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	<title>Transtorno&#187; necessidade &raquo; Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</title>
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	<description>Vertigem, Ruptura e Pensamentos Transgressivos</description>
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		<title>Perspectivas</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Dec 2008 13:41:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Estética, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho aqui em mãos um texto de Sergio Buarque de Hollanda, tirado da Revista Est<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, mas infelizmente não sei o número/ano da edição, pois me falta cópia da página inicial da revista. Vou colocá-lo aqui e caso alguém tenha essa informação, me envie que eu coloco no post. O português é da época, não são <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a>, que fique claro.</p>
<p>Segue:</p>
<p>As palavras depositaram tamanha confiança no espirito credulo dos homens, que estes acabaram por lhes voltar as costas. A gente começa a admirar-se de que uma porção de civilisações tenha enxergado incessantemente na letra qualquer cousa que não seja uma negação da vida &#8211; negação formal, está claro, mas nem por isso menos eficiente. Um estupendo livro ainda por se escrever: o tratado de historia da civilisação em que se considere o esplendor e a decadencia de cada povo coincidindo precisamente com a maior ou menor consideração que a palavra escrita ou falada mereceu de cada povo.</p>
<p>Nada do que vive se exprime impunemente em vocabulos. Os mais sabios dentre os homens têm, sofrido um pouco das necessidades a que essa lei os subordina. Eu, Sergio Buarque de Hollanda, acho indiscutivel que em todas as cousas exista um limite, um termo, além do qual elas perdem sua instabilidade, que é uma condição de vida, para se instalarem confortavelmente no que só por eufemismo chamamos sua espressão e que na realidade é menos que seu reflexo. Só os <a href="http://www.transtorno.net/tag/pensamentos/"><a href="http://www.transtorno.net/pensamentos/">pensamentos</a></a> já vividos, os que se podem considerar não em sua duração, mas objetivamente e já dissecados encontram um termo. Quero dizer: esse termo só coexiste com o ponto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/ruptura/">ruptura</a> com a vida.</p>
<p>Os homens que sentiram nitidamente essa ausencia do principio de vida, essa atmosfera irrespiravel que nos propõem as formas inteligiveis, já mandam ao diabo tudo quanto possa preencher um termo, tudo quanto caiba entre as quatro paredes de um pensamento comunicavel ou espresso. A palavra escrita ou falada só se concilia com a dificuldade vencida, com a energia satisfeita e a paz proclamada depois da guerra. É em vão que se tentará atrair a tempestade, invocar o demonio ou realisar o misterio dentro do quotidiano, quando não se renunciou à virtude ilusoria da <a href="http://www.transtorno.net/tag/linguagem/">linguagem</a> dos cemiterios.</p>
<p>Mas não é sem remorsos que os homens aceitam a falsa paz que as letras impuzeram. A resistencia ao milagre caracteriza um estado de espirito que não é bem o dos contemporaneos. Já se ousa pretender mesmo e sem escandalo, que a mediocridade ou a grandeza de nosso mundo visivel só dependem da representação que nós fazemos dele, &#8211; da qualidade dessa representação. Nada nos constrange a que nos fiemos por completo na suave e engenhosa caligrafia que os homens inventaram pra substituir o desenho rigido e anguloso das cousas. Hoje mais do que nunca toda <a href="http://www.transtorno.net/tag/arte/">arte</a> po<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> ha de ser principalmente &#8211; por quasi nada eu diria apenas &#8211; uma declaração dos direitos do Sonho. Depois de tantos seculos em que os homens mais honestos se compraziam em escamotear o melhor da realidade, em nome da realidade temos de procurar o paraizo nas regiões ainda inesploradas. Resta-nos portanto o recurso de dizer das nossas expedições armados por esses dominios. Só à noite enxergamos claro.</p>
<p>Não lhe quero negas leitor o direito que você tem de achar ingenuo e irrealisavel tal proposito. Lembro mesmo, e a seu favor, o trecho admiravel de Marcel Proust sobre essas &#8220;visões que nos é possivel esprimir e quasi prohibido constatar, porque, precisamente quando se tenta dormir, vem-nos a caricia de seu encanto irreal, no instante mesmo em que a razão nos abandona os olhos se serram e antes de se conhecer não só o inefavel, mas o invisivel, a gente adormece.&#8221;</p>
<p>Mas de que nos vale ter confiança no milagre se não ousamos transpor aquelle impossivel e aquelle prohibido colocados ali por prudencia ou por covardia? &#8220;Ha muitas cousas no céu e na terra além do que imagina a vossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a>&#8221;, diz Hamleto a Horatio. O certo é que essa <a href="http://www.transtorno.net/tag/filosofia/"><a href="http://www.transtorno.net/filosofia/">filosofia</a></a> não se interessa senão por divertimento ou por acaso em todas essas cousas que existem na terra e no céu fóra de seu alcance. Para os sabios mais consideraveis uma certa amplitude de pensamento acarreta o invencivel sacrificio de tudo quanto escapa à logica da continuidade, de tudo quanto se esalta e afirma, pelo simples facto de ser, um direito à existencia, a sua diferença essencial em relação ao que a rodeia e por isso mesmo, implicitamente, a sua singularidade. A ciencia compraz-se em estabelecer um nivelamento, uma uniformidade tal em todas as cousas, que acaba por escluir de seu Universo qualquer objeto que não se resigne a ser um simples termo prás suas equações, um instrumento docil às suas construcções arbitrarias. O acto elementar de definir, que se encontra à base de toda ciencia humana, implica o proposito de instalar todo o objeto de <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> numa continuidade fixa e inalteravel. Não existe ciencia do particular que estude cada cousa em relação à sua propria particularidade. Todos os nossos conhecimentos procedem ao contrario subordinando o singular ao universal e utilisando-se para esse efeito de um sistema de seleção que só se tem por essencial o que ha de constante em uma dada série de objetos. O resto, o que ha em cada um de individual é considerado inutil para a formação do conceito. Acontece porém que para certos homens o essencial continua sendo o que ha de particular, o que ha de milagroso, o elemento irredutivel em cada cousa. São esses homens, os que obedecem às leis divinas e esquecem as outras, as das cidades que reclamam com violencia um regresso a esse estado de guerra que não é mais do que uma conformação com a vida. <sup>(1)</sup></p>
<p>Mas prá maioria dos homens a morte como que se seja apresenta encantos e seduções que a Vida está muito longe de lhes proporcionar. Para uma porção de poétas ela tem sido um sinonimo comodo de misterio e para Socrates ela apareceu como uma aquisição de pensamento. Nem todos sentiram que não é necessário renunciar à vida para descobrir o &#8220;irreal&#8221; e que ao contrario o que parece mais real e até mesmo o que se apresenta mais dócil à verificação comporta uma parte de misterio imprevisivel e tráe concessões escandalosas ao irracional. Essa ilusão esplica a subsistencia, embora disfarçada, em cada um dos nossos actos. de uma aspiração à morte. A propria creação artistica não escapou desde os seus inicios a esse pecado original. Parece claro que o proprio impulso que levou os primeiros homens a gravar desenhos nas paredes das cavernas participa muito, não de um <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> de libertação como já se te dito (isto é libertação no sentido de exaltação: correspondendo a uma espansão de vitalidade), não de um esforço de resistencia contra o aniquilamento, mas ao contrario, e acentuadamente, ao <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> invencivel de negar a vida em todas as suas manifestações.</p>
<p>Surge assim em sua espressão artistica mais rudimentar esse afan de reduzir o informe à fórma, ao livre necessario, o acidental à regra. O desenho regular e monotono dos primitivos, essa esclusão de todos os elementos especiaes e acidentaes que eles revelam mostram claramente o significado e o sentido da tendencia dos homens para uma regularidade abstracta e inanime.</p>
<p>Paralela a essa tendencia que não é um privilegio do homem primitivo, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de confissao, essa doença moderna que condena à morte pela palavra e pela sintaxe, todos os sentimentos que nos oprimem, toda manifestação de vida inoportuna corresponde a essa mesma lei de aspiração ao inerte. <sup>(2)</sup></p>
<p>Não me cabe resumir aqui todas as perspectivas que esse ponto de vista me propõe. Não disse ainda porque razão os homens começam a procurar a realidade de preferencia na <a href="http://www.transtorno.net/tag/esperanca/">esperança</a>, na recordação e na ausencia e porque muitos deles sem renunciar a essa atitude conseguiram revogar para uso proprio a lei de aspiração à morte. Tambem não disse porque a exaltação do particular resolve-se em certos <a href="http://www.transtorno.net/tag/momentos/">momentos</a> na anulação de qualquer singularidade, no sentimento da harmonia de todas as cousas. Direi provisoriamente que a vida, apesar de tudo, continúa a nutrir subrepticiamente e por uma especie de verba secreta as regiões mais ocultas de nossas ideologias. É incontestavel que os nossos actos e mesmo aqueles que comportam uma série de movimentos irremediavelmente previstos pela logica e pelo calculo mais precisos, não prescindem dessa parcela contingente que participa do divino. Deante dessa impossibilidade de opôr uma resistencia mais eficaz ao misterio que nos sitia por todos os lados, deante do absurdo dessa resistencia não ha duas atitudes igualmente legitimas. Nada mais comodo, é verdade, que concluir pela <a href="http://www.transtorno.net/tag/vaidade/">vaidade</a> de todos os nossos gestos e pela inutilidade de qualquer atitude, &#8211; ideia que o Universo nos fornece a troco de um simples bocejo.</p>
<p>- Sergio Buarque de Hollanda</p>
<p><sup>(1)</sup> &#8211; Nunca será demasiado insistir no que representou para a literatura contemporanea a &#8220;descoberta&#8221; de que cada individuo representa um mundo isolado e muitas vezes indecifravel para os outros homens. A ideia da &#8220;incomunicabilidade dos espiritos&#8221; que constitue, pode-se dizer o fundamento e o tema essencial do <a href="http://www.transtorno.net/tag/teatro/"><a href="http://www.transtorno.net/teatro/">teatro</a></a> de um Pirandello já estava admiravelmente espressa numa passagem dos comentarios de Newman aos argumentos de Paley sobre as evidencias do Cristianismo: &#8220;Se quizerem que eu me utilize do argumento de Paley para minha propria conversao direi resolutamente: não <a href="http://www.transtorno.net/tag/desejo/">desejo</a> ser convertido por um silogismo habil; se quizerem que o mesmo argumento me sirva pra converter a outros, direi: não me interessa convence-los pela razão sem que seu coração seja atingido. Os homens não podem aceitar integralmente uma verdade, é preciso que cada qual a descubra por si. Toda convicção profunda ha de ser conhecida por essa descoberta.</p>
<p><sup>(2)</sup> &#8211; Digo &#8220;doença moderna&#8221; apenas por comodidade. Não ignoro os argumentos que poderiam me opôr. Quero dizer que a confissão, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> de espressão dos nossos sentimentos mais profundos manifesta-se menos disfarçada entre os contemporaneos. Ha quem atribua à influencia do confessionario a extraordinaria situação de quem ainda hoje goza e que mantem o catolicismo romano. (V. Dr. William Stekel &#8211; The Dephts of the Soul &#8211; trans. by Dr. S.A. Tannenbaum &#8211; London, Kegan Paul &#8211; 1921). O artigo de Prudente de Moraes, neto, sobre a sinceridade publicado no ultimo numero desta revista estuda o mesmo assumpto com admiravel lucidez.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Liberdade humana e liberdade divina: contingência ou necessidade?</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Sep 2007 01:55:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Hilton S.</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Este trabalho tem por objetivo analisar a liberdade humana e a liberdade divina em relação às necessidades absoluta e hipotética e à contingência, focando tanto na questão da liberdade divina durante a criação e suas escolhas de acordo com os decretos livres de Deus, bem como na liberdade humana, tanto sob o ponto de vista [...]


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<li><a href='http://www.transtorno.net/2009/01/liberdade-trangressao-moral/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Liberdade, transgressão e moral'>Liberdade, transgressão e moral</a></li>
<li><a href='http://www.transtorno.net/2008/03/o-melhor-dos-mundos/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O melhor dos mundos'>O melhor dos mundos</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Este trabalho tem por objetivo analisar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana e a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina em relação às necessidades absoluta e hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a> e à <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>, focando tanto na questão da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina durante a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> de acordo com os decretos livres de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, bem como na <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, tanto sob o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> como do divino, buscando respostas para algumas questões que se seguem, das quais ressalto a que me parece mais intrigante: como a certeza divina de que algo irá acontecer é compatível com a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> das <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> humanas?</p>
<p><strong>. <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">Contingência</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a></strong></p>
<p>A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> divina é assegurada pelos livres decretos, garantindo a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> a escolha do melhor dos mundos. Ao criá-lo vê a série inteira do universo, as ações e suas causas determinadas. Vale notar que todas as causas são determinadas, como demonstra <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, haja visto que se fossem indeterminadas seria impossível até mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> prevê-las, assim como não existiria sentido para as mesmas.</p>
<p>Os humanos, por outro lado, não têm essa garantia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana é dada pela bondade divina, sendo, portanto, parte do melhor dos mundos, e é exercida perante as contingências, de forma que as ações humanas não podem ser e ter <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta, mas apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, ou seja, as ações humanas poderiam ser de outra forma, sem implicar contradição, como implicaria, por exemplo, pensarmos um quadrado sem quatro ângulos retos. As ações de um homem específico poderiam ser de outra forma, mas não são pelo fato de que se fossem implicariam em outro homem, em outro mundo possível.</p>
<p>Antes de prosseguirmos, creio ser necessário recorrer brevemente ao parágrafo XIII do “Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>”, em que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> expõe a diferença entre <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta e <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>, isto é, <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a>.</p>
<p>Começando pelo final do parágrafo, vê-se que <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> chama a atenção para o fato de que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu criar o melhor mundo possível por um decreto, que estabelece criar o sempre o mais perfeito. Ao fazer essa escolha, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> mostra que poderia ter seguido outro caminho, criando um mundo imperfeito. É da perfeição de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolher criar o melhor dos mundos, portanto. É uma prova de sua bondade. Dentre os decretos de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> está também o decreto sobre a natureza humana, que determina que o homem fará, embora livremente, sempre o que lhe parecer melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito, dotado de total <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, opta, então, por criar o melhor mundo possível, o mais perfeito, o que não implica que outros pudessem ser criados.</p>
<p>Pensar na impossibilidade de outros mundos seria, novamente, pensar a imperfeição divina e, por conseqüência, uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>, beirando o espinosismo. Seria a negação de qualquer forma de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, tanto divina quanto humana. Não poderia ser diferente: pensarmos <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> sem <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> seria pensá-lo imperfeito e, por conseqüência, criador de um mundo que não seria o melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> perfeito só pode ser pensado se concedermos <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> total. Note-se que não há contradição alguma em pensarmos um outro mundo possível, pelo contrário. A possibilidade de outros mundos passa a ser um indicativo de <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, em oposição à <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a>. Não há <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> absoluta de este mundo ser como o é e não de outra forma, apenas <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipot<a href="http://www.transtorno.net/tag/etica/">ética</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Clarke, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma mais uma vez que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu dentre possibilidades e que negá-las seria contra a hipótese, afirmando ainda que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolhe dentre possíveis, dos quais nenhum implica em contradição, quer dizer, de todas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> divinas, nenhuma cria a impossibilidade absoluta de outras. E continua: “but to say that God can only choose what’s best, and to infer from this that what he does not choose is impossible, this, I say, is confounding of terms; it is blending power and will, metaphysical necessity and <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> necessity, essences and existences” (CLARKE &amp; <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, 2000, p. 37).</p>
<p>Sob a ótica divina, a melhor escolha é feita pela perfeição, enquanto que para as criaturas é feita com o que lhes parece melhor, sem que isso impeça o menos perfeito de ser possível, ou seja, a melhor escolha é feita pois parece melhor às criaturas, mas uma outra, oposta, não é impossível, mas rejeitada pela imperfeição.</p>
<p>Dessa forma vemos que o oposto é possível, não necessário. Como dito anteriormente, mesmo para <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> que faz não tornam seu oposto um absurdo. Essas contingências têm sua razão de ser. Essas contingências fizeram que as coisas fossem como fossem. Como existirmos, por exemplo. E necessário ex hyphotesi existirmos hoje, pois uma série de ações, de <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre contingências, nos trouxe aqui, mas é perfeitamente possível pensar uma outra forma, uma situação completamente diversa, em que não existíssemos. Seria menos perfeito, talvez, mas não impossível, enquanto que o necessário, o absolutamente necessário, fundado no princípio de contradição ou mesmo em sua essência, independe de qualquer <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, seja ela divina ou das criaturas, de forma que nem mesmo <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> pode pensar um triângulo com quatro lados. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> tem o poder para aniquilá-lo, mas não para fazer dele uma coisa diversa. Transformar sua essência seria destruí-lo. As contingências baseiam-se em <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> entre possibilidades, mas não podemos, como explicado, escolher um triângulo com quatro lados, posto que sua natureza ou essência o impede de ser assim.</p>
<p>Uma vez colocadas as questões da <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> e da <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, devo então me aprofundar no problema da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> humana, apontado anteriormente e de total importância para o questionamento que se seguirá. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> possa prever os futuros contingentes, isso não os torna necessários absolutamente, mas os torna certos. É certo, não necessário, que Adão será criado, irá pecar e terá filhos. É perfeitamente possível pensarmos em alternativas para Adão, não há contradição alguma nisso, embora essas alternativas impliquem também em outros mundos possíveis que não este.</p>
<p>O fato de tomarmos certas decisões e fazermos certas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> faz parte de nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> e <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é onisciente dessas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> quando escolhe este mundo em detrimento aos demais possíveis. Se pensarmos a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> em relação à <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, porque estes humanos e não aqueles, veremos que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> faz sua escolha com base no que vê nas nossas: vê-nos agindo, vê a seqüência do universo, e nos escolhe com base nisso. O fato de que essas coisas venham a ocorrer posteriormente, cada uma a seu tempo, se dá devido à permissão divina, não por sua escolha, quero dizer, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos escolhe, mas não escolhe por nós. A escolha divina se dá somente no momento da <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, dando lugar à escolha humana posteriormente.</p>
<p>Como bem lembra Tessa Moura Lacerda em seu livro “A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>”, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> afirma que “Adão se determinou a pecar de acordo com certas inclinações que prevaleceram, mas essa determinação não destrói nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/contingencia/">contingência</a> nem a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>” (LACERDA, 2005, p. 125).</p>
<p>A capacidade humana de refletir sobre suas ações, argumenta Tessa, tem um papel, senão o principal, para pensar a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> dos homens. Ora, é essa mesma capacidade de reflexão que atribuída a <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> nos mostra, em certo grau, suas <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> e reflexões para tomar a decisão sobre esta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> e não outra. Uma vez tomada a decisão desta <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a>, não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/mudancas/">mudanças</a>. Qualquer mudança feita por <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> após a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> implicaria em arrependimento e, por conseqüência, em Sua imperfeição. Aqui se apresenta, então, um ponto claro da diferença entre a reflexão divina, não afetada por paixões, e a humana.</p>
<p>A reflexão sobre os atos é, portanto, o reconhecimento das ações é também reconhecer-se como agente e, com isso, assumir responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> sobre elas. Tessa, citando <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, indica novamente o caminho: “a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> (&#8230;) consiste na inteligência, que envolve um <a href="http://www.transtorno.net/tag/conhecimento/">conhecimento</a> distinto do objeto da deliberação” (LACERDA, 2005, p. 127).</p>
<p>Para que haja <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> não pode haver <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a>, ou seja, como já dito anteriormente, ela tem de ser possível e não implicar contradição. Qualquer acontecimento desse tipo é contingente, mas não sem sentido, posto que há razão para sua existência. Essa escolha, essa razão, é <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e sua conseqüência é necessária, embora não necessária absolutamente. Temos a impressão de <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a>, mas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>, quando observadas, provam que seus opostos podem existir, o que não pode acontecer para o que é necessário por natureza.</p>
<p>Suponho que com base nessa reflexão, nessa razão <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, é que <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decide criar o melhor dos mundos, firmando seu primeiro decreto, dando mostra de sua perfeição e de sua <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>, conforme apontado anteriormente, afastando então a possibilidade de uma existência trágica. A bondade de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é, com isso, também demonstrada, pois podemos pensar, então, que os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> humanos, que a possibilidade de aprendizado a partir dessas falhas, faz parte do melhor dos mundos e que o melhor segundo nosso ponto de vista não é o melhor para Deus: se pensarmos, por exemplo, um mundo onde ninguém erra e todos são perfeitos e não tem nada a aprender, onde a evolução atingiu o ponto máximo, estaremos pensando, portanto, um mundo sem sentido, imperfeito por conseqüência.</p>
<p>Para os humanos, a cadeia de causas de acontecimentos é indemonstrável, mas podemos ter certeza de que nada que tenha acontecido em um momento qualquer foi necessário metafisicamente e que o acontecimento seguinte é necessário somente em relação ao anterior, ou seja, hipoteticamente, pois de fato poderia ser diferente, caso o anterior também o fosse. Nisso vemos onde entra a deliberação sobre nossas ações, o julgamento, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> que assumimos perante eles, mudando o próximo de acordo com o anterior, fazendo com que a cadeia de acontecimentos siga um rumo de acordo com nosso aprendizado, como veremos a seguir.</p>
<p>O princípio do melhor rege também as inclinações da <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Como dito anteriormente, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> decreta também que o homem busque o bem, o melhor. O espírito tende, então, para o lado que parece ter maior bem e, com isso, mesmo os <a href="http://www.transtorno.net/tag/erros/">erros</a> que se cometem, mesmo as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> consideradas erradas, são as melhores possíveis naquele momento, quando foram tomadas, pois os humanos podem se enganar escolhendo um bem aparente no lugar do melhor. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> determina que o homem busque o melhor, tenda para o bem, mas dessa forma há uma dupla inclinação, sendo a outra a inclinação da alma com relação à causa próxima.</p>
<p>Assim como atravessar o Rubicão está contido na idéia de César, tudo o mais, todas as suas decisões e ações também estão, assim como para qualquer outra pessoa: “os homens encontram em si mesmos as razões que determinam suas ações” (LACERDA, 2005, p. 129), na alma, princípio de suas ações e paixões.</p>
<p>Queremos o que nos agrada, mas como nem sempre temos distinção, esse agrado pode ser um <a href="http://www.transtorno.net/tag/mal/">mal</a>, um bem menor (LACERDA, 2005, p. 137). Embora às vezes não façamos uso de nossa razão, não deixamos por isso de tê-la e isso não quer dizer, portanto, que não possamos fazer <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> livres.</p>
<p>Essas percepções confusas, que impedem o julgamento do entendimento, paixões que afetam o julgamento inconscientemente, impedem-nos, às vezes, de entender as razões de nossos instintos. Embora tenhamos em vista o bem, tendemos a fazer coisas cujo julgamento não é claro, segundo as inclinações da alma, sem percebermos. Vemos, com isso, como a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a> pode contribuir com nosso julgamento, desviando nossa atenção.</p>
<p>Para um homem conhecer totalmente sua natureza, conforme citação da Teodicéia no livro de Tessa Lacerda, “seria preciso que ela [a alma] conhecesse perfeitamente todo o universo que está envolvido nela, ou seja, que ela fosse <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>” (LACERDA, 2005, p. 139).</p>
<p>Não é porque nos enganamos ou porque nos deixamos levar por tendências que não são claras que deixamos de ser livres. Não deixamos de ter a possibilidade de reflexão, que pode ser usada para orientar nossa <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>. Para <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, o que caracteriza uma ação livre, a responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> do homem, é a “possibilidade de buscar razões ou inclinações sobre seus desejos, a potencialidade de refletir sobre suas ações e influenciar pela razão os desejos futuros” (LACERDA, 2005, p. 140). A reflexão sobre uma ação a transforma em ação <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a> e quanto maior o uso do julgamento sobre a <a href="http://www.transtorno.net/tag/vontade/">vontade</a>, maior o uso da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p>Em sua correspondência com Arnauld, <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz que ao escolher Adão, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não escolhe um Adão “vago”, mas também tudo o que será, também a sua posteridade. Tudo o que se segue dai tem <a href="http://www.transtorno.net/tag/necessidade/">necessidade</a> hipotética: <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> escolheu o melhor Adão dentre outros possíveis. O ponto, entretanto, é que ao escolher a este Adão e não a outro, <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não pode privar-lhe da <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a>.</p>
<p><a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> é livre ao escolher Adão e todos os seus descendentes, ao escolher Adão com estas inclinações e não outras, ao escolher o Adão que irá pecar e não outro. A questão que se coloca, então é se Adão é livre tendo sido escolhido pelo que é potencialmente, pelo que se sabia a seu respeito. Adão é livre mesmo que suas ações sejam certas, embora não sejam necessárias? Como alerta Arnauld em uma de suas cartas, o Adão possível escolhido ligou-se à mesma posteridade do Adão criado.</p>
<p><strong>. Conclusão</strong></p>
<p>O que sustento, seguindo <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> de perto, é que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a> é livre em suas almas e deliberações. Não me parece, contudo, que sejam livres de acordo com a onisciência de <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, o qual a escolheu de uma forma e não outra. <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a>, assim, sabia o que viria a acontecer: viu a seqüência do universo de fora do tempo, e assim foram feitas as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a>. Do ponto de vista lógico, as ações não são necessárias, e do ponto de vista divino elas não são necessárias, mas certas. O Adão possível tornou-se o Adão criado, como disse Arnauld, e é livre, concluímos, somente enquanto não conhece suas ações futuras, como <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> as conhece, e pode deliberar sobre elas, embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> já as tenha previsto. Embora <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> não faça as <a href="http://www.transtorno.net/tag/escolhas/">escolhas</a> pelos homens, me parece que, em certo nível, Sua escolha pelo melhor mundo possível já as fez.</p>
<p>Todo o universo está contido na noção de Adão, o mundo de acordo com seu ponto de vista está lá. <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a> diz em sua correspondência com Arnauld, como citei anteriormente, que os eventos não são necessários, mas certos e exemplifica “é verdadeiro que poderia não fazer aquela viagem, mas é certo que farei”.</p>
<p>Embora a <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> espinosana seja muito diferente do que vejo aqui, tendo a perceber que se <a href="http://www.transtorno.net/tag/deus/">Deus</a> foi livre para escolher o mundo perfeito dentre as opções possíveis, somos livres também para escolher e agir de acordo com as opções que nos são apresentadas, mas somente de acordo com o ponto de vista da <a href="http://www.transtorno.net/tag/humanidade/">humanidade</a>, ponto de vista de quem não sabe quais serão os próximos passos, de quem os teme e delibera para escolher o melhor a ser feito, enquanto que de acordo com a visão divina, tendo nos escolhido pelo certo – não pelo necessário – sejamos todos personagens de uma história cujo final é conhecido pelo criador, não por nós.</p>
<p>A despeito da forte afirmação, somos aqui levados a perceber que a <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> que possuímos está na ignorância do porvir, está apenas nas decisões que tomamos ignorando o que faremos a seguir, ou tendo apenas uma vaga idéia. A <a href="http://www.transtorno.net/tag/liberdade/">liberdade</a> está, desse modo, em nossa responsabilidade <a href="http://www.transtorno.net/tag/moral/">moral</a>, nas decisões que assumimos, em nossos atos. Pergunto-me, então, sabendo que tal questão não deve ser tratada com superficialidade, se a onisciência divina e a escolha pelo melhor dos mundos não é, em si, a <a href="http://www.transtorno.net/tag/criacao/">criação</a> de uma <a href="http://www.transtorno.net/tag/tragedia/">tragédia</a> humana, como Édipo, por exemplo, fugindo de seu destino, ignorando que a própria fuga o levará de encontro a ele.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong><br />
CLARKE S., <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Correspondence, Indianapolis, Hackett, 2000<br />
LACERDA, T., A <a href="http://www.transtorno.net/tag/politica/"><a href="http://www.transtorno.net/politica/">política</a></a> da metafísica: teoria e prática em <a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">Leibniz</a>, São Paulo, Humanitas, 2005<br />
<a href="http://www.transtorno.net/tag/leibniz/">LEIBNIZ</a>, G.W., Discurso de <a href="http://www.transtorno.net/tag/metafisica/">metafísica</a> e outros textos, São Paulo, Martins Fontes, 2004</p>

<p>Links relacionados:<ol><li><a href='http://www.transtorno.net/2008/12/natureza-liberdade-espinosa/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Natureza e liberdade em Espinosa'>Natureza e liberdade em Espinosa</a></li>
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