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	<title>Transtorno &#187; momentos &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Recordações</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 05:28:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo foi escrito em 31/08/2010, por causa da morte do Porps. Um ano depois ainda desmonto, ainda peço desculpas e continuo perdendo momentos. Apenas um ano e tanto se foi&#8230; Segue: No final de 2000 um gato persa foi achado na rua, no bairro de Higienópolis. Era um gato enorme, branco, muito peludo, &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo foi escrito em 31/08/2010, por causa da morte do Porps. Um ano depois ainda desmonto, ainda peço desculpas e continuo perdendo <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a>. Apenas um ano e tanto se foi&#8230; </p>
<p>Segue:</p>
<p>No final de 2000 um gato persa foi achado na rua, no bairro de Higienópolis. Era um gato enorme, branco, muito peludo, assustado e com medo de pessoas, que se escondia ao ver qualquer estranho. Ele tinha razão para isso: antes de ser recolhido, foi agredido por alguém, foi muito machucado e teve dentes quebrados.</p>
<p>O gato foi recolhido por uma senhora e entregue a um pet shop, para que cuidassem dele e encontrassem o dono. O dono não apareceu, como costuma acontecer, e fui convidado a conhecê-lo, para ver se queria ficar com ele. Entrei na casa do veterinário, dono do pet shop, e lá estava ele, enorme, com seus 10 quilos, já recuperado, deitado no sofá: não se escondeu quando me viu, para espanto do doador.</p>
<p>No mesmo dia esse moço passou a habitar outro endereço, o meu. Levou algumas horas para se adaptar ao ambiente, o que é normal para felinos. Se escondia e saia para reconhecer a área quando ninguém estava por perto, ao mesmo tempo que escolhia um nome para ele. Devido à sua gula e tamanho, acabou chamado de Porpetto, o que pareceu agradá-lo, pois em poucos dias já virava de barriga pra cima para ganhar carinhos e “amassava pãozinho” no ar.</p>
<p>Por muitos anos ele foi meu despertador pessoal, já que diariamente, às 6h00 da manhã, pontualmente, se sentava ao lado da minha cabeça e miava no meu ouvido, bem próximo, me chamando para alimentá-lo. Da mesma forma, diariamente, quando me deitava para ler os inúmeros <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> de <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> da faculdade, ficava ao meu lado ou aos meus pés. Quando apagava a luz, descia da cama e ia para o sofá, onde não seria importunado pelo humano desajeitado que se mexia dormindo. Esse ritual se manteve até algumas semanas atrás, exceto quando ele decidia passar a maior parte da noite na cama, roubando meu travesseiro, me deixando com a cabeça pendurada.</p>
<p>Por muitos anos, quase 11, ele esteve perto, me dando alegrias e também me deixando nervoso ao furar o sofá comprado naquele mesmo dia, arranhando o estojo da guitarra (da mais cara, claro) para afiar as unhas, fazendo xixi fora do lugar. Levou muitas broncas por isso, mas sempre me olhava com cara de “o que você está falando?”, sem levar para o lado pessoal as inúmeras repreendidas que levou. Pelo menos é assim que tenho tentado ver.</p>
<p>Alguns anos se passaram e outro amigo veio dividir o espaço com ele, o Billy Idol. O Billy passou uma semana escondido embaixo do sofá, sem exageros, até acostumar com o ambiente. Não saia nem para comer. No primeiro dia que saiu o Porpetto o pegou e deu vários cascudos, como quem diz “eu mando aqui, entendeu?”. No dia seguinte já eram amigos, dormiam abraçados, ficavam juntos o tempo todo. O porps, já mais velho, adotou o Billy como filho e assim foi até a semana passada.</p>
<p>Não posso e nem cabe contar 11 anos de histórias nesse espaço. Não me recordo de todas, mas de algumas que são chaves para a “conclusão” desse texto. Uso aspas em conclusão, pois nada de fato se conclui, são apenas questionamentos que se fazem necessários, são simbólicos.</p>
<p>Pois bem&#8230; na última semana o Porps, como era chamado carinhosamente, começou a se isolar. Não atendia mais quando chamado, dormia em lugares estranhos, distantes da cama e de mim, não tomava água do pote, apenas do box do banheiro, dormia no chão molhado. Eu já havia visto ele passar por coisa do tipo, já que era alérgico e os últimos dias estão sendo cruéis com a população de SP, inclusive dos que não podem reclamar, como ele. O que não imaginava é que, por trás dessa alergia e desse distanciamento, havia muito mais.</p>
<p>Não vou narrar os últimos dias, mas durante a consulta com o veterinário no último sábado, o Porps teve uma parada cardíaca e não voltou pra casa. Na verdade voltou, mas não era mais ele. Era, sim, um menino leve, longe daqueles 10 quilos, ainda peludo, mas mole em meus braços. Aquele menino que odiava ser carregado e se agitava para voltar ao chão, não reagia mais quando segurado. Só me recordo de pedir “não faz isso, filho”.</p>
<p>O menino, que dividiu o espaço comigo por 11 anos, estava longe de mim e minha tristeza estava tão próxima como raramente poderei descrever. Segurar o Porps daquele jeito disparou um gatilho: só conseguia pensar nas broncas que dei, nas vezes que não estive perto quando ele miava pedindo atenção. Só conseguia me sentir extremamente cruel comigo mesmo, pensando em como só via agora o que havia feito, depois de tantos anos.</p>
<p>Passei a me questionar se ele havia sido feliz aqui. Espero que sim, pois me lembro de muitos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> em que ele se deitava próximo a mim e ronronava, forma felina de dizer “eu te amo”. Isso me deixava feliz, mas de todas as vezes que ele fez, quantas eu percebi? Não sei dizer. Sei dizer que inúmeras foram as broncas pelo xixi fora do lugar, coisa que ele nunca entendeu, pelo olhar que me devolvia.</p>
<p>Isso me remeteu a um outro evento, de janeiro de 1997. Passei uma noite na rua, bebendo, e cheguei em casa já com o dia amanhecendo. Ainda morava com meus pais, era o final dessa época. Dormi um tanto, acordei e fui para o computador. Meu irmão dormia ainda, pois também havia virado a noite. Em certo momento ele acordou, se vestiu e passou por trás de mim. Me lembro de ter virado para trás e visto ele passar. Não disse nada. Foi a última vez que vi meu irmão vivo. No dia seguinte, estava desesperado, indo em delegacias e hospitais, procurando por ele, quando finalmente o encontrei no IML, tratado como indigente.</p>
<p>Dadas as devidas proporções, o que percebi é que aquele não era meu irmão, assim como o gato que esteve em meus braços no sábado não era mais o Porps. Ambos eram símbolos. Símbolos de meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> que perdi. Senti todo o carinho do mundo quando segurei o Porps, senti todo o carinho do mundo quando velei meu irmão, mas senti também toda a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> do mundo por não poder dizer e fazer por eles tudo o que tive chances de fazer.</p>
<p>Todos aqueles momento existiram e eu os perdi. Tive bons e maus <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> com ambos, mas e agora, o que me restou? Restou a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a> por saber que não fiz tudo o que era possível e que agora não terei mais chance alguma, que o tempo se foi. O ponto é exatamente esse: o tempo! Tomamos – eu tomo e tenho certeza de que vocês também – quase todo o nosso tempo achando que as coisas estão “garantidas”, mas elas não estão, pelo simples fato de que não são “coisas”. O porps não era “meu” gato. Era um gato, sim, mas não era “meu”. Ele morava comigo, eu o protegia, cuidava, mas não era meu. Ele não estaria ali até eu decidir que estaria, como acontece, por exemplo, com uma bicicleta, que posso falar “cansei, vou vender”. Não! Assim também era meu irmão. Ele não era meu, não estaria ali pra sempre. Aliás, ele é um símbolo enorme para quem conhece os efeitos que sua morte causou em minha família e, principalmente, para todos os que o conheceram. Ele tinha apenas 21 anos. Você ai, seguro de si, está certo de que vai voltar para casa? Tem certeza disso? Já pensou que pode não voltar? Ou que alguém próximo a você pode não voltar?</p>
<p>Não, não estou sendo agourento. Não mesmo. Só quero entender o motivo de percebermos essas coisas apenas quando não as temos. Quero entender esse comodismo humano que deixa tudo para depois, para poder gastar dinheiro em psicólogos, igrejas e outras coisas, tratando a <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>. Quero entender o motivo de eu não ter feito coisas que poderia e hoje ficar pensando “e se?”. Sei que “e se?” não vai resolver nada, mas preciso pensar, preciso tentar entender, para que da próxima vez eu não faça a mesma coisa.</p>
<p>Sim, da próxima vez, sim! Ou vocês pensam que acham que não vai acontecer de novo? Tenho o Billy, tenho meus pais, irmão, sobrinho, amigos! Não quero me culpar por ter dado mais tempo a banalidades do que a eles, a vocês. Não quero! E não posso esquecer também que posso ser aquele que não vai voltar para casa. Nesse caso não entraria a minha <a href="http://www.transtorno.net/tag/culpa/">culpa</a>, mas o quanto há para ser feito antes desse momento? Posso fazer minha parte para que um dia as pessoas próximas a mim não pensem “e se?”. Talvez, mas não sei como. Não ainda. Nesse momento, só sinto tristeza. E não é pouca.</p>
<p>Quando meu irmão morreu, meus pais se mudaram para o interior de SP e ele nunca conheceu a casa que ajudou a construir. Sempre evitei visitá-los, os mais próximos sabem: meus pais moram lá desde 1998 e eu posso contar as vezes que fui até lá. Motivo? Lembranças! Vejo fotos, objetos, me recordo de minha infância, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> ruins, bons&#8230; me recordo de coisas que gostaria de apagar, todas elas. Hoje olho à minha volta em meu apto e vejo os lugares onde o Porps dormia vazios, a comida no pote, a água&#8230; E não posso fugir de nada, não posso largar minha casa. Entendam: falo de símbolos.</p>
<p>Sabem o que é curioso? Só comecei a tomar gosto por ir ao interior visitar meus pais quando meu sobrinho nasceu. Meus pensamentos se desviam dessas coisas, pois estou focado nele, no meu irmão que está vivo, na forma boa e bonita como ele vive seu casamento, como se amam, nos meus pais&#8230; Penso que é a vida trazida de volta à família que tanto sofreu. Não quero que um dia meu sobrinho pense que não dei atenção a ele, não quero que se distancie.  Não quero que minhas inúmeras mágoas e minha história afetem a dele. Aliás, não quero que isso afete ninguém à minha volta. Por isso escrevo esse texto: é um pedido de desculpas. É minha forma de dizer que sei que erro, que sei que errei, que ainda vou errar, mas que quero que vocês saibam que estando próximo ou mesmo distante penso em vocês e não quero que brigas idiotas e <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> de ausência apaguem as histórias que valem ser lembradas e contadas aos meus filhos. Sim, filhos.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Perguntas simples</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 04:39:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acumulamos histórias e deitamos sós, prolongando as noites com o sabor das dúvidas. Quando sonhamos juntos, as horas passam e sequer as vemos, não temos tempo de perceber o relógio, não estamos interessados em mais nada. As horas ficam longas quando a única coisa que as preenche é o gosto amargo da saudade e mesmo &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acumulamos histórias e deitamos sós, prolongando as noites com o sabor das <a href="http://www.transtorno.net/tag/duvidas/">dúvidas</a>. Quando sonhamos juntos, as horas passam e sequer as vemos, não temos tempo de perceber o relógio, não estamos interessados em mais nada. As horas ficam longas quando a única coisa que as preenche é o gosto amargo da saudade e mesmo as boas memórias são amargas nas noites insones.</p>
<p>Acumulamos sonhos para dividir, mas tememos revivê-los. Acumulamos aventuras, <a href="http://www.transtorno.net/tag/contos/">contos</a>, experiências, sabores, visões, cheiros, texturas e acumulamos medo. Acumulamos histórias que pedem para serem recriadas e melhoradas, mas junto com elas trazemos finais sofridos que não queremos experimentar novamente.</p>
<p>Guardamos sempre o medo. Entrega? Sim, amo a entrega, o <a href="http://www.transtorno.net/tag/abismo/">abismo</a>, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vertigem/">vertigem</a> da queda. Me entreguei tanto e esperei o mesmo em troca. Quando tive, não pude me entregar, quando estava entregue, não sentia mãos se estendendo para junto das minhas. O &#8220;timing&#8221; desdenha dos sonhos humanos.</p>
<p>As coisas deveriam ser fáceis: <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">acasos</a> montam as situações, constroem sonhos, pintam quadros, traçam linhas, mas nós, humanos, é que contamos as histórias dessas obras, temendo o final, fugindo de dores e causando outras tantas. Ingenuidade acreditar que não sentiremos <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> pulando capítulos: é ai que ela reside. </p>
<p>Um site aberto por acidente, <a href="http://www.transtorno.net/tag/poesias/">poesias</a> perdidas na rua, um cão encontrado na vizinhança&#8230;  Posso escrever um livro de capítulos arrancados de <a href="http://www.transtorno.net/tag/livros/">livros</a> com inícios maravilhosos. Posso escrever outros tantos capítulos com bons <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> que hoje me trazem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> da <a href="http://www.transtorno.net/tag/nostalgia/">nostalgia</a>, com outros ruins que preferia ver apagados e com outros ainda, os monumentos de meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, poderia escrever como não vi a paisagem que perdia enquanto passava e também como vi <a href="http://www.transtorno.net/tag/paisagens/">paisagens</a> maravilhosas e indescritíveis em estradas que não permitem volta. </p>
<p>Poderia contar em apenas algumas linhas as maiores dores que sinto, mas tudo se torna simples quando breve: &#8220;<a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> existe?&#8221;, &#8220;há felicidade&#8221;, &#8220;o que a vida me guarda?&#8221;. Sem a profundidade do infinito e das incertezas, sem as distorções do olho que vê através do cristal, todas as perguntas são simples. As respostas são complexas quando não sabemos perguntar.</p>
<p>O problema é que geralmente não queremos respostas e fazemos as perguntas erradas. Queremos a experiência da vida, as descobertas, sorrisos, boas histórias, sonhos realizados, mas ignoramos que tudo o que aprendemos é valorizado pelo contraste e o contraste vem dos <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, das dores, dos acidentes, das péssimas histórias. O contraste é um olho que procura vida através da distorção da água em uma sala de espelhos. </p>
<p>Quando perdemos algo, sempre aparece alguém para falar um simples &#8220;vai passar&#8221;, que parece ser a resposta certa para a pergunta que nunca é feita: o que vai passar? Se vai passar, qual foi o sentido? Sonhamos com &#8220;a&#8221; pessoa, &#8220;aquela&#8221; que viverá toda a intensidade do mundo conosco. Vivemos a intensidade, o relacionamento acaba, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> chega, mas &#8220;vai passar&#8221;. Repito: o que vai passar? O que é que vale a pena guardar, então? As histórias? A &#8220;sombra&#8221; para contrastar com a próxima experiência? Guardamos o que é bom e ainda assim deixamos passar?</p>
<p>Sonhar lindos sonhos fazendo planos enquanto a razão grita &#8220;parem com isso&#8221;, o inferno dos desencontros, da vida pregando peças e fazendo com que se perceba o quanto somos pequenos pra saber que mesmo o céu cobrindo igualmente a todos, não podemos abrir mão da proximidade de sorrisos, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/segredos/">segredos</a> e confidências, de brincadeiras, de olhares e de gestos, todos únicos em seus significados. Não podemos abrir mão da realidade diária, que pode ou não permitir a verdade desses <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a>. Não podemos ignorar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/crueldade/">crueldade</a> da vida que caleja o coração, fazendo com que os medos se fortaleçam para quebrar essa casca.</p>
<p>Alteramos dia após dia a medida de nossos <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, de nossa capacidade de lutar, de confrontar, de viver. Me pergunto: chegaremos, então, a uma experiência única e superior ou apenas perceberemos, um dia, que nossa capacidade de enfrentamento se cansou, desistiu e implora por algum tipo de alívio, seja ele uma viagem para um lugar desconhecido, um encontro com alguém cuja química renda alguns minutos de paixão, ou simplesmente alguma droga, legal ou ilegal, que faça a mente acalmar e desistir de tantos questionamentos?</p>
<p>Agora, nesse momento, eu dificilmente me reconheço. Penso no que fui e no que sou hoje e só me encontro na <a href="http://www.transtorno.net/tag/insonia/">insônia</a> da <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> de respostas que jamais virão. Penso no agora e temo que dentro de dez anos não irei me reconhecer senão por essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a>, pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/insonia/">insônia</a> e por meus <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>. Irei me reconhecer deitado sozinho, saindo da cama para escrever, como tantas outras vezes.</p>]]></content:encoded>
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		<title>O efêmero, o eterno e as memórias</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Jul 2009 03:25:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se não somos eternos, como podemos sequer pensar essa possibilidade? Não, essa questão não é minha, é filosófica. Como pensamos? Pensamos no oposto do que somos. Eternidade, perfeição, bondade e outras coisas. Dai se pensa em Deus, se pensa no eterno. Não diria todos pq é claro que seria ridículo, mas uma grande, grande mesmo, &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se não somos eternos, como podemos sequer pensar essa possibilidade? Não, essa questão não é minha, é filosófica. Como pensamos? Pensamos no oposto do que somos. Eternidade, perfeição, bondade e outras coisas. Dai se pensa em <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, se pensa no eterno.</p>
<p>Não diria todos pq é claro que seria ridículo, mas uma grande, grande mesmo, quantidade de pessoas <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> o eterno. Buscam quando vão à igreja, quando buscam relacionamentos, quando prometem amar na saúde e na doença, até que a morte os separe. É claro que há a promessa de união após a morte. Esse eterno fez a beleza da literatura por séculos, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/musica/">música</a>, da <a href="http://www.transtorno.net/tag/pintura/">pintura</a>.</p>
<p>Quem não concordaria que Mozart, Bach, Platão, Aristóteles e outros são eternos? São pq sentimos assim. Um dia podem ser esquecidos, é fato, mas o efeito de suas obras terá influenciado tudo que se passou até ali. Hegel dizia, por exemplo, que é impossível pensar o mundo hoje sem pensar o cristianismo, de tão profunda a ligação. Resumi porcamente e com minhas palavras, mas é isso. Para Hegel o cristianismo fez-se eterno. É parte da dial<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>.</p>
<p>Ontem, por um motivo bobo, eu disse que nada era eterno, falei sem pensar. Agora estou pensando e discordo do que disse. Se tivesse pensado ontem, não teria dito. As coisas podem passar, virar memórias, mas se tornam eternas, pois influenciam os próximos passos todos da causalidade.</p>
<p>Me pego a pensar em <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, pra variar. O livro que me marca, volta e meia batendo à minha porta, me mostrando que vivo em uma &#8220;casa de vidro&#8221;, provando que a causalidade é real, ri de nós, brinca, mas faz de cada um de seus jogos um momento eterno.</p>
<p>Fui à terapia por algum tempo, anos atrás. Ela me disse à época que paixão era bobagem, que <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> existia quando as pessoas aprendiam a conviver sem paixão. Eu entendo o que ela queria dizer, faz sentido pra muita gente, para aqueles que não se questionam e vivem um dia após o outro. Não faz sentido para os inquietos, buscadores. Não faz sentido para mim.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">Amor</a> faz sentido, mas a paixão também faz. Não me importa se a origem de seu nome é de pathos, doença. Não me interessa se paixão é patológica. A mim importa que a calmaria é morte. Que não se questionar é morte. Que não sentir extremos é morte. Paixão não causa sensação de paz, pelo contrário. </p>
<p>As temperaturas são extremas, a mim não agrada o morno. A mim não agrada a paz. Não adianta eu tentar me iludir. Digo que quero paz, mas não, não quero. Estou em constante combate, prefiro assim. E já que citei <a href="http://www.transtorno.net/tag/nadja/">Nadja</a>, lembro que em &#8220;O <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> louco&#8221;, <a href="http://www.transtorno.net/tag/breton/">Breton</a> diz que &#8220;o <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> será convulsivo ou não será nada&#8221;. Acredito que ali ele coloca o <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a> no eterno: o <a href="http://www.transtorno.net/tag/amor/">amor</a> não exclui a paixão de si, jamais, e torna-se para sempre seu próprio momento, na transformação que causa.</p>
<p>O <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a> parece perder o sentido assim, quando se transforma, se tornando parte do todo, que permanece.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Alguns elementos de fetiche</title>
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		<pubDate>Fri, 13 Mar 2009 02:49:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O desdobramento dos signos tem essa consequência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse no sentido de uma separação do ser pessoal e de todo limite, é no entanto expresso por um objeto. - Bataille, in O Erotismo Cresci vendo minha mãe costurar, fazendo roupas tanto para nós de casa quanto para suas &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>O desdobramento dos signos tem essa consequência: o erotismo, que é fusão, que desloca o interesse no sentido de uma separação do ser pessoal e de todo limite, é no entanto expresso por um objeto.<br />
<em>- <a href="http://www.transtorno.net/tag/bataille/">Bataille</a>, in O Erotismo</em></p></blockquote>
<p>Cresci vendo minha mãe costurar, fazendo roupas tanto para nós de casa quanto para suas clientes. Uma decorrência disso é que também cresci com revistas de moda por perto, muitas eram importadas, e, vale lembrar, eram os anos 70.</p>
<p>Essas revistas, quando velhas, depois de usadas para que as clientes escolhessem modelos ou para que minha mãe tivesse idéias, se transformavam em meus trabalhos de escola, as famosas colagens, além de serem uma forma de ver o mundo além dos portões e da rua onde morava. Era curioso, pois tinha mais contato com elas do que com <a href="http://www.transtorno.net/tag/quadrinhos/">quadrinhos</a>, por exemplo, imaginava conversas entre as pessoas e, como não sabia ler, imaginava o que os anúncios diziam. </p>
<p>Há alguns meses, andando pelo MoMA, encontrei uma sala com um painel enorme que disparou, imediatamente, um gatilho na minha memória e retomei muita coisa da infância. Tirei algumas fotos e depois fiquei pensando o motivo de ter sido atraído. A única explicação que consigo encontrar é que tenha sido <a href="http://www.transtorno.net/tag/fetiche/">fetiche</a>, esquema freudiano mesmo. As imagens nas paredes eram do mesmo tipo de revistas que eu via, exatamente os mesmos, mas algumas ganharam destaque por sobre a montagem das páginas, como se tivessem vida própria. Acredito, de fato, que tinham e ainda tenham. São fetiches, ou seja, gatilhos, que falam ao inconsciente, sem as barreiras da razão. Quase atavismos, talvez.</p>
<p>Ao lado do grande painel na parede havia uma caixa de vidro com alguns daqueles elementos em três dimensões, palpáveis, praticamente vivos. Sim, nunca gatilhos foram tão ativos. Reproduzo abaixo duas fotos que tirei, só para dar uma idéia do que fato. Os turistas ainda não tomaram o lugar dos viajantes.</p>
<p><center><img src="http://www.transtorno.net/images/moma-fetish-1.jpg" /></p>
<p><img src="http://www.transtorno.net/images/moma-fetish-2.jpg" /></center></p>
<p>O problema é que fui muito espertão e não fotografei a ficha da <a href="http://www.transtorno.net/tag/obra/">obra</a>. Pensei &#8220;pego depois, em detalhes, no site do museu&#8221;. Acontece que o site do museu é enorme, tem milhares de obras, algumas sem fotos, e até hoje não achei. Se alguém souber do que se trata e puder me dizer, agradeço imensamente.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Os Arcanos e os Acasos</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jan 2009 23:31:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acasos só são acasos quando reconhecidos, vistos, percebidos. Coincidências e sincronicidades acontecem a todo momento, mas só quando vistas é que existem. Podemos dizer, então, que se não são percebidas, não existem ou não aconteceram? Se não há sentido, não há existência. É preciso um sentido, portanto. Acasos precisam ser vistos, logo, não, não acontecem &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">Acasos</a> só são <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">acasos</a> quando reconhecidos, vistos, percebidos. Coincidências e sincronicidades acontecem a todo momento, mas só quando vistas é que existem. Podemos dizer, então, que se não são percebidas, não existem ou não aconteceram? Se não há sentido, não há existência. É preciso um sentido, portanto. <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">Acasos</a> precisam ser vistos, logo, não, não acontecem a todo momento. Não são meras coincidências. Podes dizer com certeza que algo exista se não vês? Ora, a fé! Sim, podes dizer. E sentir, viver, tocar, enfim? Podes? <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">Acasos</a> são como Deuses: acreditamos e esperamos por eles. São pequenas fissões nucleares, fugidias, transformando às vezes imperceptivelmente a percepção que temos das coisas e, portanto, as coisas.</p>
<p>Poderia aprofundar o raciocínio, citar Platão, Berkeley, a psicologia, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> e mesmo os sentidos. Poderia, sim, mas não vou. Vou me ater ao breve, ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/efemero/">efêmero</a>, que se vai, passa e se perde. Vou me ater ao inconsciente também. Como os <a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">acasos</a>. Vou me ater às brasas. Aliás, vou apenas falar delas, das faíscas, de relâmpagos, de explosões e reagrupamentos.</p>
<p>Vou me ater apenas às notas que tomo neste caderno. Às notas musicais que vibram por segundos e acabam, quando se transformam em outras. Vou me ater à observação, à <a href="http://www.transtorno.net/tag/magia/">magia</a> e, neste caso, caberia mesmo discutir se é Magick ou não. </p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">Acasos</a> são rápidos, são imagens, são percepções. São ligações e rupturas, simultaneamente. São poéticas de qualquer <a href="http://www.transtorno.net/tag/linguagem/">linguagem</a> não discursiva, seja verbal, onírica, escrita, visual e imaginária.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">Acasos</a> são encruzilhadas, onde versos caem, uns sobre os outros, rompendo frases, se reagrupando em outras novas e, quando palavras sobram, germinam e criam outras, também novas, ainda solitárias, buscando verbos e adjetivos para lhe acompanharem rumo aos nomes.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/acasos/">Acasos</a> são frases que lemos a sós, mas se só nos as lemos, perdem o brilho, pois devem lidas em <a href="http://www.transtorno.net/tag/duplo/">duplo</a>, não necessariamente a dois, e isso digo apenas a quem sabe procurar as entrelinhas e perceber sutilezas. </p>
<p>Derrubo as palavras e fico observando, esperando que se reagrupem, mas o acaso está em mim, não fora. Se estivesse fora não seria acaso, seria rotina. Derrubo-as então em minha garganta e vou digerindo, calmamente, uma a uma, quando são mastigadas, se transformando em sons e novas letras. Mantenho tudo aqui, pois não poderia ser diferente: o que sou é imanente, mas ao mesmo tempo é outra coisa.</p>
<p>As sombras de São Paulo – a cidade, mas poderia também ser o santo, é claro &#8211; escondem os olhos de Nuit, mas, sob seu manto, novas palavras se formam. Formam versos. Formam <a href="http://www.transtorno.net/tag/poesias/">poesias</a>.</p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/busca/">busca</a> união.</p>
<p>A letra theta é união!</p>
<p><span style="font:bold 22px arial">&theta;</span></p>]]></content:encoded>
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		<title>Perspectivas</title>
		<link>http://www.transtorno.net/perspectivas/</link>
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		<pubDate>Sat, 27 Dec 2008 13:41:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[criação]]></category>
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		<description><![CDATA[Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Estética, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, que fique claro.</p>
<p>Segue:</p>
<p>As palavras depositaram tamanha confiança no espirito credulo dos homens, que estes acabaram por lhes voltar as costas. A gente começa a admirar-se de que uma porção de civilisações tenha enxergado incessantemente na letra qualquer cousa que não seja uma negação da vida &#8211; negação formal, está claro, mas nem por isso menos eficiente. Um estupendo livro ainda por se escrever: o tratado de historia da civilisação em que se considere o esplendor e a decadencia de cada povo coincidindo precisamente com a maior ou menor consideração que a palavra escrita ou falada mereceu de cada povo.</p>
<p>Nada do que vive se exprime impunemente em vocabulos. Os mais sabios dentre os homens têm, sofrido um pouco das necessidades a que essa lei os subordina. Eu, Sergio Buarque de Hollanda, acho indiscutivel que em todas as cousas exista um limite, um termo, além do qual elas perdem sua instabilidade, que é uma condição de vida, para se instalarem confortavelmente no que só por eufemismo chamamos sua espressão e que na realidade é menos que seu reflexo. Só os pensamentos já vividos, os que se podem considerar não em sua duração, mas objetivamente e já dissecados encontram um termo. Quero dizer: esse termo só coexiste com o ponto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a> com a vida.</p>
<p>Os homens que sentiram nitidamente essa ausencia do principio de vida, essa atmosfera irrespiravel que nos propõem as formas inteligiveis, já mandam ao diabo tudo quanto possa preencher um termo, tudo quanto caiba entre as quatro paredes de um pensamento comunicavel ou espresso. A palavra escrita ou falada só se concilia com a dificuldade vencida, com a energia satisfeita e a paz proclamada depois da guerra. É em vão que se tentará atrair a tempestade, invocar o demonio ou realisar o misterio dentro do quotidiano, quando não se renunciou à virtude ilusoria da <a href="http://www.transtorno.net/tag/linguagem/">linguagem</a> dos cemiterios.</p>
<p>Mas não é sem remorsos que os homens aceitam a falsa paz que as letras impuzeram. A resistencia ao milagre caracteriza um estado de espirito que não é bem o dos contemporaneos. Já se ousa pretender mesmo e sem escandalo, que a mediocridade ou a grandeza de nosso mundo visivel só dependem da representação que nós fazemos dele, &#8211; da qualidade dessa representação. Nada nos constrange a que nos fiemos por completo na suave e engenhosa caligrafia que os homens inventaram pra substituir o desenho rigido e anguloso das cousas. Hoje mais do que nunca toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> po<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> ha de ser principalmente &#8211; por quasi nada eu diria apenas &#8211; uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos seculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraizo nas regiões ainda inesploradas. Resta-nos portanto o recurso de dizer das nossas expedições armados por esses dominios. Só à noite enxergamos claro.</p>
<p>Não lhe quero negas leitor o direito que você tem de achar ingenuo e irrealisavel tal proposito. Lembro mesmo, e a seu favor, o trecho admiravel de Marcel Proust sobre essas &#8220;visões que nos é possivel esprimir e quasi prohibido constatar, porque, precisamente quando se tenta dormir, vem-nos a caricia de seu encanto irreal, no instante mesmo em que a razão nos abandona os olhos se serram e antes de se conhecer não só o inefavel, mas o invisivel, a gente adormece.&#8221;</p>
<p>Mas de que nos vale ter confiança no milagre se não ousamos transpor aquelle impossivel e aquelle prohibido colocados ali por prudencia ou por covardia? &#8220;Ha muitas cousas no céu e na terra além do que imagina a vossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a>&#8221;, diz Hamleto a Horatio. O certo é que essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/">filosofia</a> não se interessa senão por divertimento ou por acaso em todas essas cousas que existem na terra e no céu fóra de seu alcance. Para os sabios mais consideraveis uma certa amplitude de pensamento acarreta o invencivel sacrificio de tudo quanto escapa à logica da continuidade, de tudo quanto se esalta e afirma, pelo simples facto de ser, um direito à existencia, a sua diferença essencial em relação ao que a rodeia e por isso mesmo, implicitamente, a sua singularidade. A ciencia compraz-se em estabelecer um nivelamento, uma uniformidade tal em todas as cousas, que acaba por escluir de seu Universo qualquer objeto que não se resigne a ser um simples termo prás suas equações, um instrumento docil às suas construcções arbitrarias. O acto elementar de definir, que se encontra à base de toda ciencia humana, implica o proposito de instalar todo o objeto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> numa continuidade fixa e inalteravel. Não existe ciencia do particular que estude cada cousa em relação à sua propria particularidade. Todos os nossos conhecimentos procedem ao contrario subordinando o singular ao universal e utilisando-se para esse efeito de um sistema de seleção que só se tem por essencial o que ha de constante em uma dada série de objetos. O resto, o que ha em cada um de individual é considerado inutil para a formação do conceito. Acontece porém que para certos homens o essencial continua sendo o que ha de particular, o que ha de milagroso, o elemento irredutivel em cada cousa. São esses homens, os que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das cidades que reclamam com violencia um regresso a esse estado de guerra que não é mais do que uma conformação com a vida. <sup>(1)</sup></p>
<p>Mas prá maioria dos homens a morte como que se seja apresenta encantos e seduções que a Vida está muito longe de lhes proporcionar. Para uma porção de poétas ela tem sido um sinonimo comodo de misterio e para Socrates ela apareceu como uma aquisição de pensamento. Nem todos sentiram que não é necessário renunciar à vida para descobrir o &#8220;irreal&#8221; e que ao contrario o que parece mais real e até mesmo o que se apresenta mais dócil à verificação comporta uma parte de misterio imprevisivel e tráe concessões escandalosas ao irracional. Essa ilusão esplica a subsistencia, embora disfarçada, em cada um dos nossos actos. de uma aspiração à morte. A propria creação artistica não escapou desde os seus inicios a esse pecado original. Parece claro que o proprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> de libertação como já se te dito (isto é libertação no sentido de exaltação: correspondendo a uma espansão de vitalidade), não de um esforço de resistencia contra o aniquilamento, mas ao contrario, e acentuadamente, ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> invencivel de negar a vida em todas as suas manifestações.</p>
<p>Surge assim em sua espressão artistica mais rudimentar esse afan de reduzir o informe à fórma, ao livre necessario, o acidental à regra. O desenho regular e monotono dos primitivos, essa esclusão de todos os elementos especiaes e acidentaes que eles revelam mostram claramente o significado e o sentido da tendencia dos homens para uma regularidade abstracta e inanime.</p>
<p>Paralela a essa tendencia que não é um privilegio do homem primitivo, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de confissao, essa doença moderna que condena à morte pela palavra e pela sintaxe, todos os sentimentos que nos oprimem, toda manifestação de vida inoportuna corresponde a essa mesma lei de aspiração ao inerte. <sup>(2)</sup></p>
<p>Não me cabe resumir aqui todas as perspectivas que esse ponto de vista me propõe. Não disse ainda porque razão os homens começam a procurar a realidade de preferencia na <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>, na recordação e na ausencia e porque muitos deles sem renunciar a essa atitude conseguiram revogar para uso proprio a lei de aspiração à morte. Tambem não disse porque a exaltação do particular resolve-se em certos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> na anulação de qualquer singularidade, no sentimento da harmonia de todas as cousas. Direi provisoriamente que a vida, apesar de tudo, continúa a nutrir subrepticiamente e por uma especie de verba secreta as regiões mais ocultas de nossas ideologias. É incontestavel que os nossos actos e mesmo aqueles que comportam uma série de movimentos irremediavelmente previstos pela logica e pelo calculo mais precisos, não prescindem dessa parcela contingente que participa do divino. Deante dessa impossibilidade de opôr uma resistencia mais eficaz ao misterio que nos sitia por todos os lados, deante do absurdo dessa resistencia não ha duas atitudes igualmente legitimas. Nada mais comodo, é verdade, que concluir pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/vaidade/">vaidade</a> de todos os nossos gestos e pela inutilidade de qualquer atitude, &#8211; ideia que o Universo nos fornece a troco de um simples bocejo.</p>
<p>- Sergio Buarque de Hollanda</p>
<p><sup>(1)</sup> &#8211; Nunca será demasiado insistir no que representou para a literatura contemporanea a &#8220;descoberta&#8221; de que cada individuo representa um mundo isolado e muitas vezes indecifravel para os outros homens. A ideia da &#8220;incomunicabilidade dos espiritos&#8221; que constitue, pode-se dizer o fundamento e o tema essencial do <a href="http://www.transtorno.net/tag/teatro/">teatro</a> de um Pirandello já estava admiravelmente espressa numa passagem dos comentarios de Newman aos argumentos de Paley sobre as evidencias do Cristianismo: &#8220;Se quizerem que eu me utilize do argumento de Paley para minha propria conversao direi resolutamente: não <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> ser convertido por um silogismo habil; se quizerem que o mesmo argumento me sirva pra converter a outros, direi: não me interessa convence-los pela razão sem que seu coração seja atingido. Os homens não podem aceitar integralmente uma verdade, é preciso que cada qual a descubra por si. Toda convicção profunda ha de ser conhecida por essa descoberta.</p>
<p><sup>(2)</sup> &#8211; Digo &#8220;doença moderna&#8221; apenas por comodidade. Não ignoro os argumentos que poderiam me opôr. Quero dizer que a confissão, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de espressão dos nossos sentimentos mais profundos manifesta-se menos disfarçada entre os contemporaneos. Ha quem atribua à influencia do confessionario a extraordinaria situação de quem ainda hoje goza e que mantem o catolicismo romano. (V. Dr. William Stekel &#8211; The Dephts of the Soul &#8211; trans. by Dr. S.A. Tannenbaum &#8211; London, Kegan Paul &#8211; 1921). O artigo de Prudente de Moraes, neto, sobre a sinceridade publicado no ultimo numero desta revista estuda o mesmo assumpto com admiravel lucidez.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Fuerza Bruta</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Nov 2008 23:26:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Assisti ao grupo Fuerza Bruta, no parque Villa Lobos, na tarde de hoje. Fui imaginando que veria um tipo de apresentação, vi outra, completamente diferente, e de uma forma ou de outra, sai bem impressionado, querendo que tivesse durado mais. O tempo, aliás, voou. Passou depressa demais, infelizmente, mas faz sentido que tenha sido assim. &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Assisti ao grupo <a href="http://www.transtorno.net/tag/fuerza-bruta/">Fuerza Bruta</a>, no parque Villa Lobos, na tarde de hoje. Fui imaginando que veria um tipo de apresentação, vi outra, completamente diferente, e de uma forma ou de outra, sai bem impressionado, querendo que tivesse durado mais. O tempo, aliás, voou. Passou depressa demais, infelizmente, mas faz sentido que tenha sido assim.</p>
<p>Falei do <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> antes e acreditei que veria algo similar. As semelhanças existem somente enquanto os dois são grupos que provocam o sensível e interagem com o público, o resto é completamente diferente, duas linguagens muito distintas.</p>
<p>O <a href="http://www.transtorno.net/tag/la-fura/">La Fura</a> provoca pelo terror, o público se sente ameaçado a cada momento, esperando uma motoserra, esperando que atirem carne crua, farinha, tinta&#8230; O medo está sempre presente. <a href="http://www.transtorno.net/tag/fuerza-bruta/">Fuerza Bruta</a> é outra coisa, é onírico, uterino e hipnótico, as pessoas interagem, se sentem parte do trabalho, se entregam sem perceber.</p>
<p>Não vou ficar descrevendo as cenas, quem quiser que vá ver (recomendo a experiência, aliás). Há bastante água e movimentos na água. Imaginei um grande útero ali. Aliás, imaginei a água como elemento também. Há também referências a sonhos, ao ar.</p>
<p>As pessoas não sentem medo, ao contrário. No final, atores dançando, o público ídem, embaixo da chuva que fazem no galpão. As crianças, muito mais do que os adultos, adoraram. Entraram na água sem vacilar, mas para isso é preciso se permitir. Lembrei de quando era criança, jogava sabão em pó no piso do quintal, molhava e ficava escorregando.  Adorei cada segundo da apresentação, valeu cada centavo, reitero que gostaria que tivesse durado mais e gostaria de ver mais vezes. Quem sabe em alguma delas eu deixasse o canto e entrasse na chuva também.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Domingo</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Oct 2007 02:53:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<category><![CDATA[diversão]]></category>
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		<description><![CDATA[Chegar em casa, abrir as portas, encontrar apenas caos, poeira e silêncio, sendo este rompido apenas pelo miado de quem espera por seu alimento. Fartos, resta o ruído das lambidas de quem se limpa após a refeição. Cena diária, rotineira, agradável, sim (em parte, afinal, abomina-se a poeira da reforma), mas tão diária e tão &#8230;]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Chegar em casa, abrir as portas, encontrar apenas caos, poeira e silêncio, sendo este rompido apenas pelo miado de quem espera por seu alimento. Fartos, resta o ruído das lambidas de quem se limpa após a refeição.</p>
<p>Cena diária, rotineira, agradável, sim (em parte, afinal, abomina-se a poeira da reforma), mas tão diária e tão rotineira que passa a ser <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>éfica. Qualquer rotina extrema é <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>éfica. Disciplina extrema é <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>éfica. Inclusive a minha.</p>
<p>Respirar a fumaça de SP, falar algumas bobagens, perceber que independente da ocasião alguns assuntos são tão sérios que causam <a href="http://www.transtorno.net/tag/dor/">dor</a> no estômago, rir um pouco.</p>
<p>Ir a um lugar desconhecido à 01h00. Sair quando se estaria voltando. Nervoso, tímido e ansioso. Falar mais, rir outro tanto, apreciar a companhia. Voltar para casa sem reclamar uma vez sequer e esperar pela próxima.</p>
<p>Domingo à noite.<br />
Cheiro da chuva.<br />
Um bom final de semana.<br />
Obrigado!</p>]]></content:encoded>
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