan de reduzir o informe à fórma, ao livre necessario, o acidental à regra. O desenho regular e monotono dos primitivos, essa esclusão de todos os elementos especiaes e acidentaes que eles revelam mostram claramente o significado e o sentido da tendencia dos homens para uma regularidade abstracta e inanime.</p>
<p>Paralela a essa tendencia que não é um privilegio do homem primitivo, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de confissao, essa doença moderna que condena à morte pela palavra e pela sintaxe, todos os sentimentos que nos oprimem, toda manifestação de vida inoportuna corresponde a essa mesma lei de aspiração ao inerte. <sup>(2)</sup></p>
<p>Não me cabe resumir aqui todas as perspectivas que esse ponto de vista me propõe. Não disse ainda porque razão os homens começam a procurar a realidade de preferencia na <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>, na recordação e na ausencia e porque muitos deles sem renunciar a essa atitude conseguiram revogar para uso proprio a lei de aspiração à morte. Tambem não disse porque a exaltação do particular resolve-se em certos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> na anulação de qualquer singularidade, no sentimento da harmonia de todas as cousas. Direi provisoriamente que a vida, apesar de tudo, continúa a nutrir subrepticiamente e por uma especie de verba secreta as regiões mais ocultas de nossas ideologias. É incontestavel que os nossos actos e mesmo aqueles que comportam uma série de movimentos irremediavelmente previstos pela logica e pelo calculo mais precisos, não prescindem dessa parcela contingente que participa do divino. Deante dessa impossibilidade de opôr uma resistencia mais eficaz ao misterio que nos sitia por todos os lados, deante do absurdo dessa resistencia não ha duas atitudes igualmente legitimas. Nada mais comodo, é verdade, que concluir pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/vaidade/">vaidade</a> de todos os nossos gestos e pela inutilidade de qualquer atitude, &#8211; ideia que o Universo nos fornece a troco de um simples bocejo.</p>
<p>- Sergio Buarque de Hollanda</p>
<p><sup>(1)</sup> &#8211; Nunca será demasiado insistir no que representou para a literatura contemporanea a &#8220;descoberta&#8221; de que cada individuo representa um mundo isolado e muitas vezes indecifravel para os outros homens. A ideia da &#8220;incomunicabilidade dos espiritos&#8221; que constitue, pode-se dizer o fundamento e o tema essencial do <a href="http://www.transtorno.net/tag/teatro/">teatro</a> de um Pirandello já estava admiravelmente espressa numa passagem dos comentarios de Newman aos argumentos de Paley sobre as evidencias do Cristianismo: &#8220;Se quizerem que eu me utilize do argumento de Paley para minha propria conversao direi resolutamente: não <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> ser convertido por um silogismo habil; se quizerem que o mesmo argumento me sirva pra converter a outros, direi: não me interessa convence-los pela razão sem que seu coração seja atingido. Os homens não podem aceitar integralmente uma verdade, é preciso que cada qual a descubra por si. Toda convicção profunda ha de ser conhecida por essa descoberta.</p>
<p><sup>(2)</sup> &#8211; Digo &#8220;doença moderna&#8221; apenas por comodidade. Não ignoro os argumentos que poderiam me opôr. Quero dizer que a confissão, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de espressão dos nossos sentimentos mais profundos manifesta-se menos disfarçada entre os contemporaneos. Ha quem atribua à influencia do confessionario a extraordinaria situação de quem ainda hoje goza e que mantem o catolicismo romano. (V. Dr. William Stekel &#8211; The Dephts of the Soul &#8211; trans. by Dr. S.A. Tannenbaum &#8211; London, Kegan Paul &#8211; 1921). O artigo de Prudente de Moraes, neto, sobre a sinceridade publicado no ultimo numero desta revista estuda o mesmo assumpto com admiravel lucidez.</p>]]></content:encoded>
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