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	<title>Transtorno &#187; escolhas &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Saltando contra muros</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Sep 2011 20:32:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Os últimos meses não estão sendo fáceis. Datas e símbolos tomam porporções que jamais imaginei que tomariam, lugares tornam-se templos, palavras tomam sentido diverso. O caos faz-se tão presente que qualquer coisa começa a tomar sentido diverso: o que um olho vê engana o outro. A sensação de ter falhado é absurda, enorme, desde as &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os últimos meses não estão sendo fáceis. Datas e símbolos tomam porporções que jamais imaginei que tomariam, lugares tornam-se templos, palavras tomam sentido diverso. O caos faz-se tão presente que qualquer coisa começa a tomar sentido diverso: o que um olho vê engana o outro.</p>
<p>A sensação de ter falhado é absurda, enorme, desde as coisas pequenas, como fumar quando não deveria, quanto as grandes, que não vou abrir aqui para não expor as pessoas ou a mim. A verdade é que algo comum, como falhar, parece transformar o rumo de nossas vidas, mas pergunto: já não falhamos antes?</p>
<p>Se uma falha faz com que a gente aprenda, é uma falha? E se repetirmos o erro, continuaremos falhando? Acredito que sim, não vou ser auto indulgente e é por isso que estou aqui escrevendo.</p>
<p>É muito fácil mascarar um erro com desculpas, sejam elas quais forem. O difícil é aceitar que esse erro existiu e falar &#8220;errei, fiz merda, não quero mais repetir&#8221;. Claro que não é fácil, mas é preciso, é o que quero tentar.</p>
<p>Passei o dia de ontem fora de casa, no aniversário de um amigo, pra não precisar pensar. Pensei demais nos últimos meses e não cheguei a conclusão alguma. Ontem eu precisava de alívio. Sai, bebi, conversei, mas eventualmente voltei pra casa, fiquei só e voltei a pensar. </p>
<p>Enquanto pensava, comecei a analisar o que é a maturidade pra mim. Aos 38 anos, poderia pensar que ter meu próprio apto, um bom emprego, um carro e condições de ter algo outro acima da média é maturidade, mas não é.</p>
<p>Fiquei pensando em decisões, aquelas que afetam toda uma vida, na forma como encaramos, e descobri que não sou maduro, não mesmo. Percebi que meus traumas e medos são maiores do que quero deixar transparecer, percebi que a capacidade de encarar meus desafios também se torna um problema.</p>
<p>Trocar de carro não afeta a vida, comprar alguns <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> também não. O carro será pago em alguns anos, os <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> imediatamente. Quais são as decisões que afetam uma vida? Muitas, geralmente as que envolvem as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> que fazemos a partir de nossos sonhos. </p>
<p>Sonhar com &#8220;entrega&#8221; e não estar apto a se entregar leva a erro. Sonhar com &#8220;entrega&#8221; e não se envolver com quem se entrega é outro erro. Quando há entrega, entretanto, não há erro, mas todos esses casos mudam vidas. Estar ou não preparado, escolher de forma incorreta ou, quando tudo dá certo, formar um ideal: vidas são transformadas.</p>
<p>Como dizia, ontem pensei muito sobre maturidade e foi inevitável perceber que meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> são imaturos. A questão é: como percebo isso hoje e não percebi antes, quando errei? Imaturidade. Ganhei um aprendizado que não tinha antes. Hoje tenho, mas o estrago já está feito. </p>
<p>Durante a noite sonhei que estava acompanhado de alguém, em um lugar desconhecido, olhava para o lado e via meu gato vir correndo, subir em uma mesa e saltar contra uma parede, se arrebentando e caindo machucado. Pensei, ainda dentro do sonho, que ele errou por ver algo que estava ali, mas eu sabia não estar.</p>
<p>Pela minha ótica, ele via uma prateleira naquela parede, pelo engano causado por uma sombra. Eu, vendo de fora, sabia que ela não estava ali, mas ele não sabia e arriscou assim mesmo. Naquele sonho, tive maturidade para ver que era um erro saltar contra uma parede, ele não teve. Percebi que ter a técnica ou possibilidade de fazer algo não quer dizer que deva ser feito, que seja a melhor escolha. Foi muito significativo ter esse sonho exatamente nesse momento de minha vida.</p>
<p>Hoje passei horas escrevendo um projeto de mestrado que preciso apresentar. O tema do projeto é a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana e <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina na <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>. Resumindo: para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criou o melhor dos mundos pois é onisciente, viu todos os mundos possíveis e escolheu, dentre todos, o melhor, o que vivemos. Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> viu todos os mundos, viu também todos os humanos e todas as suas decisões. A questão que vem à tona, portanto, é que se vivemos nesse mundo escolhido, somos livres para tomar decisões que já estão tomadas sem que saibamos? </p>
<p>Nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> é nossa ignorância. Ignorância do minuto seguinte, do dia seguinte, das consequências.  Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, os homens tomam decisões buscando a perfeição e, se erram, erram buscando a perfeição, acreditando que sua escolha era certa naquele momento.</p>
<p>Isso funcionaria como a desculpa perfeita para meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, mas não é. Olho o que vi há meses e penso: como não percebi isso antes, era tão óbvio? Olho para o que está acontecendo e tudo parece tão claro que é impossível deixar de me achar um completo imbecil, como me acho agora. A chave é a maturidade. Me atirei contra uma parede, como o gato se atirou no sonho. Me machuquei quando a atingi, me machuco agora quando me torturo por não ter percebido a escolha errada que fazia.</p>
<p>A ignorância do momento seguinte pode funcionar como desculpa para alguns, mas não para mim. A ignorância do momento seguinte só me traz mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> ao mostrar minha cegueira no momento de minhas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e ao mostrar que com tudo o que passei, com tudo que aprendi, continuo errando e um ano depois de escrever &#8220;Recordações&#8221;, meu maior pedido de desculpas, continuo errando cegamente, estupidamente, e me desculpando.</p>
<p>Continuo pulando contra muros e quando aprendo a passar por eles, eles se tornam mais altos, mais resistentes. Depois de citar <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> e toda essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, pode parecer bobo, mas nunca Pink Floyd coube tão bem na situação: continuo colocando mais tijolos no muro.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Recordações</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 05:28:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo foi escrito em 31/08/2010, por causa da morte do Porps. Um ano depois ainda desmonto, ainda peço desculpas e continuo perdendo momentos. Apenas um ano e tanto se foi&#8230; Segue: No final de 2000 um gato persa foi achado na rua, no bairro de Higienópolis. Era um gato enorme, branco, muito peludo, &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo foi escrito em 31/08/2010, por causa da morte do Porps. Um ano depois ainda desmonto, ainda peço desculpas e continuo perdendo <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a>. Apenas um ano e tanto se foi&#8230; </p>
<p>Segue:</p>
<p>No final de 2000 um gato persa foi achado na rua, no bairro de Higienópolis. Era um gato enorme, branco, muito peludo, assustado e com medo de pessoas, que se escondia ao ver qualquer estranho. Ele tinha razão para isso: antes de ser recolhido, foi agredido por alguém, foi muito machucado e teve dentes quebrados.</p>
<p>O gato foi recolhido por uma senhora e entregue a um pet shop, para que cuidassem dele e encontrassem o dono. O dono não apareceu, como costuma acontecer, e fui convidado a conhecê-lo, para ver se queria ficar com ele. Entrei na casa do veterinário, dono do pet shop, e lá estava ele, enorme, com seus 10 quilos, já recuperado, deitado no sofá: não se escondeu quando me viu, para espanto do doador.</p>
<p>No mesmo dia esse moço passou a habitar outro endereço, o meu. Levou algumas horas para se adaptar ao ambiente, o que é normal para felinos. Se escondia e saia para reconhecer a área quando ninguém estava por perto, ao mesmo tempo que escolhia um nome para ele. Devido à sua gula e tamanho, acabou chamado de Porpetto, o que pareceu agradá-lo, pois em poucos dias já virava de barriga pra cima para ganhar carinhos e “amassava pãozinho” no ar.</p>
<p>Por muitos anos ele foi meu despertador pessoal, já que diariamente, às 6h00 da manhã, pontualmente, se sentava ao lado da minha cabeça e miava no meu ouvido, bem próximo, me chamando para alimentá-lo. Da mesma forma, diariamente, quando me deitava para ler os inúmeros <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> da faculdade, ficava ao meu lado ou aos meus pés. Quando apagava a luz, descia da cama e ia para o sofá, onde não seria importunado pelo humano desajeitado que se mexia dormindo. Esse ritual se manteve até algumas semanas atrás, exceto quando ele decidia passar a maior parte da noite na cama, roubando meu travesseiro, me deixando com a cabeça pendurada.</p>
<p>Por muitos anos, quase 11, ele esteve perto, me dando alegrias e também me deixando nervoso ao furar o sofá comprado naquele mesmo dia, arranhando o estojo da guitarra (da mais cara, claro) para afiar as unhas, fazendo xixi fora do lugar. Levou muitas broncas por isso, mas sempre me olhava com cara de “o que você está falando?”, sem levar para o lado pessoal as inúmeras repreendidas que levou. Pelo menos é assim que tenho tentado ver.</p>
<p>Alguns anos se passaram e outro amigo veio dividir o espaço com ele, o Billy Idol. O Billy passou uma semana escondido embaixo do sofá, sem exageros, até acostumar com o ambiente. Não saia nem para comer. No primeiro dia que saiu o Porpetto o pegou e deu vários cascudos, como quem diz “eu mando aqui, entendeu?”. No dia seguinte já eram amigos, dormiam abraçados, ficavam juntos o tempo todo. O porps, já mais velho, adotou o Billy como filho e assim foi até a semana passada.</p>
<p>Não posso e nem cabe contar 11 anos de histórias nesse espaço. Não me recordo de todas, mas de algumas que são chaves para a “conclusão” desse texto. Uso aspas em conclusão, pois nada de fato se conclui, são apenas questionamentos que se fazem necessários, são simbólicos.</p>
<p>Pois bem&#8230; na última semana o Porps, como era chamado carinhosamente, começou a se isolar. Não atendia mais quando chamado, dormia em lugares estranhos, distantes da cama e de mim, não tomava água do pote, apenas do box do banheiro, dormia no chão molhado. Eu já havia visto ele passar por coisa do tipo, já que era alérgico e os últimos dias estão sendo cruéis com a população de SP, inclusive dos que não podem reclamar, como ele. O que não imaginava é que, por trás dessa alergia e desse distanciamento, havia muito mais.</p>
<p>Não vou narrar os últimos dias, mas durante a consulta com o veterinário no último sábado, o Porps teve uma parada cardíaca e não voltou pra casa. Na verdade voltou, mas não era mais ele. Era, sim, um menino leve, longe daqueles 10 quilos, ainda peludo, mas mole em meus braços. Aquele menino que odiava ser carregado e se agitava para voltar ao chão, não reagia mais quando segurado. Só me recordo de pedir “não faz isso, filho”.</p>
<p>O menino, que dividiu o espaço comigo por 11 anos, estava longe de mim e minha tristeza estava tão próxima como raramente poderei descrever. Segurar o Porps daquele jeito disparou um gatilho: só conseguia pensar nas broncas que dei, nas vezes que não estive perto quando ele miava pedindo atenção. Só conseguia me sentir extremamente cruel comigo mesmo, pensando em como só via agora o que havia feito, depois de tantos anos.</p>
<p>Passei a me questionar se ele havia sido feliz aqui. Espero que sim, pois me lembro de muitos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> em que ele se deitava próximo a mim e ronronava, forma felina de dizer “eu te amo”. Isso me deixava feliz, mas de todas as vezes que ele fez, quantas eu percebi? Não sei dizer. Sei dizer que inúmeras foram as broncas pelo xixi fora do lugar, coisa que ele nunca entendeu, pelo olhar que me devolvia.</p>
<p>Isso me remeteu a um outro evento, de janeiro de 1997. Passei uma noite na rua, bebendo, e cheguei em casa já com o dia amanhecendo. Ainda morava com meus pais, era o final dessa época. Dormi um tanto, acordei e fui para o computador. Meu irmão dormia ainda, pois também havia virado a noite. Em certo momento ele acordou, se vestiu e passou por trás de mim. Me lembro de ter virado para trás e visto ele passar. Não disse nada. Foi a última vez que vi meu irmão vivo. No dia seguinte, estava desesperado, indo em delegacias e hospitais, procurando por ele, quando finalmente o encontrei no IML, tratado como indigente.</p>
<p>Dadas as devidas proporções, o que percebi é que aquele não era meu irmão, assim como o gato que esteve em meus braços no sábado não era mais o Porps. Ambos eram símbolos. Símbolos de meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> que perdi. Senti todo o carinho do mundo quando segurei o Porps, senti todo o carinho do mundo quando velei meu irmão, mas senti também toda a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> do mundo por não poder dizer e fazer por eles tudo o que tive chances de fazer.</p>
<p>Todos aqueles momento existiram e eu os perdi. Tive bons e maus <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> com ambos, mas e agora, o que me restou? Restou a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> por saber que não fiz tudo o que era possível e que agora não terei mais chance alguma, que o tempo se foi. O ponto é exatamente esse: o tempo! Tomamos – eu tomo e tenho certeza de que vocês também – quase todo o nosso tempo achando que as coisas estão “garantidas”, mas elas não estão, pelo simples fato de que não são “coisas”. O porps não era “meu” gato. Era um gato, sim, mas não era “meu”. Ele morava comigo, eu o protegia, cuidava, mas não era meu. Ele não estaria ali até eu decidir que estaria, como acontece, por exemplo, com uma bicicleta, que posso falar “cansei, vou vender”. Não! Assim também era meu irmão. Ele não era meu, não estaria ali pra sempre. Aliás, ele é um símbolo enorme para quem conhece os efeitos que sua morte causou em minha família e, principalmente, para todos os que o conheceram. Ele tinha apenas 21 anos. Você ai, seguro de si, está certo de que vai voltar para casa? Tem certeza disso? Já pensou que pode não voltar? Ou que alguém próximo a você pode não voltar?</p>
<p>Não, não estou sendo agourento. Não mesmo. Só quero entender o motivo de percebermos essas coisas apenas quando não as temos. Quero entender esse comodismo humano que deixa tudo para depois, para poder gastar dinheiro em psicólogos, igrejas e outras coisas, tratando a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>. Quero entender o motivo de eu não ter feito coisas que poderia e hoje ficar pensando “e se?”. Sei que “e se?” não vai resolver nada, mas preciso pensar, preciso tentar entender, para que da próxima vez eu não faça a mesma coisa.</p>
<p>Sim, da próxima vez, sim! Ou vocês pensam que acham que não vai acontecer de novo? Tenho o Billy, tenho meus pais, irmão, sobrinho, amigos! Não quero me culpar por ter dado mais tempo a banalidades do que a eles, a vocês. Não quero! E não posso esquecer também que posso ser aquele que não vai voltar para casa. Nesse caso não entraria a minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, mas o quanto há para ser feito antes desse momento? Posso fazer minha parte para que um dia as pessoas próximas a mim não pensem “e se?”. Talvez, mas não sei como. Não ainda. Nesse momento, só sinto tristeza. E não é pouca.</p>
<p>Quando meu irmão morreu, meus pais se mudaram para o interior de SP e ele nunca conheceu a casa que ajudou a construir. Sempre evitei visitá-los, os mais próximos sabem: meus pais moram lá desde 1998 e eu posso contar as vezes que fui até lá. Motivo? Lembranças! Vejo fotos, objetos, me recordo de minha infância, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> ruins, bons&#8230; me recordo de coisas que gostaria de apagar, todas elas. Hoje olho à minha volta em meu apto e vejo os lugares onde o Porps dormia vazios, a comida no pote, a água&#8230; E não posso fugir de nada, não posso largar minha casa. Entendam: falo de símbolos.</p>
<p>Sabem o que é curioso? Só comecei a tomar gosto por ir ao interior visitar meus pais quando meu sobrinho nasceu. Meus pensamentos se desviam dessas coisas, pois estou focado nele, no meu irmão que está vivo, na forma boa e bonita como ele vive seu casamento, como se amam, nos meus pais&#8230; Penso que é a vida trazida de volta à família que tanto sofreu. Não quero que um dia meu sobrinho pense que não dei atenção a ele, não quero que se distancie.  Não quero que minhas inúmeras mágoas e minha história afetem a dele. Aliás, não quero que isso afete ninguém à minha volta. Por isso escrevo esse texto: é um pedido de desculpas. É minha forma de dizer que sei que erro, que sei que errei, que ainda vou errar, mas que quero que vocês saibam que estando próximo ou mesmo distante penso em vocês e não quero que brigas idiotas e <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> de ausência apaguem as histórias que valem ser lembradas e contadas aos meus filhos. Sim, filhos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Perguntas simples</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 04:39:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acumulamos histórias e deitamos sós, prolongando as noites com o sabor das dúvidas. Quando sonhamos juntos, as horas passam e sequer as vemos, não temos tempo de perceber o relógio, não estamos interessados em mais nada. As horas ficam longas quando a única coisa que as preenche é o gosto amargo da saudade e mesmo &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acumulamos histórias e deitamos sós, prolongando as noites com o sabor das <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>. Quando sonhamos juntos, as horas passam e sequer as vemos, não temos tempo de perceber o relógio, não estamos interessados em mais nada. As horas ficam longas quando a única coisa que as preenche é o gosto amargo da saudade e mesmo as boas memórias são amargas nas noites insones.</p>
<p>Acumulamos sonhos para dividir, mas tememos revivê-los. Acumulamos aventuras, <a href="http://www.transtorno.net/tag/contos/">contos</a>, experiências, sabores, visões, cheiros, texturas e acumulamos medo. Acumulamos histórias que pedem para serem recriadas e melhoradas, mas junto com elas trazemos finais sofridos que não queremos experimentar novamente.</p>
<p>Guardamos sempre o medo. Entrega? Sim, amo a entrega, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">abismo</a>, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vertigem/">vertigem</a> da queda. Me entreguei tanto e esperei o mesmo em troca. Quando tive, não pude me entregar, quando estava entregue, não sentia mãos se estendendo para junto das minhas. O &#8220;timing&#8221; desdenha dos sonhos humanos.</p>
<p>As coisas deveriam ser fáceis: <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">acasos</a> montam as situações, constroem sonhos, pintam quadros, traçam linhas, mas nós, humanos, é que contamos as histórias dessas obras, temendo o final, fugindo de dores e causando outras tantas. Ingenuidade acreditar que não sentiremos <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> pulando capítulos: é ai que ela reside. </p>
<p>Um site aberto por acidente, <a href="http://www.transtorno.net/tag/poesias/">poesias</a> perdidas na rua, um cão encontrado na vizinhança&#8230;  Posso escrever um livro de capítulos arrancados de <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> com inícios maravilhosos. Posso escrever outros tantos capítulos com bons <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> que hoje me trazem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> da <a href="http://www.transtorno.net/tag/nostalgia/">nostalgia</a>, com outros ruins que preferia ver apagados e com outros ainda, os monumentos de meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, poderia escrever como não vi a paisagem que perdia enquanto passava e também como vi <a href="http://www.transtorno.net/tag/paisagens/">paisagens</a> maravilhosas e indescritíveis em estradas que não permitem volta. </p>
<p>Poderia contar em apenas algumas linhas as maiores dores que sinto, mas tudo se torna simples quando breve: &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> existe?&#8221;, &#8220;há felicidade&#8221;, &#8220;o que a vida me guarda?&#8221;. Sem a profundidade do infinito e das incertezas, sem as distorções do olho que vê através do cristal, todas as perguntas são simples. As respostas são complexas quando não sabemos perguntar.</p>
<p>O problema é que geralmente não queremos respostas e fazemos as perguntas erradas. Queremos a experiência da vida, as descobertas, sorrisos, boas histórias, sonhos realizados, mas ignoramos que tudo o que aprendemos é valorizado pelo contraste e o contraste vem dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, das dores, dos acidentes, das péssimas histórias. O contraste é um olho que procura vida através da distorção da água em uma sala de espelhos. </p>
<p>Quando perdemos algo, sempre aparece alguém para falar um simples &#8220;vai passar&#8221;, que parece ser a resposta certa para a pergunta que nunca é feita: o que vai passar? Se vai passar, qual foi o sentido? Sonhamos com &#8220;a&#8221; pessoa, &#8220;aquela&#8221; que viverá toda a intensidade do mundo conosco. Vivemos a intensidade, o relacionamento acaba, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> chega, mas &#8220;vai passar&#8221;. Repito: o que vai passar? O que é que vale a pena guardar, então? As histórias? A &#8220;sombra&#8221; para contrastar com a próxima experiência? Guardamos o que é bom e ainda assim deixamos passar?</p>
<p>Sonhar lindos sonhos fazendo planos enquanto a razão grita &#8220;parem com isso&#8221;, o inferno dos desencontros, da vida pregando peças e fazendo com que se perceba o quanto somos pequenos pra saber que mesmo o céu cobrindo igualmente a todos, não podemos abrir mão da proximidade de sorrisos, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/segredos/">segredos</a> e confidências, de brincadeiras, de olhares e de gestos, todos únicos em seus significados. Não podemos abrir mão da realidade diária, que pode ou não permitir a verdade desses <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a>. Não podemos ignorar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/crueldade/">crueldade</a> da vida que caleja o coração, fazendo com que os medos se fortaleçam para quebrar essa casca.</p>
<p>Alteramos dia após dia a medida de nossos <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, de nossa capacidade de lutar, de confrontar, de viver. Me pergunto: chegaremos, então, a uma experiência única e superior ou apenas perceberemos, um dia, que nossa capacidade de enfrentamento se cansou, desistiu e implora por algum tipo de alívio, seja ele uma viagem para um lugar desconhecido, um encontro com alguém cuja química renda alguns minutos de paixão, ou simplesmente alguma droga, legal ou ilegal, que faça a mente acalmar e desistir de tantos questionamentos?</p>
<p>Agora, nesse momento, eu dificilmente me reconheço. Penso no que fui e no que sou hoje e só me encontro na <a href="http://www.transtorno.net/tag/insonia/">insônia</a> da <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> de respostas que jamais virão. Penso no agora e temo que dentro de dez anos não irei me reconhecer senão por essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a>, pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/insonia/">insônia</a> e por meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>. Irei me reconhecer deitado sozinho, saindo da cama para escrever, como tantas outras vezes.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Equívocos</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Oct 2009 00:19:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Humanidade]]></category>
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		<description><![CDATA[Nietzsche (odeio citá-lo, maaaas&#8230; *) escreveu sobre o conflito Apolo/Dionísio e acreditava que em algum momento essas oposições se confundiriam, de tal modo que sua filosofia assumia assim uma posição anti-cristã, ainda que dentro do cristianismo. Antes dele, Hegel levantou a idéia de opostos no nível racional: a dialética, a razão que pensa a si &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nietzsche (odeio citá-lo, maaaas&#8230; *) escreveu sobre o conflito Apolo/Dionísio e acreditava que em algum momento essas oposições se confundiriam, de tal modo que sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> assumia assim uma posição anti-cristã, ainda que dentro do cristianismo. Antes dele, Hegel levantou a idéia de opostos no nível racional: a dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, a razão que pensa a si mesma. É essa a mesma coisa que o conflito nietzscheano? Not quite. Não podemos dizer que Édipo, ao arrancar seus olhos, pensou dialeticamente. Faz sentido? Não foi a razão que arrancou seus olhos, foi a paixão.</p>
<p>Hoje, apesar da banalidade da morte e da incomunicabilidade humana expressa por Ionesco e <a href="http://www.transtorno.net/tag/beckett/">Beckett</a>, nos impressionamos com alguns fenômenos isolados. Édipo causa impressão após mais de 2.000 anos, assim como Electra e Orestes. Centenas morrem diariamente em explosões no Oriente Médio, em conflitos na África, nas favelas e ruas do Rio ou de SP, mas o que chama a atenção do público, mantendo os notíciários sensacionalistas por horas e até mesmo dias, é o caso de uma menina atirada de uma janela.</p>
<p>Aparentemente não é o fenômeno de massa que interessa. É o Único que causa interesse. Alguém duvida que traficantes, comunistas, nazistas, terroristas e cia matam/mataram mais do que Ted Bundy, Ramirez ou Dave Berkowitz? Não há dúvida alguma, mas esses casos isolados, dotados de face e nome, são pequenos universos, dotados de leis próprias e incompreensíveis, que atuaram de forma não categorizável. O que foge aos padrões é comumente temido e torna-se interessante à distância. Um exemplo disso pode ser obtido se pensarmos que os romanos mataram centenas de pessoas, mas que foi através da idéia de Cristo, de um único, de um redentor, que se fez a história do ocidente nos últimos XX séculos. O que é comum é que é aceito facilmente e pode, por certo, tornar-se extremamente perigoso.</p>
<p>Alguns Filósofos escreveram sobre o impacto que o Holocausto causou à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, temendo que após esse fenômeno nada mais interessasse: se toda uma época permitiu tal coisa, o que poderia ser forte o suficiente a ponto de levar à comoção depois disso? Ainda mais mortes? É um equívoco pensar em identificação do um ao todo. O único é que ainda causa estranheza. Também &#8211; e por isso mesmo &#8211; o desconhecido, o aleatório. É óbvio que cada judeu morto era único e esse é exatamente o ponto em questão: questiono o resultado dessa alta exposição, posto que esses fenômenos reduzem os indivíduos a números sem rostos, sem individualidade. A massa não é mais afetada por grandes números, mas por rostos, vistos como símbolos, mártires. Por isso há, por exemplo, o interesse em Anne Frank.</p>
<p>Se hoje surgisse um sujeito dizendo &#8220;matarei todas as pessoas pardas&#8221;, haveria indignação, mas em muitos casos de forma falsa: &#8220;estou indignado, mas não sou pardo, logo, não é o meu rabo que está na reta&#8221;. Imagine que apareça um sujeito que mate garotas em série: &#8220;nossa, que absurdo, ele mata mulheres, mas eu sou homem, então não corro risco&#8221;. Entende? Não foi essa a mesma atitude perante o Holocausto? Agora pensem no atirador de Washington. Lembram do caso? Descobriram que eles (era uma dupla, pra quem não se lembra) estavam apenas atirando em pessoas aleatórias pra encobrir o assassinato de uma específica, que aconteceria em meio às demais. O todo seria apenas um desvio de atenção. Engenhoso, mas interessado. Ainda assim, quando não se sabia a causa dos disparos, quando se acreditava no ato desinteressado e randômico, o terror foi intenso: ruas vazias e pessoas apavoradas. Não havia um grupo determinado como alvo.</p>
<p>Não vou entrar no mérito dos tiroteios que acontecem no Brasil, das guerras, de brigas que acabam em mortes, de balas perdidas. Esses são casos que ocorrem dentro de um sistema geralmente interessado e banal, cujo controle é possível por meios repressivos/políticos, por exemplo. Pensem agora no seguinte: um sujeito normal, extremamente comum, sai de casa, vai a um lugar movimentado qualquer, olha à sua volta, admira o que está ali, inveja mesmo, e começa a disparar em mulheres, crianças, adolescentes e homens indistintamente. Se você soubesse que tal coisa é possível, sairia de casa em paz? Perderia os <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> mais intensos de sua vida com a facilidade com que perde hoje? Acontece que também é um equívoco se acreditar imune, pois é claramente possível. &#8220;Mas se eu pensar assim, não terei mais um segundo de paz sequer&#8221;. É, talvez não tenha. Mas repito as perguntas anteriores: perderia tanto tempo quanto costuma perder ou aproveitaria o que tem da melhor forma, intensamente?</p>
<p>É um equívoco acreditar no conforto e na segurança, acreditar que isso jamais acontecerá. É um equívoco também que sejam necessárias situações tão extremas para aquisição de consciência de tudo o que nos cerca, de que o tempo foge, do que deixamos de fazer. É um equívoco ignorar o Eu e pensar em engajamentos e universais. O &#8220;social&#8221;, o &#8220;bem maior&#8221;, é um câncer: cega, faz crer que existe um propósito que na verdade não há, dá uma sensação de conforto enganosa, de isolamento por concordância com a maioria. O indivíduo expressa o mundo à sua maneira e crer no &#8220;social&#8221; é crer no ocidente equivocado dos últimos 2000 anos. Se anular é um equívoco e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/despertar/">despertar</a> é violento.</p>
<p>O assunto é por demais interessante pra um pobre post de blog. Vale lembrar que Hanna Arendt foi a fundo em muitos desses tópicos em sua análise da &#8220;banalidade do <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>&#8221;, bem como sobre a forma como esta foi somada à organização das massas por regimes totalitários como comunismo e o nazismo. Se o assunto interessar, recomendo muito a leitura de suas obras. Cabe questionar, por fim, se estamos tão livres dos totalitarismos quanto alguns afirmam e &#8211; principalmente &#8211; se todos possuem a forma organizada destes citados. Se não, como se dão as manifestações hoje? E não me venham com a bullshit cafona do &#8220;imperialismo americano&#8221;, por favor.</p>
<p>* odeio citar Nietzsche pois se trata do &#8220;Filósofo das frases prontas&#8221;: qualquer debilóide isola algumas delas e sai citando como se fossem máximas de sabedoria, sem analisar como ele chegou a essas afirmações ou negações e, principalmente, onde queria chegar. Meu problema não é com Nietzsche, mas com o uso que fazem dele.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Erotismo x pornografia</title>
		<link>http://www.transtorno.net/erotismo-pornografia/</link>
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		<pubDate>Sat, 03 Jan 2009 02:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[Bataille]]></category>
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		<category><![CDATA[escolhas]]></category>
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		<description><![CDATA[Não é segredo para qualquer pessoa que me conheça que sou admirador dos trabalhos do grupo catalão (se ainda posso chamá-los assim, tão internacionais que se tornaram) La Fura Dels Baus. Já disse em um post anterior que atualmente eles estão mais calmos, em outra frequência que não a &#8220;barbárie&#8221; de 15 ou 20 anos &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não é segredo para qualquer pessoa que me conheça que sou admirador dos trabalhos do grupo catalão (se ainda posso chamá-los assim, tão internacionais que se tornaram) <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> Dels Baus. Já disse em um post anterior que atualmente eles estão mais calmos, em outra frequência que não a &#8220;barbárie&#8221; de 15 ou 20 anos atrás.</p>
<p>Enfim, voltando ao título do post: erotismo x pornografia. Qual a diferença? Est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>? <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">Moral</a>? Física? Se é física, como encaixar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>? Na <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a>/provocação, talvez? A <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> funcionaria como freio ou propulsor? Há inúmeras questões que devem ser levantadas e estas, por sua vez, levantam mais. Escrevi algumas linhas sobre isso quando tinha&#8230; 17 anos. Sei que ainda tenho por aqui, resta encontrar em meio à papelada. O que penso hoje é mais complexo, mas não joguei fora o que pensava então, implementei aqui, aprofundei ali, mudei acolá. Eram ingênuas lá atrás, mas curiosamente, talvez por isso, pegava um ponto do ser humano em espercial: a imaginação.</p>
<p>Qual a relação entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> e o tema proposto aqui? Quem conhece o trabalho do grupo sabe bem a ligação que eles tem com os instintos, com a provocação da parte sombria, da carne, do medo. Há mais do que isso: existe uma montagem do grupo chamada &#8220;XXX&#8221;, que infelizmente não chegou ao Brasil, assim como a maioria dos trabalhos que montaram. XXX é explícita e foi bem comentada na época. A maioria, no entanto, preferiu ficar com a hipótese mais óbvia: o &#8220;grupo queria chocar&#8221;. Tenho <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a> e por isso resolvi postar um trailer que encontrei no youtube com algumas cenas. Dá para ter uma idéia do que se passa e também é possível ver que mesmo vibrando em outra frequência, há ainda muito instinto ali. Instintos, porém, são puramente animais. O que há além disso naquelas imagens para torná-las também eróticas?</p>
<p>Segue o vídeo (espero que ninguém tire de lá, pois vale assistir):</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=dmLqMcUaUgs">http://www.youtube.com/watch?v=dmLqMcUaUgs</a></p>
<p>Em &#8220;O erotismo&#8221; (L&#038;PM, 1987), Georges <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> diz que </p>
<blockquote><p>&#8220;o erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente <em>fora</em> um objeto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>. Mas esse objeto corresponde à <em>interioridade</em> do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>. A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais do indivíduo: mesmo se ela recai sobre a mulher que a maioria teria escolhido, o que entra em jogo é sempre um aspecto indizível, não uma qualidade objetiva dessa mulher (&#8230;). Em resumo, mesmo estando de acordo com a maioria, a escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade interior, infinitamente complexa, que é típica do homem.&#8221; </p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>&#8220;A atividade sexual dos homens não é necessariamente erótica. Ela o é sempre que não for rudimentar, que não for simplesmente animal&#8221;.</p></blockquote>
<p>Percebem a diferença?</p>]]></content:encoded>
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		<title>Natureza e liberdade em Espinosa</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Dec 2008 01:08:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[contingência]]></category>
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		<description><![CDATA[Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre Leibniz, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem mal vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram Espinosa em um teórico do MST. “Na medida em que a alma conhece as coisas &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em um teórico do MST.</p>
<blockquote><p>“Na medida em que a alma conhece as coisas como<br />
necessárias, tem maior poder sobre as afecções, por<br />
outras palavras, sofre menos por causa delas”<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Ética, Parte V, Proposição VI</p></blockquote>
<p>Este trabalho tem por objetivo pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana a partir do <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> de sua natureza, conforme a segunda proposta dada, a saber, “digo livre a coisa que existe e age a partir da só <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de sua natureza”, tendo em vista que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> de se autodeterminar é a mesma que o homem possui ao conhecer sua essência e tornar-se ativo, buscando também sua autodeterminação. </p>
<p>Faz-se necessário, antes de continuarmos, vermos o que vem a ser natureza e ação na <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> de Espinosa: na Ética, proposição XVI, parte I, o filósofo argumenta que “da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> da natureza divina devem resultar coisas infinitas em numero infinito de modos, isto é, tudo que pode cair sob um intelecto infinito”. Dessa <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> segue-se que as coisas têm, então, uma causa necessária. Conhecer pela causa é conhecer verdadeiramente e, portanto, conhecer a causa é conhecer a natureza, saber a essência, que, no caso humano, refere-se a singulares. </p>
<p>A substância, única, é capaz de infinitas ações, das quais conhecemos duas, pensamento e extensão. Os efeitos dessas ações são os modos/afecções. As afecções são a forma de agir (ação) da substância, de forma que inteligir, considerar o que se sabe sobre as coisas como partes de sua natureza e procurar conhecê-las, é buscar conhecer sua causa, sua essência, aproximar-se de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>. Portanto, como vemos no escólio da proposição IV, parte V, “devemos sobretudo trabalhar para conhecermos clara e distintamente, quanto possível, cada afecção”. </p>
<p>Ao tomarmos os homens como exemplos de coisas singulares, podemos concluir então que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, ou seja, o conhecer e viver de acordo com sua natureza, é onde reside sua divindade, tendo em vista que “tudo que existe são modos da natureza divina” e que “os modos da natureza divina são também conseqüência necessária, e não contingente, da própria natureza divina”, conforme a demonstração da proposição XXIX, parte I, da Ética.</p>
<p>Vivemos, no entanto, em ilusão de livre-arbítrio, pensando os atos como fins, quando são, na verdade, apenas efeitos. Sob tal ótica podemos considerar e compreender o exemplo dado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em sua carta 58, ao demonstrar que uma pedra atirada por alguém, caso pudesse pensar, se esforçaria para continuar se movendo, crendo depender de si só, ignorante da causa de seu movimento. </p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolheu criar as coisas como são: elas são necessárias, são parte da natureza divina, decorrem dela. Se houvesse escolha, haveria também negatividade, abriria-se espaço para outras possibilidades, para <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, para um não escolhido, mas “na Natureza nada existe de contingente; antes tudo é determinado pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> da natureza divina a existir e a agir de modo certo” (Proposição XXIX, parte I).</p>
<p>Falar em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> não implica, portanto, falar em fatalismo, pelo contrário. Para pensar em fatalismo é preciso pensar em contingências, em alternativas e possibilidades, em melhor ou pior, abrindo-se, novamente, espaço para a negatividade, que não existe nesse caso.</p>
<p>Isso não me parece conformismo, de forma alguma, como veio a ser entendido em alguns casos, mas, pelo contrário, uma forma de compreender melhor o que se dá, olhando para as causas e não para os fins, olhando para a natureza e o que ela exige para dar-se completamente, para ser plenamente. </p>
<p>Conhecer as afecções aumenta o poder sobre elas, sofre-se menos, aproxima-se então o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da natureza, da causa, não de uma suposta causa final, de um efeito tido como tal por ignorância, mas sim da origem, da positividade, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>.</p>
<p>Parece, entretanto, que é simples conhecer a causa e seus efeitos, mas não podemos esquecer que lidamos também com o que ocorre contra nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, dentro do contingente e do possível: as paixões. Os afetos podem ser ativos e passivos, ou seja, podem vir de nossa natureza ou não. Um afeto passivo pode trazer alegria, mas não é uma alegria que torna o indivíduo livre, posto que é contingente, não há controle ativo sobre ela. Pode ser uma paixão alegre, sim, mas poderia também não ser.</p>
<p>Conhecer causa e efeito, transformar paixão em ação, contingente em necessário, enfim, ser ativo. Essa atividade é o estado que capacita à autodeterminação, de forma que aí reside a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. Agindo dessa forma, pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de nossa natureza, estaremos nos aperfeiçoando, passando “de uma menor a uma maior perfeição” e, dessa forma, elevando nossa alegria, que está nessa passagem, nesse aperfeiçoamento.</p>
<p>Se é de nossa natureza buscarmos a felicidade e agirmos em função de tal objetivo, como podemos resolver o problema das diferenças entre indivíduos, haja visto que o que é felicidade para mim pode não ser para outro? A natureza deve ser pensada individualmente, de forma que ao conhecermos cada um nossa parte, lidaremos melhor com os demais e seremos felizes? Ou há uma unidade, uma natureza humana, única, que deve ser reconhecida, independente de contingências de nossas paixões enquanto indivíduos?</p>
<p>A idéia de uma natureza humana, de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de felicidade única, é perigosa, vale notar, na medida em que abre margem para a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de sistemas políticos e religiosos – cuja relação foi analisada por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em seu Tratado Teológico-Político –, dai <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> afirmar que os filósofos “em vez de uma ética, escreveram uma sátira”.</p>
<p>Não devemos pensar na Ética, entretanto, como apenas uma descrição dos singulares, posto que tudo é necessário. Não podemos pensar numa descrição pura e simples, onde não há possibilidade de transformação. É necessária uma mudança de foco para compreender onde pisamos: estamos, sim, buscando saber qual é a natureza/essência dos singulares, buscando aperfeiçoamento, não um mero relato. É necessário conhecer a natureza e então dar seqüência a ela, desenvolvê-la: é nesse campo que devemos buscar o cumprimento da ética.</p>
<p>Pensar felicidade e <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> universais, em bem e <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> universais é, portanto, um equívoco. Esses universais têm serventia à <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> descritiva, que se contenta em dizer como as coisas são ou não são e como deveriam ser, não à ética que <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> o <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> da natureza. Nesse sentido, então, podemos compreender o exemplo dado por <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> em sua carta 23, ao dizer que “se algum homem percebe que pode viver mais comodamente pendurado na forca que sentado à sua mesa, ele agiria como um insensato ao não se pendurar”.</p>
<p>Se seguirmos por esse caminho, podemos concluir que uma vez que cada indivíduo compreenda sua essência, fazendo de seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a>, de suas ações, a forma de determinar-se, exatamente como propõe o filósofo, não há como cair nessa armadilha, nessa universalização dos singulares, e assim, uma vez compreendida e sendo desenvolvida, autodeterminação em curso, veremos os humanos, individualmente, exercendo sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, sendo, enfim, agentes e então a alma não terá “outro poder que não seja o de pensar e de formar idéias adequadas” (Proposição IV, parte V, escólio).</p>
<p><b>Referências bibliográficas:</b><br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, B., Ética, Relógio d´Água, 1992</p>]]></content:encoded>
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		<title>Sobre o A-Set</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Nov 2008 01:37:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[diversão]]></category>
		<category><![CDATA[efêmero]]></category>
		<category><![CDATA[escolhas]]></category>
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		<description><![CDATA[Como alguns podem ter percebido, a URL do site/blog mudou. Vou explicar, resumidamente, o motivo: A-Set começou como necessidade de fazer algo criativo e foi orientado à música, claro, pois aquela sempre foi minha paixão, desde que lembro de minha infância. O problema, porém, é que a coisa deixou de ser divertida quando comecei a &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como alguns podem ter percebido, a URL do site/blog mudou. Vou explicar, resumidamente, o motivo:</p>
<p>A-Set começou como <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de fazer algo criativo e foi orientado à <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/">música</a>, claro, pois aquela sempre foi minha paixão, desde que lembro de minha infância.</p>
<p>O problema, porém, é que a coisa deixou de ser divertida quando comecei a me forçar a criar. Não dá pra forçar e manter a <a href="http://www.transtorno.net/tag/diversao/">diversão</a>. O hobbie virou uma chatice e deixei de lado. Ficava me forçando a compor, imaginando álbuns completos, conceitos, etc. É ok pensar nisso, mas não ser obrigado a isso, ainda mais por mim mesmo.</p>
<p>Enfim, a coisa tava sem graça, como disse, sem contar que o tempo tá curto. Queria que as coisas voltassem a ser uma brincadeira, como no começo. Acredito que sem a obrigação de fazer algo, auto-imposta, admito, poderei fazer mais coisas. Se não fizer, dane-se.</p>
<p>Agora, por exemplo, estou escrevendo quase que diariamente. O &#8220;blog&#8221; se tornou uma brincadeira e tem me divertido. Quando deixar de me divertir, se eu me obrigar a escrever, vou diminuir ou parar também. Por hora, tô aqui.</p>
<p>As músicas continuam, A-Set continua, meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/rabiscos/">rabiscos</a> continuam. Enfim, o que mais eu quiser fazer&#8230;</p>
<p>A propósito, o novo endereço escolhido tem vários motivos, mas cada coisa a seu tempo, novidades estão a caminho. Vamos ver como sairão&#8230; Outro dos motivos é a facilidade de ditar. Era um inferno passar o endereço do a-set.com por causa do hífen. Esse novo endereço torna tudo mais fácil e repleto de significados.</p>
<p>Os dois endereços ficam válidos e vou mantê-los registrados, mas se quiserem atualizar os bookmarks, sintam-se à <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>.</p>
<p>Por enquanto é isso&#8230;.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade humana e liberdade divina: contingência ou necessidade?</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Sep 2007 01:55:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[contingência]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[escolhas]]></category>
		<category><![CDATA[Leibniz]]></category>
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		<category><![CDATA[necessidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Este trabalho tem por objetivo analisar a liberdade humana e a liberdade divina em relação às necessidades absoluta e hipotética e à contingência, focando tanto na questão da liberdade divina durante a criação e suas escolhas de acordo com os decretos livres de Deus, bem como na liberdade humana, tanto sob o ponto de vista &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este trabalho tem por objetivo analisar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana e a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina em relação às necessidades absoluta e hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> e à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, focando tanto na questão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina durante a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de acordo com os decretos livres de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, bem como na <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, tanto sob o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> como do divino, buscando respostas para algumas questões que se seguem, das quais ressalto a que me parece mais intrigante: como a certeza divina de que algo irá acontecer é compatível com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> das <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> humanas?</p>
<p><strong>. <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">Contingência</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a></strong></p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é assegurada pelos livres decretos, garantindo a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> a escolha do melhor dos mundos. Ao criá-lo vê a série inteira do universo, as ações e suas causas determinadas. Vale notar que todas as causas são determinadas, como demonstra <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, haja visto que se fossem indeterminadas seria impossível até mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> prevê-las, assim como não existiria sentido para as mesmas.</p>
<p>Os humanos, por outro lado, não têm essa garantia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana é dada pela bondade divina, sendo, portanto, parte do melhor dos mundos, e é exercida perante as contingências, de forma que as ações humanas não podem ser e ter <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta, mas apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, ou seja, as ações humanas poderiam ser de outra forma, sem implicar contradição, como implicaria, por exemplo, pensarmos um quadrado sem quatro ângulos retos. As ações de um homem específico poderiam ser de outra forma, mas não são pelo fato de que se fossem implicariam em outro homem, em outro mundo possível.</p>
<p>Antes de prosseguirmos, creio ser necessário recorrer brevemente ao parágrafo XIII do “Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>”, em que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> expõe a diferença entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, isto é, <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>Começando pelo final do parágrafo, vê-se que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> chama a atenção para o fato de que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu criar o melhor mundo possível por um decreto, que estabelece criar o sempre o mais perfeito. Ao fazer essa escolha, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> mostra que poderia ter seguido outro caminho, criando um mundo imperfeito. É da perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolher criar o melhor dos mundos, portanto. É uma prova de sua bondade. Dentre os decretos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> está também o decreto sobre a natureza humana, que determina que o homem fará, embora livremente, sempre o que lhe parecer melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito, dotado de total <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, opta, então, por criar o melhor mundo possível, o mais perfeito, o que não implica que outros pudessem ser criados.</p>
<p>Pensar na impossibilidade de outros mundos seria, novamente, pensar a imperfeição divina e, por conseqüência, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, beirando o espinosismo. Seria a negação de qualquer forma de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, tanto divina quanto humana. Não poderia ser diferente: pensarmos <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> seria pensá-lo imperfeito e, por conseqüência, criador de um mundo que não seria o melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito só pode ser pensado se concedermos <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> total. Note-se que não há contradição alguma em pensarmos um outro mundo possível, pelo contrário. A possibilidade de outros mundos passa a ser um indicativo de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, em oposição à <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>. Não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta de este mundo ser como o é e não de outra forma, apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Clarke, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma mais uma vez que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu dentre possibilidades e que negá-las seria contra a hipótese, afirmando ainda que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolhe dentre possíveis, dos quais nenhum implica em contradição, quer dizer, de todas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> divinas, nenhuma cria a impossibilidade absoluta de outras. E continua: “but to say that God can only choose what’s best, and to infer from this that what he does not choose is impossible, this, I say, is confounding of terms; it is blending power and will, metaphysical necessity and <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> necessity, essences and existences” (CLARKE &amp; <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, 2000, p. 37).</p>
<p>Sob a ótica divina, a melhor escolha é feita pela perfeição, enquanto que para as criaturas é feita com o que lhes parece melhor, sem que isso impeça o menos perfeito de ser possível, ou seja, a melhor escolha é feita pois parece melhor às criaturas, mas uma outra, oposta, não é impossível, mas rejeitada pela imperfeição.</p>
<p>Dessa forma vemos que o oposto é possível, não necessário. Como dito anteriormente, mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> que faz não tornam seu oposto um absurdo. Essas contingências têm sua razão de ser. Essas contingências fizeram que as coisas fossem como fossem. Como existirmos, por exemplo. E necessário ex hyphotesi existirmos hoje, pois uma série de ações, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre contingências, nos trouxe aqui, mas é perfeitamente possível pensar uma outra forma, uma situação completamente diversa, em que não existíssemos. Seria menos perfeito, talvez, mas não impossível, enquanto que o necessário, o absolutamente necessário, fundado no princípio de contradição ou mesmo em sua essência, independe de qualquer <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, seja ela divina ou das criaturas, de forma que nem mesmo <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> pode pensar um triângulo com quatro lados. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> tem o poder para aniquilá-lo, mas não para fazer dele uma coisa diversa. Transformar sua essência seria destruí-lo. As contingências baseiam-se em <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre possibilidades, mas não podemos, como explicado, escolher um triângulo com quatro lados, posto que sua natureza ou essência o impede de ser assim.</p>
<p>Uma vez colocadas as questões da <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> e da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, devo então me aprofundar no problema da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, apontado anteriormente e de total importância para o questionamento que se seguirá. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> possa prever os futuros contingentes, isso não os torna necessários absolutamente, mas os torna certos. É certo, não necessário, que Adão será criado, irá pecar e terá filhos. É perfeitamente possível pensarmos em alternativas para Adão, não há contradição alguma nisso, embora essas alternativas impliquem também em outros mundos possíveis que não este.</p>
<p>O fato de tomarmos certas decisões e fazermos certas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> faz parte de nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é onisciente dessas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> quando escolhe este mundo em detrimento aos demais possíveis. Se pensarmos a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> em relação à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, porque estes humanos e não aqueles, veremos que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> faz sua escolha com base no que vê nas nossas: vê-nos agindo, vê a seqüência do universo, e nos escolhe com base nisso. O fato de que essas coisas venham a ocorrer posteriormente, cada uma a seu tempo, se dá devido à permissão divina, não por sua escolha, quero dizer, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos escolhe, mas não escolhe por nós. A escolha divina se dá somente no momento da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, dando lugar à escolha humana posteriormente.</p>
<p>Como bem lembra Tessa Moura Lacerda em seu livro “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/">política</a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>”, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que “Adão se determinou a pecar de acordo com certas inclinações que prevaleceram, mas essa determinação não destrói nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>” (LACERDA, 2005, p. 125).</p>
<p>A capacidade humana de refletir sobre suas ações, argumenta Tessa, tem um papel, senão o principal, para pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> dos homens. Ora, é essa mesma capacidade de reflexão que atribuída a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos mostra, em certo grau, suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e reflexões para tomar a decisão sobre esta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e não outra. Uma vez tomada a decisão desta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a>. Qualquer mudança feita por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> após a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> implicaria em arrependimento e, por conseqüência, em Sua imperfeição. Aqui se apresenta, então, um ponto claro da diferença entre a reflexão divina, não afetada por paixões, e a humana.</p>
<p>A reflexão sobre os atos é, portanto, o reconhecimento das ações é também reconhecer-se como agente e, com isso, assumir responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> sobre elas. Tessa, citando <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, indica novamente o caminho: “a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> (&#8230;) consiste na inteligência, que envolve um <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> distinto do objeto da deliberação” (LACERDA, 2005, p. 127).</p>
<p>Para que haja <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, ou seja, como já dito anteriormente, ela tem de ser possível e não implicar contradição. Qualquer acontecimento desse tipo é contingente, mas não sem sentido, posto que há razão para sua existência. Essa escolha, essa razão, é <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e sua conseqüência é necessária, embora não necessária absolutamente. Temos a impressão de <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, mas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>, quando observadas, provam que seus opostos podem existir, o que não pode acontecer para o que é necessário por natureza.</p>
<p>Suponho que com base nessa reflexão, nessa razão <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, é que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decide criar o melhor dos mundos, firmando seu primeiro decreto, dando mostra de sua perfeição e de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, conforme apontado anteriormente, afastando então a possibilidade de uma existência trágica. A bondade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é, com isso, também demonstrada, pois podemos pensar, então, que os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> humanos, que a possibilidade de aprendizado a partir dessas falhas, faz parte do melhor dos mundos e que o melhor segundo nosso ponto de vista não é o melhor para Deus: se pensarmos, por exemplo, um mundo onde ninguém erra e todos são perfeitos e não tem nada a aprender, onde a evolução atingiu o ponto máximo, estaremos pensando, portanto, um mundo sem sentido, imperfeito por conseqüência.</p>
<p>Para os humanos, a cadeia de causas de acontecimentos é indemonstrável, mas podemos ter certeza de que nada que tenha acontecido em um momento qualquer foi necessário metafisicamente e que o acontecimento seguinte é necessário somente em relação ao anterior, ou seja, hipoteticamente, pois de fato poderia ser diferente, caso o anterior também o fosse. Nisso vemos onde entra a deliberação sobre nossas ações, o julgamento, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> que assumimos perante eles, mudando o próximo de acordo com o anterior, fazendo com que a cadeia de acontecimentos siga um rumo de acordo com nosso aprendizado, como veremos a seguir.</p>
<p>O princípio do melhor rege também as inclinações da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Como dito anteriormente, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decreta também que o homem busque o bem, o melhor. O espírito tende, então, para o lado que parece ter maior bem e, com isso, mesmo os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> que se cometem, mesmo as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> consideradas erradas, são as melhores possíveis naquele momento, quando foram tomadas, pois os humanos podem se enganar escolhendo um bem aparente no lugar do melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> determina que o homem busque o melhor, tenda para o bem, mas dessa forma há uma dupla inclinação, sendo a outra a inclinação da alma com relação à causa próxima.</p>
<p>Assim como atravessar o Rubicão está contido na idéia de César, tudo o mais, todas as suas decisões e ações também estão, assim como para qualquer outra pessoa: “os homens encontram em si mesmos as razões que determinam suas ações” (LACERDA, 2005, p. 129), na alma, princípio de suas ações e paixões.</p>
<p>Queremos o que nos agrada, mas como nem sempre temos distinção, esse agrado pode ser um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, um bem menor (LACERDA, 2005, p. 137). Embora às vezes não façamos uso de nossa razão, não deixamos por isso de tê-la e isso não quer dizer, portanto, que não possamos fazer <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> livres.</p>
<p>Essas percepções confusas, que impedem o julgamento do entendimento, paixões que afetam o julgamento inconscientemente, impedem-nos, às vezes, de entender as razões de nossos instintos. Embora tenhamos em vista o bem, tendemos a fazer coisas cujo julgamento não é claro, segundo as inclinações da alma, sem percebermos. Vemos, com isso, como a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> pode contribuir com nosso julgamento, desviando nossa atenção.</p>
<p>Para um homem conhecer totalmente sua natureza, conforme citação da Teodicéia no livro de Tessa Lacerda, “seria preciso que ela [a alma] conhecesse perfeitamente todo o universo que está envolvido nela, ou seja, que ela fosse <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>” (LACERDA, 2005, p. 139).</p>
<p>Não é porque nos enganamos ou porque nos deixamos levar por tendências que não são claras que deixamos de ser livres. Não deixamos de ter a possibilidade de reflexão, que pode ser usada para orientar nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, o que caracteriza uma ação livre, a responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do homem, é a “possibilidade de buscar razões ou inclinações sobre seus desejos, a potencialidade de refletir sobre suas ações e influenciar pela razão os desejos futuros” (LACERDA, 2005, p. 140). A reflexão sobre uma ação a transforma em ação <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e quanto maior o uso do julgamento sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, maior o uso da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Arnauld, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz que ao escolher Adão, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolhe um Adão “vago”, mas também tudo o que será, também a sua posteridade. Tudo o que se segue dai tem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipotética: <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu o melhor Adão dentre outros possíveis. O ponto, entretanto, é que ao escolher a este Adão e não a outro, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não pode privar-lhe da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é livre ao escolher Adão e todos os seus descendentes, ao escolher Adão com estas inclinações e não outras, ao escolher o Adão que irá pecar e não outro. A questão que se coloca, então é se Adão é livre tendo sido escolhido pelo que é potencialmente, pelo que se sabia a seu respeito. Adão é livre mesmo que suas ações sejam certas, embora não sejam necessárias? Como alerta Arnauld em uma de suas cartas, o Adão possível escolhido ligou-se à mesma posteridade do Adão criado.</p>
<p><strong>. Conclusão</strong></p>
<p>O que sustento, seguindo <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> de perto, é que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> é livre em suas almas e deliberações. Não me parece, contudo, que sejam livres de acordo com a onisciência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, o qual a escolheu de uma forma e não outra. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, assim, sabia o que viria a acontecer: viu a seqüência do universo de fora do tempo, e assim foram feitas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>. Do ponto de vista lógico, as ações não são necessárias, e do ponto de vista divino elas não são necessárias, mas certas. O Adão possível tornou-se o Adão criado, como disse Arnauld, e é livre, concluímos, somente enquanto não conhece suas ações futuras, como <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> as conhece, e pode deliberar sobre elas, embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> já as tenha previsto. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não faça as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> pelos homens, me parece que, em certo nível, Sua escolha pelo melhor mundo possível já as fez.</p>
<p>Todo o universo está contido na noção de Adão, o mundo de acordo com seu ponto de vista está lá. <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz em sua correspondência com Arnauld, como citei anteriormente, que os eventos não são necessários, mas certos e exemplifica “é verdadeiro que poderia não fazer aquela viagem, mas é certo que farei”.</p>
<p>Embora a <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> espinosana seja muito diferente do que vejo aqui, tendo a perceber que se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> foi livre para escolher o mundo perfeito dentre as opções possíveis, somos livres também para escolher e agir de acordo com as opções que nos são apresentadas, mas somente de acordo com o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, ponto de vista de quem não sabe quais serão os próximos passos, de quem os teme e delibera para escolher o melhor a ser feito, enquanto que de acordo com a visão divina, tendo nos escolhido pelo certo – não pelo necessário – sejamos todos personagens de uma história cujo final é conhecido pelo criador, não por nós.</p>
<p>A despeito da forte afirmação, somos aqui levados a perceber que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> que possuímos está na ignorância do porvir, está apenas nas decisões que tomamos ignorando o que faremos a seguir, ou tendo apenas uma vaga idéia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> está, desse modo, em nossa responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, nas decisões que assumimos, em nossos atos. Pergunto-me, então, sabendo que tal questão não deve ser tratada com superficialidade, se a onisciência divina e a escolha pelo melhor dos mundos não é, em si, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> humana, como Édipo, por exemplo, fugindo de seu destino, ignorando que a própria fuga o levará de encontro a ele.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong><br />
CLARKE S., <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Correspondence, Indianapolis, Hackett, 2000<br />
LACERDA, T., A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/">política</a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, São Paulo, Humanitas, 2005<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> e outros textos, São Paulo, Martins Fontes, 2004</p>]]></content:encoded>
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