Há pouco mais de uma semana, postei algumas linhas de pensamentos que surgiram ao lembrar de um livro de Georges Duby, sobre as cavalarias medievais. Quando escrevi aquele post, me lembrei de um verso de Liber AL vel Legis e abri com aquela citação. Pois bem, estava lendo “The Law is for all”, de Aleister Crowley, e quando cheguei ao comentário sobre aquele verso (AL, II, 58), percebi que caía quase que como uma luva.
Segue, em inglês:
Men should not be taught to read and write unless they exhibit capacity or inclination. Compulsory education has aided nobody. It has imposed an unwarrantable constraint on the people it was intended to benefit; it has been asinine presumption on the part of the intellectuals to consider a smattering of mental acquirements of universal benefit. It is a form of sectarian bigotry. We should recognize the fact that the vast majority of human beings have no ambition in life beyond mere ease and animal happiness. We should allow these people to fulfil their destinies without interference. We should give every opportunity to the ambitious, and thereby establish a class of morally and intellectually superior men and women. We should have no compunction in utilizing the natural qualities of the bulk of mankind.
(…)
In this way we shall have a contented class of slaves who will accept the conditions of existence as they really are, and enjoy life with the quiet wisdom of cattle. It is our duty to see to it that this class of people lack for nothing.
(…)
Our troubles have been caused by the assumption that everybody wanted the same things, and thereby the supply of those things has become artificially limited; even those benefits of which there is an inexhaustible store have been cornered. For example, fresh air and beautiful scenery. In a world where everyone did his own will none would lack these things. In our present society, they have become the luxuries of wealth and leisure, yet they are still accessible to any one who possesses sufficient sense to emancipate himself from the alleged advantages of city life. We have deliberately trained people to wish for things that they do not really want.
- Crowley, The Law is for all, novo comentário a AL, II, 58
Discordo de Crowley, no entanto, quando ele diz que “they lack nothing”. Eles não tem muita coisa, mas são rápidos em culpar os outros pelo que não possuem. Naquele post eu falava especificamente da falta de coragem, pois então vou usar isso como exemplo novamente: muitos não tem coragem sequer para defender sua existência, mas culparão os outros por não defendê-los.
Sobre os “escravos”, é interessante fazer uma leitura desse comentário tendo lido também a “Política”, de Aristóteles. Não vou entrar em detalhes e nem me aprofundar, mas ele fala da relação senhor x escravo e de como um precisa do outro. Não se trata, porém, da dialética do senhor e do escravo, de Hegel, é óbvio. Seria anacrônico, além de idiota, pensar uma bobagem dessas.
Crowley completa o comentário citando Liber Aleph, do qual dou apenas um fragmento:
All her Members let them differ in their Qualities, and let there be no Creature equal with another. Here also is the voice of true Science, crying aloud that Variation is the Key of Evolution. Thereunto Art cometh the third, perceiving Beauty in the Harmony of the Diverse. Know then, o my Son, that all Laws, all Systems, all Customs, all Ideals and Standards which tend to produce uniformity, are in direct opposition to Nature’s Will to change and to develop through Variety, and are accursed.
- Crowley, Liber Aleph, De Lege Motus
Concordo com isso, sim. O problema é que hoje, sobre o pretexto da diversidade, a mesma é destruída. Poucos percebem que a luta pela diversidade causa nada além de homogeneidade. As diferenças são naturais e não precisam de defesa. Essa defesa que promove o pensamento homogêneo enfraquece o processo.
O “politicamente correto”, por exemplo, hoje impede através de leis, algumas existentes apenas nos olhares de censura, que coisas sejam ditas ou feitas abertamente, criando novas gerações de hipócritas, de falsos livres pensadores, de lugar-comum.
Quem discorda disso, pode ler novamente o texto de Crowley, a primeira parte em especial. Deve reler, aliás. E se esse fragmento não te fizer pensar, pois bem, já sei em que lugar você se encaixa.
Assunto para ser continuado…
Hoje pela manhã li as notícias e, sem surpresa, vi que Obama é o novo presidente eleito dos Estados Unidos. Sem surpresa de fato, afinal o mundo todo “votou” em Obama. Em momento algum ouvi falar de suas propostas – que inexistem – mas de seus “sonhos”.
Não deixa de ser irônico que os mesmos que criticam Sarah Palin por suas crenças acreditem e esperem pelos milagres de Obama.
Os brasileiros estão maravilhados com a vitória, mas pergunte a algum o que espera… Já escutei coisas como “queria que a Hillary ganhasse, pra ter uma mulher no poder”. Essa é, em parte, a lógica que elegeu Lula e parte da mesma que elegeu Obama: as pessoas não são eleitas por propostas e qualidades, mas por serem mulheres, negras, operárias etc. Elegeram Lula como projeção de si mesmos. Perdoaram toda a corrupção de seu governo pelo mesmo motivo.
Àquela mulher que queria Hillary na presidência, outro respondeu “Obama é cabeça, fará um bom governo”. Jamais imaginei ouvir que um candidato faria um bom governo por ser “cabeça”. Será que essa pessoa sabe que as políticas democratas em relação às importações são mais duras e que, por consequência, isso não é bom para o Brasil? Estou citando apenas um exemplo, é claro.
Não é Obama que me assusta, não são suas (ausentes) propostas. Sua eleição é um fenômeno do fanatismo e isso é que me amedronta. Um fenômeno local tornou-se mundial.
A lógica foi deixada de lado, substituída pela esperança, que faz milagres.
Este texto pretende tratar da maneira como se dá o republicanismo nos escritos de John Milton, buscando mostrar que o autor parece querer menos propor um modelo do que indicar caminhos e ideais que pudessem defender este sistema, com base em valores que lhe são caros, como liberdade e justiça, por exemplo, pois lhe parece que esta forma de governo é a que melhor aceita a liberdade de escolha pelo povo, bem como o protege da tirania. Para isso, farei proveito também de alguns comentadores, usando seus argumentos para demonstrar o que penso a respeito do texto de Milton.
Thomas N. Corns afirma que os republicanos ingleses, “blundered into the foundation of the republic without a constitutional theory, without a sustained critique of other models, without a vision or an image of the state they were founding, and even without an appropriate political vocabulary” (ARMITAGE & HIMY & SKINNER, 1998, p. 26), chegando mesmo a afirmar que Milton era antes um regicida que um republicano. Quanto à afirmação de que não havia um modelo e de que os republicanos escolheram esse sistema simplesmente por não terem mais a figura do rei, embora não tenha o tempo de pesquisa do autor em questão, não posso concordar com suas afirmações, tendo em vista o detalhamento do modelo de estado feito por James Harrington em Oceana, bem como com dos textos de Milton tomados como base para este trabalho. Embora Milton defenda com veemência o regicídio, em sua argumentação existe razão para tanto, como veremos adiante.