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	<title>Transtorno &#187; mal &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>A catedral da desordem</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Nov 2010 17:54:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Relendo Roberto Piva, estou reencontrando coisas geniais, que devem ser compartilhadas, como esta, de &#8220;Os que viram a carcaça&#8221;: A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: &#8220;Como são lindos os olhos deste idiota&#8221;. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Relendo Roberto Piva, estou reencontrando coisas geniais, que devem ser compartilhadas, como esta, de &#8220;Os que viram a carcaça&#8221;:</p>
<p>A nossa batalha foi iniciada por Nero e se inspira nas palavras moribundas: &#8220;Como são lindos os olhos deste idiota&#8221;. Só a desordem nos une. Ceticamente, Barbaramente, Sexualmente. A nossa Catedral está impregnada do grande espetáculo do Desastre. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambretta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo box, contra a rádio-patrulha pela Dama das Camélias, contra Valéry por D. H. Lawrence, contra as cegonhas pelos gambás, contra o futuro pelo presente, contra o poço pela fossa, contra Eliot pelo Marquês de <a href="http://www.transtorno.net/tag/sade/">Sade</a>, contra a bomba de gás dos funcionários públicos pelos chicletes do eunucos e suas concubinas, contra Hegel por Antonin <a href="http://www.transtorno.net/tag/artaud/">Artaud</a>, contra o violão pela bateria, contra as responsabilidades pelas <a href="http://www.transtorno.net/tag/sensacoes/">sensações</a>, contra as trajetórias nos negócios pelas faces pálidas e visões noturnas, contra Mondrian por Di Chirico, contra a mecânica pelo Sonho, contra as libélulas pelos caranguejos, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o filho natural pelo bastardo, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra os arcanjos pelos querubins homossexuais, contra a invasão de borboletas pelas invasão de gafanhotos, contra a mente pelo corpo, contra o Jardim <a href="http://www.transtorno.net/tag/europa/">Europa</a> pela Praça da República, contra o céu pela terra, contra Virgílio por Catulo, contra a lógica pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a>, contra as magnólias pelos girassóis, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela Compulsão, contra os postes pelos luminosos, contra Cristo por Barrabás, contra os professores pelos pajés, contra o meio dia pela meia-noite, contra a religião pelo sexo, contra Tchaikowsky por Carl Orff, contra tudo por Lautréamont.</p>
<p><em>Roberto Piva, in &#8220;Os que viram a carcaça&#8221;</em></p>]]></content:encoded>
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		<title>Equívocos</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Oct 2009 00:19:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Humanidade]]></category>
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		<description><![CDATA[Nietzsche (odeio citá-lo, maaaas&#8230; *) escreveu sobre o conflito Apolo/Dionísio e acreditava que em algum momento essas oposições se confundiriam, de tal modo que sua filosofia assumia assim uma posição anti-cristã, ainda que dentro do cristianismo. Antes dele, Hegel levantou a idéia de opostos no nível racional: a dialética, a razão que pensa a si &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Nietzsche (odeio citá-lo, maaaas&#8230; *) escreveu sobre o conflito Apolo/Dionísio e acreditava que em algum momento essas oposições se confundiriam, de tal modo que sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> assumia assim uma posição anti-cristã, ainda que dentro do cristianismo. Antes dele, Hegel levantou a idéia de opostos no nível racional: a dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, a razão que pensa a si mesma. É essa a mesma coisa que o conflito nietzscheano? Not quite. Não podemos dizer que Édipo, ao arrancar seus olhos, pensou dialeticamente. Faz sentido? Não foi a razão que arrancou seus olhos, foi a paixão.</p>
<p>Hoje, apesar da banalidade da morte e da incomunicabilidade humana expressa por Ionesco e <a href="http://www.transtorno.net/tag/beckett/">Beckett</a>, nos impressionamos com alguns fenômenos isolados. Édipo causa impressão após mais de 2.000 anos, assim como Electra e Orestes. Centenas morrem diariamente em explosões no Oriente Médio, em conflitos na África, nas favelas e ruas do Rio ou de SP, mas o que chama a atenção do público, mantendo os notíciários sensacionalistas por horas e até mesmo dias, é o caso de uma menina atirada de uma janela.</p>
<p>Aparentemente não é o fenômeno de massa que interessa. É o Único que causa interesse. Alguém duvida que traficantes, comunistas, nazistas, terroristas e cia matam/mataram mais do que Ted Bundy, Ramirez ou Dave Berkowitz? Não há dúvida alguma, mas esses casos isolados, dotados de face e nome, são pequenos universos, dotados de leis próprias e incompreensíveis, que atuaram de forma não categorizável. O que foge aos padrões é comumente temido e torna-se interessante à distância. Um exemplo disso pode ser obtido se pensarmos que os romanos mataram centenas de pessoas, mas que foi através da idéia de Cristo, de um único, de um redentor, que se fez a história do ocidente nos últimos XX séculos. O que é comum é que é aceito facilmente e pode, por certo, tornar-se extremamente perigoso.</p>
<p>Alguns Filósofos escreveram sobre o impacto que o Holocausto causou à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, temendo que após esse fenômeno nada mais interessasse: se toda uma época permitiu tal coisa, o que poderia ser forte o suficiente a ponto de levar à comoção depois disso? Ainda mais mortes? É um equívoco pensar em identificação do um ao todo. O único é que ainda causa estranheza. Também &#8211; e por isso mesmo &#8211; o desconhecido, o aleatório. É óbvio que cada judeu morto era único e esse é exatamente o ponto em questão: questiono o resultado dessa alta exposição, posto que esses fenômenos reduzem os indivíduos a números sem rostos, sem individualidade. A massa não é mais afetada por grandes números, mas por rostos, vistos como símbolos, mártires. Por isso há, por exemplo, o interesse em Anne Frank.</p>
<p>Se hoje surgisse um sujeito dizendo &#8220;matarei todas as pessoas pardas&#8221;, haveria indignação, mas em muitos casos de forma falsa: &#8220;estou indignado, mas não sou pardo, logo, não é o meu rabo que está na reta&#8221;. Imagine que apareça um sujeito que mate garotas em série: &#8220;nossa, que absurdo, ele mata mulheres, mas eu sou homem, então não corro risco&#8221;. Entende? Não foi essa a mesma atitude perante o Holocausto? Agora pensem no atirador de Washington. Lembram do caso? Descobriram que eles (era uma dupla, pra quem não se lembra) estavam apenas atirando em pessoas aleatórias pra encobrir o assassinato de uma específica, que aconteceria em meio às demais. O todo seria apenas um desvio de atenção. Engenhoso, mas interessado. Ainda assim, quando não se sabia a causa dos disparos, quando se acreditava no ato desinteressado e randômico, o terror foi intenso: ruas vazias e pessoas apavoradas. Não havia um grupo determinado como alvo.</p>
<p>Não vou entrar no mérito dos tiroteios que acontecem no Brasil, das guerras, de brigas que acabam em mortes, de balas perdidas. Esses são casos que ocorrem dentro de um sistema geralmente interessado e banal, cujo controle é possível por meios repressivos/políticos, por exemplo. Pensem agora no seguinte: um sujeito normal, extremamente comum, sai de casa, vai a um lugar movimentado qualquer, olha à sua volta, admira o que está ali, inveja mesmo, e começa a disparar em mulheres, crianças, adolescentes e homens indistintamente. Se você soubesse que tal coisa é possível, sairia de casa em paz? Perderia os <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> mais intensos de sua vida com a facilidade com que perde hoje? Acontece que também é um equívoco se acreditar imune, pois é claramente possível. &#8220;Mas se eu pensar assim, não terei mais um segundo de paz sequer&#8221;. É, talvez não tenha. Mas repito as perguntas anteriores: perderia tanto tempo quanto costuma perder ou aproveitaria o que tem da melhor forma, intensamente?</p>
<p>É um equívoco acreditar no conforto e na segurança, acreditar que isso jamais acontecerá. É um equívoco também que sejam necessárias situações tão extremas para aquisição de consciência de tudo o que nos cerca, de que o tempo foge, do que deixamos de fazer. É um equívoco ignorar o Eu e pensar em engajamentos e universais. O &#8220;social&#8221;, o &#8220;bem maior&#8221;, é um câncer: cega, faz crer que existe um propósito que na verdade não há, dá uma sensação de conforto enganosa, de isolamento por concordância com a maioria. O indivíduo expressa o mundo à sua maneira e crer no &#8220;social&#8221; é crer no ocidente equivocado dos últimos 2000 anos. Se anular é um equívoco e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/despertar/">despertar</a> é violento.</p>
<p>O assunto é por demais interessante pra um pobre post de blog. Vale lembrar que Hanna Arendt foi a fundo em muitos desses tópicos em sua análise da &#8220;banalidade do <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>&#8221;, bem como sobre a forma como esta foi somada à organização das massas por regimes totalitários como comunismo e o nazismo. Se o assunto interessar, recomendo muito a leitura de suas obras. Cabe questionar, por fim, se estamos tão livres dos totalitarismos quanto alguns afirmam e &#8211; principalmente &#8211; se todos possuem a forma organizada destes citados. Se não, como se dão as manifestações hoje? E não me venham com a bullshit cafona do &#8220;imperialismo americano&#8221;, por favor.</p>
<p>* odeio citar Nietzsche pois se trata do &#8220;Filósofo das frases prontas&#8221;: qualquer debilóide isola algumas delas e sai citando como se fossem máximas de sabedoria, sem analisar como ele chegou a essas afirmações ou negações e, principalmente, onde queria chegar. Meu problema não é com Nietzsche, mas com o uso que fazem dele.</p>]]></content:encoded>
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		<title>A lagarta</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Aug 2009 18:20:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O verde se desfaz sob pés ingratos, desaparece o solo, vértebras cortadas por rios e milhares de afluentes. Saltam por sobre o musgo aveludado as veias firmes de tecido sólido, oblíquo em vastas proporções, aparado por dezenas de lâminas naturais, roucas em seu cortar celeste. Deveras seco seria se suas águas verdes não fossem também &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O verde se desfaz sob pés ingratos, desaparece o solo, vértebras cortadas por rios e milhares de afluentes. Saltam por sobre o musgo aveludado as veias firmes de tecido sólido, oblíquo em vastas proporções, aparado por dezenas de lâminas naturais, roucas em seu cortar celeste.</p>
<p>Deveras seco seria se suas águas verdes não fossem também seu sangue imerso, imenso, intenso, vivo e perfeito, de anomalias liberto, amoral e complexo.</p>
<p>Ah, como derrama! Fios sóbrios sobre aroma cultivado&#8230;</p>
<p>Milhares de universos dissimulam sob os diversos pés e seus corpos listrados, esgueirando-se furtivamente e consumindo as bases macias de fronteiras lubrificadas por óleo e água.  Furtivas são as tendências de seus vícios&#8230;</p>
<p>Se unem e se tocam, arredondados, cilíndricos, ora coberto de pêlos, ora expostos, pele multicor.</p>
<p>Nada vemos, dispersos que somos.</p>
<p>Não percebo a pequena boca que se abre devorando o corpo que se sustenta, saliva a cobrir o objeto em que se apóia ereta.</p>
<p>Boca pequena, ácida, em atrevida antena.</p>
<p>Pudera me dar ao prazer único, intenso e breve de esmagar a ambos. Faria disso uma explosão tão potente que desfaleceria seco, coberto por seu óbito, sorrindo quando se vê indefesa.</p>
<p>Ora, o toque!</p>
<p>Um tapa, uma foice, um pássaro. Pequenas ou grandes armas, simples ferramentas. O jorrar sadio do branco sal! Tudo isso te aniquila.</p>
<p>Amarela e negra, em ondas senóides, se move enquanto decido teu fim, corada e com a face em chamas por irreversível decisão. Ah, tenha certeza, faça disso tua memória: como você terei outras tantas e decidirei novamente, mas és única sob meu poder limitado, como também são todas as ações. Únicas no momento, diversas no eterno <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a>.</p>
<p>Crisálida não serás, toma o tormento de minha presença!</p>
<p>Transformação&#8230; Não, não! Jamais! A decisão é necessária, mas observo&#8230;</p>
<p>Vejo teu universo desaparecendo e sei logo que conquistarás outro, rastejando, pois nunca alçarás vôo. Penso em te impedir, certo de poder através de qualquer método e isso me sufoca: tenso que estou, cego por minha certeza, encontro tantas opções que me inflamo de êxito antecipado e jamais saberei qual a melhor forma para meu prazer.</p>
<p>Fugidio é o momento, minha decisão me toma de sobressalto sobre a areia roxa do solo infestado. Os múltiplos enobrecem tua cadela da misericórdia e me enfraquecem. Ah, fossemos apenas dois! Seria simples fazer desse segundo decisivo a nossa Sodoma, eternizada em fogo, desmembrada pelo intenso rio de lava que brota na morada de Heféstos. Milênios nos assistiriam e se perguntariam que prazer houve naquela face hedionda no momento da asfixia.</p>
<p>Tuas cores e movimentos, teus poucos cabelos, a relva que se faz escassa, os traços suaves, longos e perfeitos de tuas mordidas. Não vejo marcas de dentes, como pode? Tua boca não os tem, regada em um reino apostólico. Abraça mais uma vez o galho e caminha.</p>
<p>És horrível, demonstração de desprezo, como as outras milhões que representa. A natureza cruel se redime em seu respeito por ti. Se alimentas buscando a mutação, experiência transformadora &#8211; não é óbvio? -, sentença de tua sina, mas a beleza das asas será tirada pela mão decidida que toca o sino, destruindo a simetria do ambiente com ruídos metálicos.</p>
<p>Sino, movimento, sina.</p>
<p>Farfalhos, pequenos ruídos engolfados pela urgência das árvores irritantes, deflorada pela fatalidade gratuita dos ventos molhados. Sequer uma vez questionaram, não lhes foi dada escolha: movem-se pelo sopro. Não seremos nós apenas pequenas tempestades? Ou grãos de areia decolando com grandes tornados?</p>
<p>Ouço uma gargalhada&#8230;</p>
<p>Nada, apenas o rufar de galhos dançantes, arrojados, forjados em coleiras e cóleras, livrando o rio de tuas seivas de teu detestável paladar.</p>
<p>Indeciso.</p>
<p>O corpo do astro, perfeito e insólito, sob as pinhas infectas aguarda. Não percebemos seu tempo, suas pequenas sinapses. Vemos, no entanto, sua raiva incontida, nunca encapsulada, manifesta nos gritos da brisa cortante e perversa, cruel em tudo que toca.</p>
<p>Ouço asas.</p>
<p>O esgar é agudo, porém preciso, certeiro em sua visão decorosa. Se aproxima, bicos negros bem abertos, berrando em direção oposta às curvas da estrada cortante, um perímetro afunilando-se em ângulos descendentes, defesa rubra de sua vida determinada.</p>
<p>Em cordeiro te transforma, entregue às farpas longilíneas de penas cruéis.</p>
<p>Ah, minha indecisão!</p>
<p>Acreditei ser maior, terrível, ilimitado quando decidia teu destino. Sim, há poder na escolha, no amedrontar que o olhar diverso toma sobre as Moiras e suas linhas.</p>
<p>O prazer da escolha&#8230;</p>
<p>Há poder ainda na decisão. Ah, minha dúvida, <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> percebi que enquanto determinava o destino da pequena rastejante eras tu que rias de mim, que brincavas comigo. Ouvi no trepidar das folhas tua risada histérica.</p>
<p>O grande corvo negro, preciso e cirúrgico em seu vôo educado me tirou o brilhante gozo, gosto de esmagar-te, oh verme colorido. Teu sangue verde-escurecido que se mistura às folhas de pêssego alimentará a prole que cresce em alguma floresta católica.</p>
<p>Outros universos se encontram ao meu alcance e neles escolherei voluptuosas lagartas enfermas, envoltas em cordões de seda e tecidos elásticos, vestes nobres, que seja, esperando pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> dos ares enquanto simples e efetivamente rastejam ou adormecem envoltas em um sono que Morfeu ignora.</p>
<p>A lança noturna te afasta de mim, minhas mãos entristecem.</p>
<p>Guardo a violência de meu torque para outro momento, dos quais alguns serão desfeitos, outros levados e tantos ainda cheios de cores e reflexos ameaçadores.</p>
<p>Todos rastejam.</p>
<p>Quem és tu que emana o som infame do sarcasmo por sobre meus ouvidos rasgados?</p>
<p>Ora, dúvida, vejo-te a me abandonar, estou certo? Seria esse o momento tão esperado, o domínio da certeza? Não sei &#8211; a dúvida não me abandonou completamente, percebo -, mas sinto o tremer das mãos, o corpo secretando adrenalina, a visão focada, turva, os dentes rangendo e ruindo&#8230; Pois bem! Sinto que te encontrei!</p>
<p>Aquele pássaro, sombra escura que te arrastava, passou irônico, quase zombando, perto de meus olhos cegos pela ingratidão de perder-te. Ah, o deleite! Foi então que percebi que o prazer maior da espera não é tirado pela dúvida e pela razão, pelas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e aparências, pelas oportunidades e opções. Não, nunca! O momento é exato e pulsamos em ritmo único com o metabolismo do cosmo, engrenagens úteis, embora únicas. Pulsamos, somos sístole e diástole, <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, prece e maldição.</p>
<p>Estendi a mão tensa e afiada, pregos abertos, cravos empalando o ar em direção à sombra opaca que grita fielmente, informando a todos sua vitória. Abri caminho por sobre os ruídos secos e fiz com que a química da atmosfera se movesse tão rapidamente que um assobio foi ouvido, unificado aos gritos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a>. Todo ruído se fez um naquele momento: o moribundo suspirando em um deserto asiático ou a zebra tombando na savana. Todo ruído foi tua morte, som, tudo foi <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/">música</a> naquele instante, atravessado estava em minha lança, soluçando pelo fim abreviado.</p>
<p>O poder infalível da escolha me deu ainda uma opção secreta. Ante todas estava outra que jamais encontraria. Presenteado que fui, vi o verme tomado pelas asas que um dia desejara e as destruí, tomado pela fúria de terem te tirado de mim. Certeiro foi o ódio, a oportunidade que me trouxe o acaso de teu vôo&#8230;</p>
<p>E de simples coadjuvante passaste a Rei em meu tabuleiro: através de tua união, percebi que reduzir dois a apenas um me faz maior que a pureza das <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> matemáticas, ainda que infinitas. Observar uma vida tomar a outra e reduzir ambas a nada me exita ainda mais!</p>
<p>Passaste então ao foco: me fizeste <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, emanando luz sobre ti da escuridão em que me encontro!</p>
<p>25-26/08/2009</p>]]></content:encoded>
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		<title>A voz do Demônio, por William Blake</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Apr 2009 18:01:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[abismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem necessidade de meus comentários: Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros: 1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma. 2. Que a Energia, denominada &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Um fragmento de &#8220;O matrimônio do Céu e do Inferno&#8221;, de William Blake, que cabe perfeitamente aqui, sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de meus comentários:</p>
<blockquote><p>
Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a causa dos seguintes Erros:<br />
1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo &#038; uma Alma.<br />
2. Que a Energia, denominada <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>, provém apenas do Corpo; &#038; que a Razão, denominada Bem, provém apenas da Alma.<br />
3. Que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> atormentará o Homem pela Eternidade por seguir suas Energias.</p>
<p>Mas os seguintes contrários são Verdadeiros:</p>
<p>1. O homem não tem um Corpo distinto de sua Alma, pois o que se denomina Corpo é uma parcela da Alma, discernida pelos cinco Sentidos, os principais acessos da Alma nessa etapa.<br />
2. Energia é a única vida, e provém do Corpo; e Razão, o limite ou circunferência externa da Energia.<br />
3. Energia é Deleite Eterno.</p>
<p>Quem refreia o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar e governa o inapetente.</p>
<p>E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a>.</p>
<p>Essa história está relatada no Paraíso Perdido, &#038; o Governante, ou Razão, chama-se Messias.</p>
<p>E o Arcanjo Original, ou possessor dos comandos das hostes celestiais, chama-se Demônio ou Satã, e seus filhos chamam-se Pecado &#038; Morte.</p>
<p>No Livro de Jó, porém, o Messias de Milton chama-se Satã.</p>
<p>Pois essa história tem sido adotada por ambos os lados.</p>
<p>Em verdade pareceu à Razão que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a> havia sido banido mas, segundo a versão do Demônio, sucumbiu o Messias, formando um céu com o que roubara do <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">Abismo</a>.</p>
<p>Isso revela o Evangelho, onde ele suplica ao Pai que envie o confortador, ou <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">Desejo</a>, para que a Razão possa ter Idéias sobre as quais se fundamentar, não sendo outro o Jeová da Bíblia senão aquele que mora nas flamas flamantes.</p>
<p>Sabei que Cristo, após sua morte, tornou-se Jeová.</p>
<p>Mas, em Milton, o Pai é Destino, o Filho, Quociente dos cinco sentidos, &#038; o Espírito Santo, Vácuo!</p>
<p>Nota: A razão pela qual Milton escreveu em grilhões sobre Anjos e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, e em <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> sobre Demônios &#038; Inferno, está em que ele era um Poeta autêntico e tinha parte com o Demônio, sem sabê-lo.
</p></blockquote>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade, transgressão e moral</title>
		<link>http://www.transtorno.net/liberdade-trangressao-moral/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 01:08:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“A liberdade não é o poder que falta a Deus, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?” - Bataille in “A literatura e o Mal” Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>“A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”<br />
- <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> in “A literatura e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a>”</p></blockquote>
<p>Em um primeiro momento pensei “é isso” e entendi claramente o sentido de algumas coisas. Um momento de epifania, por assim dizer. Acontece, no entanto, que as idéias continuaram transbordando desde então e novas teorias e questionamentos, opostos aos iniciais, continuaram surgindo, uma torrente de compreensão/entendimento. Me deparei e ainda me deparo com diversas questões que precisaria responder e com outras que surgiram já trazendo suas respostas.</p>
<p>As linhas que seguirão abaixo são apenas um rascunho de algo que precisará ser desenvolvido, esmiuçado e detalhado, pois tratam-se de uma breve nota sobre como me sinto agora, neste momento, enquanto questionador e questionado.</p>
<p>Sem querer entrar em uma discussão das diferenças de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nas filosofias de <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a>, Descartes ou qualquer outro filósofo, mas passando – seria impossível evitar –, ainda assim, por algumas generalidades de um e de outro, prossigo&#8230;</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é garantida pelos livres decretos e que, em um desses decretos, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> se determina a criar o melhor dos mundos. Outro diria, entretanto, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criou esse mundo por pura bondade. Outros dariam ainda diferentes motivos, não importa. O que importa para essa discussão é como o mundo se dá para nós. As ações divinas podem ser livres, como amar a si, é claro. O fato de ter escolhido este mundo e não outro demonstra escolha, mas se essa escolha é determinada pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> (ainda que autodeterminada) do melhor, ou pela bondade, ou por outro motivo, seria de fato livre?</p>
<p>O problema, entretanto, é que a escolha do melhor não exclui a possibilidade da escolha do pior, ou seja, decidiu-se por esse mundo, mas poderia ter sido outro. A possibilidade de um outro mundo torna evidente uma escolha livre. Colocando isso em termos humanos: o homem padrão, comum, que sai de casa todas as manhãs em <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> do sustento de sua prole tem também a possibilidade da escolha oposta, é claro. Poderia não ir. Poderia, mas ainda assim se determina e vai. <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">Amor</a> à prole? <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">Culpa</a>? Medo de punição? Imperativo categórico? O que o move? Estamos claramente entrando nos domínios da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>. Voltamos a Deus: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana nos foi dada por decisão de sua bondade. Não é essa uma escolha <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>?</p>
<p>Se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">deus</a> criou o mundo dessa forma e não de outra, teve a possibilidade dos demais, mas sua autodeterminação o impediu. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> existente foi excluída por uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> auto imposta. Voltamos, então, à frase de <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a> que abre esse texto: “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não é o poder que falta a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou que ele tem apenas verbalmente, já que não pode desobedecer a ordem que existe, de que ele é a garantia?”. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> “não pode desobedecer a ordem que existe”. É claro, desobedecê-la seria criar uma nova, implicando em sua imperfeição, em uma retificação da ordem anteriormente imposta, determinada como a melhor. Temos ai, além da discussão sobre a perfeição, também o bem comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> tão evidente nos questionamentos humanos.</p>
<p>Em <a href="http://www.transtorno.net/tag/espinosa/">Espinosa</a> não me parece lógico discutir isso, pois trata-se mais de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e, portanto, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> levando a outra. Arrisco dizer que há uma maior evidência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> nesse caso. As <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> dão a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, que se contamina quando a possibilidade do oposto não é data. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> é, portanto, diretamente ligada à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>A &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>&#8221; de algo limita a ação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. O meio pode ou não fornecê-la, não cabe obviamente discutir <a href="http://www.transtorno.net/tag/sartre/">Sartre</a>, mas a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de algo, quando existe, a limita. A própria <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de alimentar-se, por exemplo. Não é possível tomar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> de não se alimentar sem conseqüências. A punição implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, em bem maior, ainda que neste exemplo diga respeito apenas ao indivíduo em questão.</p>
<p>Bem maior, disse. Pois bem, diariamente pessoas acordam e, para manterem seu “melhor dos mundos”, sua alimentação, seu conforto, condições básicas ou mesmo prover para a família, limitam suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de forma que essas deixam mesmo de existir, pois o próprio questionamento é aniquilado, cedendo ao comodismo e à aceitação cega de algo tão comum e tão pouco evidente.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">Liberdade</a> absoluta implica em <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> e talvez essa seja mesmo a razão da mítica dos grandes heróis: a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> é o que serve de magnetismo, o que atrai e os diferencia dos demais. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> só existe quando abandonam o comum, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/transgressao/">transgressão</a> existe quando abandonam o bem maior, quando seguem seu instinto, seu <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> e seu destino. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> é o freio da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> absoluta, que se dá por completo no “<a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">Mal</a> desinteressado”, como diria novamente <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a>, mas não só ai. Cabe pensar em Saturno que castra Urano. Cabe pensar também a beleza de Vênus, filha desse ato, nascendo nas espumas do mar.</p>
<p>Seguir determinações morais e o bem necessário é tão limitante quando ter de acordar diariamente, trabalhar, se alimentar, procriar e repetir o ciclo. Nesse sentido, o homem comum é de fato a imagem e semelhança de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Voltamos à questão do provedor que sai de casa para buscar o alimento de sua prole, cuja bondade é livremente determinada. Poderia não ser bondade, mas medo? Não sabemos de casos de pais presos por abandonar bebês? Seja por bondade, medo, ou qualquer outro motivo, o homem permite ser colocado sob freios. Não cabe, no entanto, perguntar se em algum momento uma explosão se dará, <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a>, castração simbólica, ou se a aceitação da <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> estará apenas mais aprofundada a cada novo dia. Essa pergunta não faz sentido quando dirigida ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/geral/">geral</a>, ao grupo. Cabe apenas a alguns humanos, mitos em potência.</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, desvinculada da <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, no sentido em que não tem a preocupação de manter uma ordem universal estabelecida, nem o limitante da perfeição, baseada apenas na ignorância total ou parcial das conseqüências de seus atos, é maior que a divina. A ignorância e/ou o <a href="http://www.transtorno.net/tag/egoismo/">egoísmo</a> humano propicia a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, enquanto que a bondade e a perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> criam a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>. Que fique claro: não falo aqui de estado de natureza. Falo de outra coisa, sutilmente ainda que profundamente distinta, livre de <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, muito próxima da infância.</p>
<p>28/01/2009</p>]]></content:encoded>
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		<title>Infância</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Dec 2008 19:35:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[encontro os desenhos do devasso vergalho ainda cálidos sobre minha pele sulfurosa, cadentes células, traços vermelhos de contato, romper de lâminas, respostas contra meu querer sete caudas deslizam quando se enroscam, sua prole sangrando em minha pele icônica arrependido, com efeito, espero o porvir do galho, fustigando meu corpo como pássaro, couro rasgado, amarelo ouro, &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>encontro os desenhos do devasso vergalho<br />
ainda cálidos sobre minha pele sulfurosa,<br />
cadentes células, traços vermelhos de contato,<br />
romper de lâminas, respostas contra meu querer</p>
<p>sete caudas deslizam quando se enroscam,<br />
sua prole sangrando em minha pele icônica</p>
<p>arrependido, com efeito, espero o porvir do galho,<br />
fustigando meu corpo como pássaro, couro rasgado,<br />
amarelo ouro, corado pelo rubro de meu sangue oleoso,<br />
deveras louro, respingado pelo grânulo de ferro</p>
<p>ópio e demais sabores, demiurges atemporais e afetuosas<br />
queria dessas lambidas lascivas o fulgor de um lince</p>
<p>mas de relance um estampido sorrindo seco<br />
ao segurar meu braço quando defendo o peito<br />
oferecendo as costas ao rufar de trançado atento<br />
ora embebido em álcool, ora verde claro, leitoso, materno</p>
<p>amores vencidos de segunda classe<br />
fisgados pelo lampejo amorfo de minha vingança</p>
<p>exímio mártir na senda biológica de meu templo desfeito<br />
me traz em vôo seres fadados, tomados de pontas e agulhas,<br />
alimentando chamas com as memórias amputadas<br />
que minha infância belicosa me traz</p>
<p>17/11/2008</p>]]></content:encoded>
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		<title>Satanismo</title>
		<link>http://www.transtorno.net/satanismo/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Dec 2008 01:37:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não tirei cópia desses dados, mas sei que é de 1928 e é com o português de então que você irá encontrá-lo.</p>
<p>Procurei por esse trabalho na net há algum tempo e não o encontrei, dai a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> de colocá-lo aqui. Algumas coisas não deveriam ser esquecidas e perdidas, simples assim.</p>
<p>Segue:</p>
<p>- Tu também, Luis, chamares-me de louco!</p>
<p>E um esgar abriu-lhe a bocca, num sorriso ironico, em que os dentes ponteagudos, como talhados a formão, enegrecidos pelo uso do &#8220;haschich&#8221; e da nicotina, punham uma nota selvagem, suja, sob o lábio delgado, espiritualisado&#8230;</p>
<p>- São raras as Lindamôres na terra em que eu nasci, que não os tenham assim, como lanças! Mas a Lindamôr de que falo eu&#8230; Louco!? Tens, porém, razão de sêres cego&#8230; Surdo&#8230; E mudo&#8230; O mundo exterior não existe para ti. Muito menos o interior. Olha, as <a href="http://www.transtorno.net/tag/sensacoes/">sensações</a> são grãos. As deformações que ellas trazem são grãos, padrões, medidas de aferição&#8230;</p>
<p>- Estygmas&#8230;</p>
<p>- Estou a ver, porém, que não me comprehendes. Não me compreenderás jamais&#8230; Lindamôr&#8230; Oh! a agudeza dos seus sentidos a apontar para o alto, como uma flecha lançada! Tu não sabes absolutament o que está do outro lado do prazer&#8230; que tu chamas dôr&#8230; com periphrases de ungentos e de emplastos&#8230; Tu procuras equilibrio para o teu espírito na insensibilidade, na indifferença, no comodismo, em todos os &#8220;ismos&#8221;, em todos os &#8220;ades&#8221; e &#8220;enças&#8221; dos antiloqueos burgueses, inexpressivos, idiotas&#8230; Louco, chamo-te eu, meu insensivel, meu indiferente, meu commodo Luis! Louco como o mais louco. O que ha de facto por ahi, e é o teu caso (casos de manicomio), são espiritos embotados, sensibilidades estreiras, inextensiveis. Esticadas, essas sensibilidades, por poquinho que seja, arrebentam. Uma cocegazinha, eil-os a rir. Uma alfinetada fal-os chorar. Principalmente se esperam a alfinetada (no que entram o sensorio e a intelligencia como partes). Lindamôr! Dava-se com seu genio a solidão. Era de vel-a, quase bella, com os seus dentinhos cortados em ponta, as suas sobrancelhas arqueadas, os seus vestidos de chitão vermelho e o beicinho tremulo, bru-u-u-u-u-u-u&#8230; com que correia as capoeiras vizinhas, o chiqueiro e o curral. Naquelle dia de nuvens escondidas no céo, ella mesmo fôra dar a ração aos bacorinhos que grunhiam gulosos no chiqueiro. De volta descansou a gamella num velho coxo de madeira e deixou-se cahir sobre o velho tronco de araticum, onde a fazer lenha, exercitava os musculos e estimulava e (oh! coisa paradoxal) afogava, neutralizava o meu prurido doentio de destruição. As suas mãos, uma deixada no regaço, outra arrastando no chão, sobre as aparas de madeira que meu machado cortava nervosamente, tiveram um ligeiro movimento convulsivo, quando della me aproximei de machado em punho&#8230; E só. E eu? Tremendo, tiritando de medo e de emoção&#8230; Levantei outra vez o machado sobre sua cabeça&#8230; Nunca me julguei tão fraco para o <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>. Deixei-o cahir para um lado e ajoelhei-me a seus pés. E com a cabeça no seu regaço tentei acalmar-me. Debalde, porém. Os teus nervos não permittem, nem por minucias, o relato desta história toda&#8230; Levantei-me de um salto, as suas mãos entre as minhas, e cobri-as furiosamente de beijos. Saquei do punhal&#8230; Que mascaras admiraveis se plasmaram no seu rosto de linhas vulgares! Principiei cortando-lhe os dedos da mão, phalange a phalange. E para reanimal-a, injectava-lhe ether de vez em quando&#8230; Ao desgarrar de um tendão, os seus empinaram-se-lhe, tão duros que enlouquecido de <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>, arranquei-lhe os bicos com os dentes&#8230; Duas lagrimas de sangue correram-lhe o torso abaixo. Dos meus labios humidos e rubros fluiam palavras angelicas, que se <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> ouviras, peior comprehenderas. Os seus olhos foram-se fechando devagarinho&#8230; Estava realizado enfim, o meu sonho de posse no absoluto, de gloria no <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a>, de previdencia contra a saciedade, e sobretudo, de prevenção contra as mil infidelidades em que é fertil o engenho feminino&#8230; Estava realizado o meu sonho e de morte e de belleza, alliviada a oppressão da minha febre immortal. Foi minha, destrui-a. Não com palavras, ou com os sentimentos vermelhos que o commum dos homens trazem dentro do peito, e cóleras contidas, e hypocrisias, mas com actos, heroicamente&#8230; Na destruição o absoluto&#8230; São gestos eternos que não se renovam. Só o marmore os permite. Com o escopro&#8230; Golpe por golpe.</p>
<p>- Hildebrando de Lima, Satanismo, 1928</p>]]></content:encoded>
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		<title>&#8220;Tudo que é, é bom&#8221;</title>
		<link>http://www.transtorno.net/tudo-que-e-e-bom/</link>
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		<pubDate>Wed, 05 May 2004 01:50:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
				<category><![CDATA[Written]]></category>
		<category><![CDATA[Confissões]]></category>
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		<category><![CDATA[maniqueísmo]]></category>
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		<description><![CDATA[cada uma das criaturas em particular era boa, mas, tomadas em conjunto, eram muito boas - Santo Agostinho, Confissões, XIII, XXVIII, 43 Em suas Confissões, Agostinho nos diz que pensar o mundo dividido, como um embate entre bem e mal, é também pensar um Deus imperfeito, menor, e não o verdadeiro Deus. Vemos, então, que &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>cada uma das criaturas em particular era boa, mas, tomadas em conjunto, eram muito boas<br />
- <a href="http://www.transtorno.net/tag/santo-agostinho/">Santo Agostinho</a>, <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a>, XIII, XXVIII, 43</p></blockquote>
<p>Em suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a>, Agostinho nos diz que pensar o mundo dividido, como um embate entre bem e <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, é também pensar um <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> imperfeito, menor, e não o verdadeiro <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>. Vemos, então, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não poderia, de forma alguma, ter criado um mundo imperfeito e que por isso, embora não tenhamos distanciamento suficiente para ver, o mundo é bom. Pensar que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> possa existir como tal, ou na matéria usada na <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, ou em qualquer outro lugar, seria também pensar que o Criador foi impotente para eliminá-lo ou ainda numa visão maniqueísta, que coexistia com ele, e agir dessa forma é diminuir a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Para Agostinho não existe o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, que, como afirmam os maniqueus, contrasta com o bem absoluto, resultando no &#8220;mundo como um embate entre duas forças&#8221; do qual o homem seria &#8220;expressão desse combate&#8221; (NOVAES, 2000, p.59): fora da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> nada existe que possa corromper a ordem estabelecida por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, ou seja, não pode haver o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> lutando contra o bem da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>. Existem coisas consideradas ruins por não estarem em conformidade com as demais, mas que isoladamente podem ser consideradas boas. Como não podemos ter uma visão do todo, temos uma visão das partes, com suas imperfeições. Se pudéssemos ver com distanciamento, teríamos então um panorama da perfeição da <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a>, de seu todo. &#8220;Eu já não podia desejar nada melhor, pois, refletindo de modo mais sensato a respeito disso tudo, compreendia que se as criaturas superiores são melhores que as inferiores, o conjunto de todas é ainda melhor&#8221; (AGOSTINHO, 1997, p. 193).</p>
<p>Para ele, a própria definição de bom é &#8220;ser&#8221; enquanto que a definição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> é &#8220;não-ser&#8221;. Assim sendo, tudo o que tem ser, tudo que é, é bom, pois do contrário não teria ser e nada mais seria. Com isso Agostinho elimina a possibilidade dualista do <a href="http://www.transtorno.net/tag/maniqueismo/">maniqueísmo</a>, pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, expresso dessa forma, não mais existe na <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>. As criaturas, mesmo diferindo de seu Criador, são semelhantes a Ele, &#8220;vestígios dele&#8221; (NOVAES, 2000, p.64) e, dessa forma, tudo que existe é bom.</p>
<p>Existe, embora em outro sentido, a possibilidade de dizer que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> existe e em suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a>, livro I, capítulo XII, Agostinho nos indica o caminho ao afirmar que &#8220;estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu próprio castigo&#8221;, mais à frente, já no livro III, capítulo VII, &#8220;eu não sabia que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> é apenas privação do bem, privação esta que chega ao nada absoluto&#8221;, e no capítulo VIII: &#8220;é de fato uma violação do vínculo que deve existir entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> e nós, o profanar, pelas paixões depravadas, a própria natureza de que ele é autor&#8221;.</p>
<p>Agostinho toca nesse ponto, mais uma vez, no livro V, capítulo X, ao confessar que &#8220;conservava ainda a idéia de que não éramos nós que pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> e de não dever confessar o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> após tê-lo cometido satisfazia meu orgulho; desse modo eu não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti preferindo desculpá-la e acusar não sei qual outra força, que estava em mim, mas que não era eu. (&#8230;) Pecado ainda mais grave era o de não me considerar pecador, e execrável iniqüidade era preferir que tu, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> onipotente, fosses vencido em mim para minha ruína&#8221;. Já no livro VII, capítulo IV, Agostinho confessa ter descoberto que o que é incorruptível é melhor que o corruptível e, assim, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> só poderia ser da primeira forma e que, a partir daí, tendo descoberto isso, deveria ter procurado a origem da corrupção, onde está o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, tendo em vista que estar sujeito à corrupção não é um bem.</p>
<p>Crer, como faziam os maniqueus, no <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, desloca para fora de nós o problema, atribuindo a algo diverso a origem do <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>. Desfeita a confusão e eliminada essa idéia, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> passa a ser então a &#8220;negação de movimento, que ofende e contraria a natureza dela mesma, <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>&#8221; (NOVAES, 2000, p.72). Conhecemos o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> na exata medida de nossa maldade, conhecemos o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> quando nossos órgãos de percepção estão alterados. Se apontarmos, como faziam, para um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, pensaremos também em seu oposto, num <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> que combate o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> fazendo o bem, mas este <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> seria um ídolo, não o verdadeiro <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, que é. Se eliminarmos o ídolo e o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto, restará apenas uma causa do mal: nós, o uso perverso de nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, afastada de sua vocação natural de procura em direção a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>.</p>
<p>Ao contrário dos maniqueus, Agostinho não <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> o corpo pelo <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, pela perversão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Para Agostinho, o corpo é instrumento: quem vê, tateia, cheira, sente as coisas e se alimenta é a alma. Temos, no entanto, disposição à aquisição de hábitos carnais, nossa &#8220;segunda natureza&#8221;, mas o fato de serem hábitos e, como tal, adquiridos, permite que sejam mudados. Com isso vemos também que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> só é má quando não aceitamos que somos nós a causa do mal: a escolha em meio à neutralidade é o que garante a existência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>. A natureza continua garantida, a condição, não. Só os homens podem se colocar numa condição diversa de sua natureza: &#8220;Ao eleger-se como seu próprio fim, e esquecer o bem supremo como fim último de sua natureza, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> pervertida suprime o dinamismo natural de tal forma que se vê impossibilitada por si mesma de restaurar sua natureza livre. (&#8230;) Nesse sentido, podemos falar em perversão da vontade: uma paradoxal decisão voluntária de deixar de ser <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>&#8221; (id. ibid., p.72).</p>
<p>Cabe ressaltar, entretanto, que algo degradável/degradado tem ainda algo de bom, pois se nada tivesse de bom, também não teria ser e, assim sendo, não mais existiria. Logo, se algo é passível de corrupção é porque ainda tem algo de bom, pois o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> é ausência de ser, não podendo existir nem para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nem para a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, pois privação de ser é privação da existência. Para Agostinho, nossa razão não é degradável, mas pode ser obscurecida e, se esclarecida, será eterna e imutável. Essa razão eterna e imutável não mais seria nossa razão, mas a própria razão operando em nós.</p>
<p>Ao criticar o dualismo maniqueísta, Agostinho deixa claro que essa diminuição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> pode ser pensada até ingenuamente, ao afirmar quem, quando maniqueu, se recusava a considerar como <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> as coisas que o desagradavam. Procedendo dessa forma, Agostinho deixava aberta a possibilidade de pensar um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a> absoluto e, com ele, um <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> menor e mostra que resta, dependendo da forma como se nega essa idéia, o perigo de transformar <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> em um ídolo: &#8220;E procurando o que era a iniqüidade compreendi que ela não é uma substância existente em si, mas a perversão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> que, ao afastar-se do Ser supremo, que és tu, ó <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente&#8221; (AGOSTINHO, 1997, p.195)</p>
<p>Quando diz que &#8220;não tinha uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> plena, nem decidida falta de <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. (&#8230;) Essa divisão se produzia contra minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, embora isso não demonstrasse a existência em mim de outra alma, e sim o castigo de minha própria alma&#8221; (id. ibid., p.225), Agostinho dá exemplo de que o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, nesse caso, é causado pelo conflito de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> consigo mesma, tendo em vista que o conflito o impede de seguir seu curso natural, sua ordenação, em direção ao Criador. Sobre isso cabe lembrar o que diz Moacyr Novaes em seu artigo &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">Vontade</a> e contravontade&#8221;: &#8220;O livre-arbítrio da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> não é apenas um entre outros movimentos; é justamente através dele, na verdade, que o homem é mais que vestígio, através dele o homem é imagem de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>&#8221;. O <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, aqui, decorre do fato de que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> se move em direção oposta à do Criador, quando em conflito na razão. Essa negação de caminhar em direção ao seu lugar natural, essa aversão, é a perversão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>. Ao aspirar não ter mais <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, a se satisfazer consigo mesmo, o homem cria o conflito, negando sua natureza livre.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas:</strong><br />
Agostinho, S., <em><a href="http://www.transtorno.net/tag/confissoes/">Confissões</a></em>, Paulus, 1997<br />
Novaes, M., <em>&#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">Vontade</a> e contravontade&#8221;</em>, O avesso da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, Cia. das Letras, 2000</p>]]></content:encoded>
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