Postado em 21-01-2009

Única, divide e une

por Aseth | Categoria: Rabiscos | Lido 347 vezes

ajoelha perante mim oferecendo tua palidez como agrado,
padece em definitivos beijos de minhas mãos eufóricas

recebe o desejo de ser minha, tecido que me envolve
percebe a ânsia sádica de te aspirar qual cinzas brancas
acolhe a alegre ira de minha força setentrional
descobre e me devolve um sorriso opaco, ainda por se abrir

sorri queimando o sangue do sol que se põe ao entardecer
quase escuro, o cinza expansivo abre a espera por mais

vive o querer de meus dedos animais em teus cabelos doloridos
divide o latejar que me provocas com a dor de te manter próxima
experimenta o respirar de minhas mãos que te amam loucamente
sente o sofrer amarelo de ser minha amante

meu perceber deveras novo cambaleia exausto em preciosidades
quando te deito ao meu lado, quase roxa, desfalecendo delicada
e te amo uma vez mais

finada é a noite torpe, consumida por feitios anteriores

09/12/2008

Postado em 10-01-2009

Páginas seladas de um diário

por Aseth | Categoria: Rabiscos | Lido 345 vezes

derrubo as portas que te separam de meu olhar
expondo os desenhos suavemente azuis que vejo em tua tela

sob a luz pálida que se confunde com a manhã em ti
ainda perduram pontos rosa nos domínios das cores suaves

refaço o trajeto de meu querer, entrando em ti como visão
suprema e objetiva, senhora do mundo que recebo
e formo em meus calcificantes meios secretos
o que espero, vejo e quero

associo merecidamente o tato de teu perfume palpável
o toque abstrato de meu olfato confuso
e derramo a vida quase branca
nas páginas de teu diário incompleto

09/12/2008

Postado em 22-12-2008

Satanismo

por Aseth | Categoria: Livros, Rabiscos | Lido 406 vezes

O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não tirei cópia desses dados, mas sei que é de 1928 e é com o português de então que você irá encontrá-lo.

Procurei por esse trabalho na net há algum tempo e não o encontrei, dai a vontade de colocá-lo aqui. Algumas coisas não deveriam ser esquecidas e perdidas, simples assim.

Segue:

- Tu também, Luis, chamares-me de louco!

E um esgar abriu-lhe a bocca, num sorriso ironico, em que os dentes ponteagudos, como talhados a formão, enegrecidos pelo uso do “haschich” e da nicotina, punham uma nota selvagem, suja, sob o lábio delgado, espiritualisado…

- São raras as Lindamôres na terra em que eu nasci, que não os tenham assim, como lanças! Mas a Lindamôr de que falo eu… Louco!? Tens, porém, razão de sêres cego… Surdo… E mudo… O mundo exterior não existe para ti. Muito menos o interior. Olha, as sensações são grãos. As deformações que ellas trazem são grãos, padrões, medidas de aferição…

- Estygmas…

- Estou a ver, porém, que não me comprehendes. Não me compreenderás jamais… Lindamôr… Oh! a agudeza dos seus sentidos a apontar para o alto, como uma flecha lançada! Tu não sabes absolutament o que está do outro lado do prazer… que tu chamas dôr… com periphrases de ungentos e de emplastos… Tu procuras equilibrio para o teu espírito na insensibilidade, na indifferença, no comodismo, em todos os “ismos”, em todos os “ades” e “enças” dos antiloqueos burgueses, inexpressivos, idiotas… Louco, chamo-te eu, meu insensivel, meu indiferente, meu commodo Luis! Louco como o mais louco. O que ha de facto por ahi, e é o teu caso (casos de manicomio), são espiritos embotados, sensibilidades estreiras, inextensiveis. Esticadas, essas sensibilidades, por poquinho que seja, arrebentam. Uma cocegazinha, eil-os a rir. Uma alfinetada fal-os chorar. Principalmente se esperam a alfinetada (no que entram o sensorio e a intelligencia como partes). Lindamôr! Dava-se com seu genio a solidão. Era de vel-a, quase bella, com os seus dentinhos cortados em ponta, as suas sobrancelhas arqueadas, os seus vestidos de chitão vermelho e o beicinho tremulo, bru-u-u-u-u-u-u… com que correia as capoeiras vizinhas, o chiqueiro e o curral. Naquelle dia de nuvens escondidas no céo, ella mesmo fôra dar a ração aos bacorinhos que grunhiam gulosos no chiqueiro. De volta descansou a gamella num velho coxo de madeira e deixou-se cahir sobre o velho tronco de araticum, onde a fazer lenha, exercitava os musculos e estimulava e (oh! coisa paradoxal) afogava, neutralizava o meu prurido doentio de destruição. As suas mãos, uma deixada no regaço, outra arrastando no chão, sobre as aparas de madeira que meu machado cortava nervosamente, tiveram um ligeiro movimento convulsivo, quando della me aproximei de machado em punho… E só. E eu? Tremendo, tiritando de medo e de emoção… Levantei outra vez o machado sobre sua cabeça… Nunca me julguei tão fraco para o amor. Deixei-o cahir para um lado e ajoelhei-me a seus pés. E com a cabeça no seu regaço tentei acalmar-me. Debalde, porém. Os teus nervos não permittem, nem por minucias, o relato desta história toda… Levantei-me de um salto, as suas mãos entre as minhas, e cobri-as furiosamente de beijos. Saquei do punhal… Que mascaras admiraveis se plasmaram no seu rosto de linhas vulgares! Principiei cortando-lhe os dedos da mão, phalange a phalange. E para reanimal-a, injectava-lhe ether de vez em quando… Ao desgarrar de um tendão, os seus empinaram-se-lhe, tão duros que enlouquecido de amor, arranquei-lhe os bicos com os dentes… Duas lagrimas de sangue correram-lhe o torso abaixo. Dos meus labios humidos e rubros fluiam palavras angelicas, que se mal ouviras, peior comprehenderas. Os seus olhos foram-se fechando devagarinho… Estava realizado enfim, o meu sonho de posse no absoluto, de gloria no amor, de previdencia contra a saciedade, e sobretudo, de prevenção contra as mil infidelidades em que é fertil o engenho feminino… Estava realizado o meu sonho e de morte e de belleza, alliviada a oppressão da minha febre immortal. Foi minha, destrui-a. Não com palavras, ou com os sentimentos vermelhos que o commum dos homens trazem dentro do peito, e cóleras contidas, e hypocrisias, mas com actos, heroicamente… Na destruição o absoluto… São gestos eternos que não se renovam. Só o marmore os permite. Com o escopro… Golpe por golpe.

- Hildebrando de Lima, Satanismo, 1928

Postado em 29-11-2008

Imagens da sensação

por Aseth | Categoria: Teatro | Lido 658 vezes

Texto de 1992, escrito após uma sequência de leituras de Sade, Artaud e Nietzsche. O negócio está bem resumido e é complexo, pra quem tiver paciência apenas.

Segue:

Por em movimento o “retorno de si mesmo ao anel dos anéis”. Nada se perde no inextinguível archote Desejo. O sêmen que se vai retorna em prazer. O corpo, este único, se faz múltiplo, divide-se, se faz sentidos.

Este palpitar é necessário, força motriz imperativa da imaginação. A kraftwerk sensação trabalhando num ponto anterior à configuração. Um abalo no impacto dos sons e uma imagem ante-posta ao compreender.

Aficcionar-se e desagregar-se pela inoculação do sentido/sensação/re-ação, dando-se o retorno. Toma-se a origem das pausas e a provocação da carne como análise ultra-imediata de estímulos e sua reação, respectivamente.

Explodir-se em si e para si. Explodir-se em outro, para si. Tornar-se voz de autoridade, terrorismo provocativo e visual onde o que o outro sente é por minha vontade, mesmo em suas variações, devido à multiplicidade de imagens e suas correlações, por ter-se permitido sentir. Minha visão se impõe ao desespero e deleite da vítima.

Não haverão mais pontos desapercebidos pela lógica e pelos sentidos. Tudo será visto/sentido e re-sentido e ainda re-tornado, imediatamente, associando-se ao seu fragmento somático/emocionante.

A ação da imagem, sua palpitação, sua adaptação à mobilidade e à acústica que lhe passaram a ser próprias. Tudo é próprio da imagem: retornar à imagem e a si. Um descobrimento e, com este, outro. Cabe ao olfato/paladar da imagem sua associação.

Dionisiacamente re-tornar aos alimentos de emoções, continuamente aprendendo onde pausar, impedindo assim que o outro desfaleça antes da superação. Mais uma vez retornar, como nos eternos retornos sadeanos, à nova imagem/palpitação/desejo, sendo esse o ato de querer/desejar/perceber/ver, chamado de simbolismo material dos sentidos.

08/04/1992

Postado em 09-11-2008

Fuerza Bruta

por Aseth | Categoria: Teatro, Visuais | Lido 403 vezes

Assisti ao grupo Fuerza Bruta, no parque Villa Lobos, na tarde de hoje. Fui imaginando que veria um tipo de apresentação, vi outra, completamente diferente, e de uma forma ou de outra, sai bem impressionado, querendo que tivesse durado mais. O tempo, aliás, voou. Passou depressa demais, infelizmente, mas faz sentido que tenha sido assim.

Falei do La Fura antes e acreditei que veria algo similar. As semelhanças existem somente enquanto os dois são grupos que provocam o sensível e interagem com o público, o resto é completamente diferente, duas linguagens muito distintas.

O La Fura provoca pelo terror, o público se sente ameaçado a cada momento, esperando uma motoserra, esperando que atirem carne crua, farinha, tinta… O medo está sempre presente. Fuerza Bruta é outra coisa, é onírico, uterino e hipnótico, as pessoas interagem, se sentem parte do trabalho, se entregam sem perceber.

Não vou ficar descrevendo as cenas, quem quiser que vá ver (recomendo a experiência, aliás). Há bastante água e movimentos na água. Imaginei um grande útero ali. Aliás, imaginei a água como elemento também. Há também referências a sonhos, ao ar.

As pessoas não sentem medo, ao contrário. No final, atores dançando, o público ídem, embaixo da chuva que fazem no galpão. As crianças, muito mais do que os adultos, adoraram. Entraram na água sem vacilar, mas para isso é preciso se permitir. Lembrei de quando era criança, jogava sabão em pó no piso do quintal, molhava e ficava escorregando. Adorei cada segundo da apresentação, valeu cada centavo, reitero que gostaria que tivesse durado mais e gostaria de ver mais vezes. Quem sabe em alguma delas eu deixasse o canto e entrasse na chuva também.

Postado em 30-03-2008

Sinais

por Aseth | Categoria: Pensamentos | Lido 454 vezes

Pedaços de uma história, passos: um caminho.

Apenas duas almas percorrem o sinuoso trajeto, complexo, cujo todo não se faz visível. O objetivo final ambos sabem, ambos querem, perseguem.

É um caminho único.

Marcas vão ficando, marcos também: as músicas da trilha sonora, os vídeos da paisagem, aqui e ali, em silêncio, vão sendo deixados. São pedaços, guias, indicando que há sincronia. Sinais.

As palavras trocadas formam um diário. Há um diálogo. Duas pessoas caminham lado a lado, conversam sutilmente e tudo é dito. A razão, perdida há muito, compreende cada símbolo, uma nova linguagem se forma.

Ali está um sinal, logo além estará outro… Sentidos-sentimentos expostos.

E quando a trilha chegar a um ponto, lá adiante, novos sinais serão encontrados, criados.

Novas palavras, novos sons. Sensações, talvez.

Espero.

Escrevo.

Sigo, passo a passo.