Postado em 22-02-2009

Madame X

por Aseth | Categoria: Visuais | Lido 312 vezes

Quando visitei o Metropolitan (NY) em 2008, passei horas andando, impressionado com a quantidade de coisas que via, algumas milenares e com mais histórias do que jamais poderei imaginar, encontrando pelo caminho desde objetos da Grécia antiga até pinturas modernas, passando por Caravaggio e Georges de La Tour, para citar apenas alguns exemplos.

Após horas, já bem cansado e prestes a dar a visita por encerrada, entro em uma sala e vejo uma pintura enorme, magnética, que imediatamente chamou minha atenção. A legenda tinha apenas um resumo da história da pintura: John Singer Sargent, pintor americano, profundamente atraído pela beleza de Virginie Gautreau, americana, casada com um banqueiro francês, pediu para que posasse em 1882. Quando a pintura foi exibida no salão de 1884, causou escândalo devido à excessiva sensualidade da retratada que, além de um enorme decote, tinha a alça do vestido caindo de um dos ombros. A família de Madame Gautreau pediu que a obra fosse removida do salão e não foi atendida, porém Sargent alterou a pintura original, colocando a alça do vestido no lugar.

Como não conhecia o trabalho, fotografei a pintura – nenhuma das fotos jamais reproduzirá a beleza do original -, a legenda e fui pesquisar sobre ele depois. Soube que o Nome da retratada havia sido omitido por convenção da época, mas Sargent nunca escondeu de quem se tratava e, parece, nem precisaria. Aparentemente a reputação de Madame Gautreau foi destruída após a exibição da pintura no salão. Sei que a época era outra, mas não consigo sequer imaginar como uma obra tão bela possa destruir com a reputação de alguém, quando na realidade imaginaria exatamente o contrário.

Reproduzo abaixo duas imagens da pintura. A primeira é a que está hoje no Metropolitan, a segunda é uma foto da exibida no salão há mais de 100 anos:


Madame X, de John Singer Sargent

Madame X, de John Singer Sargent

Se alguém tiver interesse em saber mais sobre esse trabalho, encontrei esse site, que foi uma fonte muito interessante e possui mais informações e história do que coloquei nesse post.

Postado em 07-01-2009

Oferendas secretas do rito lunar

por Aseth | Categoria: Rabiscos | Lido 362 vezes

Cachoeiras de rios dançantes inundam meus veios estáticos
Escoando no horizonte céus de pânico no morrer do Sol
Véus etéreos, vingativos, torrentes translúcidas de sabor disforme

O ocre úmido dissolvido na atmosfera inunda minhas narinas
Aromas e ventos de sobrevida pudica e insensata

Serenas gotas cremosas e rebentos fomentam o ar
Partículas atômicas refletem a luz incidente
Agredidas por rochas antigas e salutares, suspensas,
Esverdeadas pela imobilidade calma dos séculos,
Tomadas por elementos terrosos e fundamentais

O gosto férreo do sangue me cai, dizendo baixo o querer
Meus sensores vermelho-tingidos no imediato leito
Dentes e língua enevoados
Quente fluxo pela Lua marcado

- A pube clara é velada no culto ancestral proibido

Paisagem alterada, passado corrente se faz aqui
Mil tonéis de vinhos únicos inspiram sua paixão
Que a uva imersa aguarda entre o ventre escuro
Protegida, transbordando novamente a ira evidente

Só, ofereço aos deuses famintos a nata suave

Arbustos ralos em meio a colinas maciças
Respiram o lis ondulado
Coberto por minha boca sedenta

Vocábulos caem com fragrância de amêndoas

16/12/2008

Postado em 14-12-2008

Magnetismo Universal

por Aseth | Categoria: Rabiscos | Lido 329 vezes

Nesta enseada de vísceras dispersas, branco intenso de gotas transparentes, cidade que se esconde pálida em tua aparência de veludo, seda e carbono, que cega as milhares de perfeitas constelações gregas, erguidas há milênios como símbolos de inspiração abissal, olho para a bússola de meus horizontes cândidos onde me encontro arfante amarrado.

Vem, abre o manto d’água que respinga junto a mim, queimando em folhas minha pele e minhas escamas. Vem, abre o mar e me aguarda, indica a espuma de onde surgiste em cada onda, aponta os céus e respira, tirando vida do barro que me cobre. Vem, queima com a sutileza de tua voz as amarras que me cortam quando me apontas o mundo sorrindo e soletra perversa a luz que me afoga.

Cria vida nessa escuridão que alastra em mim, cria vida nesse alarde que faço no vazio que preenches com teu sermão vermelho. Faz de mim o arco que tensiona ao puxar minha alma alaranjada, refletindo palidamente tua cor de chamas, que chama meu falo erguido à divindade, cravo profundo nas aparas vivas, dívida para com a natureza.

Ergo me sempre para jamais questionar se as cores, cortes e cheiros que chegam junto a meus sentidos, buscando a essência da hipnose, são passageiras ou se são guias, se se deixam levar ou se levam como um oceano de sal que jorra de mim, varrendo a terra passiva, que se umedece e abre com o calor da afeição e dos ardis da semente.

Abro meus braços cicatrizados deixando que teu norte me guie, encontro destino em todos os cardeais, magnetismo absoluto que me desvirtua, corrompe e perde quando moves meu ponteiro, que te adentra como grão e prisma de cores estapafúrdias, selecionadas uma a uma, sem me incomodar se é o caminho da mão esquerda perante o qual meus joelhos dobram se busco minhas forças recompostas.

Faz das formas gigantes, absolutas e milimétricas, da pureza assassinada de todo ser, de minha cegueira, faz de tudo que se move e do porvir pura aniquilação!

Quando me perco, sem ver insetos e rastros ondulantes no céu almiscarado, me esqueço. Quando me perco, me encontro navegando questões filosóficas e existenciais: se o entardecer é mais cadenciado nas manhãs de inverno, se o sol aquece formigas solitárias no verão de outros continentes, se o frio dos pólos tornaria minha pele sólida, uma vez amaciada pelos beijos que arrancam minhas formas em camadas.

Exposto unicamente, perduro na essência única da união, extrema unção, do óleo que cobre tua testa, olhos e lábios rubros, dos impronunciáveis nomes, dos números infinitos e suas combinações, do ocultismo e seus segredos.

Duplamente, perduro onde termino e recomeço, onde o reino dos mortos passa por nós, rápido e afobado, sob o signo de escorpião, ao renascer na sentença de vida, na boca aberta de desejo que se fecha, reiniciando a unidade do culto dos astros.

Postado em 02-11-2008

Paisagem a quatro mãos

por Aseth | Categoria: Pensamentos, Rabiscos | Lido 485 vezes

No poente dia tomo as rédeas das núvens que distraem
um cálice de vinho barato,
um turbilhão de sentimentos caros,
olhos entreabertos querendo ver na escuridão
cores amanhecidas sobre uma folha de papel…
Pássaros deslizam em asas
e rastejamos inebriados pelo âmbar.
Natureza de cobras, desejava mais que isso,
lamentando o perfume que sufocava sua peçonha,
enquanto riam do alto, nas núvens,  os abutres
eufóricos com a oferta de alimento nas cidades.
Sádicos que eram, assistiam a morte do alto, em um deserto.
Foi então que um senhor que passava tomou a palavra, sorriu e disse delirando:
Não sujem o pasto verde com o sangue das ovelhas
pois de peçonha e coágulos jardins foram feitos desertos!

- Algum dia e mês de 2006, coletando frases soltas no msn e agregando em fluxo de consciência.

Postado em 30-03-2008

Sinais

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 453 vezes

Pedaços de uma história, passos: um caminho.

Apenas duas almas percorrem o sinuoso trajeto, complexo, cujo todo não se faz visível. O objetivo final ambos sabem, ambos querem, perseguem.

É um caminho único.

Marcas vão ficando, marcos também: as músicas da trilha sonora, os vídeos da paisagem, aqui e ali, em silêncio, vão sendo deixados. São pedaços, guias, indicando que há sincronia. Sinais.

As palavras trocadas formam um diário. Há um diálogo. Duas pessoas caminham lado a lado, conversam sutilmente e tudo é dito. A razão, perdida há muito, compreende cada símbolo, uma nova linguagem se forma.

Ali está um sinal, logo além estará outro… Sentidos-sentimentos expostos.

E quando a trilha chegar a um ponto, lá adiante, novos sinais serão encontrados, criados.

Novas palavras, novos sons. Sensações, talvez.

Espero.

Escrevo.

Sigo, passo a passo.