O desdobramento dos signos tem essa consequência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse no sentido de uma separação do ser pessoal e de todo limite, é no entanto expresso por um objeto.
- Bataille, in O Erotismo
Cresci vendo minha mãe costurar, fazendo roupas tanto para nós de casa quanto para suas clientes. Uma decorrência disso é que também cresci com revistas de moda por perto, muitas eram importadas, e, vale lembrar, eram os anos 70.
Essas revistas, quando velhas, depois de usadas para que as clientes escolhessem modelos ou para que minha mãe tivesse idéias, se transformavam em meus trabalhos de escola, as famosas colagens, além de serem uma forma de ver o mundo além dos portões e da rua onde morava. Era curioso, pois tinha mais contato com elas do que com quadrinhos, por exemplo, imaginava conversas entre as pessoas e, como não sabia ler, imaginava o que os anúncios diziam.
Há alguns meses, andando pelo MoMA, encontrei uma sala com um painel enorme que disparou, imediatamente, um gatilho na minha memória e retomei muita coisa da infância. Tirei algumas fotos e depois fiquei pensando o motivo de ter sido atraído. A única explicação que consigo encontrar é que tenha sido fetiche, esquema freudiano mesmo. As imagens nas paredes eram do mesmo tipo de revistas que eu via, exatamente os mesmos, mas algumas ganharam destaque por sobre a montagem das páginas, como se tivessem vida própria. Acredito, de fato, que tinham e ainda tenham. São fetiches, ou seja, gatilhos, que falam ao inconsciente, sem as barreiras da razão. Quase atavismos, talvez.
Ao lado do grande painel na parede havia uma caixa de vidro com alguns daqueles elementos em três dimensões, palpáveis, praticamente vivos. Sim, nunca gatilhos foram tão ativos. Reproduzo abaixo duas fotos que tirei, só para dar uma idéia do que fato. Os turistas ainda não tomaram o lugar dos viajantes.

O problema é que fui muito espertão e não fotografei a ficha da obra. Pensei “pego depois, em detalhes, no site do museu”. Acontece que o site do museu é enorme, tem milhares de obras, algumas sem fotos, e até hoje não achei. Se alguém souber do que se trata e puder me dizer, agradeço imensamente.
Procurei maravilhas, segredos atemporais, explosões e cataclismas, transformações e fenômenos que me fariam entender o mundo ou, se não, me indicariam caminhos e dariam motivos para continuar. Esperei por aquele momento em que algo aconteceria, aquele segundo definitivo – a split second – onde tudo aconteceria, ao mesmo tempo, como um abrir de porta, como embarcação lançada ao mar que encontra o continente e percebe que no mar é que está seu destino. Navios são para navegar, não para atingir um ou outro lugar. É desse porto que parto agora…
Aquele momento grandioso, gigante, talvez não tenha acontecido. É, por certo não, não daquela forma ao menos. Esperar coisas imensas é um tipo de engano, mas não esperá-las é ser pequeno, normal, no pior sentido da palavra. Talvez dai venham as quedas, as decepções, também imensas, como o gigantismo do ego. O erro, me parece, consiste em confundirmos o que é imenso com o que pensamos ser.
A compreensão e o entendimento observam, lá de cima, do topo da árvore, já próximos ao absoluto, bem distantes. Os caminhos que ligam as Sephiroth são trilhados em momentos diferentes, conforme o caso, a necessidade, o evento. Não seria de imaginar, portanto, que os frutos caiam, por vezes, dessa árvore, metafísica, em algum nível?
Sonhos, conversas em estado letárgico, instruções, insights, olhar a pineal como o olho que não se vê. Lembrar de coisas jamais feitas e tê-las ainda assim como parte da experiência e existência. Saber que aconteceram, dentro ou fora, e entender que é sim parte do indivíduo que é parte do todo. Saber coisas sem jamais ter lido sobre elas e, quando finalmente ler, dizer “estava certo”.
A porta que se abre naquele momento buscado pode ser de diamantes, ouro, aço, madeira ou qualquer outro material. Pode ter sido feita à mão por dezenas de anos ou em poucos minutos, em alguma fábrica. Pode estar em uma pirâmide milenar, em um museu centenário ou um barraco na periferia. Não importa. É o ato de abrir que expõe o segredo, é também a chave.
ajoelha perante mim oferecendo tua palidez como agrado,
padece em definitivos beijos de minhas mãos eufóricas
recebe o desejo de ser minha, tecido que me envolve
percebe a ânsia sádica de te aspirar qual cinzas brancas
acolhe a alegre ira de minha força setentrional
descobre e me devolve um sorriso opaco, ainda por se abrir
sorri queimando o sangue do sol que se põe ao entardecer
quase escuro, o cinza expansivo abre a espera por mais
vive o querer de meus dedos animais em teus cabelos doloridos
divide o latejar que me provocas com a dor de te manter próxima
experimenta o respirar de minhas mãos que te amam loucamente
sente o sofrer amarelo de ser minha amante
meu perceber deveras novo cambaleia exausto em preciosidades
quando te deito ao meu lado, quase roxa, desfalecendo delicada
e te amo uma vez mais
finada é a noite torpe, consumida por feitios anteriores
09/12/2008
o caminhante olhou a noite e a abraçou em canto
como quem abraça um raio de vento
um solitário arfante
um deslumbre inicial
e abraçou ardente horizonte
soluço calado sorriso rompante
de dentes estelares e hálito fogoso
deixando a si quando a brisa o beijou lasciva
inflamado, tentou segurar o vento
sopro-carícia, vermelho terra-viva
tentou e alcançou gargalhando
a química histérica da escuridão das estrelas
de cima a baixo um tapete morno, suave
azul-semelhante, verde-tronco
laçando seu corpo entrante qual candeeiro cheio de zelo:
era o mundo-solvente na chuva que feria
17/11/2008
Nesta enseada de vísceras dispersas, branco intenso de gotas transparentes, cidade que se esconde pálida em tua aparência de veludo, seda e carbono, que cega as milhares de perfeitas constelações gregas, erguidas há milênios como símbolos de inspiração abissal, olho para a bússola de meus horizontes cândidos onde me encontro arfante amarrado.
Vem, abre o manto d’água que respinga junto a mim, queimando em folhas minha pele e minhas escamas. Vem, abre o mar e me aguarda, indica a espuma de onde surgiste em cada onda, aponta os céus e respira, tirando vida do barro que me cobre. Vem, queima com a sutileza de tua voz as amarras que me cortam quando me apontas o mundo sorrindo e soletra perversa a luz que me afoga.
Cria vida nessa escuridão que alastra em mim, cria vida nesse alarde que faço no vazio que preenches com teu sermão vermelho. Faz de mim o arco que tensiona ao puxar minha alma alaranjada, refletindo palidamente tua cor de chamas, que chama meu falo erguido à divindade, cravo profundo nas aparas vivas, dívida para com a natureza.
Ergo me sempre para jamais questionar se as cores, cortes e cheiros que chegam junto a meus sentidos, buscando a essência da hipnose, são passageiras ou se são guias, se se deixam levar ou se levam como um oceano de sal que jorra de mim, varrendo a terra passiva, que se umedece e abre com o calor da afeição e dos ardis da semente.
Abro meus braços cicatrizados deixando que teu norte me guie, encontro destino em todos os cardeais, magnetismo absoluto que me desvirtua, corrompe e perde quando moves meu ponteiro, que te adentra como grão e prisma de cores estapafúrdias, selecionadas uma a uma, sem me incomodar se é o caminho da mão esquerda perante o qual meus joelhos dobram se busco minhas forças recompostas.
Faz das formas gigantes, absolutas e milimétricas, da pureza assassinada de todo ser, de minha cegueira, faz de tudo que se move e do porvir pura aniquilação!
Quando me perco, sem ver insetos e rastros ondulantes no céu almiscarado, me esqueço. Quando me perco, me encontro navegando questões filosóficas e existenciais: se o entardecer é mais cadenciado nas manhãs de inverno, se o sol aquece formigas solitárias no verão de outros continentes, se o frio dos pólos tornaria minha pele sólida, uma vez amaciada pelos beijos que arrancam minhas formas em camadas.
Exposto unicamente, perduro na essência única da união, extrema unção, do óleo que cobre tua testa, olhos e lábios rubros, dos impronunciáveis nomes, dos números infinitos e suas combinações, do ocultismo e seus segredos.
Duplamente, perduro onde termino e recomeço, onde o reino dos mortos passa por nós, rápido e afobado, sob o signo de escorpião, ao renascer na sentença de vida, na boca aberta de desejo que se fecha, reiniciando a unidade do culto dos astros.
Logo ali há uma porta, mágica. Atrás dela há o que não pode ser escondido, permanece sempre aberta, não há trancas. Há, no entanto, um buraco feito para espionar.
A porta está aberta, apenas encostada, mas ninguém a empurra, se limitam a espiar pelas frestas.
Conto segredos em público, abro a porta, mas ninguém vê.