tua presença cedo assombra o mundo fêmea do grande astro
tímida, anuncia a luz e o calor astuto que sacerdotes não escondem
aurora boreal, guia do gigante imenso, senhora da magia fálica,
rosa mística celeste, pequeno óvulo no grande útero da noite
fogueiras e ritos de união, vestal profana feita escarlate
vestes com detalhes d’água e adornos safira desenham lagos
sobre o altar feminino de primaveras desfeitas
estações cíclicas refazem o percurso de tua criação
e continuas lá, impassível, pingo de prata posterior ao grande ouro
transmutando o celeiro em que te aguarda o cadente planeta
pendendo aos braços corados que te acariciam em troca do segredo
do fogo roubado dos deuses encerrado na caixa que se abre
- oculto atrás da mais bela, o grande disco toma a noite
a ti os humanos entregam o pomo
a nós entregas o cetro
12/12/2008
Procurei maravilhas, segredos atemporais, explosões e cataclismas, transformações e fenômenos que me fariam entender o mundo ou, se não, me indicariam caminhos e dariam motivos para continuar. Esperei por aquele momento em que algo aconteceria, aquele segundo definitivo – a split second – onde tudo aconteceria, ao mesmo tempo, como um abrir de porta, como embarcação lançada ao mar que encontra o continente e percebe que no mar é que está seu destino. Navios são para navegar, não para atingir um ou outro lugar. É desse porto que parto agora…
Aquele momento grandioso, gigante, talvez não tenha acontecido. É, por certo não, não daquela forma ao menos. Esperar coisas imensas é um tipo de engano, mas não esperá-las é ser pequeno, normal, no pior sentido da palavra. Talvez dai venham as quedas, as decepções, também imensas, como o gigantismo do ego. O erro, me parece, consiste em confundirmos o que é imenso com o que pensamos ser.
A compreensão e o entendimento observam, lá de cima, do topo da árvore, já próximos ao absoluto, bem distantes. Os caminhos que ligam as Sephiroth são trilhados em momentos diferentes, conforme o caso, a necessidade, o evento. Não seria de imaginar, portanto, que os frutos caiam, por vezes, dessa árvore, metafísica, em algum nível?
Sonhos, conversas em estado letárgico, instruções, insights, olhar a pineal como o olho que não se vê. Lembrar de coisas jamais feitas e tê-las ainda assim como parte da experiência e existência. Saber que aconteceram, dentro ou fora, e entender que é sim parte do indivíduo que é parte do todo. Saber coisas sem jamais ter lido sobre elas e, quando finalmente ler, dizer “estava certo”.
A porta que se abre naquele momento buscado pode ser de diamantes, ouro, aço, madeira ou qualquer outro material. Pode ter sido feita à mão por dezenas de anos ou em poucos minutos, em alguma fábrica. Pode estar em uma pirâmide milenar, em um museu centenário ou um barraco na periferia. Não importa. É o ato de abrir que expõe o segredo, é também a chave.
derrubo as portas que te separam de meu olhar
expondo os desenhos suavemente azuis que vejo em tua tela
sob a luz pálida que se confunde com a manhã em ti
ainda perduram pontos rosa nos domínios das cores suaves
refaço o trajeto de meu querer, entrando em ti como visão
suprema e objetiva, senhora do mundo que recebo
e formo em meus calcificantes meios secretos
o que espero, vejo e quero
associo merecidamente o tato de teu perfume palpável
o toque abstrato de meu olfato confuso
e derramo a vida quase branca
nas páginas de teu diário incompleto
09/12/2008
Não é segredo para qualquer pessoa que me conheça que sou admirador dos trabalhos do grupo catalão (se ainda posso chamá-los assim, tão internacionais que se tornaram) La Fura Dels Baus. Já disse em um post anterior que atualmente eles estão mais calmos, em outra frequência que não a “barbárie” de 15 ou 20 anos atrás.
Enfim, voltando ao título do post: erotismo x pornografia. Qual a diferença? Estética? Moral? Física? Se é física, como encaixar a moral? Na ruptura/provocação, talvez? A moral funcionaria como freio ou propulsor? Há inúmeras questões que devem ser levantadas e estas, por sua vez, levantam mais. Escrevi algumas linhas sobre isso quando tinha… 17 anos. Sei que ainda tenho por aqui, resta encontrar em meio à papelada. O que penso hoje é mais complexo, mas não joguei fora o que pensava então, implementei aqui, aprofundei ali, mudei acolá. Eram ingênuas lá atrás, mas curiosamente, talvez por isso, pegava um ponto do ser humano em espercial: a imaginação.
Qual a relação entre La Fura e o tema proposto aqui? Quem conhece o trabalho do grupo sabe bem a ligação que eles tem com os instintos, com a provocação da parte sombria, da carne, do medo. Há mais do que isso: existe uma montagem do grupo chamada “XXX”, que infelizmente não chegou ao Brasil, assim como a maioria dos trabalhos que montaram. XXX é explícita e foi bem comentada na época. A maioria, no entanto, preferiu ficar com a hipótese mais óbvia: o “grupo queria chocar”. Tenho dúvidas e por isso resolvi postar um trailer que encontrei no youtube com algumas cenas. Dá para ter uma idéia do que se passa e também é possível ver que mesmo vibrando em outra frequência, há ainda muito instinto ali. Instintos, porém, são puramente animais. O que há além disso naquelas imagens para torná-las também eróticas?
Segue o vídeo (espero que ninguém tire de lá, pois vale assistir):
Em “O erotismo” (L&PM, 1987), Georges Bataille diz que
“o erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Nisso nos enganamos porque ele procura constantemente fora um objeto de desejo. Mas esse objeto corresponde à interioridade do desejo. A escolha de um objeto depende sempre dos gostos pessoais do indivíduo: mesmo se ela recai sobre a mulher que a maioria teria escolhido, o que entra em jogo é sempre um aspecto indizível, não uma qualidade objetiva dessa mulher (…). Em resumo, mesmo estando de acordo com a maioria, a escolha humana difere da do animal: ela apela para essa mobilidade interior, infinitamente complexa, que é típica do homem.”
(…)
“A atividade sexual dos homens não é necessariamente erótica. Ela o é sempre que não for rudimentar, que não for simplesmente animal”.
Percebem a diferença?
o caminhante olhou a noite e a abraçou em canto
como quem abraça um raio de vento
um solitário arfante
um deslumbre inicial
e abraçou ardente horizonte
soluço calado sorriso rompante
de dentes estelares e hálito fogoso
deixando a si quando a brisa o beijou lasciva
inflamado, tentou segurar o vento
sopro-carícia, vermelho terra-viva
tentou e alcançou gargalhando
a química histérica da escuridão das estrelas
de cima a baixo um tapete morno, suave
azul-semelhante, verde-tronco
laçando seu corpo entrante qual candeeiro cheio de zelo:
era o mundo-solvente na chuva que feria
17/11/2008
A Qabalah de meu nome significa Treze,
ainda que Doze seja o que sou
Sob as megeras cartas de meus arquétipos,
pequenos reflexos de homéricas tendências,
encontro A letra no quebrar de Ayin
Aleph-Início e Aleph-Alpha
em Set-Shaitan a conjuração nefasta
Sete guia-me para o Dois, que se torna Três
tal o Eros da Transmutação
Sacerdotisa, feminina, poder combinado-absoluto
aprofunda na carne de Zero o segredo de tuas unhas,
o Abismo profundo vivente em Daleth
Em ambos os rituais não me iludo:
o final de tudo reside no Seis
as matemáticas relativas dos nomes
dos Arcanos, transformados no Dezesseis!
18/11/2008
Logo ali há uma porta, mágica. Atrás dela há o que não pode ser escondido, permanece sempre aberta, não há trancas. Há, no entanto, um buraco feito para espionar.
A porta está aberta, apenas encostada, mas ninguém a empurra, se limitam a espiar pelas frestas.
Conto segredos em público, abro a porta, mas ninguém vê.