Acasos só são acasos quando reconhecidos, vistos, percebidos. Coincidências e sincronicidades acontecem a todo momento, mas só quando vistas é que existem. Podemos dizer, então, que se não são percebidas, não existem ou não aconteceram? Se não há sentido, não há existência. É preciso um sentido, portanto. Acasos precisam ser vistos, logo, não, não acontecem a todo momento. Não são meras coincidências. Podes dizer com certeza que algo exista se não vês? Ora, a fé! Sim, podes dizer. E sentir, viver, tocar, enfim? Podes? Acasos são como Deuses: acreditamos e esperamos por eles. São pequenas fissões nucleares, fugidias, transformando às vezes imperceptivelmente a percepção que temos das coisas e, portanto, as coisas.
Poderia aprofundar o raciocínio, citar Platão, Berkeley, a psicologia, a metafísica e mesmo os sentidos. Poderia, sim, mas não vou. Vou me ater ao breve, ao efêmero, que se vai, passa e se perde. Vou me ater ao inconsciente também. Como os acasos. Vou me ater às brasas. Aliás, vou apenas falar delas, das faíscas, de relâmpagos, de explosões e reagrupamentos.
Vou me ater apenas às notas que tomo neste caderno. Às notas musicais que vibram por segundos e acabam, quando se transformam em outras. Vou me ater à observação, à magia e, neste caso, caberia mesmo discutir se é Magick ou não.
Acasos são rápidos, são imagens, são percepções. São ligações e rupturas, simultaneamente. São poéticas de qualquer linguagem não discursiva, seja verbal, onírica, escrita, visual e imaginária.
Acasos são encruzilhadas, onde versos caem, uns sobre os outros, rompendo frases, se reagrupando em outras novas e, quando palavras sobram, germinam e criam outras, também novas, ainda solitárias, buscando verbos e adjetivos para lhe acompanharem rumo aos nomes.
Acasos são frases que lemos a sós, mas se só nos as lemos, perdem o brilho, pois devem lidas em duplo, não necessariamente a dois, e isso digo apenas a quem sabe procurar as entrelinhas e perceber sutilezas.
Derrubo as palavras e fico observando, esperando que se reagrupem, mas o acaso está em mim, não fora. Se estivesse fora não seria acaso, seria rotina. Derrubo-as então em minha garganta e vou digerindo, calmamente, uma a uma, quando são mastigadas, se transformando em sons e novas letras. Mantenho tudo aqui, pois não poderia ser diferente: o que sou é imanente, mas ao mesmo tempo é outra coisa.
As sombras de São Paulo – a cidade, mas poderia também ser o santo, é claro – escondem os olhos de Nuit, mas, sob seu manto, novas palavras se formam. Formam versos. Formam poesias.
A letra theta é união!
θ
Assisti ao grupo Fuerza Bruta, no parque Villa Lobos, na tarde de hoje. Fui imaginando que veria um tipo de apresentação, vi outra, completamente diferente, e de uma forma ou de outra, sai bem impressionado, querendo que tivesse durado mais. O tempo, aliás, voou. Passou depressa demais, infelizmente, mas faz sentido que tenha sido assim.
Falei do La Fura antes e acreditei que veria algo similar. As semelhanças existem somente enquanto os dois são grupos que provocam o sensível e interagem com o público, o resto é completamente diferente, duas linguagens muito distintas.
O La Fura provoca pelo terror, o público se sente ameaçado a cada momento, esperando uma motoserra, esperando que atirem carne crua, farinha, tinta… O medo está sempre presente. Fuerza Bruta é outra coisa, é onírico, uterino e hipnótico, as pessoas interagem, se sentem parte do trabalho, se entregam sem perceber.
Não vou ficar descrevendo as cenas, quem quiser que vá ver (recomendo a experiência, aliás). Há bastante água e movimentos na água. Imaginei um grande útero ali. Aliás, imaginei a água como elemento também. Há também referências a sonhos, ao ar.
As pessoas não sentem medo, ao contrário. No final, atores dançando, o público ídem, embaixo da chuva que fazem no galpão. As crianças, muito mais do que os adultos, adoraram. Entraram na água sem vacilar, mas para isso é preciso se permitir. Lembrei de quando era criança, jogava sabão em pó no piso do quintal, molhava e ficava escorregando. Adorei cada segundo da apresentação, valeu cada centavo, reitero que gostaria que tivesse durado mais e gostaria de ver mais vezes. Quem sabe em alguma delas eu deixasse o canto e entrasse na chuva também.
Como alguns podem ter percebido, a URL do site/blog mudou. Vou explicar, resumidamente, o motivo:
A-Set começou como necessidade de fazer algo criativo e foi orientado à música, claro, pois aquela sempre foi minha paixão, desde que lembro de minha infância.
O problema, porém, é que a coisa deixou de ser divertida quando comecei a me forçar a criar. Não dá pra forçar e manter a diversão. O hobbie virou uma chatice e deixei de lado. Ficava me forçando a compor, imaginando álbuns completos, conceitos, etc. É ok pensar nisso, mas não ser obrigado a isso, ainda mais por mim mesmo.
Enfim, a coisa tava sem graça, como disse, sem contar que o tempo tá curto. Queria que as coisas voltassem a ser uma brincadeira, como no começo. Acredito que sem a obrigação de fazer algo, auto-imposta, admito, poderei fazer mais coisas. Se não fizer, dane-se.
Agora, por exemplo, estou escrevendo quase que diariamente. O “blog” se tornou uma brincadeira e tem me divertido. Quando deixar de me divertir, se eu me obrigar a escrever, vou diminuir ou parar também. Por hora, tô aqui.
As músicas continuam, A-Set continua, meus rabiscos continuam. Enfim, o que mais eu quiser fazer…
A propósito, o novo endereço escolhido tem vários motivos, mas cada coisa a seu tempo, novidades estão a caminho. Vamos ver como sairão… Outro dos motivos é a facilidade de ditar. Era um inferno passar o endereço do a-set.com por causa do hífen. Esse novo endereço torna tudo mais fácil e repleto de significados.
Os dois endereços ficam válidos e vou mantê-los registrados, mas se quiserem atualizar os bookmarks, sintam-se à vontade.
Por enquanto é isso….
Comecei a escrever e apaguei já por volta de dez vezes. Comecei dizendo “noite de insônia”, em seguida “mais uma noite”, coisas do tipo, coisas ‘deja vu’, coisas repetidas, coisas… Pensei que estava me tornando óbvio e repetitivo, por isso apaguei e recomecei. Percebi então que aquele é o contexto e, repetitivo ou não, precisa estar ali, marcando o tempo, o espaço, o momento em que se dá, o agora.
Pois então, que seja esta mais uma noite mal dormida, mesmo que o corpo esteja pedindo por descanso: a mente, aflita, o ignora. A cabeça cheia de nada quer falar. Cheia de nada? Discordo. Acho que não é “nada”, mas não vou mudar o que escrevi, vai ficar ali. Questiono, mas não apago. Não, não está cheia de nada, não. Se estivesse eu não estaria aqui, escrevendo. Não a minha. Preciso voltar ao começo e dizer a que estou aqui.
Estou tomando chá de camomila e maracujá, mas mantenho uma outra caixinha dessas guardada, fechada. Aquela não é para ser tomada como estou fazendo agora. É para ser tomada pensando, sorrindo, divagando, sobre coisas sérias, outras nem tanto, sobre lugares comuns, outros nem tanto. É também para ser tomada em silêncio, quando se aprofunda um olhar dentro de outro. Não disse “certo” filósofo que “quando se olha muito tempo para um abismo…”? Cabe explicar que parto do princípio de que todos que citam Nietzsche são idiotas, por isso a citação incompleta. Não quero me igualar, afinal aquele chá aguarda companhia, não quero decepcionar.
Para variar um pouco, fui almoçar em outro restaurante, quase todos os dias dessa semana, com um grupo de pessoas. Ouvi causos, contei outros. Bobagens, sem dúvida, do típo que sempre guardam um fundo de verdade. Fiquei pensando que seria divertido registrar os pensamentos soltos que aparecem quando as cabeças não têm com que se preocupar, as idéias soltas. Acontece, porém, que não consigo de lembrar de quase nada e do pouco que lembro, nada se aproveita, pois agora, fora do contexto, perde a graça. Não, não estou partindo para os relativismos, de forma alguma. Mas o dia-a-dia é puro contexto. As coisas podem ter graça ou não. Eu poderia não estar escrevendo agora. Seria contexto. Se não estivesse, seria aquele chá que está lacrado, talvez.
A prova de que não estou partindo para o relativismo é que estou procurando o que há nisso, o que resta quando se tira o efêmero. Reivento a roda: não era sobre isso que já pensavam Platão e Heráclito – e tantos outros depois -, cada um de sua maneira? Enfim, é normal andar por SP, por exemplo, e perceber como a cidade é cinza, como as pessoas são cinzas. Aquelas que entraram na moda de “abraços grátis”, inclusive, também são cinzas. É tudo tão artificial: “vi isso na tv, vamos fazer também?”. Cópias. MTV formando opiniões. Nem vou discutir, me deprime. O que está fora do contexto? A expontaneidade.
A cidade está cinza, mas não precisa de “abraços grátis”. Não precisa de alguém que vá à avenida Paulista ficar segurando uma placa, se achando super legal, e depois jogue papel no chão, empurre os outros no ônibus, fale alto e incomode quem está ao redor. É preciso muito mais do que uma placa. É preciso ainda mais do que expontaneidade, embora esta seja essencial. É preciso ter raíz, é preciso olhar pra dentro, não pra fora. É preciso muito coração, mas também razão, crítica. Pensar em “cidade” já é algo que impõe limites e deveria ser evitado, inclusive. As pessoas são cinzas, não é a cidade. Não é *esta* cidade.
Todas as placas, slogans e manifestos são contexto. O silêncio é expontâneo: quando se está se boca fechada, os olhos trabalham mais, pode-se ouvir mais também. O que seria da música se todos falassem ao invés de ouví-la? O que seriam das pinturas…
É tão fácil ver o caráter no olhar, no falar, na forma de se mover. Como caímos em tantas armadilhas, então? Estamos falando demais. De tudo que falei durante os almoços dessa semana, nada se aproveita. Talvez fosse bom eu ter ficado de boca fechada observando, como já fiz – e faço – tantas vezes. O problema, no entanto, é que quanto mais observo, mais me desloco. Estar deslocado não é um problema, o que dói, por mais que seja chato admitir, é que quando se observa demais, percebe-se que não há reciprocidade.
Existem, claro, exceções. Poucas, bem poucas. É por elas que procuramos. A massa não me interessa. Não me interessam as vozes que tanto falam, mas os poucos que sabem olhar e que conseguem ouvir. Me interessam aqueles achados, aqueles acasos que me assombram. É por eles que procuro, é por eles que espero.
As pessoas falam demais, inclusive consigo mesmas, como faço agora.
O contexto vai existir sempre e, por isso mesmo, existe no eterno. Os contextos são efêmeros e perpetuam a essência no olhar, no ouvir, nas pinturas e nas músicas, nos movimentos, na dança. Percebe?