Se não somos eternos, como podemos sequer pensar essa possibilidade? Não, essa questão não é minha, é filosófica. Como pensamos? Pensamos no oposto do que somos. Eternidade, perfeição, bondade e outras coisas. Dai se pensa em Deus, se pensa no eterno.
Não diria todos pq é claro que seria ridículo, mas uma grande, grande mesmo, quantidade de pessoas busca o eterno. Buscam quando vão à igreja, quando buscam relacionamentos, quando prometem amar na saúde e na doença, até que a morte os separe. É claro que há a promessa de união após a morte. Esse eterno fez a beleza da literatura por séculos, da música, da pintura.
Quem não concordaria que Mozart, Bach, Platão, Aristóteles e outros são eternos? São pq sentimos assim. Um dia podem ser esquecidos, é fato, mas o efeito de suas obras terá influenciado tudo que se passou até ali. Hegel dizia, por exemplo, que é impossível pensar o mundo hoje sem pensar o cristianismo, de tão profunda a ligação. Resumi porcamente e com minhas palavras, mas é isso. Para Hegel o cristianismo fez-se eterno. É parte da dialética.
Ontem, por um motivo bobo, eu disse que nada era eterno, falei sem pensar. Agora estou pensando e discordo do que disse. Se tivesse pensado ontem, não teria dito. As coisas podem passar, virar memórias, mas se tornam eternas, pois influenciam os próximos passos todos da causalidade.
Me pego a pensar em Nadja, pra variar. O livro que me marca, volta e meia batendo à minha porta, me mostrando que vivo em uma “casa de vidro”, provando que a causalidade é real, ri de nós, brinca, mas faz de cada um de seus jogos um momento eterno.
Fui à terapia por algum tempo, anos atrás. Ela me disse à época que paixão era bobagem, que amor existia quando as pessoas aprendiam a conviver sem paixão. Eu entendo o que ela queria dizer, faz sentido pra muita gente, para aqueles que não se questionam e vivem um dia após o outro. Não faz sentido para os inquietos, buscadores. Não faz sentido para mim.
Amor faz sentido, mas a paixão também faz. Não me importa se a origem de seu nome é de pathos, doença. Não me interessa se paixão é patológica. A mim importa que a calmaria é morte. Que não se questionar é morte. Que não sentir extremos é morte. Paixão não causa sensação de paz, pelo contrário.
As temperaturas são extremas, a mim não agrada o morno. A mim não agrada a paz. Não adianta eu tentar me iludir. Digo que quero paz, mas não, não quero. Estou em constante combate, prefiro assim. E já que citei Nadja, lembro que em “O amor louco”, Breton diz que “o amor será convulsivo ou não será nada”. Acredito que ali ele coloca o efêmero no eterno: o amor não exclui a paixão de si, jamais, e torna-se para sempre seu próprio momento, na transformação que causa.
O efêmero parece perder o sentido assim, quando se transforma, se tornando parte do todo, que permanece.
O desdobramento dos signos tem essa consequência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse no sentido de uma separação do ser pessoal e de todo limite, é no entanto expresso por um objeto.
- Bataille, in O Erotismo
Cresci vendo minha mãe costurar, fazendo roupas tanto para nós de casa quanto para suas clientes. Uma decorrência disso é que também cresci com revistas de moda por perto, muitas eram importadas, e, vale lembrar, eram os anos 70.
Essas revistas, quando velhas, depois de usadas para que as clientes escolhessem modelos ou para que minha mãe tivesse idéias, se transformavam em meus trabalhos de escola, as famosas colagens, além de serem uma forma de ver o mundo além dos portões e da rua onde morava. Era curioso, pois tinha mais contato com elas do que com quadrinhos, por exemplo, imaginava conversas entre as pessoas e, como não sabia ler, imaginava o que os anúncios diziam.
Há alguns meses, andando pelo MoMA, encontrei uma sala com um painel enorme que disparou, imediatamente, um gatilho na minha memória e retomei muita coisa da infância. Tirei algumas fotos e depois fiquei pensando o motivo de ter sido atraído. A única explicação que consigo encontrar é que tenha sido fetiche, esquema freudiano mesmo. As imagens nas paredes eram do mesmo tipo de revistas que eu via, exatamente os mesmos, mas algumas ganharam destaque por sobre a montagem das páginas, como se tivessem vida própria. Acredito, de fato, que tinham e ainda tenham. São fetiches, ou seja, gatilhos, que falam ao inconsciente, sem as barreiras da razão. Quase atavismos, talvez.
Ao lado do grande painel na parede havia uma caixa de vidro com alguns daqueles elementos em três dimensões, palpáveis, praticamente vivos. Sim, nunca gatilhos foram tão ativos. Reproduzo abaixo duas fotos que tirei, só para dar uma idéia do que fato. Os turistas ainda não tomaram o lugar dos viajantes.

O problema é que fui muito espertão e não fotografei a ficha da obra. Pensei “pego depois, em detalhes, no site do museu”. Acontece que o site do museu é enorme, tem milhares de obras, algumas sem fotos, e até hoje não achei. Se alguém souber do que se trata e puder me dizer, agradeço imensamente.
Acasos só são acasos quando reconhecidos, vistos, percebidos. Coincidências e sincronicidades acontecem a todo momento, mas só quando vistas é que existem. Podemos dizer, então, que se não são percebidas, não existem ou não aconteceram? Se não há sentido, não há existência. É preciso um sentido, portanto. Acasos precisam ser vistos, logo, não, não acontecem a todo momento. Não são meras coincidências. Podes dizer com certeza que algo exista se não vês? Ora, a fé! Sim, podes dizer. E sentir, viver, tocar, enfim? Podes? Acasos são como Deuses: acreditamos e esperamos por eles. São pequenas fissões nucleares, fugidias, transformando às vezes imperceptivelmente a percepção que temos das coisas e, portanto, as coisas.
Poderia aprofundar o raciocínio, citar Platão, Berkeley, a psicologia, a metafísica e mesmo os sentidos. Poderia, sim, mas não vou. Vou me ater ao breve, ao efêmero, que se vai, passa e se perde. Vou me ater ao inconsciente também. Como os acasos. Vou me ater às brasas. Aliás, vou apenas falar delas, das faíscas, de relâmpagos, de explosões e reagrupamentos.
Vou me ater apenas às notas que tomo neste caderno. Às notas musicais que vibram por segundos e acabam, quando se transformam em outras. Vou me ater à observação, à magia e, neste caso, caberia mesmo discutir se é Magick ou não.
Acasos são rápidos, são imagens, são percepções. São ligações e rupturas, simultaneamente. São poéticas de qualquer linguagem não discursiva, seja verbal, onírica, escrita, visual e imaginária.
Acasos são encruzilhadas, onde versos caem, uns sobre os outros, rompendo frases, se reagrupando em outras novas e, quando palavras sobram, germinam e criam outras, também novas, ainda solitárias, buscando verbos e adjetivos para lhe acompanharem rumo aos nomes.
Acasos são frases que lemos a sós, mas se só nos as lemos, perdem o brilho, pois devem lidas em duplo, não necessariamente a dois, e isso digo apenas a quem sabe procurar as entrelinhas e perceber sutilezas.
Derrubo as palavras e fico observando, esperando que se reagrupem, mas o acaso está em mim, não fora. Se estivesse fora não seria acaso, seria rotina. Derrubo-as então em minha garganta e vou digerindo, calmamente, uma a uma, quando são mastigadas, se transformando em sons e novas letras. Mantenho tudo aqui, pois não poderia ser diferente: o que sou é imanente, mas ao mesmo tempo é outra coisa.
As sombras de São Paulo – a cidade, mas poderia também ser o santo, é claro – escondem os olhos de Nuit, mas, sob seu manto, novas palavras se formam. Formam versos. Formam poesias.
A letra theta é união!
θ
Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Estética, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são erros, que fique claro.
Segue:
As palavras depositaram tamanha confiança no espirito credulo dos homens, que estes acabaram por lhes voltar as costas. A gente começa a admirar-se de que uma porção de civilisações tenha enxergado incessantemente na letra qualquer cousa que não seja uma negação da vida – negação formal, está claro, mas nem por isso menos eficiente. Um estupendo livro ainda por se escrever: o tratado de historia da civilisação em que se considere o esplendor e a decadencia de cada povo coincidindo precisamente com a maior ou menor consideração que a palavra escrita ou falada mereceu de cada povo.
Nada do que vive se exprime impunemente em vocabulos. Os mais sabios dentre os homens têm, sofrido um pouco das necessidades a que essa lei os subordina. Eu, Sergio Buarque de Hollanda, acho indiscutivel que em todas as cousas exista um limite, um termo, além do qual elas perdem sua instabilidade, que é uma condição de vida, para se instalarem confortavelmente no que só por eufemismo chamamos sua espressão e que na realidade é menos que seu reflexo. Só os pensamentos já vividos, os que se podem considerar não em sua duração, mas objetivamente e já dissecados encontram um termo. Quero dizer: esse termo só coexiste com o ponto de ruptura com a vida.
Os homens que sentiram nitidamente essa ausencia do principio de vida, essa atmosfera irrespiravel que nos propõem as formas inteligiveis, já mandam ao diabo tudo quanto possa preencher um termo, tudo quanto caiba entre as quatro paredes de um pensamento comunicavel ou espresso. A palavra escrita ou falada só se concilia com a dificuldade vencida, com a energia satisfeita e a paz proclamada depois da guerra. É em vão que se tentará atrair a tempestade, invocar o demonio ou realisar o misterio dentro do quotidiano, quando não se renunciou à virtude ilusoria da linguagem dos cemiterios.
Mas não é sem remorsos que os homens aceitam a falsa paz que as letras impuzeram. A resistencia ao milagre caracteriza um estado de espirito que não é bem o dos contemporaneos. Já se ousa pretender mesmo e sem escandalo, que a mediocridade ou a grandeza de nosso mundo visivel só dependem da representação que nós fazemos dele, – da qualidade dessa representação. Nada nos constrange a que nos fiemos por completo na suave e engenhosa caligrafia que os homens inventaram pra substituir o desenho rigido e anguloso das cousas. Hoje mais do que nunca toda arte poética ha de ser principalmente – por quasi nada eu diria apenas – uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos seculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraizo nas regiões ainda inesploradas. Resta-nos portanto o recurso de dizer das nossas expedições armados por esses dominios. Só à noite enxergamos claro.
Não lhe quero negas leitor o direito que você tem de achar ingenuo e irrealisavel tal proposito. Lembro mesmo, e a seu favor, o trecho admiravel de Marcel Proust sobre essas “visões que nos é possivel esprimir e quasi prohibido constatar, porque, precisamente quando se tenta dormir, vem-nos a caricia de seu encanto irreal, no instante mesmo em que a razão nos abandona os olhos se serram e antes de se conhecer não só o inefavel, mas o invisivel, a gente adormece.”
Mas de que nos vale ter confiança no milagre se não ousamos transpor aquelle impossivel e aquelle prohibido colocados ali por prudencia ou por covardia? “Ha muitas cousas no céu e na terra além do que imagina a vossa filosofia”, diz Hamleto a Horatio. O certo é que essa filosofia não se interessa senão por divertimento ou por acaso em todas essas cousas que existem na terra e no céu fóra de seu alcance. Para os sabios mais consideraveis uma certa amplitude de pensamento acarreta o invencivel sacrificio de tudo quanto escapa à logica da continuidade, de tudo quanto se esalta e afirma, pelo simples facto de ser, um direito à existencia, a sua diferença essencial em relação ao que a rodeia e por isso mesmo, implicitamente, a sua singularidade. A ciencia compraz-se em estabelecer um nivelamento, uma uniformidade tal em todas as cousas, que acaba por escluir de seu Universo qualquer objeto que não se resigne a ser um simples termo prás suas equações, um instrumento docil às suas construcções arbitrarias. O acto elementar de definir, que se encontra à base de toda ciencia humana, implica o proposito de instalar todo o objeto de conhecimento numa continuidade fixa e inalteravel. Não existe ciencia do particular que estude cada cousa em relação à sua propria particularidade. Todos os nossos conhecimentos procedem ao contrario subordinando o singular ao universal e utilisando-se para esse efeito de um sistema de seleção que só se tem por essencial o que ha de constante em uma dada série de objetos. O resto, o que ha em cada um de individual é considerado inutil para a formação do conceito. Acontece porém que para certos homens o essencial continua sendo o que ha de particular, o que ha de milagroso, o elemento irredutivel em cada cousa. São esses homens, os que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das cidades que reclamam com violencia um regresso a esse estado de guerra que não é mais do que uma conformação com a vida. (1)
Mas prá maioria dos homens a morte como que se seja apresenta encantos e seduções que a Vida está muito longe de lhes proporcionar. Para uma porção de poétas ela tem sido um sinonimo comodo de misterio e para Socrates ela apareceu como uma aquisição de pensamento. Nem todos sentiram que não é necessário renunciar à vida para descobrir o “irreal” e que ao contrario o que parece mais real e até mesmo o que se apresenta mais dócil à verificação comporta uma parte de misterio imprevisivel e tráe concessões escandalosas ao irracional. Essa ilusão esplica a subsistencia, embora disfarçada, em cada um dos nossos actos. de uma aspiração à morte. A propria creação artistica não escapou desde os seus inicios a esse pecado original. Parece claro que o proprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um desejo de libertação como já se te dito (isto é libertação no sentido de exaltação: correspondendo a uma espansão de vitalidade), não de um esforço de resistencia contra o aniquilamento, mas ao contrario, e acentuadamente, ao desejo invencivel de negar a vida em todas as suas manifestações.
Surge assim em sua espressão artistica mais rudimentar esse afan de reduzir o informe à fórma, ao livre necessario, o acidental à regra. O desenho regular e monotono dos primitivos, essa esclusão de todos os elementos especiaes e acidentaes que eles revelam mostram claramente o significado e o sentido da tendencia dos homens para uma regularidade abstracta e inanime.
Paralela a essa tendencia que não é um privilegio do homem primitivo, a necessidade de confissao, essa doença moderna que condena à morte pela palavra e pela sintaxe, todos os sentimentos que nos oprimem, toda manifestação de vida inoportuna corresponde a essa mesma lei de aspiração ao inerte. (2)
Não me cabe resumir aqui todas as perspectivas que esse ponto de vista me propõe. Não disse ainda porque razão os homens começam a procurar a realidade de preferencia na esperança, na recordação e na ausencia e porque muitos deles sem renunciar a essa atitude conseguiram revogar para uso proprio a lei de aspiração à morte. Tambem não disse porque a exaltação do particular resolve-se em certos momentos na anulação de qualquer singularidade, no sentimento da harmonia de todas as cousas. Direi provisoriamente que a vida, apesar de tudo, continúa a nutrir subrepticiamente e por uma especie de verba secreta as regiões mais ocultas de nossas ideologias. É incontestavel que os nossos actos e mesmo aqueles que comportam uma série de movimentos irremediavelmente previstos pela logica e pelo calculo mais precisos, não prescindem dessa parcela contingente que participa do divino. Deante dessa impossibilidade de opôr uma resistencia mais eficaz ao misterio que nos sitia por todos os lados, deante do absurdo dessa resistencia não ha duas atitudes igualmente legitimas. Nada mais comodo, é verdade, que concluir pela vaidade de todos os nossos gestos e pela inutilidade de qualquer atitude, – ideia que o Universo nos fornece a troco de um simples bocejo.
- Sergio Buarque de Hollanda
(1) – Nunca será demasiado insistir no que representou para a literatura contemporanea a “descoberta” de que cada individuo representa um mundo isolado e muitas vezes indecifravel para os outros homens. A ideia da “incomunicabilidade dos espiritos” que constitue, pode-se dizer o fundamento e o tema essencial do teatro de um Pirandello já estava admiravelmente espressa numa passagem dos comentarios de Newman aos argumentos de Paley sobre as evidencias do Cristianismo: “Se quizerem que eu me utilize do argumento de Paley para minha propria conversao direi resolutamente: não desejo ser convertido por um silogismo habil; se quizerem que o mesmo argumento me sirva pra converter a outros, direi: não me interessa convence-los pela razão sem que seu coração seja atingido. Os homens não podem aceitar integralmente uma verdade, é preciso que cada qual a descubra por si. Toda convicção profunda ha de ser conhecida por essa descoberta.
(2) – Digo “doença moderna” apenas por comodidade. Não ignoro os argumentos que poderiam me opôr. Quero dizer que a confissão, a necessidade de espressão dos nossos sentimentos mais profundos manifesta-se menos disfarçada entre os contemporaneos. Ha quem atribua à influencia do confessionario a extraordinaria situação de quem ainda hoje goza e que mantem o catolicismo romano. (V. Dr. William Stekel – The Dephts of the Soul – trans. by Dr. S.A. Tannenbaum – London, Kegan Paul – 1921). O artigo de Prudente de Moraes, neto, sobre a sinceridade publicado no ultimo numero desta revista estuda o mesmo assumpto com admiravel lucidez.
Assisti ao grupo Fuerza Bruta, no parque Villa Lobos, na tarde de hoje. Fui imaginando que veria um tipo de apresentação, vi outra, completamente diferente, e de uma forma ou de outra, sai bem impressionado, querendo que tivesse durado mais. O tempo, aliás, voou. Passou depressa demais, infelizmente, mas faz sentido que tenha sido assim.
Falei do La Fura antes e acreditei que veria algo similar. As semelhanças existem somente enquanto os dois são grupos que provocam o sensível e interagem com o público, o resto é completamente diferente, duas linguagens muito distintas.
O La Fura provoca pelo terror, o público se sente ameaçado a cada momento, esperando uma motoserra, esperando que atirem carne crua, farinha, tinta… O medo está sempre presente. Fuerza Bruta é outra coisa, é onírico, uterino e hipnótico, as pessoas interagem, se sentem parte do trabalho, se entregam sem perceber.
Não vou ficar descrevendo as cenas, quem quiser que vá ver (recomendo a experiência, aliás). Há bastante água e movimentos na água. Imaginei um grande útero ali. Aliás, imaginei a água como elemento também. Há também referências a sonhos, ao ar.
As pessoas não sentem medo, ao contrário. No final, atores dançando, o público ídem, embaixo da chuva que fazem no galpão. As crianças, muito mais do que os adultos, adoraram. Entraram na água sem vacilar, mas para isso é preciso se permitir. Lembrei de quando era criança, jogava sabão em pó no piso do quintal, molhava e ficava escorregando. Adorei cada segundo da apresentação, valeu cada centavo, reitero que gostaria que tivesse durado mais e gostaria de ver mais vezes. Quem sabe em alguma delas eu deixasse o canto e entrasse na chuva também.
Chegar em casa, abrir as portas, encontrar apenas caos, poeira e silêncio, sendo este rompido apenas pelo miado de quem espera por seu alimento. Fartos, resta o ruído das lambidas de quem se limpa após a refeição.
Cena diária, rotineira, agradável, sim (em parte, afinal, abomina-se a poeira da reforma), mas tão diária e tão rotineira que passa a ser maléfica. Qualquer rotina extrema é maléfica. Disciplina extrema é maléfica. Inclusive a minha.
Respirar a fumaça de SP, falar algumas bobagens, perceber que independente da ocasião alguns assuntos são tão sérios que causam dor no estômago, rir um pouco.
Ir a um lugar desconhecido à 01h00. Sair quando se estaria voltando. Nervoso, tímido e ansioso. Falar mais, rir outro tanto, apreciar a companhia. Voltar para casa sem reclamar uma vez sequer e esperar pela próxima.
Domingo à noite.
Cheiro da chuva.
Um bom final de semana.
Obrigado!