Postado em 13-01-2009

Os Arcanos e os Acasos

por Aseth | Categoria: Pensamentos, Rabiscos | Lido 896 vezes

Acasos só são acasos quando reconhecidos, vistos, percebidos. Coincidências e sincronicidades acontecem a todo momento, mas só quando vistas é que existem. Podemos dizer, então, que se não são percebidas, não existem ou não aconteceram? Se não há sentido, não há existência. É preciso um sentido, portanto. Acasos precisam ser vistos, logo, não, não acontecem a todo momento. Não são meras coincidências. Podes dizer com certeza que algo exista se não vês? Ora, a fé! Sim, podes dizer. E sentir, viver, tocar, enfim? Podes? Acasos são como Deuses: acreditamos e esperamos por eles. São pequenas fissões nucleares, fugidias, transformando às vezes imperceptivelmente a percepção que temos das coisas e, portanto, as coisas.

Poderia aprofundar o raciocínio, citar Platão, Berkeley, a psicologia, a metafísica e mesmo os sentidos. Poderia, sim, mas não vou. Vou me ater ao breve, ao efêmero, que se vai, passa e se perde. Vou me ater ao inconsciente também. Como os acasos. Vou me ater às brasas. Aliás, vou apenas falar delas, das faíscas, de relâmpagos, de explosões e reagrupamentos.

Vou me ater apenas às notas que tomo neste caderno. Às notas musicais que vibram por segundos e acabam, quando se transformam em outras. Vou me ater à observação, à magia e, neste caso, caberia mesmo discutir se é Magick ou não.

Acasos são rápidos, são imagens, são percepções. São ligações e rupturas, simultaneamente. São poéticas de qualquer linguagem não discursiva, seja verbal, onírica, escrita, visual e imaginária.

Acasos são encruzilhadas, onde versos caem, uns sobre os outros, rompendo frases, se reagrupando em outras novas e, quando palavras sobram, germinam e criam outras, também novas, ainda solitárias, buscando verbos e adjetivos para lhe acompanharem rumo aos nomes.

Acasos são frases que lemos a sós, mas se só nos as lemos, perdem o brilho, pois devem lidas em duplo, não necessariamente a dois, e isso digo apenas a quem sabe procurar as entrelinhas e perceber sutilezas.

Derrubo as palavras e fico observando, esperando que se reagrupem, mas o acaso está em mim, não fora. Se estivesse fora não seria acaso, seria rotina. Derrubo-as então em minha garganta e vou digerindo, calmamente, uma a uma, quando são mastigadas, se transformando em sons e novas letras. Mantenho tudo aqui, pois não poderia ser diferente: o que sou é imanente, mas ao mesmo tempo é outra coisa.

As sombras de São Paulo – a cidade, mas poderia também ser o santo, é claro – escondem os olhos de Nuit, mas, sob seu manto, novas palavras se formam. Formam versos. Formam poesias.

A ruptura busca união.

A letra theta é união!

θ

Postado em 29-11-2008

Imagens da sensação

por Aseth | Categoria: Teatro | Lido 658 vezes

Texto de 1992, escrito após uma sequência de leituras de Sade, Artaud e Nietzsche. O negócio está bem resumido e é complexo, pra quem tiver paciência apenas.

Segue:

Por em movimento o “retorno de si mesmo ao anel dos anéis”. Nada se perde no inextinguível archote Desejo. O sêmen que se vai retorna em prazer. O corpo, este único, se faz múltiplo, divide-se, se faz sentidos.

Este palpitar é necessário, força motriz imperativa da imaginação. A kraftwerk sensação trabalhando num ponto anterior à configuração. Um abalo no impacto dos sons e uma imagem ante-posta ao compreender.

Aficcionar-se e desagregar-se pela inoculação do sentido/sensação/re-ação, dando-se o retorno. Toma-se a origem das pausas e a provocação da carne como análise ultra-imediata de estímulos e sua reação, respectivamente.

Explodir-se em si e para si. Explodir-se em outro, para si. Tornar-se voz de autoridade, terrorismo provocativo e visual onde o que o outro sente é por minha vontade, mesmo em suas variações, devido à multiplicidade de imagens e suas correlações, por ter-se permitido sentir. Minha visão se impõe ao desespero e deleite da vítima.

Não haverão mais pontos desapercebidos pela lógica e pelos sentidos. Tudo será visto/sentido e re-sentido e ainda re-tornado, imediatamente, associando-se ao seu fragmento somático/emocionante.

A ação da imagem, sua palpitação, sua adaptação à mobilidade e à acústica que lhe passaram a ser próprias. Tudo é próprio da imagem: retornar à imagem e a si. Um descobrimento e, com este, outro. Cabe ao olfato/paladar da imagem sua associação.

Dionisiacamente re-tornar aos alimentos de emoções, continuamente aprendendo onde pausar, impedindo assim que o outro desfaleça antes da superação. Mais uma vez retornar, como nos eternos retornos sadeanos, à nova imagem/palpitação/desejo, sendo esse o ato de querer/desejar/perceber/ver, chamado de simbolismo material dos sentidos.

08/04/1992

Postado em 07-11-2008

O teatro duplo dos dias

por Aseth | Categoria: Teatro | Lido 1,084 vezes

Estou “buscando” idéias para usar em um trabalho, mas não sei se buscar é a palavra correta. Buscar, nesse caso, pode significar que estou indo em certas direções, o que não é exatamente o caso. Estou, sim, indo em diversas direções, mas não seguindo caminhos certeiros e sequer imagino o que esses seriam.

Estou indo, mas apenas observando. Sei o tipo de sensação que espero ver desperta ao encontrar, mas não o que faria isso acontecer. Nada é tão matemático ou mecânico assim, parece, e digo isso para chegar a um autor/criador específico: Artaud.

Há anos, quando lia muito sobre os surrealistas, tive o prazer de ler “O teatro e seu duplo”. A sensação de ler esse livro e as idéias que iam surgindo eram, para usar um termo comum ao texto, pestilentas. Artaud conseguiu, como poucos, dizer tanto sobre o que esperava sem, no entanto, dar a receita de bolo, a fórmula para obter. Acredito que nem Artaud sabia exatamente onde iria chegar: a aniquilação da palavra era o começo.

Artaud não acreditava no verbo, nas palavras, não acreditava que pudessem transmitir a experiência toda, da maneira que queria. As palavras jamais seriam cruéis o suficiente para nos darem uma experiência tão extrema que nos transportasse para outro lugar, tão profundo, abissal e escuro, que não seria outro que nós mesmos. Acontece, porém, que uma vez nesse abismo interior, não seríamos indivíduos, não seríamos eu, você ou qualquer outro. Seriamos instinto, animais, ainda que humanos. Seria o ponto onde os extremos da razão e do corpo se encontram, a realidade explosiva, cruel, que tanto queria.

Como transformar os movimentos, os sons, as cores, os gritos de desespero, os gemidos de prazer, enfim, o ambiente, em algo além do comum, do ordinário? Os hábitos, segundo Hume, tem uma função importante na vida. Isso foi, inclusive, demonstrado. A única forma, então, de ruptura com o habitual é a morte? O teatro da crueldade pode provocá-la, em outro nível. Essa é a idéia.

Artaud nunca colocou em prática, com a abrangência que queria, o que pensou. Incorporou à sua vida muitos dos passos necessários, deu à sua rotina um caminho diferente. Transformou o que podia do comum em crueldade. Foi tratado como louco. É tão simples e reconfortante para o mundo tratar como loucas essas pessoas, não?

Voltando ao começo do texto: disse que caminho em diversas direções. O fato é que em qualquer uma delas espero encontrar apenas uma coisa. É um labirinto este lugar onde me encontro e, em seu final, espero, há um abismo.