Vou fazer como a maioria do povinho que tem blog/fotoblog/blablablog e afins faz: pegar um texto dos outros e postar. A diferença é que geralmente fazem isso pra tapar buraco, por não ter nada a dizer. Posto esse por outro motivo: Clarice Lispector é genial.
Segue:
“Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.
Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de “solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos – e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força – eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.
Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho.”
“A Descoberta do Mundo”, Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1999
Continuando a série: odeio fazer qualquer coisa por obrigação. Qualquer coisa. E esse é o motivo de eu não saber se vou continuar escrevendo essas confissões. Depois que fiz a primeira, numerada, e disse que faria mais, fiquei pensando naqueles números: parte I, II, III, IV…. Poderiam até ser dias, um após o outro, horas, minutos. É rotina, rotina é obrigação e obrigação cansa.
Quando era mais novo eu me achava indisciplinado, pensava que não conseguiria fazer nada que exigisse muito esforço, mas isso, no fundo, não era verdade e hoje entendo melhor. Comecei a ter aulas de violino, adorava. Algumas aulas depois e eu já me sentia obrigado a ir. Dá pra imaginar o restante. O mesmo vale pras aulas de guitarra etc.
Percebo que não era indisciplina quando presto atenção na forma como trabalho e sempre trabalhei ou como me entrego às coisas que faço realmente por gosto: não penso duas vezes, não questiono se estou ou não com vontade, vou e faço.
O problema é quando algumas coisas que são feitas por gosto se tornam obrigação. Quando comecei a fazer músicas em meu quarto, ligava o computador, compunha, montava, editava, mixava, blá blá blá… Um dia soltei uma demo, divulguei relativamente bem, deu bom retorno, alguns bons reviews, outros nem tanto.
Continuei trabalhando em músicas novas, mas acontecia de alguém perguntar “e ai, quando teremos músicas novas?” e a coisa começou a degringolar… Me sentia obrigado a compor, bem como a dar satisfação. Deixei 12 músicas prontas, prontas pra gravar vocais, esquecidas por quase dois anos no computador. Um dia decidi que estava cansado delas e liberei como estavam, sem voz. Foi um tipo de exorcismo, eu sei. Não acho que letras e vocais sejam importantes em música, mas não é esse o ponto. O ponto é que não faço mais pq ainda me sinto obrigado. Uma hora, quando não me sentir mais, quem sabe…
O mesmo tá valendo pro site, pros escritos, pros rabiscos: estão se tornando obrigação. O chato é que sempre há um tanto de desapontamento por conta disso. Não gostar de fazer por obrigação é compreensível, ninguém gosta, imagino, mas não evita aquela pontada afiada que diz “falhei”.
Há alguns anos, em 1997 para ser mais preciso, estava estudando Maat Magick e – não vou entrar em detalhes – tive uma conexão muito interessante com o trabalho de Soror Nema, com quem mantinha contato por email e com quem aprendi várias coisas.
Um dia desses encontrei o arquivo com o Liber Pennae Praenumbra, que traduzi na época, antes da Madras publicá-lo oficialmente em português. Muita coisa está ruim e precisa de melhorias. O fato é que é praticamente impossível traduzir um livro “inspirado”, de forma qualquer tradução será, sempre, apenas um apoio ao leitor do original. Como traduzir isto, por exemplo: “The pylons of the ages are unshaken, firmly are they Set”? Literalmente? E ignorar a óbvia alusão ao deus Set? Optei por Set.
Por fim, recomendo a leitura do original, bem como das “notas e comentários” da scriba, tratando de detalhes, da qabalah e da interpretação do texto. Tanto isso quanto os rituais podem ser encontrados em seu livro, Maat Magick.
Segue:
No Akasha-Eco isto é inscrito:
Pela mesma boca, Oh Mãe do Sol, é suspirada a palavra e o néctar recebido. Pela mesma respiração, Oh Contrapeso do Coração, é o manifesto criado e destruído.
Mas há um portal, embora pareçam ser nove, Mímico dançarino das Estrelas. Quão formosa tua teia e tecido, a-reluzente no fogo-escuro do espaço!
Os dois que nada são te saúdam, Chama Negra que move Hadit! Quanto menos Um cresce, mais Pra-NU se manifesta. Fale a nós agora, as crianças do tempo-por-vir; declare tua vontade e concede nos teu Amor!
Falou então Aquela que Move:
Eu derramo sobre vocês, Crianças de Heru! Todos vocês que amam e guardam a Lei, Nada guardando para si mesmos, são a-bençoados. Vocês tem procurado os pedaços espalhados de Nosso Senhor, incessantemente para montar tudo que tem sido. E no Reino dos Mortos vocês produziram dos Mortos o Iluminado. Vocês deram à luz e O alimentaram.
Vossa Terra de Leite deve também ter o mel, deixado cair como orvalho pelo Ginandro Divino. O prazer e deleite estão no Trabalho, o Todo excedendo as Partes juntas.
O Senhor das Partes é colocado em seu reino, como pela Besta e pelo Pássaro. A terra do Sol não é aberta às Crianças. Atenção à Criança Eterna – seu Caminho flui livre, adaptado à Natureza de sua existência.
Uma Voz Gritou no Eco de Cristal:
Que significa essa demonstração? É o Tempo em Si Mesmo esperado? O Falcão voou sessenta e dez em Seu trajeto acumulado!
Ela sorri, linda como a Noite:
Observe, Ele abre as pontas de Suas asas ainda em vôo, banhando e agitando a Luz Dourada sobre os corações dos homens. E em que Ele voa, e por que meios? A Pena e o Ar são Seus para cavalgar, para suportá-lo sempre em seu IN-do.
Os pilares das eras são imutáveis, firmes eles são Set. O Dia do Falcão está amanhecendo, e verá sua devida medida segundo as Leis de Tempo e Espaço.
A Voz então falou:
Então a Visão falhou? Eu Os observo deformados, pensando em Ti como Quem Tu Não és?
Ela dançou e girou, espalhando a luz das estrelas em sua risada silenciosa.
Eu Sou Quem Eu pareço ser, às vezes, e então novamente Eu visto um véu triplo. Não se confunda! Acima de tudo, prevalece a Verdade.
Eu sou a Ilimitada. Quem lá está para me dizer não, para dizer, “Você não deve passar”? Quem realmente pode dizer, “Seu tempo ainda está por vir,” quando o próprio Tempo é meu principal servo-criado, e Espaço o Major-domo de meu Templo?
De fato, Oh Voz do Akasha, Eu sou os meios pelos quais você fala. Pela mesma boca que respira o Ar, despeja palavras de dúvida. Então em silêncio, Me conheça. Pois Eu venho com propósito desta vez, para auxiliar os Amantes do Falcão a voar.
A Palavra de Vôo
Quem hesita no Vôo deve por isso cair: a grandeza dos Deuses está no IN-do.
Quando pela primeira vez vocês voaram, Amados de Heru, quebraram a concha que longamente os protegeu. Sobre as Asas da Vontade vocês se aventuraram, ganhando vigor e força vocês voaram. Vocês ganharam todo o conhecimento do Reino Emplumado, pelo que se tornaram perfeitos como o Sol. Todos os amigos e mestres se tornaram irmãos.
O Cisne real, a Garça e a Coruja – o Corvo e o Galo lhes ajudaram. A Beleza do próprio Falcão foi concedida, as virtudes do Pavão, o Colibri e Pombo. A Águia revelou sua natureza interior e seus mistérios – observem, vocês testemunharam como, com seu Leão, ela se tornou o Cisne. E o Íbis do Abismo mostrou o Conhecimento.
Vocês voaram, Oh Reis e Eremitas! E voaram mesmo agora, dentro do encanto curvado de NU. Mas há aqueles dentre vocês, e abaixo de vocês, que laçariam suas asas e os arrastariam do céu.
Olhem bem fundo! Julguem seu Coração corretamente! Se vocês são puros, ele não pesa mais que Eu. Isto não os trará para dentro do Abismo. Pois Ouro é Luz/Leve, mas Chumbo é fatal quando em vôo – observe suas próprias profundidades, em Verdade e em auto-conhecimento.
Se algo te impede, é teu feitio. Observe agora este ensinamento dentro do Templo.
Assim dizendo, Aquela-Que-Move assumiu a forma da grande Chama Negra, crescendo do tronco central e ondulando dentro do Vazio. As Crianças de Heru observaram em silêncio, e escutaram Suas palavras formarem-se em seus corações.
Observe! Esta lente de Estrelas se tornando Espaço frente a vocês – os homens a nomearam corretamente como Andrômeda. Através delas fluo para a Lua do Cão sagrado, e dali a Ra, e dali a vocês, Oh Sacerdotes.
Vocês não devem ficar satisfeitos enquanto no Reino, mas lutar e assim exceder o que é feito. Em Amor da Dama do Norte, e em Vontade do Príncipe do Sul, fazei que cada coisa seja. Na força da Estrela de Sete-raios devem compreender a Besta. E desde HAD do Coração se deleitem na tua querida estrela-arcada.
Faça tudo isto, e então, vá além. Abandone qualquer coisa que possa te distinguir de outra coisa, sim, ou de não-coisa/na-da (no-thing, no original). Se caires em armadilha, deixe teu manto-de-penas a-balançar em sua mão e seja invisível e nua para além!
Mas agora! Como sacerdotes dentro do Templo vocês estão aqui, como Reis, e Guerreiros, todos Magos. O Caminho está na Obra.
O Um Escondido do Abismo agora dá os dois onde é forjada a alta Alquimia: suportando a Terra está Chthonos – aprenda bem, e todos as amarras se soltarão para a Obra da Vontade. Acima do Espirito, lá está Ychronos, cuja natureza é duração e a morte disto.
Os dois são um, e formam a essência do Reino. Quem os domina é Mestre do Mundo. Eles são as chaves completas da Transmutação, e chaves da força dos outros Elementos.
Os Guerreiros-Sacerdotes receberam as Chaves, e as colocaram dentro de seus robes, para mantê-las bem ocultas acima de seus corações. A Chama Negra dançou e decaiu, se tornando pequena, uma pena, emplumada e pontiaguda. Não tendo nada sobre o que escrever, um dentre os Sacerdotes veio à frente, e colocou a pele de seu corpo sobre o altar como um pergaminho vivo.
Aquela-Que-Move escreveu sobre ela uma Palavra, mas não colocou diante eles. Em paciência esperaram os Reis e Eremitas, assegurando a completa Compreensão final.
A Pena cresceu outra vez, arredondada em suas margens, tornando-se perante seus olhos o Yonilingam. Veio a imagem do Antigo Baphomet, O Chifrudo, que falou:
Há tempos vocês sabiam a Chave dos Dois-em-Um unidos. Vocês viveram e amaram completamente como NU e HAD, como PAN e BABALON. O Mistério de minha própria imagem vocês também conhecem, como era uma Verdade para as antigas Ordens do Leste e do Oeste.
Bipartida tem sido a Raça dos Homens em sua época. O Pai e a Mãe fizeram uma Criança. Eu sou a mais antiga das Crianças, verdade – mas agora o jovem ascendem para Seu Dia.
A natureza da verdadeira Alquimia é que isto muda não só a substância da Obra, mas muda então também o Alquimista. Vocês cuja Vontade é Trabalhar por esse meio, observem minha imagem inversa, e considerem bem seu significado para tua Tarefa.
A Demonstração da Imagem
De fora do Yonilingam soprou uma Nuvem, violeta e lampejante. No coração nublado um som surgiu, vibrando macio, preenchendo toda parte.
Adornada e reluzindo luzes-arco-íris das asas, pairou no meio uma humilde ABELHA. Listada de ouro e marrom, suavemente peluda e encurvada na forma, brilharam seus olhos sobre os Sacerdotes e Reis reunidos.
Falou então Aquela-Que-Move fora da névoa circundante:
Isto é o símbolo da Obra-por-vir, o Grande Ginandro em sua forma Terrestre. O Mago deve crescer por sobre a ABELHA enquanto o Aeon se desdobra, um líder e um sinal sobre a Raça dos Homens.
Que então nos mostra a ABELHA de sua natureza?
Observe, isto não é masculino nem feminino no singular. Trabalha de dia em vôo constante, um fa-zedor sem ego, cuja vontade e Vontade da Colméia são apenas uma.
Coleta o néctar da flor, voa para a Colméia e lá, em pura Com-Unhão, faz seu corpo Transmutar.
O néctar agora é mel. Abelha a abelha, é transferido, falando todos os Mistérios da Colméia de e para cada boca. Pela mesma boca que primeiro coletou, é o mel consumido, a Alquimia secreta dentro dos Centros tornando Prata em Ouro.
A Colméia agora vive, imortal. Com rainha e trabalhadores, zangões e operárias, soldados e madrastas – todos são um. Em constante renovação da vida, a Colméia respira como Um Ser – pois realmente é isto. Na Vontade da Colméia está preenchida a Vontade da Abelha. Cada uma em seu lugar, as Abelhas trabalham sua Vontade em ordenada harmonia.
A imagem desaparece. Agora a equilibrada Pluma se move numa dança elegante, abrindo as longas asas, tomando a forma do escuro Abutre.
Mas saibam, Oh Crianças do Falcão, um Homem não é uma Abelha. Ele pode se beneficiar desta imagem, para aprender da Sabedoria da Obra. Observe em Mim outra imagem para instruir teu coração.
Ergueu-se ante seus olhos a Torre do Silêncio, em que os Amantes do Fogo depositam seus mortos.
A forma do Abutre desceu suavemente, e comeu a carne dos cadáveres, até o osso. O vento uivou, desolado, neste lugar medonho, agitando as mortalhas sobre os esqueletos de marfim.
Silenciosamente, O Alado olhou, o bico sujo de sangue. Dentro dos olhos de cada Sacerdote lá reunidos, seu olhar pernicioso procurou. Em paz perfeita eles observaram sua busca, pois cada um, como Guerreiro, tinha feito da Morte um irmão. Então deliberadamente, ele abriu suas asas, pegou o vento, e decolou daquele lugar.
A Entrega da Palavra
Eternidade então reinou, Infinito o véu que penduraram sobre eles.
Em Algum Lugar, algum dia, o véu se abriu por um momento, e Aquela-Que-Move passou. Mais atrativa que qualquer mulher mortal havia sido, Ela irradiava um brilho de pérola e ametista. Bem dobrado linho era Seu vestido, cingido em ouro e prata, e em Sua cabeça, um nemyss de estrelado azul. Sua coroa era uma única pluma, ereta, e em suas mãos o Ankh e o Bastão da cura.
Sobre cada Guerreiro-Sacerdote ela se moveu, os abraçou e os beijou. Então, pousando no meio, Ela falou como um colega de mesmo nível.
“Todos vocês que praticam a Alta Arte, escutem. Nada deve haver escondido de tua vista. Todas as formulas e Palavras vocês devem descobrir, sendo iniciados por aqueles que Trabalham para ajudar a Lei da Vontade.”
“Vocês trabalham bem em tudo que tem sido dado; sobre a Árvore da Vida são vocês encontrados. No Tetragrammaton vocês continuaram; tudo dado pela Besta vocês praticaram corretamente. Vocês tornaram-se Hadit, e NU, e também Ra-Hoor-Khuit. Como Heru-Pa-Kraath vocês continuam em silêncio. Vocês conhecem PAN como amante e como forma divina, e BABALON é noiva e Seu Ser.”
“Vocês engendraram as forças de Shaitan, extraindo o nexo do noventa e três para trabalhar sua Vontade. Separação para o prazer de União vocês conheceram, e Alquimia é Ciência de sua Arte.”
“Para aqueles que sabem, e vão, e ousam, e se mantém em silêncio, isto agora irá além.”
“Na morte está a Vida – agora como sempre tem sido. A Morte Querida é eterna – guarde isto. O Ego, filho de Maya, deve ser assassinado no momento do nascimento. O Olho que não dorme deve manter vigília, Oh Guerreiros, pois a ilusão é auto-gerada.”
“Observação constante é o primeiro Ato – o Abismo é cruzado em minutos, todos os dias.”
“Se vocês podem dançar a Máscara, então mascarem a Dança. Seleta deve ser a Arte nesta instrução; e equilíbrio no Centro seja mantido, ou senão dareis inusitada Vida a tuas próprias criações. Trilhe cuidadosamente este caminho de Trabalho, Mago. Uma ferramenta, por Vontade criada, faz um mau mestre.”
“Agora na Missa, a Águia deve ser alimentada com o que ajudou fazer. Pela mesma boca que ruge sobre a montanha, é dada a palavra-ato de Nenhuma Diferença.”
“E quando a Vontade declara, deverá se agrupar à ABELHA para somar o ouro ao vermelho e ao branco. A essência de Shaitan é Néctar aqui, o Templo é a Colméia. O Leão é a Flor, agora é o momento, a Águia invoca a natureza da ABELHA.”
“Dentro da câmara-tripla do santuário é o primeiro néctar colhido. A convocação do bastão de PAN desperta a felicidade do portal se abrindo. E da terceira e mais íntima câmara, em prazer supremo, o presente de Sothis, hidromel quintessential, reunidos para unir lágrimas-de-Águia e sangue-de-Leão.”
“Solve et Coagula. Com-Unhão por esse meio, de que o próprio Cosmos dissolve, e re-forma por Vontade. E saiba, se de qualquer forma pode ser ordenado no Reino, que três ou mais é zero, assim como as antigas verdades.”
Então se agitaram os Guerreiro-Sacerdotes, e de seu número, um sem nome se adiantou.
“Nós a conhecemos, Senhora, embora Teu nome não tenha sido pronunciado. Mas diz agora – o que foi escrito na pele do homem? Qual é a palavra que Tu destes?”
Ela sorriu e tirou de seu manto um pergaminho ressecado, dobrado como uma Estrela. Desenrolando, Ela o virou, para que todos pudessem ver.
IPSOS
“Que é esta Palavra, Oh Senhora – como pode ser usada?”
“Em sabedoria silenciosa, Rei e Sacerdote-Guerreiro. Deixe a escritura brilhar e deixe a palavra ser oculta; a escritura é iluminação suficiente para velar a face.”
“Esta é a palavra do vigésimo-terceiro caminho, cujo número é cinqüenta e seis. Esta é a Permanência do não dito, em que a Dança da Máscara é ensinada por Mim. Tahuti observa sem o Macaco; Eu sou o Abutre também.”
“Este é o Cálice do Ar e o Bastão da Água, a Espada da Terra e o Pantáculo de Fogo. Isto é a ampulheta e a serpente mordendo a cauda. Isto é o Ganges se tornando Oceano, o Caminho da Criança Eterna.”
“Isto nomeia a Fonte de Minha Própria Existência – e da sua. Isto é a origem desta transmissão, que canaliza através de Andrômeda e Set. Que raça de deuses fala aos homens, Oh Queridos/Cheios de Vontade (Willed, no original)? A palavra deles é ambos o Nome e o Fato.”
“Isto é para teu mantra e encantamento. Falar é efetuar certa mudança. Seja prudente em seu uso – pois se a verdade for conhecida no exterior, poderá talvez levar os escravos à loucura e desespero.”
“Apenas um verdadeiro Sacerdote-Rei pode conhecer completamente, e permanecer em equilíbrio em seu IN-do (GO-ing, no original) vôo. Isto é tudo que falo por hora. O Livro da Ante-Sombra da Pena está completo. Faze que tu queres é o todo da Lei. Amor é a lei, amor sob vontade.”
# Donat per Omne
# Scriba – Nema
# Sol in Capricornus
# Anno Heru LXX
# Cincinnati, Ohio
“Yea! deem not of change: ye shall be as ye are, & not other. Therefore the kings of the earth shall be Kings for ever: the slaves shall serve. There is none that shall be cast down or lifted up: all is ever as it was. Yet there are masked ones my servants: it may be that yonder beggar is a King. A King may choose his garment as he will: there is no certain test: but a beggar cannot hide his poverty.”
- Liber AL, II, 58
Há alguns anos li um trabalho bem interessante do historiador Georges Duby, chamado “A sociedade Cavaleiresca” (Martins Fontes, 1989 – recomendo, mas duvido que alguém leia), que trata, é claro, da formação das cavalarias na Idade Média. Há algumas teorias e estudos baseados em documentos da época, mas basicamente e muito, muito resumidamente, parte do que ele diz é que por volta do ano 1000, com o enfraquecimento dos nobres e o fortalecimento da igreja, foram lançadas campanhas de paz, com a igreja trazendo pobres para perto de si, mantendo-os longe das armas. As armas eram, então, mantidas por alguns, dispostos a lutar e que recebiam por isso, vindo cada vez mais a fortalecer-se, como uma espécie de classe.
Os pobres não lutavam, outros eram covardes, outros padres, mas nada disso impedia – o contrário – que existissem outros, dispostos a combatê-los e tomar o que tinham, ou ainda pessoas dispostas a criar confusão, não preocupadas com o a campanha de “paz” proposta.
Daqui pra frente sou eu escrevendo, baseado em outras leituras e observações, algumas mais atuais do que vocês podem pensar, e não mais um resumo simplificado de Duby: esses cavaleiros eram pagos para protegê-los, mas é claro que as pessoas não gostavam de pagá-los. A covardia ou a religião que assumiram os impedia de lutar, mas ao mesmo tempo achavam injusto pagar outrem. Esperavam serem protegidas apenas por boa vontade. Ora, a justiça!
Percebem alguma semelhança com hoje, 1000 anos após? Querem que morram por eles, literal e metaforicamente, mas não querem fazer sacrifícios. Ora, a covardia!
Não lutam em tempos de guerra, reclamam de sua duração, reclamam dos gastos, reduzem a coragem de quem os defende a mero produto à venda. Mercadoria cara, diriam eles. Em tempos de paz, preferem evitar os gastos, afinal, já não precisam mais daquele serviço. Seria, digamos, como queimar plantações logo após o almoço, pois não se sente mais fome. Quando a fome voltar e não houver mais nada disponível, amaldiçoarão aquele que não oferece os prazeres esperados. Ou a proteção esperada, para continuar no assunto.
Aquele que não luta, não se defende, não tem disciplina e, principalmente, não entende um certo nível de ética, não aquela de cordeiros, mas a de soldados nascidos, de reis, merece de fato morrer como escravo e ter seu nome esquecido.
Acontece, porém, que mesmo dentre esses covardes existem aqueles que estão em um nível ainda mais baixo, aqueles que usam as palavras como arma para combater o que mais precisam. São aqueles escravos que usam da retórica ou da pequena influência que possuem, da ignorância das massas, dos fenômenos dos rebanhos, que percebem apenas a entonação das palavras, não seu sentido, assim como os cães. São nada mais que isso: cães. Domesticados, enfraquecidos, sem instintos, intelectuais!
Instintos não são apagados pelas palavras e pela razão. São jóias na coroa de reis, são parte da divindade. Quem não age com vísceras, nunca as teve. Aquele que fala da dor sem nunca tê-la sentido, aquele que fala de guerra sem nunca ter lutado, que fala de derrotas sem nunca ter perdido, de vitórias sem nunca ter vencido, formado por páginas lidas e não por experiências.
É o enfrentamento que mostra as vísceras.
“Ye are against the people, o my chosen!” (Liber AL, II, 25).
O texto abaixo é de autoria de Hildebrando de Lima e foi resgatado de uma biblioteca por Sérgio Lima, de quem tirei a cópia que tenho em mãos, que o levou a uma reunião do Grupo Surrealista de São Paulo em 1992. Não tenho a fonte do texto, haja visto que por uma infelicidade não tirei cópia desses dados, mas sei que é de 1928 e é com o português de então que você irá encontrá-lo.
Procurei por esse trabalho na net há algum tempo e não o encontrei, dai a vontade de colocá-lo aqui. Algumas coisas não deveriam ser esquecidas e perdidas, simples assim.
Segue:
- Tu também, Luis, chamares-me de louco!
E um esgar abriu-lhe a bocca, num sorriso ironico, em que os dentes ponteagudos, como talhados a formão, enegrecidos pelo uso do “haschich” e da nicotina, punham uma nota selvagem, suja, sob o lábio delgado, espiritualisado…
- São raras as Lindamôres na terra em que eu nasci, que não os tenham assim, como lanças! Mas a Lindamôr de que falo eu… Louco!? Tens, porém, razão de sêres cego… Surdo… E mudo… O mundo exterior não existe para ti. Muito menos o interior. Olha, as sensações são grãos. As deformações que ellas trazem são grãos, padrões, medidas de aferição…
- Estygmas…
- Estou a ver, porém, que não me comprehendes. Não me compreenderás jamais… Lindamôr… Oh! a agudeza dos seus sentidos a apontar para o alto, como uma flecha lançada! Tu não sabes absolutament o que está do outro lado do prazer… que tu chamas dôr… com periphrases de ungentos e de emplastos… Tu procuras equilibrio para o teu espírito na insensibilidade, na indifferença, no comodismo, em todos os “ismos”, em todos os “ades” e “enças” dos antiloqueos burgueses, inexpressivos, idiotas… Louco, chamo-te eu, meu insensivel, meu indiferente, meu commodo Luis! Louco como o mais louco. O que ha de facto por ahi, e é o teu caso (casos de manicomio), são espiritos embotados, sensibilidades estreiras, inextensiveis. Esticadas, essas sensibilidades, por poquinho que seja, arrebentam. Uma cocegazinha, eil-os a rir. Uma alfinetada fal-os chorar. Principalmente se esperam a alfinetada (no que entram o sensorio e a intelligencia como partes). Lindamôr! Dava-se com seu genio a solidão. Era de vel-a, quase bella, com os seus dentinhos cortados em ponta, as suas sobrancelhas arqueadas, os seus vestidos de chitão vermelho e o beicinho tremulo, bru-u-u-u-u-u-u… com que correia as capoeiras vizinhas, o chiqueiro e o curral. Naquelle dia de nuvens escondidas no céo, ella mesmo fôra dar a ração aos bacorinhos que grunhiam gulosos no chiqueiro. De volta descansou a gamella num velho coxo de madeira e deixou-se cahir sobre o velho tronco de araticum, onde a fazer lenha, exercitava os musculos e estimulava e (oh! coisa paradoxal) afogava, neutralizava o meu prurido doentio de destruição. As suas mãos, uma deixada no regaço, outra arrastando no chão, sobre as aparas de madeira que meu machado cortava nervosamente, tiveram um ligeiro movimento convulsivo, quando della me aproximei de machado em punho… E só. E eu? Tremendo, tiritando de medo e de emoção… Levantei outra vez o machado sobre sua cabeça… Nunca me julguei tão fraco para o amor. Deixei-o cahir para um lado e ajoelhei-me a seus pés. E com a cabeça no seu regaço tentei acalmar-me. Debalde, porém. Os teus nervos não permittem, nem por minucias, o relato desta história toda… Levantei-me de um salto, as suas mãos entre as minhas, e cobri-as furiosamente de beijos. Saquei do punhal… Que mascaras admiraveis se plasmaram no seu rosto de linhas vulgares! Principiei cortando-lhe os dedos da mão, phalange a phalange. E para reanimal-a, injectava-lhe ether de vez em quando… Ao desgarrar de um tendão, os seus empinaram-se-lhe, tão duros que enlouquecido de amor, arranquei-lhe os bicos com os dentes… Duas lagrimas de sangue correram-lhe o torso abaixo. Dos meus labios humidos e rubros fluiam palavras angelicas, que se mal ouviras, peior comprehenderas. Os seus olhos foram-se fechando devagarinho… Estava realizado enfim, o meu sonho de posse no absoluto, de gloria no amor, de previdencia contra a saciedade, e sobretudo, de prevenção contra as mil infidelidades em que é fertil o engenho feminino… Estava realizado o meu sonho e de morte e de belleza, alliviada a oppressão da minha febre immortal. Foi minha, destrui-a. Não com palavras, ou com os sentimentos vermelhos que o commum dos homens trazem dentro do peito, e cóleras contidas, e hypocrisias, mas com actos, heroicamente… Na destruição o absoluto… São gestos eternos que não se renovam. Só o marmore os permite. Com o escopro… Golpe por golpe.
- Hildebrando de Lima, Satanismo, 1928
Para quem se interessar, vale comparar esse trabalho com o outro, sobre Leibniz, para ver a diferença no pensamento dos dois filósofos. Vale notar que estas linhas foram bem mal vistas na USP, afinal não concordo com os que transformaram Espinosa em um teórico do MST.
“Na medida em que a alma conhece as coisas como
necessárias, tem maior poder sobre as afecções, por
outras palavras, sofre menos por causa delas”
Espinosa, Ética, Parte V, Proposição VI
Este trabalho tem por objetivo pensar a liberdade humana a partir do conhecimento de sua natureza, conforme a segunda proposta dada, a saber, “digo livre a coisa que existe e age a partir da só necessidade de sua natureza”, tendo em vista que a liberdade de Deus de se autodeterminar é a mesma que o homem possui ao conhecer sua essência e tornar-se ativo, buscando também sua autodeterminação.
Faz-se necessário, antes de continuarmos, vermos o que vem a ser natureza e ação na filosofia de Espinosa: na Ética, proposição XVI, parte I, o filósofo argumenta que “da necessidade da natureza divina devem resultar coisas infinitas em numero infinito de modos, isto é, tudo que pode cair sob um intelecto infinito”. Dessa necessidade segue-se que as coisas têm, então, uma causa necessária. Conhecer pela causa é conhecer verdadeiramente e, portanto, conhecer a causa é conhecer a natureza, saber a essência, que, no caso humano, refere-se a singulares.
A substância, única, é capaz de infinitas ações, das quais conhecemos duas, pensamento e extensão. Os efeitos dessas ações são os modos/afecções. As afecções são a forma de agir (ação) da substância, de forma que inteligir, considerar o que se sabe sobre as coisas como partes de sua natureza e procurar conhecê-las, é buscar conhecer sua causa, sua essência, aproximar-se de Deus. Portanto, como vemos no escólio da proposição IV, parte V, “devemos sobretudo trabalhar para conhecermos clara e distintamente, quanto possível, cada afecção”.
Ao tomarmos os homens como exemplos de coisas singulares, podemos concluir então que a liberdade, ou seja, o conhecer e viver de acordo com sua natureza, é onde reside sua divindade, tendo em vista que “tudo que existe são modos da natureza divina” e que “os modos da natureza divina são também conseqüência necessária, e não contingente, da própria natureza divina”, conforme a demonstração da proposição XXIX, parte I, da Ética.
Vivemos, no entanto, em ilusão de livre-arbítrio, pensando os atos como fins, quando são, na verdade, apenas efeitos. Sob tal ótica podemos considerar e compreender o exemplo dado por Espinosa em sua carta 58, ao demonstrar que uma pedra atirada por alguém, caso pudesse pensar, se esforçaria para continuar se movendo, crendo depender de si só, ignorante da causa de seu movimento.
Deus não escolheu criar as coisas como são: elas são necessárias, são parte da natureza divina, decorrem dela. Se houvesse escolha, haveria também negatividade, abriria-se espaço para outras possibilidades, para contingência, para um não escolhido, mas “na Natureza nada existe de contingente; antes tudo é determinado pela necessidade da natureza divina a existir e a agir de modo certo” (Proposição XXIX, parte I).
Falar em necessidade não implica, portanto, falar em fatalismo, pelo contrário. Para pensar em fatalismo é preciso pensar em contingências, em alternativas e possibilidades, em melhor ou pior, abrindo-se, novamente, espaço para a negatividade, que não existe nesse caso.
Isso não me parece conformismo, de forma alguma, como veio a ser entendido em alguns casos, mas, pelo contrário, uma forma de compreender melhor o que se dá, olhando para as causas e não para os fins, olhando para a natureza e o que ela exige para dar-se completamente, para ser plenamente.
Conhecer as afecções aumenta o poder sobre elas, sofre-se menos, aproxima-se então o conhecimento da natureza, da causa, não de uma suposta causa final, de um efeito tido como tal por ignorância, mas sim da origem, da positividade, da necessidade.
Parece, entretanto, que é simples conhecer a causa e seus efeitos, mas não podemos esquecer que lidamos também com o que ocorre contra nossa vontade, dentro do contingente e do possível: as paixões. Os afetos podem ser ativos e passivos, ou seja, podem vir de nossa natureza ou não. Um afeto passivo pode trazer alegria, mas não é uma alegria que torna o indivíduo livre, posto que é contingente, não há controle ativo sobre ela. Pode ser uma paixão alegre, sim, mas poderia também não ser.
Conhecer causa e efeito, transformar paixão em ação, contingente em necessário, enfim, ser ativo. Essa atividade é o estado que capacita à autodeterminação, de forma que aí reside a liberdade. Agindo dessa forma, pela necessidade de nossa natureza, estaremos nos aperfeiçoando, passando “de uma menor a uma maior perfeição” e, dessa forma, elevando nossa alegria, que está nessa passagem, nesse aperfeiçoamento.
Se é de nossa natureza buscarmos a felicidade e agirmos em função de tal objetivo, como podemos resolver o problema das diferenças entre indivíduos, haja visto que o que é felicidade para mim pode não ser para outro? A natureza deve ser pensada individualmente, de forma que ao conhecermos cada um nossa parte, lidaremos melhor com os demais e seremos felizes? Ou há uma unidade, uma natureza humana, única, que deve ser reconhecida, independente de contingências de nossas paixões enquanto indivíduos?
A idéia de uma natureza humana, de uma necessidade de felicidade única, é perigosa, vale notar, na medida em que abre margem para a criação de sistemas políticos e religiosos – cuja relação foi analisada por Espinosa em seu Tratado Teológico-Político –, dai Espinosa afirmar que os filósofos “em vez de uma ética, escreveram uma sátira”.
Não devemos pensar na Ética, entretanto, como apenas uma descrição dos singulares, posto que tudo é necessário. Não podemos pensar numa descrição pura e simples, onde não há possibilidade de transformação. É necessária uma mudança de foco para compreender onde pisamos: estamos, sim, buscando saber qual é a natureza/essência dos singulares, buscando aperfeiçoamento, não um mero relato. É necessário conhecer a natureza e então dar seqüência a ela, desenvolvê-la: é nesse campo que devemos buscar o cumprimento da ética.
Pensar felicidade e liberdade universais, em bem e mal universais é, portanto, um equívoco. Esses universais têm serventia à moral descritiva, que se contenta em dizer como as coisas são ou não são e como deveriam ser, não à ética que busca o conhecimento da natureza. Nesse sentido, então, podemos compreender o exemplo dado por Espinosa em sua carta 23, ao dizer que “se algum homem percebe que pode viver mais comodamente pendurado na forca que sentado à sua mesa, ele agiria como um insensato ao não se pendurar”.
Se seguirmos por esse caminho, podemos concluir que uma vez que cada indivíduo compreenda sua essência, fazendo de seu conhecimento, de suas ações, a forma de determinar-se, exatamente como propõe o filósofo, não há como cair nessa armadilha, nessa universalização dos singulares, e assim, uma vez compreendida e sendo desenvolvida, autodeterminação em curso, veremos os humanos, individualmente, exercendo sua liberdade, sendo, enfim, agentes e então a alma não terá “outro poder que não seja o de pensar e de formar idéias adequadas” (Proposição IV, parte V, escólio).
Referências bibliográficas:
Espinosa, B., Ética, Relógio d´Água, 1992
sedosos cílios, úmidos de sua boca curva
síbilos de sede caindo em contorno
pernas e seios cedendo às serpentes de Tuat
abre teu olhar que entro em teus lábios deitados
cambaleante desordem e aromas abatidos vivos, temidos
geme tuas palavras de querer
na espera do invadir
seleto deleite, caminho de olivas feito
treze é ultrapassado e a coroa aguarda
na árvore dos troncos de teu corpo
emana luz que cega, cala e desmaia
- transborda
ejacula tua eletricidade
das constelações em trânsito
eu era místico e agora sou além
provado e feito mago
sacerdote de teu tempo vivo, do casamento secreto
deusa hiperbórea, ergue o cálice cheio de teoria abstrata
do pão e do mel, do sacrifício e da eucaristia
do dividir e da união da carne
- da natureza divina
cria, transforma e destrói
meu calvário se rompe sobre sua taça
e preenche de sal e semente
- me recebe em sangue e ardor
19/11/2008
Nesta enseada de vísceras dispersas, branco intenso de gotas transparentes, cidade que se esconde pálida em tua aparência de veludo, seda e carbono, que cega as milhares de perfeitas constelações gregas, erguidas há milênios como símbolos de inspiração abissal, olho para a bússola de meus horizontes cândidos onde me encontro arfante amarrado.
Vem, abre o manto d’água que respinga junto a mim, queimando em folhas minha pele e minhas escamas. Vem, abre o mar e me aguarda, indica a espuma de onde surgiste em cada onda, aponta os céus e respira, tirando vida do barro que me cobre. Vem, queima com a sutileza de tua voz as amarras que me cortam quando me apontas o mundo sorrindo e soletra perversa a luz que me afoga.
Cria vida nessa escuridão que alastra em mim, cria vida nesse alarde que faço no vazio que preenches com teu sermão vermelho. Faz de mim o arco que tensiona ao puxar minha alma alaranjada, refletindo palidamente tua cor de chamas, que chama meu falo erguido à divindade, cravo profundo nas aparas vivas, dívida para com a natureza.
Ergo me sempre para jamais questionar se as cores, cortes e cheiros que chegam junto a meus sentidos, buscando a essência da hipnose, são passageiras ou se são guias, se se deixam levar ou se levam como um oceano de sal que jorra de mim, varrendo a terra passiva, que se umedece e abre com o calor da afeição e dos ardis da semente.
Abro meus braços cicatrizados deixando que teu norte me guie, encontro destino em todos os cardeais, magnetismo absoluto que me desvirtua, corrompe e perde quando moves meu ponteiro, que te adentra como grão e prisma de cores estapafúrdias, selecionadas uma a uma, sem me incomodar se é o caminho da mão esquerda perante o qual meus joelhos dobram se busco minhas forças recompostas.
Faz das formas gigantes, absolutas e milimétricas, da pureza assassinada de todo ser, de minha cegueira, faz de tudo que se move e do porvir pura aniquilação!
Quando me perco, sem ver insetos e rastros ondulantes no céu almiscarado, me esqueço. Quando me perco, me encontro navegando questões filosóficas e existenciais: se o entardecer é mais cadenciado nas manhãs de inverno, se o sol aquece formigas solitárias no verão de outros continentes, se o frio dos pólos tornaria minha pele sólida, uma vez amaciada pelos beijos que arrancam minhas formas em camadas.
Exposto unicamente, perduro na essência única da união, extrema unção, do óleo que cobre tua testa, olhos e lábios rubros, dos impronunciáveis nomes, dos números infinitos e suas combinações, do ocultismo e seus segredos.
Duplamente, perduro onde termino e recomeço, onde o reino dos mortos passa por nós, rápido e afobado, sob o signo de escorpião, ao renascer na sentença de vida, na boca aberta de desejo que se fecha, reiniciando a unidade do culto dos astros.
Para Schopenhauer, o mundo, enquanto manifestação da Vontade, não tem sentido, pois é puro querer viver, puro ímpeto, pura ação. Para lhe dar um sentido moral é necessário buscar um sentido onde ele não existe: na arte e na compaixão, esta que, para o filósofo, “sozinha é a base de toda justiça livre e de toda caridade genuína” (SCHOPENHAUER, 2, p. 136). Para ele, somente a compaixão é desinteressada, livre do egoísmo da vontade, do “ímpeto para a existência e o bem-estar” (id., ibid., p.120).
A moral dada a priori em Kant, pelo imperativo categórico, ou seja, uma lei que seguimos e ao mesmo tempo somos autores, é baseada no dever, cuja efetivação relaciona-se à idéia do Soberano Bem. O problema, porém, é que uma moral baseada no dever não é desinteressada, pois há por trás dela uma promessa de punição ou recompensa, que a torna hipotética e, por isso, não poderia ser fundamentada dessa forma: se o imperativo categórico não funciona sempre, não pode ser absoluto e incondicional. A felicidade não é, para Schopenhauer, conseqüência da virtude, e o filósofo afirma ainda que uma ética sem pressupostos metafísicos não pode estar fundamentada sobre o “tu deves”. Schopenhauer critica Kant por afirmar que “uma ação só tem valor moral genuíno quando acontece simplesmente por dever, sem qualquer tendência relacionada com ela” (id., ibid., p. 40). Podemos tirar daí, como faz Schopenhauer, que a moral kantiana é fria, enfadonha, onde se ajuda o próximo por obrigação e nada mais, indiferente a seu sofrimento.
A afirmação de Kant, citada por Schopenhauer, de que “numa filosofia prática não se trata de dar fundamentos daquilo que acontece, mas leis daquilo que deve acontecer, mesmo que nunca aconteça” e de que “existem leis morais puras” (id., ibid., p. 23) tem origem na idéia de dever moral teológica. Para Schopenhauer, as leis morais não podem ser admitidas sem prova: “para que se possa admitir numa ética científica leis para a vontade, tem-se de exercer na ética a probidade e não somente em recomendá-la” (id., ibid., p. 24 e 25). Uma ética a priori, como quer Kant, é formal e, portanto, só nisso consiste, não no conteúdo das ações. Não sendo, então, demonstrável empiricamente, toda estrutura construída sobre ela também não será. Com isso temos que em Kant a moral é prescritiva, enquanto que em Schopenhauer é descritiva, baseada em fatos, empírica.
Para Schopenhauer, a moral deve ser baseada no “que é, no que acontece realmente” (id., ibid., p. 23) e não se dá, como em Kant, a priori. Pelo contrário: só podemos conhecer nossas respostas perante os acontecimentos. A moral está na intenção, quer dizer, nos atos, que se toma sem interesse próprio, egoísta, ou seja, sem a preocupação com o resultado ou com o retorno que ele trará. A compaixão é resultado da experiência, do indivíduo que se reconhece nos outros, quebrando a ilusão do princípio de individuação, e, por isso, refere-se a algo que já se deu, não programado pela razão. Exceto pela compaixão, todas as ações humanas são baseadas no egoísmo, próprio do querer viver, da vontade. Não podemos saber como reagiremos a determinada situação antes que ela se apresente. A moral, baseada em fatos e não em especulação é simples e pode falar até mesmo para o homem mais rude.
Ao dar importância primária à vontade, Schopenhauer afirma que nela deve ser buscado o sentido moral do mundo, enquanto que na ética proposta por Kant temos “sempre, por detrás, o pensamento de que o ser íntimo e eterno do homem consistiria na razão” (id., ibid., p.38). Se o homem tivesse essas leis à priori, como quer Kant, deveríamos supor que ele terá de se conformar com elas e segui-las, pois, caso contrário nada valem. Para Schopenhauer, a “motivação moral tem de ser simplesmente algo que se anuncie por si mesmo, por isso tem de ser positivamente agente e, portanto, real; e como para o homem só o empírico ou o que porventura é empiricamente existente tem realidade pressuposta, a motivação moral tem de ser, de fato, empírica” (id., ibid., p.51).
Em Schopenhauer temos que o comportamento racional não trás, de forma alguma, retidão e caridade, mas, pelo contrário, podemos sim agir racionalmente de forma malévola e egoísta: “racional e vicioso podem unir-se bastante bem, e é só pela sua união que se tornam possíveis os crimes maiores e de ampla repercussão” (id., ibid., p. 61). Uma ética do dever pode me levar a fazer caridade, não pelo dever, mas para experimentar, enquanto o egoísmo, por sua vez, se veste de cordialidade para usarmos pessoas como meios para nossos fins. Isso não quer dizer que somos éticos, mas o contrário. Não podemos esperar que o querer por dever do imperativo categórico se livre de interesse: “peço que se reflita sobre o que isso quer dizer: de fato, nada menos que uma vontade sem motivo, portanto um efeito sem causa” (id., ibid., p.81).
Ao fazer uma análise do que seria a consciência, Schopenhauer nos diz que o imperativo categórico kantiano é algo similar àquela, mas que este age antes, enquanto que aquela fala depois. O fato, porém, é que todos os homens têm, às vezes, pensamentos mesquinhos e maldosos sem que sejam responsáveis por eles, pois eles dizem respeito a atitudes que qualquer ser humano poderia tomar, não necessariamente aquele que os teve. Em muitos casos eles sequer podem se tornar realidade. Só nas ações o indivíduo aprende a se conhecer, pois essas são conhecidas e não pensadas. Nossa responsabilidade moral reside, segundo Schopenhauer, no que fizermos e o que poderíamos ter feito de outra maneira: se podemos reconhecer nossas ações, reconhecermos nossas obras, somos responsáveis por elas, pois trazem nossa marca.
A questão, nesse ponto, é que a responsabilidade sobre nossos atos pressupõe possibilidade que, por sua vez, pressupõe liberdade. O indivíduo tem essência, seu caráter inteligível que é inacessível e só pode ser conhecido pela experiência, por seu caráter empírico. Este é, então, determinado e só realizará as ações que estiverem contidas em seu caráter inteligível. Dessa forma nossa liberdade não está em nossas ações, mas em nossa essência, aquilo que nos determina, que é assim mas poderia ser outro: a responsabilidade está no que se é, não no que se faz: “a ética é, na verdade, a mais fácil de todas as ciências, já que não há nada mais a esperar a não ser que todos tenham a obrigação de se construir a si mesmos, derivando do princípio máximo que se enraíza no seu coração a regra para cada passo que surja, pois poucos têm o lazer e a paciência para aprender uma ética construída e já pronta” (id., ibid., p.164).
Schopenhauer chama nossa atenção para o fato de que, quando uma pessoa toma uma atitude desinteressada, compassiva, em relação a outrem, causa espanto e comoção, devido à raridade com que isso acontece, por não ser próprio do egoísmo com que estamos acostumados. O espanto é causado pois nós, para nós mesmos, somos imediatos, enquanto que os outros se dão para nós apenas mediatamente. A questão que deve ser resolvida é se há ações de justiça espontânea e caridade desinteressada e tal questão, embora empírica, não deve ser resolvida somente na experiência, pois nela vemos a ação, não os impulsos: qualquer interesse tira a moralidade da ação. Para ele, a própria justiça, como virtude genuína, tem origem na compaixão e exemplifica ao afirmar que “quando alguém sente prazer em conservar uma coisa de valor que foi achada, nada o conduzirá (se excluirmos todos os motivos religiosos e de prudência) mais facilmente de volta ao caminho da justiça do que a representação, da aflição e dos lamentos daquele que perdeu” (id., ibid., p. 146).
A moralidade de uma ação está, para Schopenhauer, em sua relação com os outros, podendo ser justa e caridosa ou mesmo o contrário. Ações morais caridosas são as que deixam o indivíduo com uma sensação de contentamento consigo mesmo, que visam apenas o bem estar de outra pessoa, enquanto que seu contrário é causado por uma alegria maligna, um prazer em causar danos ao outro. Se visamos o bem estar do outro, ele se torna o fim último de nossa vontade e passamos a querer seu bem imediatamente, como se fossemos nós próprios, havendo então identificação através de sua representação em nossa cabeça, na medida em que nossa ação anuncia a diferença como suprimida: “esta participação direta e mesmo instintiva no sofrer alheio é a única fonte de tais ações (…), se forem puras de todos os motivos egoístas e, por isso mesmo, se despertarem em nós aquele contentamento íntimo que chamamos de consciência boa, pacificadora e aprovadora” (id., ibid., p. 160). Com isso temos, então, participação imediata no sofrimento do outro, vemos o não-eu tornar-se eu: “isso pressupõe, porém, que eu tenha me identificado com o outro numa certa medida e, conseqüentemente, que a barreira entre o eu e o não-eu tenha sido, por um momento, suprimida” (id., ibid., p. 163).
A dor do outro provoca em nós esse sentimento, “a infelicidade é condição da compaixão” (id., ibid., p.173), enquanto que a felicidade nos deixa indiferentes, não despertando em nós esse sentimento de identificação. Em alguns casos pode mesmo ocorrer o contrário, despertar inveja. Até mesmo nosso sofrer estimula nossa atividade, ao passo que nosso contentamento nos deixa inativos. A compaixão, então, age positivamente, levando a uma ajuda ativa: “quem está cheio dela não causará, seguramente, dano a ninguém, não prejudicará ninguém, mas, antes, sendo indulgente com todos, a todos perdoará e a todos ajudará quando puder, e todas as duas ações terão a marca da justiça e da caridade” (id., ibid., p.171).
Com isso, Schopenhauer pergunta “se a compaixão é a motivação fundamental de toda justiça e caridade genuínas, quer dizer, desinteressadas, por que uma pessoa e não outra é por ela movida?” (id., ibid., p.190). A resposta, encontrada pelo filósofo na filosofia kantiana, está na diferença de caráter, explicada pela diferença citada anteriormente entre caráter empírico e caráter inteligível: “os motivos caritativos (…) não podem nada em relação àquele que só é sensível aos motivos egoístas” (id., ibid., p.197). Para estes a saída seria apenas por uma “miragem”, desviando sua vontade, mas não proporcionando alguma melhora. Para isso seria necessário trabalhar com a razão, tentando oferecer algum esclarecimento, oferecendo “uma compensação mais correta daquilo que se apresenta objetivamente”. Schopenhauer explica que nisto se baseia o sistema penitenciário americano, que não pretende corrigir a essência do indivíduo, mas sua razão, mostrando a ele alternativas: “por meio dos motivos pode-se forçar a legalidade, não a moralidade” (id., ibid., p.198). Já que não podem mudar a vontade alheia, oferecem caminhos alternativos que possam ser seguidos até ela.
Para concluir, creio que uma última citação de Schopenhauer dirá algo sobre a compaixão, identificável na prática mas aparentemente tão difícil de expor à razão: “toda boa ação totalmente pura, toda ajuda verdadeiramente desinteressada, que, como tal, tem por motivo a necessidade de outrem, é, quando pesquisada até o último fundamento, uma ação misteriosa, uma mística prática, contanto que surja por fim do mesmo conhecimento que constitui a essência de toda mística propriamente dita e não possa ser explicável com verdade de nenhuma outra maneira” (id., ibid., p.221).
Referências bibliográficas:
1. Schopenhauer, A, O mundo como vontade e representação, São Paulo, Contraponto, 2001
2. ___________, Sobre o fundamento da moral, São Paulo, Martins Fontes, 2001
Brum, J.T., O pessimismo e suas vontades, Rio de Janeiro, Rocco, 1998
Cacciola, M. L., Schopenhauer e a questão do dogmatismo, São Paulo, Edusp, 1994
____________, O conceito de interesse, Cadernos de Filosofia Alemã, São Paulo, 1999