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	<title>Transtorno&#187; Deus &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Pertencer, por Clarice Lispector</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Jun 2009 00:36:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial. Segue: &#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial.</p>
<p>Segue:</p>
<p>&#8220;Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.    </p>
<p>Tenho certeza de que no berço a minha primeira <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.   </p>
<p>Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> quando vejo uma freira: ela pertence a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.   </p>
<p>Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.   </p>
<p>Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de &#8220;solidão de não pertencer&#8221; começou a me invadir como heras num muro.    </p>
<p>Se meu <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar pat<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos &#8211; e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.   </p>
<p>Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> intensa de pertencer vem em mim de minha própria força &#8211; eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.   </p>
<p>Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.   </p>
<p>No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.   </p>
<p>A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.&#8221;</p>
<p>&#8220;A Descoberta do Mundo&#8221;, Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1999</p>]]></content:encoded>
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		<title>A voz do Demônio, por William Blake</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2009/04/voz-demonio-william-blake/</link>
		<comments>http://www.transtorno.net/2009/04/voz-demonio-william-blake/#comments</comments>
		<pubDate>Sun, 19 Apr 2009 18:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem necessidade de meus comentários: Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros: 1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma. 2. Que a Energia, denominada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de meus comentários:</p>
<blockquote><p>
Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:<br />
1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma.<br />
2. Que a Energia, denominada <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>, provém apenas do Corpo; &#038; que a Razão, denominada Bem, provém apenas da Alma.<br />
3. Que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> atormentará o Homem pela Eternidade por seguir suas Energias.</p>
<p>Mas os seguintes contrários são Verdadeiros:</p>
<p>1. O homem não tem um Corpo distinto de sua Alma, pois o que se denomina Corpo é uma parcela da Alma, discernida pelos cinco Sentidos, os principais acessos da Alma nessa etapa.<br />
2. Energia é a única vida, e provém do Corpo; e Razão, o limite ou circunferência externa da Energia.<br />
3. Energia é Deleite Eterno.</p>
<p>Quem refreia o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar e governa o inapetente.</p>
<p>E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>.</p>
<p>Essa história está relatada no Paraíso Perdido, &#038; o Governante, ou Razão, chama-se Messias.</p>
<p>E o Arcanjo Original, ou possessor dos comandos das hostes celestiais, chama-se Demônio ou Satã, e seus filhos chamam-se Pecado &#038; Morte.</p>
<p>No Livro de Jó, porém, o Messias de Milton chama-se Satã.</p>
<p>Pois essa história tem sido adotada por ambos os lados.</p>
<p>Em verdade pareceu à Razão que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a> havia sido banido mas, segundo a versão do Demônio, sucumbiu o Messias, formando um céu com o que roubara do <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">Abismo</a>.</p>
<p>Isso revela o Evangelho, onde ele suplica ao Pai que envie o confortador, ou <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a>, para que a Razão possa ter Idéias sobre as quais se fundamentar, não sendo outro o Jeová da Bíblia senão aquele que mora nas flamas flamantes.</p>
<p>Sabei que Cristo, após sua morte, tornou-se Jeová.</p>
<p>Mas, em Milton, o Pai é Destino, o Filho, Quociente dos cinco sentidos, &#038; o Espírito Santo, Vácuo!</p>
<p>Nota: A razão pela qual Milton escreveu em grilhões sobre Anjos e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, e em <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> sobre Demônios &#038; Inferno, está em que ele era um Poeta autêntico e tinha parte com o Demônio, sem sabê-lo.
</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>Objetos, conhecimento e ciência</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Feb 2009 14:19:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Há algum tempo postei parte de um trabalho em que falava sobre a magia renascentista e sua relação com a ciência atual. Disse, então, que se tratava de um trabalho extenso e que não postaria tudo, apenas um fragmento para dar o que pensar. Pois bem, curiosamente esse é um texto muito lido aqui, embora [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há algum tempo postei parte de um trabalho em que falava sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> renascentista e sua relação com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> atual. Disse, então, que se tratava de um trabalho extenso e que não postaria tudo, apenas um fragmento para dar o que pensar. Pois bem, curiosamente esse é um texto muito lido aqui, embora ninguém comente. Não sei se alguém parou pra pensar, se só usaram o copy &#038; paste ou nem isso, mas resolvi postar mais um fragmento aqui. Não é conclusivo e, de fato, está longe de ser, mas coloca mais algumas questões pra se pensar. Talvez eu poste mais fragmentos em breve.</p>
<p>Segue:</p>
<p>Segundo Cassirer, a solução que Paracelso apresenta à questão da relação do objeto e do ser que conhece é dizer que o ser que conhece só pode fazê-lo na medida em que já traz dentro de si a fonte e origem dos objetos: “<a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a> podríamos recibir y albergar em nosotros la luz natural, si ésta no tuviese em nosotros mismos su fuente y su origen” (CASSIRER, 2004, p. 245).</p>
<p>Só podemos conhecer porque os fenômenos que se apresentam na natureza já estão dentro de nós. Com essa definição, no entanto, não fica claro como o ser que conhece recebe essa luz natural: se já nasce com ela, criando uma relação de aproximação com o conceito platônico de mundo das idéias ou seria <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a> se um ser superior, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>O espírito humano é concebido como imortal e, portanto, se fosse possível conhecer o próprio espírito, nada seria impossível ao homem. “Pero como la <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> no há alcanzado todavia el grado de madurez necessário para poder apoyar o guiar este postulado, es la mística la única que, em última instância, puede aplacar la sed de unidad del conocimiento” (CASSIRER, 2004, p. 246). Aqui o autor adverte dizendo que na medida em que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> ainda não alcançou uma maturidade que lhe permita responder à questão da unidade do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, ou seja, da relação que existe entre o objeto e o ser que conhece e todas as questões que surgem desse problema e que, neste caso, só se pode apelar para a mística (<a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>) para responder de maneira satisfatória a esta questão.</p>
<p>Trabalhando com o pensador Girolando Fracastoro, Cassirer mostra que o mesmo rejeita a idéia de que podemos conhecer as coisas em si. O que conhecemos é somente sua representação indireta, através de um símbolo sensível. Portanto, ele adota a idéia de que a única fonte segura de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> são os sentidos humanos. Ele nega que a alma ocupe ou exerça alguma atividade própria e independente. Pensar dessa forma é, então, recusar a possibilidade de que o objeto molde o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, que durante o momento que se dá ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> seja totalmente integrado a ele, tornando-o passível a esse nível. Pensar isso seria aproximar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da loucura, posto que no momento em que se dá, o ser que conhece estaria entregue completamente ao objeto. Corre-se, ainda, o risco de que o objeto se perca totalmente ao dar se a conhecer. E preciso, portanto, manter essa distância entre essas duas formas de entender a forma como os sentidos recebem o objeto.</p>
<p>A visão de Girolando leva a um outro complicador, que de alguma maneira reflete a polêmica desenvolvida até aqui, a saber, que na medida em que a única fonte de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> são os sentidos humanos e a alma não possui atividade própria, esta se transforma apenas num conglomerado de imagens representativas dos objetos sensíveis, onde cada imagem representa um objeto próprio. Cada percepção é a percepção de um objeto particular e cada fenômeno é o fenômeno de um objeto particular. Sendo assim, não há repetição de fenômenos e não há a possibilidade de universalização do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> (por repetição dos fenômenos) ou mesmo a construção de conceitos que possam explicar os fenômenos, de forma que a partir dai, então, não se pode fazer <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a>. É necessário pensar em outras possibilidades.</p>

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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade, transgressão e moral</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 01:08:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?” - Bataille in “A literatura e o Mal” Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”<br />
- <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> in “A literatura e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>”</p></blockquote>
<p>Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um momento de epifania, por assim dizer. Acontece, no entanto, que as idéias continuaram transbordando desde então e novas teorias e questionamentos, opostos aos iniciais, continuaram surgindo, uma torrente de compreensão/entendimento. Me deparei e ainda me deparo com diversas questões que precisaria responder e com outras que surgiram já trazendo suas respostas.</p>
<p>As linhas que seguirão abaixo são apenas um rascunho de algo que precisará ser desenvolvido, esmiuçado e detalhado, pois tratam-se de uma breve nota sobre como me sinto agora, neste momento, enquanto questionador e questionado.</p>
<p>Sem querer entrar em uma discussão das diferenças de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nas filosofias de <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Descartes ou qualquer outro filósofo, mas passando – seria impossível evitar –, ainda assim, por algumas generalidades de um e de outro, prossigo&#8230;</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é garantida pelos livres decretos e que, em um desses decretos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> se determina a criar o melhor dos mundos. Outro diria, entretanto, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criou esse mundo por pura bondade. Outros dariam ainda diferentes motivos, não importa. O que importa para essa discussão é como o mundo se dá para nós. As ações divinas podem ser livres, como amar a si, é claro. O fato de ter escolhido este mundo e não outro demonstra escolha, mas se essa escolha é determinada pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> (ainda que autodeterminada) do melhor, ou pela bondade, ou por outro motivo, seria de fato livre?</p>
<p>O problema, entretanto, é que a escolha do melhor não exclui a possibilidade da escolha do pior, ou seja, decidiu-se por esse mundo, mas poderia ter sido outro. A possibilidade de um outro mundo torna evidente uma escolha livre. Colocando isso em termos humanos: o homem padrão, comum, que sai de casa todas as manhãs em <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> do sustento de sua prole tem também a possibilidade da escolha oposta, é claro. Poderia não ir. Poderia, mas ainda assim se determina e vai. <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">Amor</a> à prole? <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">Culpa</a>? Medo de punição? Imperativo categórico? O que o move? Estamos claramente entrando nos domínios da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Voltamos a Deus: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana nos foi dada por decisão de sua bondade. Não é essa uma escolha <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>?</p>
<p>Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">deus</a> criou o mundo dessa forma e não de outra, teve a possibilidade dos demais, mas sua autodeterminação o impediu. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> existente foi excluída por uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> auto imposta. Voltamos, então, à frase de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> que abre esse texto: “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> “não pode desobedecer a ordem que existe”. É claro, desobedecê-la seria criar uma nova, implicando em sua imperfeição, em uma retificação da ordem anteriormente imposta, determinada como a melhor. Temos ai, além da discussão sobre a perfeição, também o bem comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> tão evidente nos questionamentos humanos.</p>
<p>Em <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> não me parece lógico discutir isso, pois trata-se mais de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e, portanto, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> levando a outra. Arrisco dizer que há uma maior evidência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> nesse caso. As <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> dão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, que se contamina quando a possibilidade do oposto não é data. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> é, portanto, diretamente ligada à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>A &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>&#8221; de algo limita a ação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. O meio pode ou não fornecê-la, não cabe obviamente discutir <a href="http://www.transtorno.net/tag/sartre/">Sartre</a>, mas a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de algo, quando existe, a limita. A própria <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de alimentar-se, por exemplo. Não é possível tomar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de não se alimentar sem conseqüências. A punição implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, em bem maior, ainda que neste exemplo diga respeito apenas ao indivíduo em questão.</p>
<p>Bem maior, disse. Pois bem, diariamente pessoas acordam e, para manterem seu “melhor dos mundos”, sua alimentação, seu conforto, condições básicas ou mesmo prover para a família, limitam suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de forma que essas deixam mesmo de existir, pois o próprio questionamento é aniquilado, cedendo ao comodismo e à aceitação cega de algo tão comum e tão pouco evidente.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">Liberdade</a> absoluta implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e talvez essa seja mesmo a razão da mítica dos grandes heróis: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> é o que serve de magnetismo, o que atrai e os diferencia dos demais. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> só existe quando abandonam o comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> existe quando abandonam o bem maior, quando seguem seu instinto, seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> e seu destino. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> é o freio da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> absoluta, que se dá por completo no “<a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a> desinteressado”, como diria novamente <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a>, mas não só ai. Cabe pensar em Saturno que castra Urano. Cabe pensar também a beleza de Vênus, filha desse ato, nascendo nas espumas do mar.</p>
<p>Seguir determinações morais e o bem necessário é tão limitante quando ter de acordar diariamente, trabalhar, se alimentar, procriar e repetir o ciclo. Nesse sentido, o homem comum é de fato a imagem e semelhança de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Voltamos à questão do provedor que sai de casa para buscar o alimento de sua prole, cuja bondade é livremente determinada. Poderia não ser bondade, mas medo? Não sabemos de casos de pais presos por abandonar bebês? Seja por bondade, medo, ou qualquer outro motivo, o homem permite ser colocado sob freios. Não cabe, no entanto, perguntar se em algum momento uma explosão se dará, <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a>, castração simbólica, ou se a aceitação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> estará apenas mais aprofundada a cada novo dia. Essa pergunta não faz sentido quando dirigida ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a>, ao grupo. Cabe apenas a alguns humanos, mitos em potência.</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, desvinculada da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, no sentido em que não tem a preocupação de manter uma ordem universal estabelecida, nem o limitante da perfeição, baseada apenas na ignorância total ou parcial das conseqüências de seus atos, é maior que a divina. A ignorância e/ou o <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> humano propicia a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, enquanto que a bondade e a perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criam a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>. Que fique claro: não falo aqui de estado de natureza. Falo de outra coisa, sutilmente ainda que profundamente distinta, livre de <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, muito próxima da infância.</p>
<p>28/01/2009</p>

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		<title>Natureza e liberdade em Espinosa</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Dec 2008 01:08:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Pensamentos]]></category>
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		<description><![CDATA[Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre Leibniz, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem mal vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram Espinosa em um teórico do MST. “Na medida em que a alma conhece as coisas [...]


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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em um teórico do MST.</p>
<blockquote><p>“Na medida em que a alma conhece as coisas como<br />
necessárias, tem maior poder sobre as afecções, por<br />
outras palavras, sofre menos por causa delas”<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Ética, Parte V, Proposição VI</p></blockquote>
<p>Este trabalho tem por objetivo pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana a partir do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> de sua natureza, conforme a segunda proposta dada, a saber, “digo livre a coisa que existe e age a partir da só <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de sua natureza”, tendo em vista que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> de se autodeterminar é a mesma que o homem possui ao conhecer sua essência e tornar-se ativo, buscando também sua autodeterminação. </p>
<p>Faz-se necessário, antes de continuarmos, vermos o que vem a ser natureza e ação na <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> de Espinosa: na Ética, proposição XVI, parte I, o filósofo argumenta que “da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> da natureza divina devem resultar coisas infinitas em numero infinito de modos, isto é, tudo que pode cair sob um intelecto infinito”. Dessa <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> segue-se que as coisas têm, então, uma causa necessária. Conhecer pela causa é conhecer verdadeiramente e, portanto, conhecer a causa é conhecer a natureza, saber a essência, que, no caso humano, refere-se a singulares. </p>
<p>A substância, única, é capaz de infinitas ações, das quais conhecemos duas, pensamento e extensão. Os efeitos dessas ações são os modos/afecções. As afecções são a forma de agir (ação) da substância, de forma que inteligir, considerar o que se sabe sobre as coisas como partes de sua natureza e procurar conhecê-las, é buscar conhecer sua causa, sua essência, aproximar-se de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>. Portanto, como vemos no escólio da proposição IV, parte V, “devemos sobretudo trabalhar para conhecermos clara e distintamente, quanto possível, cada afecção”. </p>
<p>Ao tomarmos os homens como exemplos de coisas singulares, podemos concluir então que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, ou seja, o conhecer e viver de acordo com sua natureza, é onde reside sua divindade, tendo em vista que “tudo que existe são modos da natureza divina” e que “os modos da natureza divina são também conseqüência necessária, e não contingente, da própria natureza divina”, conforme a demonstração da proposição XXIX, parte I, da Ética.</p>
<p>Vivemos, no entanto, em ilusão de livre-arbítrio, pensando os atos como fins, quando são, na verdade, apenas efeitos. Sob tal ótica podemos considerar e compreender o exemplo dado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em sua carta 58, ao demonstrar que uma pedra atirada por alguém, caso pudesse pensar, se esforçaria para continuar se movendo, crendo depender de si só, ignorante da causa de seu movimento. </p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolheu criar as coisas como são: elas são necessárias, são parte da natureza divina, decorrem dela. Se houvesse escolha, haveria também negatividade, abriria-se espaço para outras possibilidades, para <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, para um não escolhido, mas “na Natureza nada existe de contingente; antes tudo é determinado pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> da natureza divina a existir e a agir de modo certo” (Proposição XXIX, parte I).</p>
<p>Falar em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> não implica, portanto, falar em fatalismo, pelo contrário. Para pensar em fatalismo é preciso pensar em contingências, em alternativas e possibilidades, em melhor ou pior, abrindo-se, novamente, espaço para a negatividade, que não existe nesse caso.</p>
<p>Isso não me parece conformismo, de forma alguma, como veio a ser entendido em alguns casos, mas, pelo contrário, uma forma de compreender melhor o que se dá, olhando para as causas e não para os fins, olhando para a natureza e o que ela exige para dar-se completamente, para ser plenamente. </p>
<p>Conhecer as afecções aumenta o poder sobre elas, sofre-se menos, aproxima-se então o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da natureza, da causa, não de uma suposta causa final, de um efeito tido como tal por ignorância, mas sim da origem, da positividade, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>.</p>
<p>Parece, entretanto, que é simples conhecer a causa e seus efeitos, mas não podemos esquecer que lidamos também com o que ocorre contra nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, dentro do contingente e do possível: as paixões. Os afetos podem ser ativos e passivos, ou seja, podem vir de nossa natureza ou não. Um afeto passivo pode trazer alegria, mas não é uma alegria que torna o indivíduo livre, posto que é contingente, não há controle ativo sobre ela. Pode ser uma paixão alegre, sim, mas poderia também não ser.</p>
<p>Conhecer causa e efeito, transformar paixão em ação, contingente em necessário, enfim, ser ativo. Essa atividade é o estado que capacita à autodeterminação, de forma que aí reside a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. Agindo dessa forma, pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de nossa natureza, estaremos nos aperfeiçoando, passando “de uma menor a uma maior perfeição” e, dessa forma, elevando nossa alegria, que está nessa passagem, nesse aperfeiçoamento.</p>
<p>Se é de nossa natureza buscarmos a felicidade e agirmos em função de tal objetivo, como podemos resolver o problema das diferenças entre indivíduos, haja visto que o que é felicidade para mim pode não ser para outro? A natureza deve ser pensada individualmente, de forma que ao conhecermos cada um nossa parte, lidaremos melhor com os demais e seremos felizes? Ou há uma unidade, uma natureza humana, única, que deve ser reconhecida, independente de contingências de nossas paixões enquanto indivíduos?</p>
<p>A idéia de uma natureza humana, de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de felicidade única, é perigosa, vale notar, na medida em que abre margem para a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de sistemas políticos e religiosos – cuja relação foi analisada por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em seu Tratado Teológico-Político –, dai <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> afirmar que os filósofos “em vez de uma ética, escreveram uma sátira”.</p>
<p>Não devemos pensar na Ética, entretanto, como apenas uma descrição dos singulares, posto que tudo é necessário. Não podemos pensar numa descrição pura e simples, onde não há possibilidade de transformação. É necessária uma mudança de foco para compreender onde pisamos: estamos, sim, buscando saber qual é a natureza/essência dos singulares, buscando aperfeiçoamento, não um mero relato. É necessário conhecer a natureza e então dar seqüência a ela, desenvolvê-la: é nesse campo que devemos buscar o cumprimento da ética.</p>
<p>Pensar felicidade e <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> universais, em bem e <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> universais é, portanto, um equívoco. Esses universais têm serventia à <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> descritiva, que se contenta em dizer como as coisas são ou não são e como deveriam ser, não à ética que <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da natureza. Nesse sentido, então, podemos compreender o exemplo dado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em sua carta 23, ao dizer que “se algum homem percebe que pode viver mais comodamente pendurado na forca que sentado à sua mesa, ele agiria como um insensato ao não se pendurar”.</p>
<p>Se seguirmos por esse caminho, podemos concluir que uma vez que cada indivíduo compreenda sua essência, fazendo de seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, de suas ações, a forma de determinar-se, exatamente como propõe o filósofo, não há como cair nessa armadilha, nessa universalização dos singulares, e assim, uma vez compreendida e sendo desenvolvida, autodeterminação em curso, veremos os humanos, individualmente, exercendo sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, sendo, enfim, agentes e então a alma não terá “outro poder que não seja o de pensar e de formar idéias adequadas” (Proposição IV, parte V, escólio).</p>
<p><b>Referências bibliográficas:</b><br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, B., Ética, Relógio d´Água, 1992</p>

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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>A possibilidade da metafísica em Kant</title>
		<link>http://www.transtorno.net/2008/11/a-possibilidade-da-metafisica-em-kant/</link>
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		<pubDate>Thu, 06 Nov 2008 12:59:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Política]]></category>
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		<description><![CDATA[“Confesso francamente: foi a advertência de David Hume que, há muitos anos, interrompeu meu sono dogmático e deu às minhas investigações no campo da filosofia especulativa uma orientação inteiramente diversa.” - Kant, Prolegômenos a toda metafísica futura, Introdução, A13 Este trabalho tem por objetivo acompanhar, ainda que superficialmente, o desenvolvimento do pensamento kantiano, de sua [...]


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<li><a href='http://www.transtorno.net/2009/01/frutos-arvore-metafisica/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Os frutos da árvore metafísica'>Os frutos da árvore metafísica</a></li>
<li><a href='http://www.transtorno.net/2009/04/antinomias-kantianas/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Antinomias kantianas'>Antinomias kantianas</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“Confesso francamente: foi a advertência de David <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a> que, há muitos anos, interrompeu meu sono dogmático e deu às minhas investigações no campo da <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> especulativa uma orientação inteiramente diversa.”</p></blockquote>
<p>- <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, Prolegômenos a toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> futura, Introdução, A13</p>
<p>Este trabalho tem por objetivo acompanhar, ainda que superficialmente, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> do pensamento kantiano, de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> após o “<a href="http://www.transtorno.net/tag/despertar/">despertar</a>”, tendo como ponto de partida o ataque de David <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a>, “o mais engenhoso de todos os céticos”, à metafisica. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> referiu-se ao filósofo escocês como aquele que “fez brotar uma centelha com a qual se poderia ter acendido uma luz, se ela tivesse alcançado uma mecha inflamável” (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 2003, p. 14). O <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> do pensamento de <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> me parece mostrar que a mecha inflamável foi, de fato, atingida, pois este buscava solucionar o questionamento humeano, não simplesmente combatê-lo.</p>
<p>Antes de prosseguir e entrar no pensamento kantiano, sinto <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de passar, brevemente, pelo pensamento de <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a>, a meu ver necessário para se compreender o ponto de partida do filósofo de Konigsberg, dado o tema do trabalho.</p>
<p><strong>. A causalidade como impossibilidade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> metafísico em <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a></strong></p>
<p><span id="more-137"></span></p>
<p>David <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a> afirmava que não é possível encontrar nos objetos as relações de causalidade. Demonstrava, então, como ultrapassamos os limites da experiência, inferindo de objetos uma causalidade que não pode ser encontrada em nada além de nosso hábito. Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a>, o fato de que podemos repetir experiências, como deslocar uma bola de bilhar ao chocar-se com outra, não quer dizer, entretanto, que possam ser inferidos causa e efeito dos objetos dados. O filósofo nos desafia, então, a encontrar essa conexão e acrescenta, conforme citado por Gerárd Lebrun: “você só poderá, vencido pelo cansaço, invocar sua experiência passada e a de todos os homens. Mas a repetição de alguma experiência já garantiu alguma vez a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta de alguma relação?” (LEBRUN, 2001, p. 9). <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a> mostra, dessa forma, que não podemos concluir a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de uma coisa B a partir de uma coisa A.</p>
<p>O erro que <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a> pretende mostrar é como até então os metafísicos fizeram afirmações com base em ligações que não poderiam ser feitas, quero dizer, colocando nos objetos o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> obtido a partir do hábito e, com isso, fazendo afirmações que ultrapassam o campo da experiência.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a>, segundo <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, “jamais duvidara de que o conceito de causa era exato, prático, indispensável relativamente a todo <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>”, mas “se ele era concebido pela razão a priori e se, deste modo, possuia uma verdade interna independente de toda a experiência” (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 2003, p. 15). Lebrun, por sua vez, afirma que <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a> era “um contrametafísico, e não um crítico da <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>. Desafiava-nos a encontrar entre as coisas uma conexão necessária” (LEBRUN, 2001, p. 12).</p>
<p><strong>. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> e a revolução copernicana</strong></p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, desperto por <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a>, conforme nos diz, percebe o ponto que o escocês pretendia atingir, ainda que ignorado pelos metafísicos dogmáticos de então, e como afirma na introdução de “Prolegômenos a toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> futura”, pretende “convencer todos os que crêem na utilidade de se ocuparem da <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> de que lhes é absolutamente necessário interromper seu trabalho, considerar como inexistente tudo o que se fez até agora e levantar antes de tudo a questão: ‘de se uma coisa como a <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> é simplesmente possível’”. (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 2003, p. 12).</p>
<p>Para avançar em seu pensamento, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> pretende “empreender a mais difícil das suas tarefas”: a “constituição de um tribunal que lhe assegure as pretenções legítimas e, em contrapartida, possa condenar-lhe todas as presunções infundadas (&#8230;) em nome das suas [da razão] leis eternas e imutáveis. Esse tribunal outra coisa não é que a própria Crítica da Razão Pura” (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 2001, A XII). <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> oferece, então, como resposta, sua crítica, uma forma da razão “com respeito a todos os conhecimentos a que pode aspirar, independentemente de toda a experiência; portanto, a solução do problema da possibilidade ou impossibilidade de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> em <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a> e a determinação tanto das suas fontes como da sua extensão e limites; tudo isso, contudo, a partir de princípios” (id., ibid., A XII).</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> passa, então, a “dissipar a ilusão proveniente de um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>-entendido”, aprofundando-se no estudo da razão, buscando estabelecer seus limites, bem como compreender seu funcionamento.</p>
<p>Já no prefácio à segunda edição da Crítica, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> anuncia a revolução que pretende tratar, da inversão que pretende fazer no decorrer da obra: “até hoje admitia-se que o nosso <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> se devia regular pelos objetos; porém todas as tentativas para descobrir a priori, mediante conceitos, algo que ampliasse nosso <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, malogravam-se com esse pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se não se resolverão melhor as tarefas da <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, admitindo que os objetos se deveriam regular pelo nosso <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, o que assim já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de um <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> a priori desses objetos” (id., ibid., B XVI).</p>
<p>Com essa passagem, sem dúvida uma das mais importantes da história da <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> muda o foco, buscando, como Copérnico, conseguir melhores resultados, mudando, dessa forma, o ponto de vista, indicando que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> do juízo não provém do objeto do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, mas que a própria <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> é o que constitui para nós o único sentido concebível da idéia do objeto. Segundo Cassirer, “quien compreenda sobre qué descansa esta necesidad y en qué condiciones constitutivas se funda, habrá conseguido resolver el problema del ser en la medida en que es susceptible de solución desde el punto de vista del conocimiento. (&#8230;) Pues no es la existência de un mundo de cosas lo que hace que exista para nosotros (&#8230;), sino la inversa: es la existencia de juicios incondicionalmente ciertos (&#8230;) la que hace que exista para nosotros uma ordenación de impressiones e ideas, sinto también como una ordenación de objetos” (CASSIRER, 1997, p. 179). Essa mudança de foco não é, portanto, nada menos do que a mudança no pensamento que <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> compara, no prefácio à segunda edição da Crítica, com a revolução no modo de pensar à maneira de Copérnico.</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> crítica kantiana terá por objetivo criticar a própria razão, avaliando quais de suas exigências são justificadas e descartar as pretensões infundadas. Se a <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> funciona de forma que nos obriga a interrogar a natureza, o mesmo deve acontecer em relação à <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>, para que dela possam ser obtidos resultados certos, mantendo-a no caminho da ciência: “no respeitante à certeza, a lei que impus a mim próprio obriga-me a que, nesta ordem de considerações, de modo algum seja permitido emitir opiniões e que tudo o que se pareça com uma hipótese seja mercadoria proibida” (<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">KANT</a>, 2001, A XVI).</p>
<p>Vemos, com essa virada, que embora todo <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> tenha início na experiência, a esta não devemos dar todos os créditos. Conhecimentos oriundos da experiência traduzem-se em conhecimentos sintéticos, quando a eles acrescentamos mais coisas. Não podemos esquecer, nos mostra <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, que ainda existem os juízos analíticos, sempre a priori, que nada nos acrescentam como <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>. Passamos boa parte do tempo analisando conceitos que já possuímos, logo, não estamos criando novos saberes, mas apenas tratando do que já temos.</p>
<p>O que interessa a <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, principalmente, é entender como podem se dar os juízos sintéticos a priori, haja visto que essas sínteses se dão pela faculdade do entendimento, aliada às intuições da sensibilidade.</p>
<p>Os objetos não chegam a nós como são, pois já estão submetidos às condições do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>. Não temos acesso, portanto, à coisa em si, pois não podemos chegar a ela em tais condições. A coisa em si existe como condição dos fenômenos, não sua causa. Podemos pensar a coisa em si, não conhecê-la, pois para isso seria necessário que tivéssemos intuição intelectual. Os objetos se dão como fenômenos, sujeitos às formas a priori da sensibilidade, a saber, espaço e tempo. Sem essas formas não podemos ter a intuição da experiência e tudo o que nos chega através delas é submetido à síntese a priori do entendimento. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> afirma que “todas as tentativas para os pensar [os objetos da experiência] serão, consequentemente, uma magnífica pedra de toque daquilo que consideramos ser a mudança de método na maneira de pensar, a saber, que só conhecemos a priori das coisas o que nós mesmos nela pomos” (id., ibid., B XVIII).</p>
<p>Como vemos, ao lado da sensibilidade temos o entendimento, que nos fornece o conceito, as sínteses. Esses conceitos podem ser empíricos, mas existem também conceitos existentes a priori no entendimento. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> fornece, então, uma espécie de mapa de classificação de juízos, chamado de “tábua das categorias”, que, diferentemente de Aristóteles, são funções do entendimento. Essas funções tratam-se de diferentes pontos de vista, segundo os quais o entendimento sintetiza os dados da intuição, formando o objeto. Sem os dados da intuição sensível, as categorias nada seriam além de formas. O entendimento é limitado ao domínio da sensibilidade.</p>
<p>Acontece, porém, que além da sensibilidade e do entendimento, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> trata da razão, faculdade que <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> dar unidade aos conhecimentos do entendimento. A razão tem como função ligar juízos uns aos outros, portanto não é ligada diretamente à experiência. Quando <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> unificar os conhecimentos, sobe de condição em condição e como é de sua natureza unificá-los, a razão dirige-se também para o incondicionado. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> chama os conceitos da razão “idéias”, das quais não podemos ter um <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, pois que não encontram um conteúdo adequado na experiência e, portanto, não podem ter <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> objetivo, científico, são transcendentes.</p>
<p>O problema, entretanto, é que ao tentar unificar os conhecimentos, a razão, como dito anteriormente, dirige-se ao incondicionado, chegando ao que <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> chama de antinomias. Há duas classes de antinomias: as matemáticas, que representam o contraditório como conciliável em um conceito, e as dinâmicas, que representam como contraditório o que pode ser conciliado, de forma que ambas as afirmações podem ser verdadeiras, corrigindo-se o equivoco que as separa, a saber, a confusão da razão em relação a coisa em si e fenômeno. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> identifica quatro antinomias, contradições da razão consigo mesma, quando especula sobre o mundo em si.</p>
<p>Nem mesmo ao tentar provar a existência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> os argumentos adquirem valor objetivo. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> afirma que a razão humana se convence da existência de um ente necessário qualquer e nele reconhece existência incondicionada para, então, procurar o conceito fora de toda condição, encontrando-o como condição suficiente de todas as outras coisas. Dessa forma, o todo, unidade absoluta, comporta o conceito de um ente único, supremo, que a razão reconhece como fundamento originário de tudo, existente de modo absolutamente necessário. O necessário atrai nossa razão, mas não podemos acreditar que uma regra do pensamento é também uma realidade existente em si.</p>
<p>Se deixarmos de lado a <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> dogmática, não significa que devemos deixar se lado também toda espécie de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>. <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> mostra que é possível admitir, no nível da razão pura, uma outra <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, imanente, cujo objetivo é analisar o espírito e suas categorias. Com isso <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> torna possível, novamente, a existência da <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> não dogmática, diferente daquela atacada por <a href="http://www.transtorno.net/tag/hume/">Hume</a>.</p>
<p>Devemos crer, então, que admitindo a <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> imanente de <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> não poderemos ter acesso ao transcendental? A resposta kantiana é afirmativa, pois acessar o transcendental e fazer dele <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> objetivo é impossível: “o proveito maior e talvez único de toda a <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> da razão pura é, por isso, certamente negativo; é que não serve de organon para alargar os conhecimentos, mas de disciplina para lhe determinar os limites e, em vez de descobrir a verdade, tem apenas o mérito silencioso de impedir os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>” (id, ibid., B 823).</p>
<p>Acredito, a título de conclusão, que dizer que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> da razão pura não serve para alargar os conhecimentos trata-se de um exagero, mesmo que do próprio <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>. Creio que o mérito de tal <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> se encontra, sim, na negatividade, no estabelecimento de limites para a especulação da razão. Podemos pensar a coisa em si, pensar <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, mas não podemos fazer <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> a partir disso. Por outro lado, sabendo os limites de nossa razão, teremos a disciplina, conforme diz <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, para ir até onde devemos e não além, tendo, portanto, certeza do que estamos fazendo, conhecendo e concluindo sem eventuais exageros e afirmações descabidas. Ao tentar impedir <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> dá uma grande contribuição, sem dúvida, mas há muito ainda além disso em sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>. Sou obrigado a crer, por fim, que ao afirmar aquele como sendo único mérito da <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> crítica, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a> estava sendo modesto, ou ainda sutil em sua afirmação, ciente de que a revolução que promovera no modo de pensar era muito grande e demoraria para ser compreendida, pois como diz, “efetivamente, quando o sistema é novo, poucos possuem a argúcia de espírito bastante para dele obter uma visão de conjunto e menos ainda os que encontram nisso prazer, porque todas as inovações os incomodam” (id., ibid., B XLIV).</p>
<p><strong>Referências bibliográficas:</strong><br />
Cassirer, Ernst, <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, vida y doctrina, Bogotá, Fondo de Cultura Económica 1997<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, Immanuel, Prolegômenos a toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> futura, Lisboa, Edições 70, 2003<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, Immanuel, Crítica da razão pura, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2001<br />
Lebrun, Gérard, Sobre <a href="http://www.transtorno.net/tag/kant/">Kant</a>, São Paulo, Iluminuras, 2001</p>

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		<title>O melhor dos mundos</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Mar 2008 05:22:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Estou aqui, pensando aos ventos, leme solto e sem rumo, como tanta coisa tem sido. Já planejei tanto e nada deu certo. Ouvi dizer que quando fazemos planos, Deus gargalha. Acho que a frase era essa, mas se não for faz sentido do mesmo jeito. Para Leibniz, este é o melhor dos mundos, o melhor [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou aqui, pensando aos ventos, leme solto e sem rumo, como tanta coisa tem sido. Já planejei tanto e nada deu certo. Ouvi dizer que quando fazemos planos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> gargalha. Acho que a frase era essa, mas se não for faz sentido do mesmo jeito.</p>
<p>Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, este é o melhor dos mundos, o melhor mundo escolhido por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> dentre as possibilidades, tendo visto toda a sequência do universo, e ainda assim, no entanto, somos livres. Como podemos ser livres se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> sabe o que faremos, então? Minha leitura me leva a crer que somos livres por ignorarmos o próximo instante. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> sabe o que faremos, nós não. Temos livre arbítrio, faremos nossa melhor escolha, por pior que seja. Volto às gargalhadas divinas, então&#8230;</p>
<p>Planejei tanta coisa, escrevi tantos sonhos, vi a mim mesmo fazendo coisas que jamais fiz, disse a outros que faria outras tantas que jamais farei. Algumas se tornaram reais, outras, não. Faço muitas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e muitas não se realizam, outras tantas dão errado e, por fim, algumas se tornam reais.</p>
<p>Não posso montar um padrão, ver a matemática dos resultados. Creio que exista, mas não posso vê-la. Acho que conhecer esse padrão seria ver a máquina do mundo, como em os Lusíadas, mas não tenho esse poder. Não sei se dentre X tentativas, Y irão funcionar. Não sei, também, qual o esforço mínimo e máximo deve ser dedicado. Já ouvi dizer &#8211; e disse algumas vezes também &#8211; que quem quer algo, vai atrás, se esforça. É verdade, acho, mas nem sempre funciona. Já me esforcei por coisas que deram em nada, já consegui outras sem esforço algum.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> gargalha? Não sei, não faz diferença. O fato é que deveria estar dormindo a essa hora. Me deitei tarde, mas com o objetivo de dormir. Daqui algumas horas estarei trabalhando novamente. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/insonia/">insônia</a> é que me mantém aqui, escrevendo. Não era parte dos meus planos. Talvez seja parte do melhor dos mundos: me faz pensar. Só não sei ainda em que.</p>

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		<title>Liberdade humana e liberdade divina: contingência ou necessidade?</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Sep 2007 01:55:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Este trabalho tem por objetivo analisar a liberdade humana e a liberdade divina em relação às necessidades absoluta e hipotética e à contingência, focando tanto na questão da liberdade divina durante a criação e suas escolhas de acordo com os decretos livres de Deus, bem como na liberdade humana, tanto sob o ponto de vista [...]


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			<content:encoded><![CDATA[<p>Este trabalho tem por objetivo analisar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana e a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina em relação às necessidades absoluta e hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> e à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, focando tanto na questão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina durante a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de acordo com os decretos livres de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, bem como na <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, tanto sob o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> como do divino, buscando respostas para algumas questões que se seguem, das quais ressalto a que me parece mais intrigante: como a certeza divina de que algo irá acontecer é compatível com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> das <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> humanas?</p>
<p><strong>. <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">Contingência</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a></strong></p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é assegurada pelos livres decretos, garantindo a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> a escolha do melhor dos mundos. Ao criá-lo vê a série inteira do universo, as ações e suas causas determinadas. Vale notar que todas as causas são determinadas, como demonstra <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, haja visto que se fossem indeterminadas seria impossível até mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> prevê-las, assim como não existiria sentido para as mesmas.</p>
<p>Os humanos, por outro lado, não têm essa garantia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana é dada pela bondade divina, sendo, portanto, parte do melhor dos mundos, e é exercida perante as contingências, de forma que as ações humanas não podem ser e ter <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta, mas apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, ou seja, as ações humanas poderiam ser de outra forma, sem implicar contradição, como implicaria, por exemplo, pensarmos um quadrado sem quatro ângulos retos. As ações de um homem específico poderiam ser de outra forma, mas não são pelo fato de que se fossem implicariam em outro homem, em outro mundo possível.</p>
<p>Antes de prosseguirmos, creio ser necessário recorrer brevemente ao parágrafo XIII do “Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>”, em que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> expõe a diferença entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, isto é, <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>Começando pelo final do parágrafo, vê-se que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> chama a atenção para o fato de que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu criar o melhor mundo possível por um decreto, que estabelece criar o sempre o mais perfeito. Ao fazer essa escolha, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> mostra que poderia ter seguido outro caminho, criando um mundo imperfeito. É da perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolher criar o melhor dos mundos, portanto. É uma prova de sua bondade. Dentre os decretos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> está também o decreto sobre a natureza humana, que determina que o homem fará, embora livremente, sempre o que lhe parecer melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito, dotado de total <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, opta, então, por criar o melhor mundo possível, o mais perfeito, o que não implica que outros pudessem ser criados.</p>
<p>Pensar na impossibilidade de outros mundos seria, novamente, pensar a imperfeição divina e, por conseqüência, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, beirando o espinosismo. Seria a negação de qualquer forma de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, tanto divina quanto humana. Não poderia ser diferente: pensarmos <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> seria pensá-lo imperfeito e, por conseqüência, criador de um mundo que não seria o melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito só pode ser pensado se concedermos <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> total. Note-se que não há contradição alguma em pensarmos um outro mundo possível, pelo contrário. A possibilidade de outros mundos passa a ser um indicativo de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, em oposição à <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>. Não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta de este mundo ser como o é e não de outra forma, apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Clarke, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma mais uma vez que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu dentre possibilidades e que negá-las seria contra a hipótese, afirmando ainda que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolhe dentre possíveis, dos quais nenhum implica em contradição, quer dizer, de todas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> divinas, nenhuma cria a impossibilidade absoluta de outras. E continua: “but to say that God can only choose what’s best, and to infer from this that what he does not choose is impossible, this, I say, is confounding of terms; it is blending power and will, metaphysical necessity and <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> necessity, essences and existences” (CLARKE &amp; <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, 2000, p. 37).</p>
<p>Sob a ótica divina, a melhor escolha é feita pela perfeição, enquanto que para as criaturas é feita com o que lhes parece melhor, sem que isso impeça o menos perfeito de ser possível, ou seja, a melhor escolha é feita pois parece melhor às criaturas, mas uma outra, oposta, não é impossível, mas rejeitada pela imperfeição.</p>
<p>Dessa forma vemos que o oposto é possível, não necessário. Como dito anteriormente, mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> que faz não tornam seu oposto um absurdo. Essas contingências têm sua razão de ser. Essas contingências fizeram que as coisas fossem como fossem. Como existirmos, por exemplo. E necessário ex hyphotesi existirmos hoje, pois uma série de ações, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre contingências, nos trouxe aqui, mas é perfeitamente possível pensar uma outra forma, uma situação completamente diversa, em que não existíssemos. Seria menos perfeito, talvez, mas não impossível, enquanto que o necessário, o absolutamente necessário, fundado no princípio de contradição ou mesmo em sua essência, independe de qualquer <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, seja ela divina ou das criaturas, de forma que nem mesmo <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> pode pensar um triângulo com quatro lados. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> tem o poder para aniquilá-lo, mas não para fazer dele uma coisa diversa. Transformar sua essência seria destruí-lo. As contingências baseiam-se em <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre possibilidades, mas não podemos, como explicado, escolher um triângulo com quatro lados, posto que sua natureza ou essência o impede de ser assim.</p>
<p>Uma vez colocadas as questões da <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> e da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, devo então me aprofundar no problema da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, apontado anteriormente e de total importância para o questionamento que se seguirá. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> possa prever os futuros contingentes, isso não os torna necessários absolutamente, mas os torna certos. É certo, não necessário, que Adão será criado, irá pecar e terá filhos. É perfeitamente possível pensarmos em alternativas para Adão, não há contradição alguma nisso, embora essas alternativas impliquem também em outros mundos possíveis que não este.</p>
<p>O fato de tomarmos certas decisões e fazermos certas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> faz parte de nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é onisciente dessas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> quando escolhe este mundo em detrimento aos demais possíveis. Se pensarmos a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> em relação à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, porque estes humanos e não aqueles, veremos que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> faz sua escolha com base no que vê nas nossas: vê-nos agindo, vê a seqüência do universo, e nos escolhe com base nisso. O fato de que essas coisas venham a ocorrer posteriormente, cada uma a seu tempo, se dá devido à permissão divina, não por sua escolha, quero dizer, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos escolhe, mas não escolhe por nós. A escolha divina se dá somente no momento da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, dando lugar à escolha humana posteriormente.</p>
<p>Como bem lembra Tessa Moura Lacerda em seu livro “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>”, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que “Adão se determinou a pecar de acordo com certas inclinações que prevaleceram, mas essa determinação não destrói nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>” (LACERDA, 2005, p. 125).</p>
<p>A capacidade humana de refletir sobre suas ações, argumenta Tessa, tem um papel, senão o principal, para pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> dos homens. Ora, é essa mesma capacidade de reflexão que atribuída a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos mostra, em certo grau, suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e reflexões para tomar a decisão sobre esta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e não outra. Uma vez tomada a decisão desta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a>. Qualquer mudança feita por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> após a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> implicaria em arrependimento e, por conseqüência, em Sua imperfeição. Aqui se apresenta, então, um ponto claro da diferença entre a reflexão divina, não afetada por paixões, e a humana.</p>
<p>A reflexão sobre os atos é, portanto, o reconhecimento das ações é também reconhecer-se como agente e, com isso, assumir responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> sobre elas. Tessa, citando <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, indica novamente o caminho: “a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> (&#8230;) consiste na inteligência, que envolve um <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> distinto do objeto da deliberação” (LACERDA, 2005, p. 127).</p>
<p>Para que haja <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, ou seja, como já dito anteriormente, ela tem de ser possível e não implicar contradição. Qualquer acontecimento desse tipo é contingente, mas não sem sentido, posto que há razão para sua existência. Essa escolha, essa razão, é <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e sua conseqüência é necessária, embora não necessária absolutamente. Temos a impressão de <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, mas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>, quando observadas, provam que seus opostos podem existir, o que não pode acontecer para o que é necessário por natureza.</p>
<p>Suponho que com base nessa reflexão, nessa razão <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, é que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decide criar o melhor dos mundos, firmando seu primeiro decreto, dando mostra de sua perfeição e de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, conforme apontado anteriormente, afastando então a possibilidade de uma existência trágica. A bondade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é, com isso, também demonstrada, pois podemos pensar, então, que os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> humanos, que a possibilidade de aprendizado a partir dessas falhas, faz parte do melhor dos mundos e que o melhor segundo nosso ponto de vista não é o melhor para Deus: se pensarmos, por exemplo, um mundo onde ninguém erra e todos são perfeitos e não tem nada a aprender, onde a evolução atingiu o ponto máximo, estaremos pensando, portanto, um mundo sem sentido, imperfeito por conseqüência.</p>
<p>Para os humanos, a cadeia de causas de acontecimentos é indemonstrável, mas podemos ter certeza de que nada que tenha acontecido em um momento qualquer foi necessário metafisicamente e que o acontecimento seguinte é necessário somente em relação ao anterior, ou seja, hipoteticamente, pois de fato poderia ser diferente, caso o anterior também o fosse. Nisso vemos onde entra a deliberação sobre nossas ações, o julgamento, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> que assumimos perante eles, mudando o próximo de acordo com o anterior, fazendo com que a cadeia de acontecimentos siga um rumo de acordo com nosso aprendizado, como veremos a seguir.</p>
<p>O princípio do melhor rege também as inclinações da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Como dito anteriormente, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decreta também que o homem busque o bem, o melhor. O espírito tende, então, para o lado que parece ter maior bem e, com isso, mesmo os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> que se cometem, mesmo as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> consideradas erradas, são as melhores possíveis naquele momento, quando foram tomadas, pois os humanos podem se enganar escolhendo um bem aparente no lugar do melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> determina que o homem busque o melhor, tenda para o bem, mas dessa forma há uma dupla inclinação, sendo a outra a inclinação da alma com relação à causa próxima.</p>
<p>Assim como atravessar o Rubicão está contido na idéia de César, tudo o mais, todas as suas decisões e ações também estão, assim como para qualquer outra pessoa: “os homens encontram em si mesmos as razões que determinam suas ações” (LACERDA, 2005, p. 129), na alma, princípio de suas ações e paixões.</p>
<p>Queremos o que nos agrada, mas como nem sempre temos distinção, esse agrado pode ser um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, um bem menor (LACERDA, 2005, p. 137). Embora às vezes não façamos uso de nossa razão, não deixamos por isso de tê-la e isso não quer dizer, portanto, que não possamos fazer <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> livres.</p>
<p>Essas percepções confusas, que impedem o julgamento do entendimento, paixões que afetam o julgamento inconscientemente, impedem-nos, às vezes, de entender as razões de nossos instintos. Embora tenhamos em vista o bem, tendemos a fazer coisas cujo julgamento não é claro, segundo as inclinações da alma, sem percebermos. Vemos, com isso, como a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> pode contribuir com nosso julgamento, desviando nossa atenção.</p>
<p>Para um homem conhecer totalmente sua natureza, conforme citação da Teodicéia no livro de Tessa Lacerda, “seria preciso que ela [a alma] conhecesse perfeitamente todo o universo que está envolvido nela, ou seja, que ela fosse <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>” (LACERDA, 2005, p. 139).</p>
<p>Não é porque nos enganamos ou porque nos deixamos levar por tendências que não são claras que deixamos de ser livres. Não deixamos de ter a possibilidade de reflexão, que pode ser usada para orientar nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, o que caracteriza uma ação livre, a responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do homem, é a “possibilidade de buscar razões ou inclinações sobre seus desejos, a potencialidade de refletir sobre suas ações e influenciar pela razão os desejos futuros” (LACERDA, 2005, p. 140). A reflexão sobre uma ação a transforma em ação <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e quanto maior o uso do julgamento sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, maior o uso da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Arnauld, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz que ao escolher Adão, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolhe um Adão “vago”, mas também tudo o que será, também a sua posteridade. Tudo o que se segue dai tem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipotética: <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu o melhor Adão dentre outros possíveis. O ponto, entretanto, é que ao escolher a este Adão e não a outro, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não pode privar-lhe da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é livre ao escolher Adão e todos os seus descendentes, ao escolher Adão com estas inclinações e não outras, ao escolher o Adão que irá pecar e não outro. A questão que se coloca, então é se Adão é livre tendo sido escolhido pelo que é potencialmente, pelo que se sabia a seu respeito. Adão é livre mesmo que suas ações sejam certas, embora não sejam necessárias? Como alerta Arnauld em uma de suas cartas, o Adão possível escolhido ligou-se à mesma posteridade do Adão criado.</p>
<p><strong>. Conclusão</strong></p>
<p>O que sustento, seguindo <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> de perto, é que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> é livre em suas almas e deliberações. Não me parece, contudo, que sejam livres de acordo com a onisciência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, o qual a escolheu de uma forma e não outra. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, assim, sabia o que viria a acontecer: viu a seqüência do universo de fora do tempo, e assim foram feitas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>. Do ponto de vista lógico, as ações não são necessárias, e do ponto de vista divino elas não são necessárias, mas certas. O Adão possível tornou-se o Adão criado, como disse Arnauld, e é livre, concluímos, somente enquanto não conhece suas ações futuras, como <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> as conhece, e pode deliberar sobre elas, embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> já as tenha previsto. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não faça as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> pelos homens, me parece que, em certo nível, Sua escolha pelo melhor mundo possível já as fez.</p>
<p>Todo o universo está contido na noção de Adão, o mundo de acordo com seu ponto de vista está lá. <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz em sua correspondência com Arnauld, como citei anteriormente, que os eventos não são necessários, mas certos e exemplifica “é verdadeiro que poderia não fazer aquela viagem, mas é certo que farei”.</p>
<p>Embora a <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> espinosana seja muito diferente do que vejo aqui, tendo a perceber que se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> foi livre para escolher o mundo perfeito dentre as opções possíveis, somos livres também para escolher e agir de acordo com as opções que nos são apresentadas, mas somente de acordo com o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, ponto de vista de quem não sabe quais serão os próximos passos, de quem os teme e delibera para escolher o melhor a ser feito, enquanto que de acordo com a visão divina, tendo nos escolhido pelo certo – não pelo necessário – sejamos todos personagens de uma história cujo final é conhecido pelo criador, não por nós.</p>
<p>A despeito da forte afirmação, somos aqui levados a perceber que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> que possuímos está na ignorância do porvir, está apenas nas decisões que tomamos ignorando o que faremos a seguir, ou tendo apenas uma vaga idéia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> está, desse modo, em nossa responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, nas decisões que assumimos, em nossos atos. Pergunto-me, então, sabendo que tal questão não deve ser tratada com superficialidade, se a onisciência divina e a escolha pelo melhor dos mundos não é, em si, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> humana, como Édipo, por exemplo, fugindo de seu destino, ignorando que a própria fuga o levará de encontro a ele.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong><br />
CLARKE S., <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Correspondence, Indianapolis, Hackett, 2000<br />
LACERDA, T., A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, São Paulo, Humanitas, 2005<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> e outros textos, São Paulo, Martins Fontes, 2004</p>

<p>Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/12/natureza-liberdade-espinosa/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Natureza e liberdade em Espinosa'>Natureza e liberdade em Espinosa</a></li>
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<li><a href='http://www.transtorno.net/2008/03/o-melhor-dos-mundos/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O melhor dos mundos'>O melhor dos mundos</a></li>
</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Tudo que é, é bom&#8221;</title>
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		<pubDate>Wed, 05 May 2004 01:50:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[cada uma das criaturas em particular era boa, mas, tomadas em conjunto, eram muito boas - Santo Agostinho, Confissões, XIII, XXVIII, 43 Em suas Confissões, Agostinho nos diz que pensar o mundo dividido, como um embate entre bem e mal, é também pensar um Deus imperfeito, menor, e não o verdadeiro Deus. Vemos, então, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>cada uma das criaturas em particular era boa, mas, tomadas em conjunto, eram muito boas<br />
- <a href="http://www.transtorno.net/tag/santo-agostinho/">Santo Agostinho</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a>, XIII, XXVIII, 43</p></blockquote>
<p>Em suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a>, Agostinho nos diz que pensar o mundo dividido, como um embate entre bem e <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, é também pensar um <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> imperfeito, menor, e não o verdadeiro <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>. Vemos, então, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não poderia, de forma alguma, ter criado um mundo imperfeito e que por isso, embora não tenhamos distanciamento suficiente para ver, o mundo é bom. Pensar que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> possa existir como tal, ou na matéria usada na <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, ou em qualquer outro lugar, seria também pensar que o Criador foi impotente para eliminá-lo ou ainda numa visão maniqueísta, que coexistia com ele, e agir dessa forma é diminuir a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Para Agostinho não existe o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, que, como afirmam os maniqueus, contrasta com o bem absoluto, resultando no &#8220;mundo como um embate entre duas forças&#8221; do qual o homem seria &#8220;expressão desse combate&#8221; (NOVAES, 2000, p.59): fora da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> nada existe que possa corromper a ordem estabelecida por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou seja, não pode haver o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> lutando contra o bem da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>. Existem coisas consideradas ruins por não estarem em conformidade com as demais, mas que isoladamente podem ser consideradas boas. Como não podemos ter uma visão do todo, temos uma visão das partes, com suas imperfeições. Se pudéssemos ver com distanciamento, teríamos então um panorama da perfeição da <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a>, de seu todo. &#8220;Eu já não podia desejar nada melhor, pois, refletindo de modo mais sensato a respeito disso tudo, compreendia que se as criaturas superiores são melhores que as inferiores, o conjunto de todas é ainda melhor&#8221; (AGOSTINHO, 1997, p. 193).</p>
<p>Para ele, a própria definição de bom é &#8220;ser&#8221; enquanto que a definição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> é &#8220;não-ser&#8221;. Assim sendo, tudo o que tem ser, tudo que é, é bom, pois do contrário não teria ser e nada mais seria. Com isso Agostinho elimina a possibilidade dualista do <a href="http://www.transtorno.net/tag/maniqueismo/">maniqueísmo</a>, pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, expresso dessa forma, não mais existe na <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>. As criaturas, mesmo diferindo de seu Criador, são semelhantes a Ele, &#8220;vestígios dele&#8221; (NOVAES, 2000, p.64) e, dessa forma, tudo que existe é bom.</p>
<p>Existe, embora em outro sentido, a possibilidade de dizer que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> existe e em suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a>, livro I, capítulo XII, Agostinho nos indica o caminho ao afirmar que &#8220;estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu próprio castigo&#8221;, mais à frente, já no livro III, capítulo VII, &#8220;eu não sabia que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> é apenas privação do bem, privação esta que chega ao nada absoluto&#8221;, e no capítulo VIII: &#8220;é de fato uma violação do vínculo que deve existir entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> e nós, o profanar, pelas paixões depravadas, a própria natureza de que ele é autor&#8221;.</p>
<p>Agostinho toca nesse ponto, mais uma vez, no livro V, capítulo X, ao confessar que &#8220;conservava ainda a idéia de que não éramos nós que pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> e de não dever confessar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> após tê-lo cometido satisfazia meu orgulho; desse modo eu não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti preferindo desculpá-la e acusar não sei qual outra força, que estava em mim, mas que não era eu. (&#8230;) Pecado ainda mais grave era o de não me considerar pecador, e execrável iniqüidade era preferir que tu, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> onipotente, fosses vencido em mim para minha ruína&#8221;. Já no livro VII, capítulo IV, Agostinho confessa ter descoberto que o que é incorruptível é melhor que o corruptível e, assim, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> só poderia ser da primeira forma e que, a partir daí, tendo descoberto isso, deveria ter procurado a origem da corrupção, onde está o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, tendo em vista que estar sujeito à corrupção não é um bem.</p>
<p>Crer, como faziam os maniqueus, no <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, desloca para fora de nós o problema, atribuindo a algo diverso a origem do <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>. Desfeita a confusão e eliminada essa idéia, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> passa a ser então a &#8220;negação de movimento, que ofende e contraria a natureza dela mesma, <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>&#8221; (NOVAES, 2000, p.72). Conhecemos o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> na exata medida de nossa maldade, conhecemos o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> quando nossos órgãos de percepção estão alterados. Se apontarmos, como faziam, para um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, pensaremos também em seu oposto, num <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> que combate o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> fazendo o bem, mas este <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> seria um ídolo, não o verdadeiro <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, que é. Se eliminarmos o ídolo e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, restará apenas uma causa do mal: nós, o uso perverso de nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, afastada de sua vocação natural de procura em direção a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Ao contrário dos maniqueus, Agostinho não <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> o corpo pelo <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, pela perversão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Para Agostinho, o corpo é instrumento: quem vê, tateia, cheira, sente as coisas e se alimenta é a alma. Temos, no entanto, disposição à aquisição de hábitos carnais, nossa &#8220;segunda natureza&#8221;, mas o fato de serem hábitos e, como tal, adquiridos, permite que sejam mudados. Com isso vemos também que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> só é má quando não aceitamos que somos nós a causa do mal: a escolha em meio à neutralidade é o que garante a existência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. A natureza continua garantida, a condição, não. Só os homens podem se colocar numa condição diversa de sua natureza: &#8220;Ao eleger-se como seu próprio fim, e esquecer o bem supremo como fim último de sua natureza, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> pervertida suprime o dinamismo natural de tal forma que se vê impossibilitada por si mesma de restaurar sua natureza livre. (&#8230;) Nesse sentido, podemos falar em perversão da vontade: uma paradoxal decisão voluntária de deixar de ser <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>&#8221; (id. ibid., p.72).</p>
<p>Cabe ressaltar, entretanto, que algo degradável/degradado tem ainda algo de bom, pois se nada tivesse de bom, também não teria ser e, assim sendo, não mais existiria. Logo, se algo é passível de corrupção é porque ainda tem algo de bom, pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> é ausência de ser, não podendo existir nem para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nem para a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, pois privação de ser é privação da existência. Para Agostinho, nossa razão não é degradável, mas pode ser obscurecida e, se esclarecida, será eterna e imutável. Essa razão eterna e imutável não mais seria nossa razão, mas a própria razão operando em nós.</p>
<p>Ao criticar o dualismo maniqueísta, Agostinho deixa claro que essa diminuição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> pode ser pensada até ingenuamente, ao afirmar quem, quando maniqueu, se recusava a considerar como <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> as coisas que o desagradavam. Procedendo dessa forma, Agostinho deixava aberta a possibilidade de pensar um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto e, com ele, um <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> menor e mostra que resta, dependendo da forma como se nega essa idéia, o perigo de transformar <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> em um ídolo: &#8220;E procurando o que era a iniqüidade compreendi que ela não é uma substância existente em si, mas a perversão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> que, ao afastar-se do Ser supremo, que és tu, ó <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente&#8221; (AGOSTINHO, 1997, p.195)</p>
<p>Quando diz que &#8220;não tinha uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> plena, nem decidida falta de <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. (&#8230;) Essa divisão se produzia contra minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, embora isso não demonstrasse a existência em mim de outra alma, e sim o castigo de minha própria alma&#8221; (id. ibid., p.225), Agostinho dá exemplo de que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, nesse caso, é causado pelo conflito de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> consigo mesma, tendo em vista que o conflito o impede de seguir seu curso natural, sua ordenação, em direção ao Criador. Sobre isso cabe lembrar o que diz Moacyr Novaes em seu artigo &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">Vontade</a> e contravontade&#8221;: &#8220;O livre-arbítrio da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> não é apenas um entre outros movimentos; é justamente através dele, na verdade, que o homem é mais que vestígio, através dele o homem é imagem de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>&#8221;. O <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, aqui, decorre do fato de que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> se move em direção oposta à do Criador, quando em conflito na razão. Essa negação de caminhar em direção ao seu lugar natural, essa aversão, é a perversão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>. Ao aspirar não ter mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, a se satisfazer consigo mesmo, o homem cria o conflito, negando sua natureza livre.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas:</strong><br />
Agostinho, S., <em><a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a></em>, Paulus, 1997<br />
Novaes, M., <em>&#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">Vontade</a> e contravontade&#8221;</em>, O avesso da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, Cia. das Letras, 2000</p>]]></content:encoded>
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		<title>Progresso: tragédia ou esperança distante?</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jan 2003 01:41:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;As narrações feitas para a cena são mais ordenadas e elegantes e aprazem mais que as verdadeiras narrações tomadas da história&#8221; - Francis Bacon &#8211; Novum Organum (Livro I, LXII) O presente trabalho tem por objetivo examinar o Progresso a partir de Bacon, Voltaire e Rousseau. O documento enfoca a relação entre o progresso tecnológico [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>&#8220;As narrações feitas para a cena são mais ordenadas e elegantes e aprazem mais que as verdadeiras narrações tomadas da história&#8221;</p></blockquote>
<p>- Francis <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> &#8211; Novum Organum (Livro I, LXII)</p>
<p>O presente trabalho tem por objetivo examinar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">Progresso</a> a partir de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/voltaire/">Voltaire</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>. O documento enfoca a relação entre o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> tecnológico e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, em resposta à proposta apresentada na frase de Campanella, &#8220;Há mais história em 100 anos do que teve o mundo em cinco milênios&#8221;.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> crê, conforme cita Paulo Rossi em &#8220;Naufrágios sem espectador&#8221; que &#8220;seria vergonhoso para os homens se, após ter revelado e ilustrado o aspecto do orbe material, isto é, das terras, dos mares, dos astros, os confins do orbe intelectual permanecessem dentro dos limites restritos das descobertas dos antigos&#8221; (ROSSI, 1996, p. 62). Parece-me, porém, que embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> tenha percebido o problema em questão, não tenha, no entanto, deixado uma alternativa tão clara para solucioná-lo.</p>
<p>O fato, porém, é que se há mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> em 100 anos, ou mesmo nas quatro épocas de que fala <a href="http://www.transtorno.net/tag/voltaire/">Voltaire</a>, temos um novo problema: a relação entre as tecnologias e o espírito humano, pois percebemos que o tempo necessário para <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a> no espírito e nas tecnologias não é o mesmo, exigindo, portanto, métodos de trabalho diferentes, embora não desarticulados. Temos que levar em conta também que aqueles cinco milênios podem ter sido, como disse J.G. Herder, em Também uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> da história para a formação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, &#8220;uma idade heróica de um tempo de patriarcas, para que nos remotos antepassados de toda a posteridade se tenham podido constituir e implantar para sempre as primeiras formas próprias do gênero humano&#8221; (HERDER, 1995, p. 8). Estes 100 anos não teriam existido sem uma estrutura anterior e podem, por sua vez, vir a enfraquecer o espírito, ameaçando assim a continuidade de si, do próprio <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a>.</p>
<p>Ainda segundo Herder, &#8220;O egípcio não teria sido egípcio sem o ensino ministrado à criança no Oriente e o grego não teria chegado a ser grego sem a aplicação escolar dos egípcios. A repugnância dos que vêm depois só mostra que houve <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a>, progressão, que se foram subindo os degraus da escada!&#8221; (id., ibid., p. 20) e continua depois, falando sobre os fenícios, &#8220;decerto que este estado que agora surgia quase não tinha pontos de contato com a vida pastoril do Oriente. Desapareceram o sentimento da família, a religião e o prazer calmo da vida do campo&#8221; (id., ibid., p. 24). Quando o espírito tem uma estrutura firme que lhe sirva de base, há uma relação viva entre ele e aquela, sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Quando esta relação se enfraquece, distanciando-se da vida prática tanto do indivíduo quanto do grupo, ela é escrita para que dela se lembrem. As leis são escritas para que a influência de outras leis, outros costumes, não as apague, causando então um conflito entre os particulares e o universal. Há aqui uma concordância com <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> na existência do <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> e na dívida para com os antigos, levando em consideração, porém, que nem todas as idéias precisam e devem ser substituídas, questionando a realidade-qualidade da ruptura: &#8220;será possível que debaixo da tenda do patriarca, onde reinavam exclusivamente o respeito, o exemplo, a autoridade, fosse o medo &#8211; na estreiteza do vocabulário da nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> &#8211; a mola propulsora da governação?&#8221; (id., ibid., p. 12).</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> nos diz no prefácio do Novus Organum que &#8220;resta, como única salvação, reempreender-se inteiramente a cura da mente&#8221; (id., ibid., p. 12) e continua no aforismo XXXI, Livro I, &#8220;vão seria esperar-se grande aumento nas ciências pela superposição ou pelo enxerto do novo sobre o velho. É preciso que se faça uma restauração da empresa a partir do âmago de suas fundações, se não se quiser girar perpetuamente em círculos, com magro e quase desprezível <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>&#8221; (id., ibid., p. 25). Deste modo é preciso ter o processo bem claro em mente, ou corre-se o risco de confundir tecnologia com a estrutura <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do espírito humano, substituindo esta a cada vez que a primeira é atualizada, adaptando a natureza humana ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> tecnológico, tornando-a escrava e colocando-a em movimento num ritmo que não é seu.</p>
<p>As tecnologias são atualizadas rapidamente, tornando necessária a correção de problemas antes inexistentes que darão lugar a outros, novos, que surgem em decorrência do ritmo frenético com que novas ferramentas são criadas. As tecnologias são substituídas por outras novas antes mesmo de terem sido assimiladas. O espírito humano não acompanha esse ritmo e se tentar acompanhá-lo perderá sua capacidade criativa, bem como sua estrutura <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> que se enfraquecerá, esquecida. Tornar-se-á apenas uma máquina de assimilação, vindo a frustrar-se por sua incapacidade e, ou deixará de pensar no problema tornando-se mecânico ou perceberá a grandeza da miséria que dele se apossa, acordando então por sobre o <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">abismo</a> que surgiu entre seu espírito e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> tecnológico do mundo. Claro que poderão dizer que esse <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> irá puxar consigo o espírito humano, facilitando seu aprendizado enquanto o adapta para mais coisas. Mas que coisas seriam essas? Tecnologias? Adaptação para a adaptação a novas tecnologias?</p>
<p>Não podemos, contudo, culpar a tecnologia por isso, pois como escreve <a href="http://www.transtorno.net/tag/santo-agostinho/">Santo Agostinho</a> em A Cidade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, &#8220;as naturezas também desagradam aos homens, porque não as consideram em si, mas em sua utilidade&#8221; (AGOSTINHO, 1990, p. 65). No aforismo XLII do Livro I, <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> parece prever, em parte, algumas idéias de <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>, no que se refere à possibilidade dos homens serem corrompidos pela educação, leitura e contato com os demais: &#8220;Os ídolos da caverna são os homens enquanto indivíduos. Pois, cada um &#8211; além das aberrações próprias da natureza humana em <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a> &#8211; tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz da natureza: seja devido à natureza própria e singular de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros; seja pela leitura dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/"><a href="http://www.transtorno.net/livros/">livros</a></a> ou pela autoridade daqueles que se respeitam e admiram&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">BACON</a>, 1973, p. 27). Neste sentido, <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> rompe também com a idéia agostiniana da &#8220;má <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>&#8221; quando fala em &#8220;aberrações próprias da natureza humana&#8221;. É necessário identificar o ponto onde a luz está sendo corrompida e mesmo identificar se aquelas &#8220;aberrações&#8221; não são uma contradição à sua própria <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>.</p>
<p>Chegamos, com isso, à questão da revolução: parece-me que o conceito de revolução, no sentido planetário, funcionaria aqui como um retorno, determinando um novo início, um marco para que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> do espírito possa acompanhar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> tecnológico e, a partir dai, outras revoluções não seriam possíveis para &#8220;não girar perpetuamente em círculos&#8221;. As <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a> do espírito por princípio devem ter sido separadas da tecnologia, pois embora devam acompanhar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> tecnológico, nada indica que seja ao mesmo tempo, de forma que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> continuaria de forma cíclica ou linear, ou ambas, coexistindo. Cabe perguntar se seria possível que tivéssemos aqui incluída alguma <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> atemporal: parece-me que sim, posto que o próprio <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>, uma vez instaurado, torna-se, enquanto movimento, atemporal. Resta então perguntar &#8211; e talvez esta pergunta tivesse de vir antes &#8211; qual a possibilidade real de uma revolução como esta e qual a sua relação com a utopia da Nova Atlântida.</p>
<p>No caso de uma revolução, como determinaríamos os valores/idéias que seguirão dai? Não me parece que esta revolução possa ser universal sem o entendimento claro do que é natural, pois como observa <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> no aforismo XLI &#8220;é falsa a asserção de que os sentidos do homem são a medida das coisas&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">BACON</a>, 1973, pg. 27) e no aforismo XXII &#8220;tanto uma como a outra via partem dos sentidos e das coisas particulares e terminam nas formulações da mais elevada generalidade&#8221; (id., ibid., p. 23). Fica claro que a proposta de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a> é, nesse sentido, a de uma revolução de caráter cristão, de conotação praticamente religiosa, e como tal, inquestionável para os que nele tem fé, pois só assim teria a universalidade necessária para se aproximar de sua utopia.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a> nos diz que &#8220;somente são verdadeiras aquelas reflexões sobre o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> que mergulham nele sem deixar de manter distância&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">ADORNO</a>, 1992, 27, p. 218) e, no mesmo artigo, mais à frente &#8220;tampouco cabe uma idéia de <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> sem a de <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>&#8221; (id., ibid., p. 219). Se pensarmos na relação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> com o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> nos cem anos de história de que fala Campanella, dificilmente chegaríamos a um resultado positivo. Não falo apenas dos eventuais prejuízos causados à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> daquele período, mas também de prejuízos que chegam aos dias de hoje. Os acidentes da tecnologia colaboram para o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>, criando formas de evitar novos desastres. Os acidentes das idéias nos tornam ainda mais miseráveis.</p>
<p>Temos ainda de ver que a ação do grupo social catalisou a ação da miséria espiritual, independente da possibilidade da natureza humana ser boa ou má, pois o enfraquecimento da forte estruturação dos primeiros milênios alterou a forma como se deu o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> e com isso aceitamos que no início a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> teve <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a>, lento e estruturado: sem aquele o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> sequer teria existido. Tanto a teoria agostiniana da má <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> quanto a má natureza do homem ou a ação negativa da sociedade teriam o mesmo efeito devastador ao longo dos tempos, pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> agiria, em todos os casos, como catalisador. Contudo, em Agostinho, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> já está dividida pela providência e não seria necessário <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> para <a href="http://www.transtorno.net/tag/despertar/">despertar</a> sua má <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, pois, não fosse este, outra coisa seria.</p>
<p>Quanto às artes me parece haver um problema maior e <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a> comenta, sabiamente citando Sócrates, em seu &#8220;Discurso sobre as ciências e as artes&#8221;: &#8220;não sabemos, nem os sofistas, nem os poetas, nem os oradores, nem os artistas, nem eu, o que é a verdade, o bom, o belo. Mas há entre nós uma diferença: é que conquanto essas pessoas nada saibam, todas elas acreditam saber algo. Ao passo que eu, se nada sei, não tenho dúvida disso&#8221; (<a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">ROUSSEAU</a>, 1999, p. 20). A ausência de estrutura de <a href="http://www.transtorno.net/tag/desenvolvimento/">desenvolvimento</a> causa esse tipo de problema: se na época de Sócrates os artistas nada sabiam, podemos nós imaginar quantos pensavam saber nos tempos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>, quando haviam, em número, multiplicado. Imaginemos então hoje, quando qualquer um que se proclame artista o será. Aqui parece haver um <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> apenas numérico, oposto ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">progresso</a> artístico, mas apenas uma seqüência de sobreposições e continuam &#8220;os interesses e os desejos do homem a faltar antes mesmo que as artes tenham atingido a perfeição&#8221; (ROSSI, 1996, p. 111).</p>
<p>Na <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> de suprir a falta da idéia de <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> criam-se conceitos humanitários, limitados e questionáveis, tornando algumas idéias em mitos ao mesmo tempo em que banalizam outras. Citando <a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a>, Paulo Rossi diz que &#8220;a razão de <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a> &#8216;que se extrai dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> do passado é a maior de todas&#8217;&#8221; (id., ibid., p. 59) e seque &#8220;quanto mais negro é o passado, mais luminosas são as esperanças para o futuro&#8221; (id., ibid., p. 60). Cabe saber então quão negro é nosso passado e mesmo se foi negro ou se essa escuridão é mais moderna do que imaginamos. Se concluirmos que a modernidade trouxe a escuridão, poderemos então ter certeza de que as esperanças devem recair sobre um futuro bastante distante.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong><br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/adorno/">Adorno</a>, T.W., &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/progresso/">Progresso</a>&#8221;, <em>Lua Nova</em>, 1992, 27<br />
Agostinho, S., <em>A Cidade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a></em>, Editora Vozes, 1990<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/bacon/">Bacon</a>, F., <em>Pensadores</em>, São Paulo, Abril Cultural, 1973<br />
Herder, J.G., <em>Também uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> da história para a formação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a></em>, Lisboa, Antígona, 1995<br />
Nascimento. M.G.S. do, &#8220;Instauratio, Revolutio: docta spes&#8221;, <em>Discurso</em>, ____, 31<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/rousseau/">Rousseau</a>, J.J., <em>Discurso sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/ciencia/">ciência</a> e as artes</em>, São Paulo, Martins Fontes, 1999<br />
Rossi, P., <em>Naufrágios sem espectador</em>, São Paulo, Editora Unesp, 1996</p>]]></content:encoded>
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