Coisas do acaso. Sempre o acaso, mágico. Estava procurando imagens da “Execução do testamento de Sade”, como a de Jean Benoit ao fim desse post, e encontrei um site com bastante material sobre os surrealistas, muitas imagens, das quais uma em especial me prendeu. Eu jamais havia visto e o trabalho é tão bom que vi duas coisas antes de perceber do que se tratava de fato. E ainda verei mais, se procurar, eu sei. É um trabalho simples e belíssimo.
Meret Oppenheim foi uma artista ligada ao grupo surrealista de Paris por muitos anos, também muitas vezes retratada por Man Ray e é a modelo da famosa fotografia com a interferência que transforma seu corpo em um instumento musical. Achei esse site muito bom e mais informativo do que seria meu post, por isso recomendo uma visita aqui para ver mais sobre ela e, se existir interesse, sobre mais surrealistas e seus respectivos trabalhos. O objetivo desse post é apenas dispor esse trabalho, belíssimo, como disse acima, já que me impressionou. Há tanto ainda para ser visto…
My Nurse, por Meret Oppenheim 
Execução do testamento de Sade, por Jean Benoit: 
sedosos cílios, úmidos de sua boca curva
síbilos de sede caindo em contorno
pernas e seios cedendo às serpentes de Tuat
abre teu olhar que entro em teus lábios deitados
cambaleante desordem e aromas abatidos vivos, temidos
geme tuas palavras de querer
na espera do invadir
seleto deleite, caminho de olivas feito
treze é ultrapassado e a coroa aguarda
na árvore dos troncos de teu corpo
emana luz que cega, cala e desmaia
- transborda
ejacula tua eletricidade
das constelações em trânsito
eu era místico e agora sou além
provado e feito mago
sacerdote de teu tempo vivo, do casamento secreto
deusa hiperbórea, ergue o cálice cheio de teoria abstrata
do pão e do mel, do sacrifício e da eucaristia
do dividir e da união da carne
- da natureza divina
cria, transforma e destrói
meu calvário se rompe sobre sua taça
e preenche de sal e semente
- me recebe em sangue e ardor
19/11/2008
Sem lágrimas, o senhor dos campos prepara seu desjejum entre dilúvios infindáveis. O dia surgia aguado, observando ainda sutil por entre os seios da terra, no momento em que os cristais d’água se transformavam. Ora, os discrepantes reinos, eletrificados no fastio dos pólos, reagente às mortais aberrações que gritam na natureza madre, não são também a casa que emana as sendas dos aprendizes alquímicos?
Mas nem perdão nem tragédias ofuscariam o retorno do alvorecer doentio, cabendo às tormentas, em todo seu esplendor, invadir mares e terras, ocidentais e orientais, lançando corpos pela estrada em que um vidente-viajante busca a feição que mais lhe agrade, tendo à escolha todos os corpos perdidos entre pedras e lama.
Borboletas, temendo rotinas efervescentes, adornam a moldura do horizonte oblíquo, descontínuo, enquanto pendem às rotas ígneas os demônios pequenos, olhos faiscantes e emitindo ondas. Semelhante às dores de um parto, somadas às dores de estômago infernalmente pontiagudas e afiadas – para saná-las, os habitantes são banhados em vinagre e álcool -, o bater de asas move o globo em torno de seu eixo.
A força dos dedos anular e indicador, enterrados na carne de uma donzela, à altura do peito, em busca do coração que servirá de alimento – apenas após temperado, que fique claro -, compara-se ao sopro de minha voz em uma manhã gloriosa, diferenciando-se também da qualidade dos orgasmos provocados quando se toca a baioneta afiada, provocante e diversa.
Em torno do anel-espiral que as lâminas abrem no ponto exato da carne levemente pálida, a boca aberta em espasmos contrai seus músculos do ventre à garganta, lançando jatos de sangue, vomitados através do ar com sua ajuda. Os olhos se contraem nas mais desesperadas linhas, obrigando a face a acompanhá-los em seus movimentos ondular-requebrantes, como que aliados ao sismógrafo, perdido quando a terra dança sob meus pés.
O restante do corpo é preenchido com a seiva da eternidade, popularmente conhecida como formol, dando à luz um filho que levará o nome de Embalsamado. Nele frutificarão os germes da idolatria mítica, acolhidos com fervor pela massa desfigurada, amotinante, descomplexa, incubada e inoculada, grunhindo deboches estéreis que caem pelas ventas e ouvidos, podres como uma pasta malcheirosa.
Entre as milhares de sentenças que podem ser encontradas em livros, desde os de caligrafia até os filosóficos, ruínas emergentes se escondem: os mistérios da mente são maiores que os do corpo, já invadido por bisturis, sondas e radiografias, liderados por membros de sociedades obstinadas.
Meu paladar se delicia com os órgãos aflitos: imagino despojos femininos me afagando e lançando sua saliva contra meu rosto coberto de feridas, tomando meu brilho em seu olhar ao me perfurar com os talheres que outrora usei. Da lâmina à cama, mais uma vez a morte faz leito sobre corpos que repousam, abafados pelo calor da respiração ofegante e do coração sincopado.
Observo os lugares tomados em volta da gigantesca mesa, bordada e decorada com dentes serviçais, castiçais ergonômicos e fadigas uterinas. Meu olhar torna-se rubro como o vulcão que tudo à volta destrói, por certo criado em banhos de cera fervente, ao perceber que o deleite que me toma nada espanta aos convivas e habituais. A esfera epilética dos corpos unidos desmaia mesmo a apoplexia que sorri no gozo.
Celebramos, portanto, nessa manhã, a orgia infindável da Trindade da Carne. Desfeitos e complexos, infinitos, a luxúria do vinho e do sangue, do paladar da pele, o mergulho da entrega, o dar-se ao eterno.
Brindamos nessa manhã o ciclo que abraça, a vertigem que aquece.
Saturno implora pela repetição refletida em seus anéis, dando ao mar o nascer da estrela da manhã: Vênus e Marte traçam linhas desde tempos ancestrais.
Somos Dois à mesa posta.
São os Três eternos a nos mimar.
A luz de Kether acima.
Este é um trabalho longo, interessante, e que permanece aberto. Escrevi estas linhas para o professor Leon Kossovich, que as chamou “aporéticas”. Hoje, alguns anos depois, reli e vejo o quanto pode ser discutido e aprofundado. Como o professor ainda ministra o curso na FFLCH e usa Panofsky como referência, aposto que esse será um dos textos bem “procurados” em finais de semestre. Vou acompanhar as estatísticas…
Segue:
A proposta de Erwin Panofsky de questionar se houve um Renascimento enquanto tal em seu livro “Renascimento e renascimentos na arte ocidental” me parece válida e ambiciosa. Parece me também, no entanto, que no próprio autor há ainda alguns resquícios do que ele chama “romantismo”, que deixam lacunas ou mesmo equívocos na obra. Tendo isso como ponto de partida, passarei a comentar algumas passagens, sem a pretensão de corrigir a obra do autor em questão, mas adicionar um segundo ponto de vista.
Ao criticar o sistema de divisão da história em períodos de tempo e pensar em uma nova proposta, Panofsky nos diz que “o primeiro argumento, de caráter monista, poderemos abandoná-lo pela simples razão de que, se fosse verdadeiro, tudo seria possível em todos os lugares e em todos os momentos” (PANOFSKY, 1964, p. 18). O ponto é que isso me parece bastante lógico e claro e exatamente por esse motivo não deveria ser abandonado. Daí surgiria, talvez, uma nova proposta de se pensar o movimento histórico não só da arte, mas também da humanidade: se tudo é possível, então como os movimentos se deram? Essa mutiplicidade dá ao mundo um leque maior e mais realista de realizações, tendo ainda em mente que essas realizações se influenciam entre si, por afirmação ou negação, ou seja, dialética, conforme o caso e o momento.
A possibilidade de fazer história não me parece ser aniquilada no caso de assumirmos a hipótese anterior como verdade. O autor lembra que “a alteração do que se encontra estabelecido necessariamente pressupõe o que está estabelecido”, porém não vejo motivos para que o estabelecido precise, necessariamente, ser um período que limite as possibilidades em um número qualquer (PANOFSKY, 1964, p. 18). Concordo com o exemplo dado pelo autor ao citar a crítica ao emprego de palavras vazias feita pelo Prof. G. Boas, que exemplifica como uma definição pode ser utilizada desde que haja uma metodologia empregada em sua construção, definindo em termos precisos o que se pretende afirmar ao utilizá-la (PANOFSKY, 1964, p. 20). O problema, no entanto, é quem define essas palavras. Não posso dizer a “época” para não supor a criação de um termo muito abrangente e, por isso mesmo, vazio, mas se o grupo, o movimento, estiver atento às suas propostas, a criação de um termo para defini-lo, por seus participantes, seria válida, mas deve ser vista com restrição se feita por terceiros, principalmente com muito espaço de tempo entre os fatos e seu estudo. Os surrealistas, por exemplo, se sabiam surrealistas, havia um motivo, um manifesto inclusive. Teria este nome a mesma validade se criado por estudiosos-críticos?
O autor afirma que “para decidir se uma solução do indivíduo representa ou não uma inovação, teremos de aceitar a existência de uma tal constante e procurar definir a sua direção; e para determinar se a inovação é ou não decisiva, teremos de determinar se a direção da constante mudou ou não em resposta à variável.” (PANOFSKY, 1964, p. 18) Tenho a impressão de que uma mudança de direção não é, de forma alguma, o fator fundamental para que haja um movimento, mas sim o seu desenvolvimento, que pode continuar em frente, linear ou verticalmente, conforme o caso. Um exemplo disso é que o Surrealismo se considerava “a última cauda do cometa Romantismo”, de forma que uma mudança de direção aqui deve ser considerada cuidadosamente, para não deixarmos de dar a devida importância ao Surrealismo, decisivo em seu momento. Embora não haja uma “mudança de direção” no sentido literal do termo, é óbvio que uma mudança ocorreu, envolvendo uma espécie delicada de “evolução” que, se tomada no sentido baconiano, pode ser bastante perigosa em se tratando da arte.
Ao afirmar que “uma história da Europa na época de Luís XIV, embora não uma história da Europa na época das Cruzadas, legitimamente incluiria o que aconteceu na América, ao mesmo tempo” (PANOFSKY, 1964, p. 18), o autor mostra estar ciente da influência que trabalhos diferentes causam entre si e da possibilidade de discussão que se abre. É exatamente dessa discussão e influência que surgem movimentos artísticos, agrupando idéias semelhantes, mas também são estas que ocasionam rupturas, finalizando ou criando novos movimentos, novas questões e até mesmo novos dogmas.
Breton deu um passo importantíssimo ao afirmar, nos Manifestos, que já existiam surrealistas antes de existir o surrealismo, nomeando diversos, como Rimbaud e Sade, por exemplo. A quebra da linha evolucionista baconiana, da linearidade temporal, que fecha círculos no tempo, torna-se fundamental para questionar todo o restante da história e o autor parece concordar ao afirmar que “provavelmente nunca concordaremos e em numerosos casos não deveríamos fazer o mínimo esforço para concordar sobre o momento e lugar exato do começo e do fim de um período ou megaperíodo” (PANOFSKY, 1964, p. 20).
A proposta do autor de atribuir às mudanças o nome de seus autores é válida tanto por possibilitar mais discussão quanto por evitar generalizações vazias que se tornam espécies de academismo às avessas, como o Dadá, por exemplo. Dadá, conforme seu manifesto, foi negação e não movimento (“Dadá é anti-Dadá”), era a necessidade de ruptura que a época exigia, um grito angustiado de “basta”, porém, ao ser considerado um “ismo” e, como tal, movimento, passou a ser afirmação. Não é necessário dizer que os envolvidos, de Tzara a Breton, não aceitariam essa idéia. Tanto que, após a “negação”, se voltaram aos questionamentos, através do Surrealismo e/ou mesmo do envolvimento político, como veio a ocorrer com alguns, resultando no manifesto escrito por Breton e Trotski.
Uma possibilidade que podemos levantar a partir desse raciocínio é que os renascentistas, por assim chamá-los, estavam conscientes da retomada que faziam do trabalho clássico, sem, no entanto, sequer imaginar que estariam apenas copiando o que foi feito antes, mas sim dando sua contribuição e questionando as possibilidades que se abriam. Independente do surgimento do termo “renascimento” ou de qualquer outro, a consciência do trabalho parece exercer mais influência dado à capacidade organizacional que pode surgir daí, ao mesmo tempo em que daí também viria a grande dificuldade em se definir quando um movimento nasce e morre. Não seria o renascimento, então, o mesmo movimento da antiguidade questionando pontos que ficaram em aberto? Como o autor afirma “os fios da tradição se tinham por vezes tornado extremamente tênues, nunca esteve irrecuperavelmente perdida” (PANOFSKY, 1964, p. 24). Talvez, então, os próprios renascimentos que nos sugere o autor não fossem renascimentos, mas o próprio classicismo, enfraquecido, esperando um possível fortalecimento.
Sou obrigado a crer, baseado em reproduções de trabalhos da antiguidade, que em alguns momentos, fora de ordem cronológica, já questionavam o uso de movimento, cores e linhas, mesmo que em poucos casos. O fato de poucos casos ocorrerem dá a eles uma importância ainda maior, pois parecem ser casos “isolados” que vieram a se alastrar lentamente, pelo movimento da sociedade/civilização – comércio, movimentos pastoris etc –, foram aos poucos provocando discussões em outros que vieram a se encontrar com tais provocações, sem, no entanto, fazer com que os trabalhos mais comuns deixassem de existir. Não se trata, portando, de uma substituição de discussão e técnicas, mas de uma abertura de leque de possibilidades combinatórias.
É difícil, senão impossível, imaginar que um determinado dia surja um movimento e depois acabe da mesma forma como começou, como o autor afirma “não há nenhuma linha divisória entre a cultura ‘medieval’ e a cultura do ‘Renascimento’” (PANOFSKY, 1964, p. 25). O mesmo pode-se dizer de qualquer outra época. O período de surgimento deveria ser longo, para seguirmos um raciocínio do óbvio. Após muitos trabalhos feitos com o uso da linha, por exemplo, surge um que não a utiliza, para, depois de muito tempo, surgir outro. Uma vez que a discussão está aberta nem todos a percebem e sua propagação começa a se estruturar lentamente. Essa estruturação não ocorre, obviamente, em separado da arte “vigente”, pois seria o mesmo que pensar que nada se faz enquanto se pensa no que se fará a seguir. Desta forma, sou levado a crer que o aumento da discussão gerada por um movimento enfraquece outros à medida que ganha forma. Não posso, no entanto, crer numa simples linha evolutiva onde um trabalho substitui o outro, por ser mais complexo. A questão vai além: a diferença de pensamento e estudos de toda uma época possibilita a manutenção de diversos “movimentos”, por assim chamá-los, mesmo que quase esquecidos e não lembrados, que carregam por muito tempo uma chama que pode voltar a se fortalecer ou “apenas” influenciar outros trabalhos, à medida que é experimentada e incorporada por este, fazendo parte então da criação de algo totalmente novo, a partir do conflito deste com o que se fez até então, de tudo que já foi estabelecido.
Devemos pensar ainda que a própria língua estava se modificando no período anterior, chamado Idade Média, e esse movimento da linguagem torna-se essencial para o questionamento de uma época, de suas influências. Talvez não seja arriscado pensar que a possibilidade de perder o elo com os antepassados, com a tradição, levasse a uma necessidade de repensá-la, para manter o pouco que restava, já que a língua, essencial ao espírito da época e sendo, talvez, seu maior reflexo, estava mudando/mudada, se dividindo em outras. Por esse pensamento podemos lembrar a associação proposta por diversos autores, e citada por diversas vezes no texto, entre poesia e pintura. Esse mesmo sentimento pode ser pensado pela citação de Ramée dada pelo autor, onde aquele afirmava que “alegrava-se pelo fato de os médicos agora poderem ler Galeno e Hipócrates em vez dos árabes e os filósofos Aristóteles e Platão em vez dos Escotistas”. Se pensarmos em visão evolucionista, teríamos que, em sua época, Petrarca teria feito como os românticos viriam a fazer depois, ou seja, classificar de forma questionável o que se fez antes de seus dias, uma espécie de visão do novo senhor sobre o antigo: “quem duvida que Roma poderia levanta-se de novo, bastando para isso conhecer-se a si mesma” (PANOFSKY, 1964, p. 39).
Panofsky cita Vasari, dando uma idéia fundamental para estruturarmos essa maneira de pensar o movimento histórico, ao lembrar que este afirmara que “Brunelleschi redescobrira as medidas e proporções dos antigos; as obras de Donatello se lhe igualavam; e Masaccio brilhava pela sua nova maneira de colorir, de perspectivar, pelas posições naturais e pela maior expressão das emoções da alma bem como dos gestos do corpo” (PANOFSKY, 1964, p. 43). Dentre tais elogios, me parece digno de nota o fato de Vasari afirmar que Masaccio brilhava pela sua “nova” maneira de colorir. Temos, daí, que Masaccio não era mais um imitador dos antigos, mas alguém desenvolvendo um novo trabalho, discutindo, a ponto de criar novas técnicas. Esse desenvolvimento feito sobre o classicismo, o resultado dessa discussão, foi a doutrina, revelada pela “perdida doutrina dos antigos” (PANOFSKY, 1964, p. 52).
A própria confusão, difícil de “resolvida” nos dias de hoje, já os afetava quando de alguma forma começaram a se questionar sobre a mudança que se fazia notar: “Filarete e Manetti referenciam-se às velhas construções dos arquitetos transalpinos (a cujo estilo haveríamos de chamar de gótico) como moderni e às construções feitas segundo o novo estilo do Renascimento, antichi ou allá romana et allá ântica” (PANOFSKY, 1964, p. 59). Creio que o fato de classificarem o que estava sendo retomado como antigo ou “à romana” dava-se pela falta de clareza que tinham, no momento, sobre as mudanças e novas discussões que se faziam sobre a antiguidade, pela sutileza que ainda não se fazia notar, dando em seus contemporâneos a impressão de que era “apenas” repetição. Possivelmente daí veio a necessidade de Vasari em forjar uma terminologia que evitasse a confusão, percebendo que essa retomada não era uma repetição, mas uma continuação, “trazida à luz” por Masaccio e que “começou a ser praticada por todos os nossos artistas até aos nossos dias”, embora louve Leonardo por “ter lançado os fundamentos desse estilo a que decidimos dar o nome de moderno” (PANOFSKY, 1964, p. 61). O autor refere-se, durante o texto, a erros de Vasari que não estou apto a discutir, mas baseado nas citações, sou levado a crer que se houve erro, foi apenas pela proximidade em relação aos acontecimentos, da mesma forma que não estamos ainda aptos a perceber tudo o que está se desenvolvendo à nossa volta, estando limitados a criticar coisas com que não concordamos, louvar outras tantas e especular possíveis desenrolares.
Pelo exposto anteriormente, concordo com Panofsky apenas em parte quando ele afirma que “houve um Renascimento que principiou na Itália na primeira metade do século catorze, alargou suas tendências classicizantes às artes visuais no século quinze e, subseqüentemente, deixou sua marca em todas as atividades culturais do resto da Europa” (PANOFSKY, 1964, p. 69). Um Renascimento quantitativo pode ser aceito, como uma grande “retomada”, mas qualitativamente me parece questionável. Se houve evolução de sua primeira manifestação para a atual, não creio que podemos pensar qualitativamente em relação aos “renascimentos” menores, pois esses “menores” não me parecem ter sido renascimentos, mas continuidades, como vemos com movimentos que estão próximos à exaustão, que continuam agonizantes até o momento em que alguma mudança/questão lhe dá um novo sopro de vida. Baseado nisso, suponho que não houvesse em algum momento entre a queda de Roma e o chamado Renascimento algum resquício da tradição clássica, o Renascimento, como tal, não teria ocorrido, pois seria como tentar resgatar algo já esgotado, ao contrário de dar fôlego a algo de potencial. Esses resquícios, como cita o autor, podiam ser encontrados em regiões como a “Itália, o Norte da África, a Espanha e o Sul da Gália, onde se pode observar a sobrevivência do que foi candidamente designado por estilo ‘subantigo’” (PANOFSKY, 1964, p. 71).
Através de outros exemplos, Panofsky nos mostra que esses resquícios podiam ser encontrados tanto na “alta Idade Média” quanto no período carolíngio (PANOFSKY, 1964, p. 75-121), para citarmos apenas estes, e se ignorarmos essa continuidade, corremos o risco de começarmos a fazer classificações baconianas, pensando de forma que “o melhor substitui o pior”, quando na verdade o processo como tal é único, portanto, nem melhor nem pior, e dele vem a possibilidade histórica. Ao utilizar termos como “medieval”, que dividem a época por longos períodos, tenho a impressão de que Panofsky, embora tenha ciência dos problemas que essa divisão causa, estivesse propenso a trocá-la por uma outra, em períodos menores, tão problemática quanto a primeira em termos de progresso. Uma divisão em épocas menores pode, a meu ver, ser uma etapa no caminho para a solução da organização do movimento histórico de forma que possa ser estudado e compreendido, ou seja, é uma etapa na medida em que os períodos menores possibilitam um melhor vislumbre das discussões propostas por meio da criação artística, para não dizer humana, mas não pode ser definitivo enquanto ainda pode ser transformada em uma substituição lógica de um trabalho por outro, distante da realidade.
Referências bibliográficas:
Panofsky, E., Renascimento e renascimentos na arte ocidental, Lisboa, Editorial Presença, 1964
Mais um dos textos que estavam esquecidos em algum lugar, nas gavetas de casa. Revirar as gavetas faz com que eu revire também as internas.
Segue:
O corpo único, vertiginoso em todo seu momento, incorpora duos.
Perde-se em si próprio em um ciclo que, quando completo, se reinicia: espiral que aumenta a perda/ganho, mais-querer.
É necessário o reiníncio que unicamente pode substituir a frustração pelo êxtase, como diria Bataille, “ele mesmo é a mulher já esquecida da presença dele, mas excitada no aperto de seus braços” ou, em Nietzsche, “todo prazer requer eternidade”.
Sim, é este eco que se faz ouvir, no brado do sensível a busca do gozo impossível, do extremo que ultrapassa o coito. Transgressão: busca de retorno progressivo à situação natural, de onde surge o apelo de vida, o apelo de morte, o amor que rege o homem-natural, solitário, única chama, acompanhado do impulso erótico que mantém acesa a busca inatingível do Super-Homem.
“O movimento é figura do amor (…) e o esquecimento que vai condicioná-lo”. Novamente recomeçará o movimento, assumirá seu ritmo, mantendo a dialética de vida e de morte se enlaçando.
Corpos em furto mútuo de complementação/continuação. Inacabável explosão que exige seu fim para renascer. Essa Fênix interna alimenta o consciente com sensações e tira sua lógica entregando-o ao outro, incorporando-o, completando o ciclo, expandindo-se em si próprio.
Espiral: do fim ao começo, do meio ao começo e ao fim a superação grita seu espaço, se expandindo/superando em torno do centro, o imaginário.
Este movimento se torna mortal em uma relação de dependência extrema, onde se recria ou se morre/ assassina.
A natureza exige ser recriada sobre a pena de recriar.
- Algum dia de 1991
Este texto foi escrito há muitos anos para integrar um trabalho do Grupo Surrealista de São Paulo, que seria entregre ao grupo da Espanha. Na verdade não sei como isso ficou e nem se foi enviado, mas um dos meus trabalhos (eram vários) foi esse. Os demais (desenhos e colagens) não ficaram comigo e não tenho cópias, uma pena.
Segue:
Partem juntas e caminham juntas. Mesmos caminhos e situações se repetem, cabendo ao objetivo ver e re-criar as portas, transgredindo a cada vez. Premissas são o ser e seu duplo, sem que um saiba quem é o outro, sem que saiba quem é o ser, sendo um.
Não há paz duradoura. Não quero paz duradoura! O anel deve-se romper, criando outro e outro: uma espiral. Qual movimento é mais belo entre o abrir e o fechar de uma rosa? Na idéia de subversão da lógica, de inversão, está a violência e no fechar está a beleza. No todo está a ruptura. O despedaçar de uma faísca amendoada num reator termo-corporal é tão velo quanto o despedaçar do corpo por uma faísca amendoada.
Esta espiral pode ser esticada, traçando um caminho. Resta a cada ser localizar o ângulo de posicionamento da reta obtida: a mediocridade da horizontalização ou a verticalização (retorno progressivo). Novamente as pontas dessa reta tocar-se-ão, traçando um anel que, rompido, dará origem à nova espiral.
Premissas são o desejo, partida única.
10/1992
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Comentários rápidos, 16 anos depois:
- abusei!
- ainda vejo o mesmo simbolismo em muita coisa. Sei o que “faísca amendoada” significa, por exemplo;
- escrevia melhor antes;
- entendia mais de dialética lendo Hegel por brincadeira do que lendo a sério, pra faculdade;
- por fim, me orgulho de ter rabiscado isso aos 19 anos.
De minha parte, continuarei a habitar minha casa de vidro, de onde se pode ver a todo instante quem vem me visitar, onde tudo o que está pendurado no teto ou nas paredes se sustém como que por encanto, onde repouso à noite, sobre um leito de vidro com lençois de vidro, onde quem sou me aparecerá cedo ou tarde, gravado em diamante.
Sempre, desde que li “Os manifestos do surrealismo”, admirei Breton. Há coisas com as quais não concordo, como sua relação com a política, ou o que diz sobre Dostoievski, para citar alguns exemplos, mas é óbvio que não é necessário concordar com tudo que uma pessoa diz ou faz para admirar sua obra.
Nadja, por vários motivos, é um dos livros que mais gosto. Sempre que retomo esse livro é porque procuro por mudanças. É inconsciente, percebo apenas depois. Percebo agora, quando escrevo.
O fragmento acima é um dos mais belos exemplos de imagem de sua obra. Existem outros, centenas, muitos, mas esse é de Nadja e, por isso, o escolhido.
Se o que somos aparecer gravado em diamante implica dureza, transparência e brilho. Implica que há algo de raro. Implica também eternidade. A essência é eterna e embora única, tem nuances, diferentes faces, como um diamante.