Postado em 19-04-2009

A voz do Demônio, por William Blake

por Aseth | Categoria: Livros, Pensamentos | Lido 239 vezes

Um fragmento de “O matrimônio do Céu e do Inferno”, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem necessidade de meus comentários:

Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:
1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo & uma Alma.
2. Que a Energia, denominada Mal, provém apenas do Corpo; & que a Razão, denominada Bem, provém apenas da Alma.
3. Que Deus atormentará o Homem pela Eternidade por seguir suas Energias.

Mas os seguintes contrários são Verdadeiros:

1. O homem não tem um Corpo distinto de sua Alma, pois o que se denomina Corpo é uma parcela da Alma, discernida pelos cinco Sentidos, os principais acessos da Alma nessa etapa.
2. Energia é a única vida, e provém do Corpo; e Razão, o limite ou circunferência externa da Energia.
3. Energia é Deleite Eterno.

Quem refreia o desejo assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar e governa o inapetente.

E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do desejo.

Essa história está relatada no Paraíso Perdido, & o Governante, ou Razão, chama-se Messias.

E o Arcanjo Original, ou possessor dos comandos das hostes celestiais, chama-se Demônio ou Satã, e seus filhos chamam-se Pecado & Morte.

No Livro de Jó, porém, o Messias de Milton chama-se Satã.

Pois essa história tem sido adotada por ambos os lados.

Em verdade pareceu à Razão que o Desejo havia sido banido mas, segundo a versão do Demônio, sucumbiu o Messias, formando um céu com o que roubara do Abismo.

Isso revela o Evangelho, onde ele suplica ao Pai que envie o confortador, ou Desejo, para que a Razão possa ter Idéias sobre as quais se fundamentar, não sendo outro o Jeová da Bíblia senão aquele que mora nas flamas flamantes.

Sabei que Cristo, após sua morte, tornou-se Jeová.

Mas, em Milton, o Pai é Destino, o Filho, Quociente dos cinco sentidos, & o Espírito Santo, Vácuo!

Nota: A razão pela qual Milton escreveu em grilhões sobre Anjos e Deus, e em liberdade sobre Demônios & Inferno, está em que ele era um Poeta autêntico e tinha parte com o Demônio, sem sabê-lo.

Postado em 28-01-2009

Liberdade, transgressão e moral

por Aseth | Categoria: Filosofia, Pensamentos, Rabiscos | Lido 559 vezes

“A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”
- Bataille in “A literatura e o Mal

Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um momento de epifania, por assim dizer. Acontece, no entanto, que as idéias continuaram transbordando desde então e novas teorias e questionamentos, opostos aos iniciais, continuaram surgindo, uma torrente de compreensão/entendimento. Me deparei e ainda me deparo com diversas questões que precisaria responder e com outras que surgiram já trazendo suas respostas.

As linhas que seguirão abaixo são apenas um rascunho de algo que precisará ser desenvolvido, esmiuçado e detalhado, pois tratam-se de uma breve nota sobre como me sinto agora, neste momento, enquanto questionador e questionado.

Sem querer entrar em uma discussão das diferenças de Deus nas filosofias de Leibniz, Espinosa, Descartes ou qualquer outro filósofo, mas passando – seria impossível evitar –, ainda assim, por algumas generalidades de um e de outro, prossigo…

Leibniz afirma que a liberdade divina é garantida pelos livres decretos e que, em um desses decretos, Deus se determina a criar o melhor dos mundos. Outro diria, entretanto, que Deus criou esse mundo por pura bondade. Outros dariam ainda diferentes motivos, não importa. O que importa para essa discussão é como o mundo se dá para nós. As ações divinas podem ser livres, como amar a si, é claro. O fato de ter escolhido este mundo e não outro demonstra escolha, mas se essa escolha é determinada pela necessidade (ainda que autodeterminada) do melhor, ou pela bondade, ou por outro motivo, seria de fato livre?

O problema, entretanto, é que a escolha do melhor não exclui a possibilidade da escolha do pior, ou seja, decidiu-se por esse mundo, mas poderia ter sido outro. A possibilidade de um outro mundo torna evidente uma escolha livre. Colocando isso em termos humanos: o homem padrão, comum, que sai de casa todas as manhãs em busca do sustento de sua prole tem também a possibilidade da escolha oposta, é claro. Poderia não ir. Poderia, mas ainda assim se determina e vai. Amor à prole? Culpa? Medo de punição? Imperativo categórico? O que o move? Estamos claramente entrando nos domínios da moral. Voltamos a Deus: a liberdade humana nos foi dada por decisão de sua bondade. Não é essa uma escolha moral?

Se deus criou o mundo dessa forma e não de outra, teve a possibilidade dos demais, mas sua autodeterminação o impediu. A contingência existente foi excluída por uma necessidade auto imposta. Voltamos, então, à frase de Bataille que abre esse texto: “A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”. Deus “não pode desobedecer a ordem que existe”. É claro, desobedecê-la seria criar uma nova, implicando em sua imperfeição, em uma retificação da ordem anteriormente imposta, determinada como a melhor. Temos ai, além da discussão sobre a perfeição, também o bem comum, a moral tão evidente nos questionamentos humanos.

Em Espinosa não me parece lógico discutir isso, pois trata-se mais de uma tragédia e, portanto, uma contingência levando a outra. Arrisco dizer que há uma maior evidência de liberdade nesse caso. As escolhas dão a liberdade, que se contamina quando a possibilidade do oposto não é data. A liberdade é, portanto, diretamente ligada à contingência.

A “necessidade” de algo limita a ação da liberdade. O meio pode ou não fornecê-la, não cabe obviamente discutir Sartre, mas a necessidade de algo, quando existe, a limita. A própria necessidade de alimentar-se, por exemplo. Não é possível tomar a liberdade de não se alimentar sem conseqüências. A punição implica em necessidade, em bem maior, ainda que neste exemplo diga respeito apenas ao indivíduo em questão.

Bem maior, disse. Pois bem, diariamente pessoas acordam e, para manterem seu “melhor dos mundos”, sua alimentação, seu conforto, condições básicas ou mesmo prover para a família, limitam suas escolhas de forma que essas deixam mesmo de existir, pois o próprio questionamento é aniquilado, cedendo ao comodismo e à aceitação cega de algo tão comum e tão pouco evidente.

Liberdade absoluta implica em tragédia e talvez essa seja mesmo a razão da mítica dos grandes heróis: a transgressão é o que serve de magnetismo, o que atrai e os diferencia dos demais. A transgressão só existe quando abandonam o comum, a transgressão existe quando abandonam o bem maior, quando seguem seu instinto, seu egoísmo e seu destino. A moral é o freio da liberdade absoluta, que se dá por completo no “Mal desinteressado”, como diria novamente Bataille, mas não só ai. Cabe pensar em Saturno que castra Urano. Cabe pensar também a beleza de Vênus, filha desse ato, nascendo nas espumas do mar.

Seguir determinações morais e o bem necessário é tão limitante quando ter de acordar diariamente, trabalhar, se alimentar, procriar e repetir o ciclo. Nesse sentido, o homem comum é de fato a imagem e semelhança de Deus.

Voltamos à questão do provedor que sai de casa para buscar o alimento de sua prole, cuja bondade é livremente determinada. Poderia não ser bondade, mas medo? Não sabemos de casos de pais presos por abandonar bebês? Seja por bondade, medo, ou qualquer outro motivo, o homem permite ser colocado sob freios. Não cabe, no entanto, perguntar se em algum momento uma explosão se dará, ruptura, castração simbólica, ou se a aceitação da tragédia estará apenas mais aprofundada a cada novo dia. Essa pergunta não faz sentido quando dirigida ao geral, ao grupo. Cabe apenas a alguns humanos, mitos em potência.

A liberdade humana, desvinculada da moral, no sentido em que não tem a preocupação de manter uma ordem universal estabelecida, nem o limitante da perfeição, baseada apenas na ignorância total ou parcial das conseqüências de seus atos, é maior que a divina. A ignorância e/ou o egoísmo humano propicia a contingência, enquanto que a bondade e a perfeição de Deus criam a necessidade. Que fique claro: não falo aqui de estado de natureza. Falo de outra coisa, sutilmente ainda que profundamente distinta, livre de moral, muito próxima da infância.

28/01/2009

Postado em 25-12-2008

Infância

por Aseth | Categoria: Rabiscos | Lido 364 vezes

encontro os desenhos do devasso vergalho
ainda cálidos sobre minha pele sulfurosa,
cadentes células, traços vermelhos de contato,
romper de lâminas, respostas contra meu querer

sete caudas deslizam quando se enroscam,
sua prole sangrando em minha pele icônica

arrependido, com efeito, espero o porvir do galho,
fustigando meu corpo como pássaro, couro rasgado,
amarelo ouro, corado pelo rubro de meu sangue oleoso,
deveras louro, respingado pelo grânulo de ferro

ópio e demais sabores, demiurges atemporais e afetuosas
queria dessas lambidas lascivas o fulgor de um lince

mas de relance um estampido sorrindo seco
ao segurar meu braço quando defendo o peito
oferecendo as costas ao rufar de trançado atento
ora embebido em álcool, ora verde claro, leitoso, materno

amores vencidos de segunda classe
fisgados pelo lampejo amorfo de minha vingança

exímio mártir na senda biológica de meu templo desfeito
me traz em vôo seres fadados, tomados de pontas e agulhas,
alimentando chamas com as memórias amputadas
que minha infância belicosa me traz

17/11/2008

Postado em 22-12-2008

Satanismo

por Aseth | Categoria: Livros, Rabiscos | Lido 406 vezes

O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não tirei cópia desses dados, mas sei que é de 1928 e é com o português de então que você irá encontrá-lo.

Procurei por esse trabalho na net há algum tempo e não o encontrei, dai a vontade de colocá-lo aqui. Algumas coisas não deveriam ser esquecidas e perdidas, simples assim.

Segue:

- Tu também, Luis, chamares-me de louco!

E um esgar abriu-lhe a bocca, num sorriso ironico, em que os dentes ponteagudos, como talhados a formão, enegrecidos pelo uso do “haschich” e da nicotina, punham uma nota selvagem, suja, sob o lábio delgado, espiritualisado…

- São raras as Lindamôres na terra em que eu nasci, que não os tenham assim, como lanças! Mas a Lindamôr de que falo eu… Louco!? Tens, porém, razão de sêres cego… Surdo… E mudo… O mundo exterior não existe para ti. Muito menos o interior. Olha, as sensações são grãos. As deformações que ellas trazem são grãos, padrões, medidas de aferição…

- Estygmas…

- Estou a ver, porém, que não me comprehendes. Não me compreenderás jamais… Lindamôr… Oh! a agudeza dos seus sentidos a apontar para o alto, como uma flecha lançada! Tu não sabes absolutament o que está do outro lado do prazer… que tu chamas dôr… com periphrases de ungentos e de emplastos… Tu procuras equilibrio para o teu espírito na insensibilidade, na indifferença, no comodismo, em todos os “ismos”, em todos os “ades” e “enças” dos antiloqueos burgueses, inexpressivos, idiotas… Louco, chamo-te eu, meu insensivel, meu indiferente, meu commodo Luis! Louco como o mais louco. O que ha de facto por ahi, e é o teu caso (casos de manicomio), são espiritos embotados, sensibilidades estreiras, inextensiveis. Esticadas, essas sensibilidades, por poquinho que seja, arrebentam. Uma cocegazinha, eil-os a rir. Uma alfinetada fal-os chorar. Principalmente se esperam a alfinetada (no que entram o sensorio e a intelligencia como partes). Lindamôr! Dava-se com seu genio a solidão. Era de vel-a, quase bella, com os seus dentinhos cortados em ponta, as suas sobrancelhas arqueadas, os seus vestidos de chitão vermelho e o beicinho tremulo, bru-u-u-u-u-u-u… com que correia as capoeiras vizinhas, o chiqueiro e o curral. Naquelle dia de nuvens escondidas no céo, ella mesmo fôra dar a ração aos bacorinhos que grunhiam gulosos no chiqueiro. De volta descansou a gamella num velho coxo de madeira e deixou-se cahir sobre o velho tronco de araticum, onde a fazer lenha, exercitava os musculos e estimulava e (oh! coisa paradoxal) afogava, neutralizava o meu prurido doentio de destruição. As suas mãos, uma deixada no regaço, outra arrastando no chão, sobre as aparas de madeira que meu machado cortava nervosamente, tiveram um ligeiro movimento convulsivo, quando della me aproximei de machado em punho… E só. E eu? Tremendo, tiritando de medo e de emoção… Levantei outra vez o machado sobre sua cabeça… Nunca me julguei tão fraco para o amor. Deixei-o cahir para um lado e ajoelhei-me a seus pés. E com a cabeça no seu regaço tentei acalmar-me. Debalde, porém. Os teus nervos não permittem, nem por minucias, o relato desta história toda… Levantei-me de um salto, as suas mãos entre as minhas, e cobri-as furiosamente de beijos. Saquei do punhal… Que mascaras admiraveis se plasmaram no seu rosto de linhas vulgares! Principiei cortando-lhe os dedos da mão, phalange a phalange. E para reanimal-a, injectava-lhe ether de vez em quando… Ao desgarrar de um tendão, os seus empinaram-se-lhe, tão duros que enlouquecido de amor, arranquei-lhe os bicos com os dentes… Duas lagrimas de sangue correram-lhe o torso abaixo. Dos meus labios humidos e rubros fluiam palavras angelicas, que se mal ouviras, peior comprehenderas. Os seus olhos foram-se fechando devagarinho… Estava realizado enfim, o meu sonho de posse no absoluto, de gloria no amor, de previdencia contra a saciedade, e sobretudo, de prevenção contra as mil infidelidades em que é fertil o engenho feminino… Estava realizado o meu sonho e de morte e de belleza, alliviada a oppressão da minha febre immortal. Foi minha, destrui-a. Não com palavras, ou com os sentimentos vermelhos que o commum dos homens trazem dentro do peito, e cóleras contidas, e hypocrisias, mas com actos, heroicamente… Na destruição o absoluto… São gestos eternos que não se renovam. Só o marmore os permite. Com o escopro… Golpe por golpe.

- Hildebrando de Lima, Satanismo, 1928

Postado em 04-05-2004

“Tudo que é, é bom”

por Aseth | Categoria: Filosofia | Lido 501 vezes

cada uma das criaturas em particular era boa, mas, tomadas em conjunto, eram muito boas
- Santo Agostinho, Confissões, XIII, XXVIII, 43

Em suas Confissões, Agostinho nos diz que pensar o mundo dividido, como um embate entre bem e mal, é também pensar um Deus imperfeito, menor, e não o verdadeiro Deus. Vemos, então, que Deus não poderia, de forma alguma, ter criado um mundo imperfeito e que por isso, embora não tenhamos distanciamento suficiente para ver, o mundo é bom. Pensar que o mal possa existir como tal, ou na matéria usada na criação, ou em qualquer outro lugar, seria também pensar que o Criador foi impotente para eliminá-lo ou ainda numa visão maniqueísta, que coexistia com ele, e agir dessa forma é diminuir a Deus.

Para Agostinho não existe o mal absoluto, que, como afirmam os maniqueus, contrasta com o bem absoluto, resultando no “mundo como um embate entre duas forças” do qual o homem seria “expressão desse combate” (NOVAES, 2000, p.59): fora da criação nada existe que possa corromper a ordem estabelecida por Deus, ou seja, não pode haver o mal lutando contra o bem da criação. Existem coisas consideradas ruins por não estarem em conformidade com as demais, mas que isoladamente podem ser consideradas boas. Como não podemos ter uma visão do todo, temos uma visão das partes, com suas imperfeições. Se pudéssemos ver com distanciamento, teríamos então um panorama da perfeição da obra, de seu todo. “Eu já não podia desejar nada melhor, pois, refletindo de modo mais sensato a respeito disso tudo, compreendia que se as criaturas superiores são melhores que as inferiores, o conjunto de todas é ainda melhor” (AGOSTINHO, 1997, p. 193).

Para ele, a própria definição de bom é “ser” enquanto que a definição de mal é “não-ser”. Assim sendo, tudo o que tem ser, tudo que é, é bom, pois do contrário não teria ser e nada mais seria. Com isso Agostinho elimina a possibilidade dualista do maniqueísmo, pois o mal, expresso dessa forma, não mais existe na criação. As criaturas, mesmo diferindo de seu Criador, são semelhantes a Ele, “vestígios dele” (NOVAES, 2000, p.64) e, dessa forma, tudo que existe é bom.

Existe, embora em outro sentido, a possibilidade de dizer que o mal existe e em suas Confissões, livro I, capítulo XII, Agostinho nos indica o caminho ao afirmar que “estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu próprio castigo”, mais à frente, já no livro III, capítulo VII, “eu não sabia que o mal é apenas privação do bem, privação esta que chega ao nada absoluto”, e no capítulo VIII: “é de fato uma violação do vínculo que deve existir entre Deus e nós, o profanar, pelas paixões depravadas, a própria natureza de que ele é autor”.

Agostinho toca nesse ponto, mais uma vez, no livro V, capítulo X, ao confessar que “conservava ainda a idéia de que não éramos nós que pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem culpa e de não dever confessar o mal após tê-lo cometido satisfazia meu orgulho; desse modo eu não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti preferindo desculpá-la e acusar não sei qual outra força, que estava em mim, mas que não era eu. (…) Pecado ainda mais grave era o de não me considerar pecador, e execrável iniqüidade era preferir que tu, Deus onipotente, fosses vencido em mim para minha ruína”. Já no livro VII, capítulo IV, Agostinho confessa ter descoberto que o que é incorruptível é melhor que o corruptível e, assim, Deus só poderia ser da primeira forma e que, a partir daí, tendo descoberto isso, deveria ter procurado a origem da corrupção, onde está o mal, tendo em vista que estar sujeito à corrupção não é um bem.

Crer, como faziam os maniqueus, no mal absoluto, desloca para fora de nós o problema, atribuindo a algo diverso a origem do mal. Desfeita a confusão e eliminada essa idéia, o mal passa a ser então a “negação de movimento, que ofende e contraria a natureza dela mesma, vontade” (NOVAES, 2000, p.72). Conhecemos o mal na exata medida de nossa maldade, conhecemos o mal quando nossos órgãos de percepção estão alterados. Se apontarmos, como faziam, para um mal absoluto, pensaremos também em seu oposto, num Deus que combate o mal fazendo o bem, mas este Deus seria um ídolo, não o verdadeiro Deus, que é. Se eliminarmos o ídolo e o mal absoluto, restará apenas uma causa do mal: nós, o uso perverso de nossa vontade, afastada de sua vocação natural de procura em direção a Deus.

Ao contrário dos maniqueus, Agostinho não culpa o corpo pelo mal, pela perversão da vontade. Para Agostinho, o corpo é instrumento: quem vê, tateia, cheira, sente as coisas e se alimenta é a alma. Temos, no entanto, disposição à aquisição de hábitos carnais, nossa “segunda natureza”, mas o fato de serem hábitos e, como tal, adquiridos, permite que sejam mudados. Com isso vemos também que a vontade só é má quando não aceitamos que somos nós a causa do mal: a escolha em meio à neutralidade é o que garante a existência de liberdade. A natureza continua garantida, a condição, não. Só os homens podem se colocar numa condição diversa de sua natureza: “Ao eleger-se como seu próprio fim, e esquecer o bem supremo como fim último de sua natureza, a vontade pervertida suprime o dinamismo natural de tal forma que se vê impossibilitada por si mesma de restaurar sua natureza livre. (…) Nesse sentido, podemos falar em perversão da vontade: uma paradoxal decisão voluntária de deixar de ser vontade” (id. ibid., p.72).

Cabe ressaltar, entretanto, que algo degradável/degradado tem ainda algo de bom, pois se nada tivesse de bom, também não teria ser e, assim sendo, não mais existiria. Logo, se algo é passível de corrupção é porque ainda tem algo de bom, pois o mal é ausência de ser, não podendo existir nem para Deus nem para a criação, pois privação de ser é privação da existência. Para Agostinho, nossa razão não é degradável, mas pode ser obscurecida e, se esclarecida, será eterna e imutável. Essa razão eterna e imutável não mais seria nossa razão, mas a própria razão operando em nós.

Ao criticar o dualismo maniqueísta, Agostinho deixa claro que essa diminuição de Deus pode ser pensada até ingenuamente, ao afirmar quem, quando maniqueu, se recusava a considerar como obra de Deus as coisas que o desagradavam. Procedendo dessa forma, Agostinho deixava aberta a possibilidade de pensar um mal absoluto e, com ele, um Deus menor e mostra que resta, dependendo da forma como se nega essa idéia, o perigo de transformar Deus em um ídolo: “E procurando o que era a iniqüidade compreendi que ela não é uma substância existente em si, mas a perversão da vontade que, ao afastar-se do Ser supremo, que és tu, ó Deus, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente” (AGOSTINHO, 1997, p.195)

Quando diz que “não tinha uma vontade plena, nem decidida falta de vontade. (…) Essa divisão se produzia contra minha vontade, embora isso não demonstrasse a existência em mim de outra alma, e sim o castigo de minha própria alma” (id. ibid., p.225), Agostinho dá exemplo de que o mal, nesse caso, é causado pelo conflito de sua vontade consigo mesma, tendo em vista que o conflito o impede de seguir seu curso natural, sua ordenação, em direção ao Criador. Sobre isso cabe lembrar o que diz Moacyr Novaes em seu artigo “Vontade e contravontade”: “O livre-arbítrio da vontade não é apenas um entre outros movimentos; é justamente através dele, na verdade, que o homem é mais que vestígio, através dele o homem é imagem de Deus”. O mal, aqui, decorre do fato de que a vontade se move em direção oposta à do Criador, quando em conflito na razão. Essa negação de caminhar em direção ao seu lugar natural, essa aversão, é a perversão da vontade, o mal. Ao aspirar não ter mais vontade, a se satisfazer consigo mesmo, o homem cria o conflito, negando sua natureza livre.

Referências bibliográficas:
Agostinho, S., Confissões, Paulus, 1997
Novaes, M., Vontade e contravontade”, O avesso da liberdade, Cia. das Letras, 2000